Resenha da obra Demian

Capa do livro publicado pela Editora Record

Décimo nono livro do Projeto Reeducação do Imaginário que eu leio, e o primeiro que foca de forma mais densa em questões filosóficas, religiosas e a busca do ser humano, independente da fase em que se encontra da vida, pelo autoconhecimento.

SOBRE O AUTOR

Hermann Hesse nasceu em 02 de julho de 1877 na cidade de Wurtemberg, localizada no sudoeste da Alemanha. O autor descende de uma família suábia e de cunho estritamente religioso, tendo em vista seu pai ser um grande historiador religioso e sua mãe filha de um missionário. 

Diante de sua criação, a vida do autor era destinada à carreira eclesiástica, sendo educado em quatro seminários. Já jovem, trabalhou como aprendiz de relojoeiro e, mais tarde, auxiliar de livraria. Desde os 13 anos, o autor já escrevia poesia e o contato com o mundo livreiro lhe proporcionou a possibilidade de publicar em 1899 seu primeiro livro, denominado Cantos Românticos.

Em 1911 realizou a sua primeira viagem à Índia, local de nascimento de sua mãe, à procura do autoconhecimento. Em 1923, adotou a cidadania suíça e lá viveu até o seu falecimento em 1962, aos 85 anos de idade. 

Também foi na Suíça, que o autor veio a escrever O jogo das contas de vidro, livro este considerado por muitos como sua obra prima. Em 1946, o autor recebeu o Nobel de Literatura pelo conjunto de sua obra. 

SOBRE A OBRA

Escrito em 1919, ou seja, logo após a Primeira Guerra Mundial, Demian é considerado o livro que deu um grande destaque ao autor e seus escritos, bem como considerado um dos grandes livros representantes da juventude alemã daquela época.

Sobre a repercussão de Demian, trago um trecho do livro A História da Literatura Ocidental de Otto Maria Carpeaux – volume IV, página 2460:

“O Hesse de Demian é, no fundo, o mesmo adolescente de 1900; apenas, a religiosidade recalcada é agora fervor místico que se refere a Dostoievski. O romantismo converteu-se em anarquismo político de acentos humanitários, a revolta do adolescente perpétuo em profecia apocalíptica de tabula rasa: para que assuma o poder político e espiritual a nova juventude do mundo. A mocidade expressionista recebeu Demian com a mais profunda gratidão, como mensagem de saúde espiritual depois da doença da guerra.”

Demian pode ser vista como uma obra com enfoque psicanalítico da doutrina de Freud, o qual Herman Hesse era um grande estudioso, bem como, a sua abordagem se volta para a figura do protagonista Emil Sinclair em busca de uma visão mais ampla do mundo, através do rompimento com o passado e as tradições ligadas a ele, bem como com a desvinculação da zona de conforto para a busca da própria razão de ser e de existir.

O livro nos apresenta a existência de dois mundos, o denominado mundo luminoso e ideal, no qual o nosso protagonista está inserido desde a infância, até o inevitável aparecimento do denominado mundo sombrio e real, no qual ele passará a adentrar, a fim de encontrar as respostas que tanto anseia sobre si mesmo.

Há um trecho no posfácio escrito pelo tradutor Ivo Barroso que descreve muito bem sobre o que a obra se trata:

E ainda mais que uma história ou romance de educação é o relato de um processo de ‘deseducação’, ou preferindo-se, de ‘reeducação’, de laborioso apagar das pegadas que o puritanismo educacional deixa impressas na alma adolescente: a timidez, a humildade, o alheamento – e que conduzem, mais tarde, inapelavelmente à solidão e à inadaptabilidade, à surda revolta e ao amargo constrangimento.

SOBRE O ENREDO

O livro, narrado em primeira pessoa pelo nosso protagonista já adulto chamado Emil Sinclair, contará a sua história desde a infância até o início da vida adulta, com seu alistamento para a Guerra (me lembrei na hora de Hans Castorp em A Montanha Mágica, que ao final do romance também vai para Guerra).  

Quando criança, Emil foi criado, por seus pais e irmãs, em um ambiente seguro e longe das vicissitudes da vida. Até que se vê em um mundo bem diferente daquele até então conhecido.

Tudo começa a mudar devido a uma mentira para levar vantagem sobre um ato não cometido. Tal mentira é contada por nosso protagonista em um grupo de amigos que retornava da escola para suas casas. Todavia, o que Emil não tinha noção, era que essa mentira poderia o levar a arcar com consequências muito sérias. 

No ápice da tortura psicológica sofrida em razão de sua conduta (aqui, eu confesso que já estava sofrendo com a angústia que este menino estava sentindo), Emil conhece a figura enigmática de Max Demian. Um menino mais velho que nosso narrador, mas apesar da idade, o mesmo possuía uma sabedoria e maturidade muito difícil de encontrar em uma criança qualquer (em alguns casos até mesmo em adultos).

Demian resolve o dilema vivido pelo nosso protagonista (não sabemos como), e a partir daí, nós conseguimos enxergar em Demian um mentor e até mesmo a figura de um protetor para Emil, não só neste episódio, mas em vários momentos de sua vida, principalmente, nos que mais Emil precisa de ajuda para enxergar determinada situação por uma perspectiva diferente. 

Nota-se, portanto, que é profunda a conexão existente entre Emil e Demian, independentemente da distância que os dois terão em vários momentos da vida. Pois quando eles se encontram é como se não houvesse lapso temporal que os tivesse separado ou até mesmo que diminuísse tal conexão. Logo, Demian é a figura que vai ajudar Emil na formação de seu caráter.

Até mesmo durante este distanciamento entre Demian e Emil, nosso protagonista encontra em outra personagem chamada Pistórius (músico/organista na Igreja local), a figura de um mentor, isto é, a pessoa necessária para ajudar Emil em sua jornada e na sua busca por si mesmo através da religião.

Aproveito o ensejo e saliento que, nesta obra, nós encontramos a discussão de questões religiosas bem interessantes, envolvendo o misticismo e o cristianismo, como é o caso do Deus Abraxas, caracterizado como a figura de um pássaro se libertando do ovo.

Tal divindade nos mostra a dualidade existente no mundo, na qual o bem e o mal caminham juntos e até dentro de nós mesmos (tema este abordado de forma diferente em O médico e o monstro, de Stevenson).

Ademais, há a personagem de Eva, mãe de Demian, inicialmente idealizada por Sinclair em desenhos e visões, depois vista pessoalmente.

Obviamente, pararei por aqui para que você, caro leitor, tenha sua própria experiência literária com esta obra surpreendente.

SOBRE MINHA EXPERIÊNCIA DE LEITURA E A INDICAÇÃO AO PROJETO

Inicialmente, não julgue este livro pelo número de páginas nele contido, pois apesar de curto, ele é de um complexidade gritante e totalmente capaz de te tirar da sua zona de conforto.

Ressalto aqui um trecho muito bem elucidado pelo tradutor Ivo Barroso, no qual, é feito o cotejo da vida do autor e o enredo da obra: 

“De posse desses elementos, fácil nos é perceber quanto às figuras de Sinclair, Demian e Pistórius encerram do próprio Hesse, não passando de sínteses ou projeções de suas vivências. Sinclair, mais do que todos, é o êmulo real do autor: a mesma infância, o mesmo ambiente parental, a mesma inadaptabilidade ao mundo cotidiano. Demian será talvez o Hesse ideal, o que gostaria de ter sido, decisivo, homem do destino, marcado pelo sinal de Caim. Também Pistórius é um heterônimo de Hesse, organista na vida real, filho de teólogo, guia de outrem mas incapaz de encontrar o próprio caminho. Tudo indica, ainda, ter servido para o vigoroso retrato de Eva a significativa figura da própria mãe do poeta.”

Acredito que a indicação deste livro ao Projeto Reeducação do Imaginário seja apoiada na reflexão que a obra nos levar a enxergar sobre esse mundo louco em que vivemos e as incontáveis tarefas diárias que temos, as quais nos impedem de olhar para dentro de nós e nos questionar sobre as nossas atitudes e sobre o rumo da nossa própria vida. 

Por fim, indico um vídeo no Youtube do Café Literário sobre Demian através da análise literária e psicanalítica da obra.

Um beijo e até o próximo post!

Fahrenheit 451

Mais um livro do Projeto Reeducação do Imaginário concluído com sucesso e o segundo livro da famosa trilogia distópica que eu leio!

Capa do livro publicado pela Editora Biblioteca Azul

SOBRE A EDIÇÃO

A edição pela qual eu fiz a minha leitura foi lançada em 2020 pela Editora Biblioteca Azul com tradução de Cid Knipel, com textos de apoio de Neil Gaiman, Jonathan R. Eller, Margaret Atwood e François Truffaut, bem como com uma galeria de capas do livro de várias partes do mundo.

Caso você queira um exemplar da obra para chamar de seu, eu aconselho a compra desta edição em tela, pois o trabalho desenvolvido pela Editora foi primoroso e vale a pena ter na estante.

SOBRE A OBRA E SOBRE O AUTOR 

Em meados de 1944, Ray Douglas Bradbury leu O zero e o infinito, de Arthur Koestler, sendo a leitura deste livro o ponto de partida de sua carreira, mas demoraria nove anos para que nós, leitores, soubessemos sobre a temperatura em que o papel pega fogo.

A obra em tela foi concebida a partir de cinco contos (A fogueira, Fênix Brilhante, Os Exilados, Usher II e O Pedestre ), escritos ao longo de dois a três anos. Foi através destes escritos que o autor investiu $9.50 para alugar uma máquina de escrever numa sala subterrânea de datilografia da UCLA. 

Em 1950, o livro ganhou forma em apenas nove dias, ganhando o nome inicialmente de O Bombeiro. Para ilustrar esta experiência de escrita, segue abaixo a citação do próprio  autor sobre a obra:

“Não escrevi Fahrenheit 451 – o livro me escreveu. Existia um ciclo de energia saindo da página, entrando pelos meus olhos, percorrendo o meu sistema nervoso e saindo pelas minhas mãos. A máquina de escrever e eu éramos gêmeos siameses, conectados pelas pontas dos dedos.”

Com a versão revisada, o agente literário do autor, Don Congdon começou a apresentar a novela para as editoras. As grandes editoras da época, não se interessaram pelo escrito, até que a revista recém-inaugurada Galaxy Science Fiction expressou seu interesse na obra e a revista Playboy publicou O Bombeiro nas edições dois, três e quatro. Somente em 1953, o autor fechou um contrato para a publicação da obra em formato de livro com a Editora Ballantine Books.

O livro teve como seu primeiro título conhecido por Fahrenheit 270, seguido de Fahrenheit 204 e Fahrenheit 205. No dia 22 de janeiro, depois de uma sequência infrutífera de ligações telefônicas de Bradbury para departamentos de física e química de várias Universidades, uma única ligação para o Corpo de Bombeiros de Los Angeles revelou que o ponto de combustão do papel acontece aos 451 graus Fahrenheit, sendo este o nome que prevaleceu para o livro.

A obra Fahrenheit 451 não se tornou campeã de vendas, mas as críticas foram bem favoráveis. Todavia, em 1960 a obra foi silenciosamente modificada, a fim de que o livro tivesse a aprovação de comitês escolares como leitura de sala de aula. Uma edição especial pelo selo Bal-Hi, impressa pela primeira vez em 1967, manteve a composição tipográfica da primeira edição, mas o texto foi alterado em quase cem pontos para remover profanidades e referências à sexualidade, bebidas, uso de drogas e nudez. 

Essa versão não foi feita com a intenção de substituir as edições de brochura vendidas nas livrarias, mas, no começo de 1973, o texto censurado foi transferido acidentalmente para impressões sucessivas do livro comercializado. Assim, alguns estudantes notaram a diferença entre o texto lido na escola e os exemplares mais antigos e comunicaram Ray Bradbury sobre o fato. Logo, desde 1979, uma nova composição tipográfica do texto foi restaurada e somente desta que o livro foi impresso.

Por fim, a obra foi adaptada para o cinema em 1966 por François Truffaut (há um texto de apoio do cineasta na edição em comento), versão encontrada com facilidade no Youtube. Em 2018, ganhou uma nova versão disponível pela HBO Max ( da qual eu não gostei tanto assim).

SOBRE O ENREDO

Na obra, acompanhamos nosso protagonista Guy Montag, um bombeiro que não combate incêndios, como estamos acostumados a ver em “nosso mundo”. Na verdade, ele incita o fogo através da queima dos livros tidos como proibidos pela sociedade, na qual ele se encontra inserido. É desta atividade de bombeiro, que advém o nome da obra, ou seja, Fahrenheit 451 é a temperatura da queima do papel (233°C).

Mas quais livros eles queimam? Todos eles, principalmente os clássicos que são citados durante a narrativa, principalmente entre as personagens Montag e o Capitão Beatty:

“Os negros não gostam de Little Black Sambo, Queime-o. Os brancos não se sentem bem em relação à Cabana do pai Tomás. Queime-o. Alguém escreveu um livro sobre o fumo e o câncer de pulmão? As pessoas que fumam lamentam? Queimemos o livro. Serenidade, Montag. Paz, Montag. Leve sua briga lá para fora. Melhor ainda para o incinerador. Os enterros são tristes e pagãos? Elimine-os também. Cinco minutos depois que uma pessoa morreu, ela está a caminho do Grande Crematório, os incineradores atendidos por helicópteros em todo o país. Dez minutos depois da morte, um homem é um grão de poeira negra. Não vamos ficar arengando os in memoriam para os indivíduos. Esqueça-os. Queime tudo, queime tudo. O fogo é luminoso e o fogo é limpo.”

Todavia, Montag tem seus pensamentos transformados ao conhecer sua vizinha Clarisse McClellan, uma adolescente totalmente diferente (e quando eu digo totalmente é totalmente mesmo), de sua esposa Mildred. 

A garota é extrovertida, falante e questionadora, Montag acha a menina louca inicialmente, mais instigante a ponto de fazê-lo questionar sobre a sua própria vida, como por exemplo, a sua felicidade conjugal, seu trabalho e, principalmente, sobre o seu próprio senso crítico.

Cumpre frisar, que há uma guerra acontecendo ao redor de tal sociedade, mas as pessoas simplesmente ignoram tudo o que está ao seu redor. Aqui o ignorar é no sentido de não se importarem com o que está acontecendo (totalmente alienados). Como se tal informação não passa na TV, então ela não é importante.

Com este despertar, Montag se depara com uma profissão que, até então era a coisa mais certa da sua vida, mas que agora é vista sem mérito algum; depara-se também em um casamento distante e vazio, ao ponto de não se lembrar como eles se conheceram ou se realmente se amaram algum dia.

E aqui, eu comento de outra característica despertada em Montag, a curiosidade em descobrir o motivo pelo qual os livros são queimados. É neste momento que nosso protagonista questiona o conteúdo dos livros por ele incinerados.

Como esta mudança de pensamento, Montag se torna uma ameaça a própria Corporação, sendo por ela caçado como fugitivo e criminoso. E aqui, eu encerro este tópico da minha resenha, para que você mesmo tenha a sua experiência literária.

SOBRE A INDICAÇÃO DO LIVRO AO PROJETO E MINHA EXPERIÊNCIA DE LEITURA

Mais um livro clássico e atemporal lido neste projeto. A forma com que a ficção se assemelha a nossa realidade é gritante e assustadora ao mesmo tempo, no sentido de que somos uma sociedade que pouco lê e cada vez menos nos interessamos pelo conhecimento da literatura.

Vemos que a televisão e redes sociais estão cada vez mais engolindo o interesse pelo conhecimento, o que podemos verificar pela quantidade de reality shows tanto na TV aberta quanto em serviços de streaming. 

Até mesmo, a “necessidade de consumo” de um determinado produto ou marca divulgado por artistas ou até influenciadores digitais, como se tal coisa fosse a causa determinante de nossa felicidade. Nota-se, portanto, que a televisão, redes sociais, bem como as pessoas podem ser vistas como caixas de fósforo prontas para incendiar o nosso conhecimento. 

Mas você está mandando eu parar de ver TV ou de ter rede social? 

Primeiro, ninguém é obrigado a fazer ou a deixar de fazer, senão em virtude da lei. Em segundo, eu não condeno nenhum meio de comunicação, mas sim a falta de senso crítico, como uma forma de alienação, que a nossa sociedade como um todo vem deixando de lado com o passar do tempo.

Trago a baila um trecho do texto de apoio contido nesta edição, escrito pelo autor Neil Gaiman, o qual ilustra perfeitamente, o significado dos livros, bem como da educação do nosso imaginário:

“A ficção nos dá empatia: ela nos coloca na mente de outras pessoas, nos dá a capacidade de ver o mundo através de seus olhos. A ficção é uma mentira que nos diz verdades repetidas vezes.”

Por fim, se eu pudesse dar um conselho para sua vida, meu caro leitor, seria continuar lendo, continuar aprendendo e sendo curioso, pois tais hábitos nunca poderão ser tirados de você e sempre servirão para moldar a sua opinião e senso crítico do mundo ao seu redor.

Um beijo e até o próximo post!!

Resenha: Grandes Esperanças de Charles Dickens

Décimo primeiro livro da lista do Projeto Reeducação do Imaginário, o qual conquistou de imediato meu coração com sua narrativa real e fiel aos pensamentos do nosso protagonista, e eu espero que venha conquistar um lugar também em seu coração, como vou mostrar a seguir.

SOBRE O AUTOR

Charles John Huffman Dickens nasceu em Portsmouth em sete de fevereiro de 1812, sendo o mais velho de oito filhos. O autor teve seus estudos interrompidos (1824), devido às dívidas contraídas por seu pai, o qual foi preso devido a estas pendências. Logo, o ainda menino Charles, teve que arranjar um emprego para ajudar nas despesas domésticas, sendo seu primeiro trabalho em uma fábrica de graxa para sapatos, colando rótulos nos vidros.

Dickens retomou seus estudos em 1825 – 1827 e neste ano, conseguiu um emprego em um escritório de advocacia (o que me lembrou muito do Sr. Jaggers e de seu empregado Wemmick, personagens da obra em tela). 

Já em 1831, o autor inicia seu trabalho como repórter parlamentar e conhece seu primeiro amor, Maria Beadnell. O que aconteceu para os dois não ficarem juntos, eu não sei, mas em 1836, Dickens se casa com Catherine Hogarth, com a qual tem dez filhos. O episódio da separação de Charles de seu grande amor, Maria Beadnell, é visto por muitos estudiosos de sua obra, presente em algumas de suas narrativas, sendo ela em Grandes Esperanças, na figura de Pip e Estella, bem como em um Conto de Natal.

Em nove de junho de 1870, Charles Dickens vem a falecer, após um derrame, aos cinquenta e oito anos de idade. Seu corpo está enterrado na Abadia de Westminster, ao lado de outros grandes nomes da literatura inglesa.

SOBRE A OBRA

Fiz a leitura de Grandes Esperanças através do livro publicado pela Penguim Companhia, considerado por muitos como uma das melhores traduções da obra para o português (feita por Paulo Henriques Britto, nesta edição)

Ademais, o livro conta com introdução e notas dos professores da University College London, David Trotter e Charlotte Mitchell, respectivamente. Ressalto que os textos de apoio ajudam e muito a compreender o contexto histórico e cultural, no qual a obra está inserida, bem como levantam questões pertinentes acerca da visão das personagens centrais do romance em tela.

Deixo como complemento a experiência literária de Grandes Esperanças, o vídeo da Univesp do Professor Daniel Puglia sobre a obra. 

Por fim, ainda no Youtube, nós encontramos com facilidade a versão cinematográfica de Grandes Esperanças de 1946.

SOBRE O ENREDO

A obra é dividida em três volumes: sendo o primeiro sobre a infância, o segundo da juventude e o último sobre a fase adulta da vida de nosso protagonista e narrador Philip Pirrip, mais conhecido por Pip.

No primeiro volume, nós conhecemos a real condição de Pip, ou seja, a de um menino de origem humilde, órfão, e por isso vem a ser criado “com a mão” pela irmã, denominada somente como Sra. Joe e por seu cunhado (e grande amigo), o ferreiro Joe, cuja morada da família está localizada em uma região rural da Inglaterra, denominada no romance como charcos.

A realidade conhecida por Pip era de que o mesmo era considerado um estorvo para a irmã, sendo ele considerado pela Sra. Joe o culpado pela vida que ela leva, bem como considerado um fracassado desde pequeno. Em contrapartida, o cunhado de Pip, o ferreiro Joe, pode ser visto como uma figura paterna para o menino.

Ainda sobre a realidade de Pip, esta rotina é mudada de cabeça para baixo, quando em uma visita ao túmulo dos pais no cemitério local, o menino é abordado por um homem foragido. Pip assustado e temendo pela própria vida, tem que obedecer ao que o forçado pede, sendo uma lima para conseguir se livrar dos grilhões, aos quais está preso, bem como comida, tendo em vista que o homem estava sem comer a dias.

Pip, temendo por sua vida – parte II, consegue reunir tudo o que o homem pediu, inclusive o pastel assado pela irmã para o Natal e os  entrega ao forçado, que no momento consegue reconhecer a bondade existente no menino e muda, um pouco, seu modo ser com Pip.

Conforme a narrativa do primeiro volume evolui, nós acompanhamos o aprendizado do menino a ler e escrever, onde conhecemos Biddy, uma jovem muito perspicaz que o ensina nesta tarefa e mais tarde se torna professora na região. Conhecemos também, os lugares deste vilarejo, como o Javali Azul e a figura do Sr. Pumblechook, o senhor, dono de uma mercearia que adora meter o bedelho na vida dos outros e principalmente na de Pip.

É através da figura do Sr. Pumblechook, que Pip vem a ser chamado para brincar na Casa Satis, um casarão (ou mausoléu), cuja propriedade pertence à Sra. Havisham, uma mulher um tanto excêntrica, que possui uma filha adotiva chamada Estella.

Nesta ocasião, Pip tem outro momento de conhecimento de sua própria realidade. Estella, o humilha já no primeiro dia de convívio, o diminuindo por causa de suas roupas e seu modo de ser. Enquanto, Pip com vergonha do que é, acaba aos poucos se apaixonando pela menina.

Sobre a Casa Satis, a propriedade que outrora deveria ter sido muito próspera, no momento da narrativa, nós somos apresentados a um local que parou no tempo e um momento muito específico do tempo, qual seja, o dia do quase casamento da Sra. Havisham.

A mulher foi largada no altar e desde então não tira seu vestido de noiva do corpo e mantém da mesma forma o salão, onde aconteceria a recepção de suas bodas, com o bolo de casamento podre e comido por ratos, bem como a decoração do ambiente e até mesmo os relógios do local marcam a mesma hora (08h40), como se o tempo naquele lugar não pudesse avançar.

Por ter sido maltratada pelo homem que ela amou, a Sra. Havisham, cria Estella para ser uma lady, cuja tarefa é a de aprender a se vingar  e menosprezar os homens ao seu redor. Com a evolução da narrativa, nós vemos que Estella, aprendeu direitinho tais ensinamentos e no lugar do coração, havia um vazio irreparável.

Ao final do primeiro volume, nós tomamos conhecimento de que Pip, vem a receber uma herança robusta, a fim de que o mesmo venha a se tornar um cavalheiro em Londres. A notícia sobre tal renda é dada por um advogado, sendo este o Sr. Jaggers que será o responsável pela herança de Pip, até o menino completar vinte e um anos.

Todavia, em nenhum momento, a identidade de seu benfeitor ou benfeitora é divulgada ao jovem, o que o faz acreditar que esta pessoa venha a ser a Sra. Havisham, tendo como motivo a preparação do jovem em meio a sociedade londrina, para que ao se tornar um cavalheiro, venha desposar Estella

No segundo volume, Pip é um jovem que está aprendendo a se tornar um cavalheiro, todavia, ao se ver com uma quantia considerável de dinheiro, não consegue gastá-lo de forma sábia. Logo, nós acompanhamos os erros e equívocos do jovem para com a sua fortuna e seu egoísmo ao tentar a todo custo renegar o seu passado.

 Aqui cito a passagem do ferreiro Joe em Londres, o qual gostaria de se encontrar com Pip e o jovem nos relata que seu pensamento era de que se houvesse uma quantia a ser dada a Joe, ele a daria, somente para não ter que vê-lo pessoalmente. Concluímos, assim que o dinheiro herdado não transformou Pip em um cavalheiro, mas sim, em um jovem egoísta, calculista e ingrato com quem tanto o amava.

Já no final deste volume, nós tomamos o conhecimento de quem vem a ser o benfeitor do jovem e como brilhantemente, o autor consegue quebrar a cara do nosso protagonista com tal revelação. 

E aqui, eu paro com a minha narrativa, pois eu espero que você queira muito descobrir, com a leitura do terceiro volume, de quem vem a ser, de fato, o benfeitor de Pip, o que ele vem a fazer com tal informação, a ascensão e queda social do jovem em Londres, e a sua jornada não para se tornar um cavalheiro, mas sim,  a dura jornada para se tornar um homem íntegro.

INDICAÇÃO DA OBRA AO PROJETO REEDUCAÇÃO DO IMAGINÁRIO

Até o momento, foi o melhor livro do projeto que eu li, pois a forma que o autor conseguiu mostrar, através da narrativa em primeira pessoa, o sentimento de resignação ao passado do protagonista, sua culpa, seu arrependimento e o caminho da redenção de forma tão real que Pip e as demais personagens ocuparão um lugar precioso na minha estante e no meu coração.

Espero que nós, como leitores, tenhamos sempre em mente que a vida não é composta de condição social e aquisição de bens, mas que ela compreende algo valioso, sendo estes, a amizade, a solidariedade, a humildade e a nossa busca por uma versão melhor de nós mesmos.

Espero muito que você dê uma chance ao autor e se surpreenda e se emocione com o desfecho das grandes esperanças de Pip!

Um beijo e até o próximo post!

Resenha de Hamlet de William Shakespeare

Há algo de podre no reino da Dinamarca… é com esta célebre frase, que adentramos na história de Hamlet, escrita por William Shakespeare em 1601. Nesta época o autor contava com 36 anos de idade e treze anos de carreira. 

É a peça mais longa escrita pelo dramaturgo, com precisamente 3.880 linhas dispostas em 05 atos, o que dificulta a sua interpretação teatral na íntegra, mas não impede, nós leitores, de contemplarmos este grande clássico!

O início da peça se passa no turno da noite no Castelo de Elsinore, sendo esta a morada dos Reis da Dinamarca. O castelo está sendo protegido, pois em vida, o Rei Hamlet matou o Rei da Noruega, sendo este Fórtimbras. Logo, para vingar a morte do Rei, seu filho, que também se chama Fórtimbras, busca vingança através da invasão da Dinamarca. 

Feita a observação acima, voltamos ao início da peça. Os sentinelas tentam convencer Horácio, amigo do Príncipe Hamlet, que eles têm visto o fantasma do rei morto. De início, Horácio não acredita em uma palavra desse papo de fantasma. Mas, o rapaz mudou completamente de opinião, ao ver ele mesmo o fantasma do Rei Hamlet, de armadura e tudo, olhando para eles.

Depois do encontro acima narrado, Horário informa ao Hamlet sobre o ocorrido e com quem a aparição se parecia, fazendo com que o Príncipe fosse vê-lo com seus próprios olhos. À noite, o Fantasma apareceu novamente e quis falar com Hamlet em particular. O rapaz, impressionado com tal situação, seguiu o fantasma, o qual revelou que Cláudio (tio do Príncipe Hamlet e irmão do Rei Hamlet) o matou com um frasco de veneno despejado em seu ouvido durante uma sesta no jardim do castelo.

Diante deste falecimento precoce e da traição imperdoável, o Fantasma exige que Hamlet vingue sua morte. Logo, o Príncipe assume o compromisso de vingança e traça como plano fingir-se de louco para apurar os fatos relatados pelo fantasma e pensar (que é o que Hamlet mais faz), na estratégia de vingança.

Todavia, ao fazer-se de louco, as pessoas ao seu redor começaram a estranhar o seu comportamento, muitos achavam que era pelo luto profundo pela morte do pai, outros pelo casamento express de seu Tio Cláudio com sua mãe Gertrudes (a rainha viúva do Rei Hamlet que se casou com o cunhado) e até mesmo que Hamlet sofria de amor por Ofélia.

Sobre Ofélia, a qual Hamlet amava, era filha de Polônio, conselheiro-chefe de Cláudio e irmã de  Laertes, o qual está partindo para a França, a fim de retornar aos estudos na Universidade de Paris. 

Nem seu pai e nem seu irmão acreditam que Hamlet nutra sentimentos pela moça, fazendo o alerta a Ofélia para esquecê-lo o quanto antes. Aqui trago um trecho da peça que narra o conselho de Laertes: 

“Quanto a Hamlet, e às suas gentilezas,

Deves tomá-las por brinquedo ou farsa;

Uma flor da primeira juventude,

Ardente, não fiel; doce e não firme,

O perfume e a brandura de um minuto,

Não mais.” 

Inicialmente, Ofélia não estava disposta a esquecer Hamlet, pois ela sabia de seus sentimentos por ele e que a recíproca era verdadeira. Mas a moça ficou preocupada com o comportamento atual do Príncipe, o qual insiste com a amada para que ingresse em um convento, pois ele não nutre sentimentos por ela. 

É durante este encontro entre Hamlet e Ofélia que nós temos o mais famoso dos solilóquios da literatura:

Ser ou não ser, essa é que é a questão:

Será mais nobre suportar na mente

As flechadas da trágica fortuna,

Ou tomar armas contra um mar de escolhos

E, enfrentando-os, vencer? Morrer – dormir,

Nada mais; e dizer que pelo sono

Findam-se as dores, como os mil abalos

Inerentes à carne – é a conclusão

Que devemos buscar. Morrer – dormir;

Dormir, talvez sonhar – eis o problema:

Pois os sonhos que vierem nesse sono

De morte, uma vez livres destes invólucro

Mortal, fazem cismar. Esse é o motivo

Que prolonga a desdita desta vida.

Quem suportara os golpes do destino,

Os erros do opressor, o escárnio alheio,

A ingratidão no amor, a lei tardia,

O orgulho dos que mandam, o desprezo

Que a paciência atura dos indignos,

Quando podia procurar repouso

Na ponta de um punhal? Quem carregara

Suando o fardo da pesada vida

Se o medo do que vem depois da morte

O país ignorado de onde nunca

Ninguém voltou – não nos turbasse a mente

E nos fizesse arcar co’o mal que temos

Em vez de voar para esse, que ignoramos?

Assim nossa consciência se acovarda,

E o instinto que inspira as decisões

Desmaia no indeciso pensamento,

E as empresas supremas e oportunas

Desviam-se do fio da corrente

E não são mais ação. Silêncio agora!

A bela Ofélia! Ninfa, em tuas preces

Recorda os meus pecados.”

Ainda buscando indícios da autoria do crime contra seu pai, Hamlet pede à companhia de teatro itinerante que está na região para encenar uma peça, cuja narrativa seria a morte de um rei, cujo falecimento foi causado por um parente próximo. A ideia de Hamlet era que, caso Cláudio ficasse indiferente à apresentação teatral, o fantasma estaria mentindo, mas se ele viesse a se incomodar com a representação, ele saberia que seu tio era culpado.

Quando o homicídio é encenado, Cláudio fica pistola e diz “Parem a peça!”, ato que Hamlet interpreta como prova de sua culpabilidade. 

Obviamente, Gertrudes não gostou nada da apresentação teatral, bem como não gostou nada de como seu marido, o rei, ficou abalado com a encenação. Logo, ela resolveu chamar Hamlet para uma conversinha particular, aquela de mãe para filho. 

Claro, que Gertrudes é orientada por Polônio sobre o rumo que tal conversa tem que tomar e o mesmo ficará no mesmo recinto que eles (atrás das cortinas), a fim de espiar o rumo do diálogo.

Durante seu deslocamento aos aposentos de sua mãe, Hamlet vê Cláudio rezando, distraído. Nesta cena, eu e o mundo achamos que seria a oportunidade perfeita para Hamlet concretizar a sua vingança e matar o seu tio. 

Contudo, o que Hamlet fez??? Ele pensou e muito, pois caso ele matasse Cláudio agora, no momento de seu diálogo com o Divino, seu tio iria diretamente para Paraíso, caso viesse a falecer. Diante disto, Hamlet não matou Claudio, tendo em vista que seu pai não teve a oportunidade de se confessar e ir para o céu (lembrando que o espírito está vagueando por aí, lutando para vingar a sua morte).

Em virtude deste pensamento, Hamlet seguiu seu percurso ao quarto de sua mãe. A conversa entre os dois não foi nada agradável, já que Hamlet jogou umas verdades na cara de Gertrudes, principalmente, com relação ao seu casamento apressado com seu Tio Claudio, o que ele considerava um incesto. 

Hamlet percebe um movimento atrás das cortinas e achando que seria Claudio de tocaia, pega a sua espada e dá um golpe acertando o seu suposto rival. Mas, quem acaba morto é Polônio. Nesta cena, o Fantasma do Rei Hamlet aparece para o príncipe e continua a pedir vingança por sua morte.

Claudio, o usurpador, vendo que Hamlet matou Polônio e temendo por sua própria cabeça,  manda o Príncipe à Inglaterra, acompanhado e vigiado por Rosencrantz e Guildenstern (amigos da onça, diga-se de passagem, de Hamlet), com o pretexto de acalmar os ânimos do jovem. 

Contudo, o Rei Cláudio tem um plano por trás de tal conduta, qual seja, ele manda uma carta, através de um portador, para que o Príncipe seja morto durante a viagem. 

Voltando à pobre Ofélia, depois da morte do pai, a moça endoidou de vez, cantando músicas sem nexo pela corte, não falando coisa com coisa, quando indagada. Seu irmão, Laertes, retorna da França em busca de vingança pela morte de seu pai e mais enfurecido ainda o rapaz fica ao ver o estado mental de sua irmã. 

O Rei Claudio vendo que Laertes quer a morte de alguém, informa o rapaz que Hamlet é o único responsável pelo falecimento de Polônio, pela loucura e posterior suicídio de sua irmã (ela se afogou no rio perto do Castelo). 

Na cena seguinte, nós descobrimos que Hamlet está vivo e de volta à Dinamarca. Mas como ele se livrou da encomenda de sua morte???? Bom, o barco em que Hamlet estava foi atacado por piratas a caminho da Inglaterra e a correspondência encaminhada pelo Rei Claúdio que ordenava o assassinato do príncipe foi por ele interceptada. Com o extravio da carta, Hamlet mandou matar Rosencrantz e Guildenstern em seu lugar.

Claudio, vendo que seu plano inicial para a morte de Hamlet não deu certo, continuou instigando Laertes a duelar com Hamlet para honrar a morte de seu pai e irmã. Logo, o rei usurpador entrega ao rapaz veneno para passar na lâmina de sua espada, que será usada no duelo contra o príncipe. 

Contudo, o Rei Cláudio conta com um “Plano B”, no qual, caso Hamlet não morra no duelo, lhe será servido um cálice de vinho com veneno, para enfim, garantir a morte do jovem.

Na cena seguinte,  acompanhamos o diálogo entre dois coveiros, sobre se seria correto enterrar no solo sagrado uma pessoa que acabou de tirar a própria vida. Nesta ocasião, Hamlet e Horário se aproximam de um dos coveiros e ao lado de uma sepultura que está sendo preparada, Hamlet encontra um crânio, o qual o príncipe segura em suas mãos e olha o objeto fascinado.

O coveiro informa que aquele crânio é de Yurick, um bobo da corte do Rei Hamlet, o qual o jovem Hamlet conheceu na sua infância. Quando o cortejo fúnebre aparece liderado por Laertes, o príncipe descobre que aquela sepultura, a qual está sendo preparada, é para Ofélia.

Hamlet tenta conversar com Laertes, mas é no cemitério mesmo e durante o funeral de Ofélia, que o duelo começa. O rei, já deixou tudo pronto para a execução do plano B, ou seja, deixou a taça envenenada para Hamlet. Claudio a oferece ao Príncipe que se recusou a tomá-la naquele momento. Todavia, o que Claudio não contava era que quem viria a tomar daquele cálice… fosse Gertrudes, a qual, toma a bebida e começa a passar mal. 

Hamlet é atingido por Laertes e revida a investida. No meio da briga, as espadas são trocadas. Com isso, Laertes é atingido também pela espada envenenada. A Rainha Gertrudes fala a todos os presentes que foi envenenada e que está morrendo. Laertes, vê que foi usado pelo Rei Cláudio e confessa a Hamlet que o rei é o culpado de toda aquela tragédia..

Diante da morte de sua mãe e de Laertes, Hamlet fere o rei com a espada envenenada e obriga Cláudio a beber a taça com veneno à força, causando a morte de seu tio. Assim, Hamlet, vingou a morte de seu pai. 

Antes de morrer, Hamlet e Laertes se perdoam. Ao ver Hamlet também morrendo, Horário (o amigo fiel de Hamlet), também deseja se matar, mas o príncipe o impede e lhe pede para que viva e conte a sua história:

“Eu morro, Horácio!

O violento veneno me domina

O espírito. Eu não vivo até que cheguem

Notícias da Inglaterra. Mas auguro

Que a eleição será de Fortimbrás.

Dou-lhe o meu voto, embora na agonia.

Diz-lhe o que se passou e as ocorrências

Que me envolveram. O resto é silêncio.”

Por fim, após a morte geral, o exército de Fórtimbras chega a Elsinore, logo, ao lhe ser contada a história de Hamlet, o Príncipe norueguês convoca uma audiência com a nobreza presente e o mesmo assume o Reino da Dinamarca.

Anedotas da edição do box da editora Nova Fronteira e do livro Shakespeare – The Invention of the human 

A edição do box da Nova Fronteira, conta com algumas observações muito pertinentes sobre a peça feitas por Barbara Heliodora, uma das tradutoras das obras de Shakespeare mais importantes do Brasil. Também foi utilizado como leitura complementar o livro escrito pelo crítico literário Harold Bloom.

Para saber mais sobre as edições acima citadas, recomendo a leitura da minha resenha sobre Macbeth, pois nela há mais detalhes sobre tais livros.

Abaixo, as observações pertinentes das edições acima citadas:

Há um Hamlet anterior à obra de Shakespeare, mas nós não temos este trabalho, me quem o compôs. Por não termos como comprovar a existência ou não desta obra, muitos acreditam que ela não se passa de uma suposição.

Na verdade, muitos estudiosos acreditam que a obra predecessora à Hamlet de Shakespeare tenha sido de autoria de Thomas Kyd, autor de “A Tragédia Espanhola”, nesta peça, a vingança é altamente representativa, pois a sanguinolência, a loucura, seja ela real ou fingida, bem como a vingança eram as mais populares formas dramáticas daquele período.

A diferença entre ambas as peças é a profundidade existente em Hamlet. Shakespeare ao esboçar a tragédia deu ao seu protagonista uma tarefa de vingança a executar e em torno dela criou toda uma avaliação da vida humana que chega às suas últimas consequências na famosa dúvida: “ser ou não ser”. 

Harold Bloom, assim como o estudioso Peter Alexander acreditam que o próprio Shakespeare tenha escrito Ur-Hamlet, não antes de 1589, quando o autor iniciava na dramaturgia. Todavia, a posição majoritária é de que a forma final da história de Hamlet seja de Shakespeare, mas não a sua ideia original, como veremos no próximo tópico.

Na crônica nórdica (Edda) e no conto francês de Belleforest, o Príncipe Amleth, desde de o início está correndo perigo por parte de seu tio assassino, logo, astuciosamente fingiu idiotice e loucura como forma de preservar a sua vida. Talvez em Hamlet, Shakespeare tenha seguido o paradigma anteriormente narrado, mas pouco resta dele na peça.

Nota-se que Shakespeare não teve qualquer preocupação com a originalidade de seu material. O importante em sua obra é o que resulta de alguma história mais do que conhecida anteriormente à qual seu tino imprimiu vida nova por sua capacidade de, mudando o ponto de vista, tirar do antigo material sentidos novos, dar-lhe maior alcance e intensidade ao conteúdo por meio de novas formas.

As tragédias anteriormente escritas pelo autor prenunciavam isso e as obras posteriores, embora ecoem, são muito diferentes de Hamlet, tanto em espírito quanto em tonalidade. Nenhuma outra personagem nas peças, como Falstaff (personagem presente na Henríada) ou Cleópatra correspondem às infinitas reverberações de Hamlet.

Há um questionamento bem interessante levantado pelo autor incitando o nosso raciocínio no sentido de que há a possibilidade  de imaginarmos Hamlet (personagem) em outra peça de Shakespeare? Os grandes vilões como Iago de Otelo, Edmund de Rei Lear e Macbeth – seriam destruídos, segundo o autor, pela zombaria de Hamlet. Nenhuma personagem das peças escritas posteriormente pelo Bardo poderiam estar no mesmo patamar de Hamlet, tendo em vista que outras personagens shakespearianas podem até sustentar o ceticismo, mas não a aliança entre o ceticismo e o carisma (durante a leitura da peça é nítido que o povo e a corte gostam de Hamlet, tanto o é, que Cláudio via o Príncipe como uma ameaça ao trono).

Hamlet sempre esteve na peça errada, mas ele já é a peça. A corte de Elsinore é uma ratoeira muito pequena para capturar o Príncipe dinamarquês, mas ele voluntariamente retorna para morrer e para matar.

Para Harold Bloom, Hamlet é Shakespeare ou o seu substituto, pois a personagem é o filho ideal para o dramaturgo. Tal opinião é compartilhada por James Joyce, o qual identificou Hamlet da Dinamarca com o único filho de Shakespeare – Hamnet –  que morreu aos onze anos em 1596, quatro ou cinco anos antes da versão final da tragédia de Hamlet.

Em meados de 1601, Shakespeare desempenhou o papel do fantasma do Rei Hamlet durante a encenação da peça.

Tudo na peça depende das atitudes de Hamlet para com a exigência de vingança do fantasma. A questão de Hamlet sempre será o próprio Hamlet, dono de uma consciência ambivalente e dividida, o que faz ser coerente com o que o drama pode sustentar.

Peter Alexander, em seu livro “Hamlet, father and son (1955)”, apontou que o fantasma e rei Hamlet era um formidável lutador e líder guerreiro, enquanto o príncipe Hamlet era um universitário intelectual, representante de uma nova era. Os dois Hamlets se confrontam, mesmo com nada em comum além dos nomes. O fantasma/Rei Hamlet espera que o jovem Hamlet seja uma versão de si mesmo, assim como Fortinbras é uma cópia do velho Fortinbras. Logo, podemos apontar a existência de duplos, somente com relação ao nome, na peça.

Hamlet é um jovem na casa dos 20 anos ou menos, estudante da Universidade de Wittenberg, a qual deseja retornar. Tal instituição também é frequentada pelo seu nobre amigo Horácio, bem como por Rosencrantz e Guildenstern. Laertes, da mesma geração que os demais, presumidamente também deseja voltar para a Universidade de Paris. Nota-se que é desta forma que vemos estas personagens durante os quatro primeiros atos. Porém, no ato V, estas mesmas personagens parecem mais velhas aos olhos do leitor, o que pode vir a representar a maturidade de cada um.

Em “The Birth of Tradegy” (1873), Nietzsche descreveu corretamente Hamlet, isto é, ele o viu não como um homem que pensa demais, mas sim como um homem que pensa sabiamente, como pode ser visto no seguinte trecho: conhecimento mata a ação; ação requer o véu da ilusão: Essa é a doutrina de Hamlet, não aquela sabedoria barata de Jack o sonhador (não encontrei referência sobre esta personagem), o qual reflete muito, sobre um excesso de possibilidade e não chega na ação. Não uma reflexão, não um conhecimento verdadeiro, um vislumbre dentro de uma verdade horrível, supera qualquer motivo para ação, ambos em Hamlet e no homem dionisíaco (conceito de Nietzsche que expressa a consciência fragmentada ou instabilidade existencial).

Um dos atrativos de Hamlet é que todos nós, como leitores, nos sentimos um pouco como Hamlet, já que a vida que recebemos ao nascer seria uma tarefa imposta do mesmo modo que a ele a da vingança imposta pelo pai. 

Ademais, podemos ressaltar a questão da liberdade, nos questionando se Hamlet era livre ou não. Acho, na minha humilde opinião, que ele não era livre, pois ao mesmo tempo que ele queria voltar para a Universidade, sua mãe pediu para ele ficar e, mesmo a contragosto, ele ficou. Hamlet, buscou a vingança por exigência do fantasma de seu pai, quando eu acho que ele não agiria de tal forma, como podemos ver pela sua ambivalência de pensamentos e ações. Enxergando a personagem desta forma, nós podemos trazer esta questão para a nossa vida, ou seja, nos questionando se nossa liberdade é ilimitada ou limitada como a de Hamlet.

Apesar do Harold Bloom não ter gostado nem um pouco da versão de Lawrence Olivier de Hamlet para o cinema, eu deixo a dica do filme, pois o mesmo é encontrado facilmente no Youtube, na íntegra e legendado.

Por fim, deixo aqui a citação do conselho, muito valioso diga-se de passagem de Polônio, ao seu jovem filho Laertes (Ato I, Cena III): “Guarda este poucos lemas na memória: Sê forte. Não dês língua a toda a ideia, nem forma ao pensamento descabido; Sê afável, mas sem vulgaridade. Os amigos que tens por verdadeiros, agarra-os a tu’alma em fios de aço; mas não procures distração camarada sem critério. Evita entrar em brigas; mas se entrares, aguenta firme, a fim que outros te temam. Presta a todos ouvido, mas a poucos a palavra: ouve a todos a censura, mas reserva o teu próprio julgamento. Veste de acordo com a tua bolsa, porém sê rico sem ostentação, pois o ornamento às vezes mostra o homem, que em França os de mais alta sociedade são seletos e justos nesse ponto. Não seja usurário nem pedinte: emprestando há o perigo de perderes o dinheiro e o amigo; e se o pedires, esquecerás as normas da poupança. Sobretudo sê fiel e verdadeiro contigo mesmo; e como a noite ao dia, seguir-se-á que a ninguém serás falso.”

Desejo a todos um ótimo Halloween e até o próximo post!!!

Janet, a entortada

Ilustração do livro O médico e o monstro e outros experimentos

Conto escrito por Robert Louis Stevenson em 1881, presente na edição publicada em 2019 pela Editora Darkiside sob o título O Médico e o Monstro e outros experimentos.

O reverendo Murdoch Soulis era um velho, severo e solitário pastor da paróquia de Balweary, localizada à beira da água do rio Dule e ao lado do bosque Hanging Shaw.

O bosque era um lugar que após o pôr do sol era evitado pelos prudentes habitantes do vilarejo, exceto pelo Pastor Soulis que sempre caminhava por lá, proferindo em voz alta seus pensamentos e sermões não divulgados aos cristãos durante o culto.

Este aspecto comportamental do pastor despertava curiosidade nos moradores mais novos no vilarejo, bem como receio dos habitantes mais antigos, tendo em vista, que estes tinham conhecimento e lembranças do primeiro ano do sacerdócio do pastor na paróquia local. E é neste ponto que a nossa história de terror e mistério começa….

Há cinquenta anos atrás o vilarejo recebia o jovem pastor Murdoch, cheio de energia e empolgação. Com uma rotina repleta de orações, cultos e estudos bíblicos, o sacerdote precisava de ajuda para a arrumação do presbitério e para as tarefas domésticas.

A pessoa indicada foi uma senhora chamada Janet M’Clour. Todavia, nem todos do vilarejo concordaram com a indicação feita, tendo em vista os boatos que rolavam no local sobre a velha Janet, entre eles, a de ter parido um dragão, de não comungar e de seu envolvimento com as trevas.

O jovem pastor achou aquilo tudo tolice e que o mal não tinha lugar no vilarejo controlado pela fé do povo. Então, Janet foi contratada para trabalhar na Paróquia de Balweary. Contudo, algumas donas de casa do local começaram a azucrinar Janet, a acusando de bruxaria entre outras coisas.

No momento do conflito, o Pastor Murdoch chegou para separar a briga e defender Janet. Nesta ocasião, a velha renunciou, perante o pastor e as outras mulheres, o demônio (dizem que foi a contragosto e com muitas caretas).

Com o trabalho na casa paroquial, os habitantes do vilarejo notaram que Janet estava um tanto quanto diferente, pois a mulher começou a andar com o pescoço entortado, isto é, “a cabeça dela para um lado que nem corpo enforcado e um sorriso na cara que nem a de um cadáver enforcado.”

Todavia, com o passar do tempo, os moradores do local se acostumaram com este novo jeito de andar de Janet, mas relataram que, após a renúncia ao diabo, Janet nunca mais foi a mesma e que de sua boca não saia mais a palavra Deus.

Com a chegada do mesmo de Julho no vilarejo, o tempo parecia esquisito, isto é, sem nuvens, o gado não conseguia subir as montanhas, a crianças estavam sempre cansadas, o vento e o calor eram muito mais intensos que nos anos anteriores. 

Até mesmo o pastor Murdoch estava diferente, pois não conseguia comer e nem dormir direito. Seu lugar preferido não era mais a casa paroquial, mas sim o cemitério do vilarejo. Conforme passava mais tempo no local, o pastor começou a observar o aparecimento de corvos no cemitério.

O sacerdote saiu à procura do que estava chamando a atenção de tais animais, até se deparar com um homem estranho e sinistro (para dizer o mínimo), em cima de um túmulo.

O pastor tentou a aproximação do homem, mas quanto mais ele chegava perto mais a pessoa misteriosa se afastava até chegar próximo ao presbitério. Murdoch não gostou nada daquilo e correu o mais rápido que pôde até a casa paroquial, mas ao chegar não encontrou mais o suspeito.

Após o ocorrido, o religioso não conseguiu fazer mais nada, pois as palavras das orações lhe escapavam e os pensamentos também, exceto, a figura do homem sinistro. Ao ir até a janela de seu aposento, o pastor notou que a água do rio Dule estava grossa e que Janet estava lá lavando roupa.

Murdoch ficou observando-a e lembrou do que as pessoas do vilarejo lhe disseram sobre a sua ajudante. Os habitantes do local teimavam em dizer que a mulher já havia falecido há muito tempo e que ela nada mais era que um fantasma.

O pastor afastou os pensamentos e se culpou por estar julgando a pobre mulher desta forma. Em seguida, rezou por Janet, por ele e foi se deitar.

E assim, veio a noite de 17 de agosto de 1712, uma data sempre lembrada pelos habitantes do vilarejo. O clima estava mais quente que nos demais dias e de uma escuridão jamais vista. O sacerdote não conseguia dormir e voltou a pensar no homem misterioso e em Janet.

Neste momento, no quarto de Janet se escutou um barulho muito alto e depois um silêncio horripilante. Rapidamente, o pastor pegou uma vela e foi até o quarto de sua ajudante.

A porta estava destrancada e ao espiar dentro do aposento encontrou Janet “pendurada ao lado do antigo armário de carvalho; a cabeça para cima do ombro, os olhos arregalados, a língua saltando para fora da boca e os calcanhares trinta centímetros para cima do chão”.

Murdoch conseguiu reunir toda a sua fé e coragem para trancar o quarto de Janet e desceu as escadas da casa paroquial. O pastor não conseguia raciocinar completamente, após a cena horrível que presenciou, mas de repente, ele ouviu um barulho vindo do quarto da mulher.

Era um barulho de passos, principalmente no local em que se encontrava o corpo de Janet. O pastor não entendia como aquilo estava acontecendo, pois ele tinha acabado de trancar a porta e não havia mais ninguém na casa (ou ela achava que não havia).

O sacerdote saiu da casa paroquial e permaneceu lá fora com sua vela, mas o barulho de passos ficava cada vez mais alto e próximo. Nesta hora, Murdoch estava com medo e rezou suplicando a proteção de Deus.

O fogo da vela foi perdendo força e na porta do presbitério estava Janet. Ela estava caminhando devagar em direção ao bosque. O pastor começou a gritar para que a mulher fosse embora e neste exato momento, uma luz divina, vinda do céu “queimou” o corpo da velha mulher até o mesmo virar cinzas.

Em seguida, começou uma chuva torrencial no local e consequentemente gritos dos habitantes do povoado. Muitos acham que o tal homem misterioso habitava o corpo de Janet, bem como muitos alegaram que o viram andar pelo vilarejo até não ser mais encontrado.

Todavia, o homem que mais sofreu em Balweary foi o Pastor Murdoch que delirou por muito tempo após o ocorrido até se tornar o velho severo e solitário que é hoje.

Espero que tenham gostado e se assustado com o conto!!

🎃Um beijo e até o próximo post!!🎃

Biscoitinhos amanteigados para o Halloween

Aí vai uma receita super versátil para qualquer época do ano, mas devido ao Halloween, ela foi devidamente adaptada para a ocasião!!

Abaixo, seguem as fotos das ferramentas de trabalho, dos ingredientes e do modo de preparo:

Espero que vocês gostem e desfrutem desta receitinha deliciosa e fácil de ser executada!!!

Um beijo e até o próximo post!!!

CONTOS DE TERROR E MISTÉRIO – BOOKWORMS CLUB GOLD

Dando início para mais um ano, aqui no blog, do mês de Halloween!! Aproveito e deixo a sugestão dos posts de 2019 e 2020 do mesmo período para vocês darem uma olhadinha:

Coraline

A lenda do cavaleiro sem cabeça e outros contos

Sweeney Todd – o barbeiro demoníaco da Fleet Street

O médico e o monstro

Para nossa primeira resenha deste ano, eu escolhi um livro de contos em inglês, adaptados para os níveis 3 (1000 palavras) e 4 (1400 palavras). O livro é de uma coleção lançada pela Oxford, chamada Bookworms Club, feita para ser debatida em sala de aula, conforme as atividades apresentadas.

Sobre os contos, eu li a adaptação de Black Cat do autor norte-americando Edgar Allan Poe (1809-1849) e The Experiment do autor britânico Montague Rhodes James (1862-1936). 

Bora falarmos sobre eles??

🎃 Black Cat (um dos contos do livro Tales of Mystery and Imagination)🎃

A narrativa se inicia com o relato de um homem, que não se considera louco, mas em razão de seus atos, será morto. Logo, ele passa a nos contar a sua história.

Nosso narrador, desde muito jovem, sempre gostou de animais. Conforme ele foi crescendo, o amor pelos animais também foi aumentando na mesma proporção, tanto o é, que ele acabou se casando com uma moça que também adorava animais, a qual para agradar o marido, sempre lhe comprava um novo bichinho de estimação, como peixes, pássaros, cães, galinhas e um gato.

O felino, chamado Pluto, era um enorme gato preto e esperto. A admiração de seu dono por ele era tamanha, que este o amava mais do que os outros animais. O nosso narrador não deixava que sua mulher cuidasse do gato, pois ele gostava de fazer tudo pelo bichinho, e como retribuição, o gato sempre estava ao seu lago em qualquer lugar e a qualquer momento.

Após vários anos, a vida do nosso narrador foi mudando lentamente e seu amor por Pluto também. Ele passou a beber constantemente, começou a ser violento com sua esposa e os outros animais e especialmente, passou a odiar seu gato de estimação.

Em uma noite, após voltar para casa bêbado, Pluto ao ver seu dono tentou se esconder e o mordeu, motivo pelo qual, fez com que o nosso narrador ficasse muito nervoso com a atitude do animal. Logo, para castigá-lo, ele pegou uma faca e arrancou um dos olhos de seu gato.

Após meses do ocorrido, a ferida do olho de Pluto estava melhor, mas o animal continuava fugindo de seu dono. No início, o nosso narrador sentiu vergonha do fez com seu gato, mas conforme o vício no álcool continuava, o sentimento de remorso foi substituído pela raiva.

Em uma manhã, o nosso protagonista pegou uma corda e a amarrou ao redor do pescoço de seu gato e deixou o bichinho para morrer preso a uma árvore. No mesmo dia, à noite, a casa do nosso narrador pegou fogo, ele e a esposa conseguiram fugir, mas o restante de sua moradia foi destruída.

Ao voltar para a sua casa, havia um grupo ao redor da única parede que permaneceu de pé após o incêndio e nela havia uma imagem, isto é, o formato de um grande gato, no qual dava para ver também o formato de uma corda ao redor de seu pescoço.

O homem ficou atordoado com o que viu e por várias noites ficou perambulando ao redor da vizinhança procurando entre os gatos um igual a Pluto, porém sem sucesso. Em uma noite, bebendo em seu bar favorito, o homem encontrou um gato no bar e de imediato simpatizou-se com o animal e o levou para casa. 

Todavia, o sentimento de empatia pelo felino foi se transformando em ódio, mas o nosso narrador fez de tudo para não maltratar mais nenhum bichinho. O gato começou a assustá-lo, pois o animal possuía uma marca misteriosa. Tal sinal foi crescendo e tomando a forma de uma forca.

Conforme o medo pelo gato ia aumentando, nosso protagonista ia ficando mais nervoso e angustiado, até que um dia, ao ir com sua esposa até o porão de sua casa, o homem tentou matar o gato com um machado, sua esposa tentou impedi-lo, mas com este ato, ela acabou sendo a vítima da arma e caiu morta no chão.

Mesmo com a morte da mulher, nosso narrador permaneceu calmo, frio e calculista, ao ponto de traçar planos para esconder o corpo de sua esposa. Até que uma ideia veio-lhe a mente, ele decidiu esconder o corpo atrás de uma parede oca do porão. Logo, com muita frieza, o homem acomodou o corpo e cobriu a parede com gesso.

Após esconder o corpo da esposa, a próxima vítima do nosso protagonista era o gato, mas, ele não conseguia o encontrar em nenhum lugar, o levando a crer que o animal tinha desaparecido. Diante deste cenário, o homem não conseguia esconder a sua felicidade e o sentimento de liberdade que aquilo trazia.

Contudo, rapidamente, as perguntas por sua esposa foram aumentando, ao ponto de a Polícia ser chamada para averiguar a situação. Os investigadores revistaram a casa inteira, a fim de encontrar alguma prova do paradeiro da mulher. 

O homem, muito confiante do seu plano, permaneceu calmo durante o trabalho dos policiais, até que os mesmos foram revistar o porão. Lá, eles também não encontraram nada, mas no momento em que os investigadores estavam indo embora, eles ouviram um barulho detrás de uma parede, o som foi crescendo e crescendo até parecer um grito longo e sem fim.

Os policiais começaram a quebrar a parede e atrás dos tijolos estava o corpo da mulher e no topo de sua cabeça, um gato preto de um olho só. O gato preto mandou seu dono para morte devido ao seu ato cruel.

🎃O experimento (conto do livro The Unquiet Grave)🎃

Nos últimos dias do mês de Dezembro, o pastor chamado Dr. Hall está trabalhando em seus estudos, quando um de seus empregados o informa sobre a morte do Sr. Squire Bowles.

Dr. Hall ficou perplexo com a notícia do falecimento do homem, pois no dia anterior o tinha visto muito bem de saúde. Ao perguntar ao Sr. Wickem, o escriturário/servidor público do vilarejo, o mesmo informou que a morte do Sr. Squire foi repentina e muito dolorosa, razão  pela qual sua esposa e seu enteado queriam que o enterro do falecido fosse o mais rápido possível.

Após retornar do encontro com a família, Dr. Hall juntamente com o Sr. Wickem deram início aos peculiares preparativos do funeral do Sr. Squire. Por que peculiares??? Bom, o Sr. Squire, antes de morrer, informou que não queria ser enterrado no mausoléu da família, mas sim em uma cova, sem caixão, no jardim da igreja.

Sim, o Sr. Squire tinha algumas ideias estranhas sobre a vida após a morte. Mas, tanto o Dr. Hall quanto o Sr. Wickem seguiram as orientações dadas pelos familiares e deixaram tudo pronto para o enterro às vinte duas horas do dia seguinte.

Chegado o momento do velório e enterro do Sr. Squire, onde compareceram todos os moradores do vilarejo, alguns vizinhos e o enteado Joseph. A viúva Sra. Squire não compareceu à cerimônia.

Com a sua morte, o Sr. Squire deixou para sua esposa e enteado terras, a casa e tudo o que havia dentro dela. Contudo, nenhum dinheiro foi encontrado, o que era muito estranho, pois o falecido era um homem muito rico e recebia o valor arrecadado em suas terras em dinheiro vivo todos os anos, logo, onde foi parar este dinheiro??

Durante a procura por algo que indicasse o paradeiro do dinheiro, Joseph e sua mãe encontram na biblioteca uma carta escrita um dia antes de sua morte pelo Sr. Squire e endereçada a um amigo chamado Sr. Fowler.

Nesta correspondência, o Sr. Squire fala sobre os seus estudos sobre a vida após a morte. Com base em suas descobertas, o Sr. Squire informa que por um tempo a alma do homem já morto fica presa em alguns lugares em que ele conheceu em vida. Na verdade, esta permanência da alma é tamanha ao ponto de conseguir se comunicar com os vivos.

Ainda relata que segundo os experimentos do livro escrito pelo Dr. Moore, quando a alma é chamada, a pessoa que a chama terá que abrir a boca do corpo inanimado para  conseguir ouvir os desejos do falecido, bem como onde ele escondeu o seu dinheiro. E é nesta parte que a carta para e não se tem mais nenhuma pista do paradeiro do dinheiro.

O enteado do Sr. Squire, Joseph encaminhou a carta escrita pelo seu padrasto ao Sr. Fowler e o mesmo o escreveu de volta. Com o retorno da resposta do amigo do falecido, mãe e filho decidiram que Joseph iria naquela noite realizar o procedimento relatado pelo Sr. Squire na carta endereçada ao seu amigo, isto é, perguntaria a alma de seu padrasto onde estava escondido o dinheiro. Inclusive, sua mãe deu um pano para que Joseph usasse para se cobrir durante o ato.

Feito o experimento, Joseph atordoado, confessa à mãe que a alma do Sr. Squire estava raivosa e sua voz era similar a um cão rosnando. Joseph sentiu que o espírito estava ali esperando por seu chamado. Ao terminar de questionar sobre o paradeiro do dinheiro, o corpo do Sr. Squire saiu da cova e agora sua alma estava livre e perambulando nos lugares conhecidos em vida.

Joseph estava tão assustado que não conseguia passar mais uma noite sequer na casa herdada por ele e sua mãe. Diante do desespero de seu filho, a Sra. Squire sugeriu que os dois, ao anoitecer, pegassem um barco rumo à Holanda, tendo em vista que fantasmas não podem seguir os vivos sobre a água.

Ao chegar o barco, rumo a Holanda, o barqueiro pegou a bagagem e informou que a viagem seria tranquila e que junto com eles havia mais um passageiro no barco, rumo ao mesmo destino.

Ambos estranharam a presença de mais um passageiro e perguntaram ao condutor se ele sabia quem ele era, todavia, o mesmo informou que não o conhecia e que o misterioso passageiro mantinha o seu rosto escondido, mas que sua voz era estranha, como a de um cão rosnando.

O conto termina informando que naquela época, as mulheres que envenenavam seus maridos eram queimadas até a morte. Os registros de um certo ano em Norwich relataram que uma mulher foi punida dessa maneira e seu filho foi enforcado em seguida. Nenhum deles foi sentenciado por seus crimes, mas eles confessaram ao pastor de seu vilarejo o que eles fizeram. O nome do vilarejo continua sendo um mistério, pois até hoje o dinheiro continua escondido.

O livro de experimentos do Dr. Moore encontra-se disponível na biblioteca da Universidade de Cambridge, e na página 144 está escrito o que segue:

“O experimento provou-se muitas vezes verdadeiro para encontrar ouro escondido no solo ou roubo ou assassinato ou qualquer outra coisa. Vá até o túmulo do morto e chame por seu nome por três vezes e diga ‘Pode deixar a escuridão e vir a mim esta noite e me dizer verdadeiramente onde o ouro está escondido’. Depois, pegue um pouco de terra do túmulo do morto, amarre-a com um pano limpo e durma com ela sob a orelha direita. E onde quer que você deite ou durma, à noite ele virá e lhe dirá a verdade, seja acordado ou dormindo.”

Um beijo e até o próximo post!!

Contos de fada: A Bela e a Fera

O melhor conto de fadas de todos os tempos (eu garanto de forma totalmente imparcial #sqn)

Para celebrar o Dia das Crianças que está quase aí, no post de hoje, eu recomendo aos pimpolhos e, assim como eu, para os não tão pimpolhos assim, a leitura do meu conto de fadas e da princesa da Disney favoritos, A Bela e a Fera!!

Até este ano (2021), eu só conhecia a história da Bela e a Fera devido a animação da Disney e ao filme francês com o mesmo nome, inspirado na versão original da história. 

Logo, para mudar esta situação, eu aproveitei para reviver toda a magia que a Bela e a Fera inspiram e fiz a leitura da versão original, escrita por Madame de Villeneuve (1740) e da versão clássica, escrita por Madame de Beaumont (1756).

As versões acima citadas foram publicadas pela Editora Zahar, através de sua coletânea de livros intitulada Clássicos Zahar em edição de bolso de luxo. Além dos contos, a edição também traz em seu bojo o texto de apresentação escrito por Rodrigo Lacerda e ilustrações de Walter Crane e outros:

Neste post, não contarei o enredo do conto de fadas, tendo em vista, que quase todo mundo conhece pelos filmes e até através de peças de teatro, mas cito aqui para quem não sabe que, este conto teve uma história real que o inspirou, sendo esta a de Pedro González, um espanhol nascido em 1537, portador da denominada síndrome do lobisomem (hipertricose – crescimento anormal de pelos no rosto e por todo o corpo).

Além da hipertricose, Pedro contraiu matrimônio com a bela Catarina, filha de um serviçal da corte da Rainha Catarina de Médici. O casamento aconteceu, pois a identidade do noivo foi escondida até a ocasião. Inicialmente, ao conhecer o seu marido, Catarina até chegou a desmaiar, mas com o tempo, o medo passou a dar lugar ao amor e consequentemente a uma união feliz e duradoura.

Portanto, de forma totalmente parcial, eu indico a leitura deste encantador conto de fadas que serviu de inspiração ao filme de animação mais lindo de todos os tempos.

Por fim, deixo aqui também como dica de livros infanto-juvenis que já tem post aqui no blog:

O hobbit

A trilogia dos Senhor dos Anéis (A sociedade do anel, as duas torres e o retorno do rei)

Harry Potter e a criança amaldiçoada

Leve-me com você

Minha vida fora dos trilhos 

Em algum lugar das estrelas

🌹Espero que tenham gostado do post e até a próxima!!!🌹

FUVEST: RESUMO DA OBRA MENSAGEM DE FERNANDO PESSOA

Capa do livro publicado pela Editora Via Leitura

SOBRE O AUTOR

Fernando Pessoa nasceu em Portugal, no ano de 1888 e faleceu em 1935, aos 47 anos de idade. O autor perdeu seu pai muito cedo (aos cinco anos de idade) e seu irmão mais novo, aos seis anos. Sua mãe contrai um novo matrimônio, quando o autor tinha seus sete anos de idade. Devido à constituição desta nova família, Fernando vai morar na África do Sul, local em que seu padrasto é cônsul. 

Logo, toda a formação do autor se dá em língua inglesa, momento em que o mesmo mostra todo seu esforço e aplicação no decorrer do período escolar, principalmente com os romancistas ingleses, bem como Shakespeare e Homero.

Em 1905, Fernando Pessoa regressa definitivamente para Portugal e somente em 1908, o autor começa a escrever em língua portuguesa.

Cumpre ressaltar a heteronímia presente na vida e obra do autor. Desde de a infância, Fernando Pessoa tinha a capacidade e até mesmo a necessidade de criar personagens imaginados, no qual ele escrevia cartas, com que ele conversava. 

Em sua poesia, a heteronímia se divide em vários desdobramentos, onde a voz lírica e o poeta estão interligados, mas podem não ser a mesma pessoa. Logo, alguns sentimentos descritos na poesia, podem não ser os próprios sentimentos do poeta. Aqui, eu cito os três heterônimos fundamentais na obra de Fernando Pessoa: Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos.

SOBRE A OBRA E CONTEXTO HISTÓRICO E CULTURAL

A coletânea de poemas que teve como início de produção o ano de 1913, mas que veio a ser publicada somente em 1934 (segundo período do modernismo – 1930 a 1945), retrata a história de Portugal. Devido a heteronímia presente na obra do autor, cabe salientar que, o livro Mensagem foi escrito pelo próprio Fernando Pessoa.

Com relação ao contexto histórico, a obra foi produzida no período entre guerras, onde a maior parte da produção literária da época era voltada para o nacionalismo.

Ademais, a obra foi lançada propositalmente à venda no dia 01/12/1934, pois este é o dia da Restauração da Independência de Portugal e fim da União Ibérica.

SOBRE O ESTILO NARRATIVO

A obra em tela teve como base a epopeia clássica Os Lusíadas de Camões. Falo isso porque, ao ler a obra, é nítida as semelhanças de seus temas, sendo estes o heroísmo, o nacionalismo e as grandes navegações.

Todavia, ao mesmo tempo que se assemelha a obra acima citada, desta de difere, pois, Mensagem foi escrita voltada ao período em que Fernando Pessoa vivia, sendo este, o período entre guerras, como dito no tópico anterior.

O texto do autor, é dividido em três partes: Brasão, composto de dezenove poemas; Mar Português, composto de doze poemas; Encoberto, composto por treze poemas. Os poemas não possuem métrica e nem rima.

SOBRE O ENREDO

O livro apresenta ao leitor temas como os heróis de Portugal, dentre eles Dom Sebastião, o poder da nação Portuguesa, especialmente, durante o período das grandes navegações e o nacionalismo, característica muito presente em obras modernistas.

É de extrema importância ressaltar que a obra Mensagem possui alguns mitos, que serviram de base para o desenvolvimento do enredo, são elas:

Sebastianismo (ou mito do encoberto): Dom Sebastião, rei que desapareceu na África durante a Batalha de Alcácer-Quibir (Marrocos – 1578), retornaria triunfante para levar Portugal novamente a um patamar de glórias e conquistas (messianismo). 

Ele seria o responsável pelo Quinto Império, tendo em vista que sua figura seria encarregada de levar a fé cristã a outros lugares do mundo. Recomendo a leitura do poema – O quinto império, contido na terceira parte em I – Os Símbolos.

Mito do espírito aventureiro português: os portugueses teriam conquistado os mares e ampliado seus territórios por conta de um talento inato e uma predestinação divina, elementos responsáveis pelo êxito das grandes navegações portuguesas nos séculos XV e XVI.

Mito do herói fundador: a cidade de Lisboa teria sido fundada pelo herói mitológico Ulisses.

Agora, vamos a divisão da obra, que pode ser vista como à ascensão, o ápice e o declínio de Portugal:

Primeira parte denominada Brasão: o autor recria a história de Portugal, através da figura dos heróis da nação portuguesa e a importância dos mesmos para a formação e desenvolvimento de Portugal. A primeira parte é subdividida em os Castelos (I e II), as Quinas (III), a Coroa (IV) e o Timbre (V).

São tidos como heróis as seguintes personagens: Ulisses, Viriato (os dois primeiros tidos como os fundadores de Lisboa e Portugal, respectivamente), Dom Henrique, Dona Tareja, Dom Afonso Henriques, Dom Diniz, Dom João I, Dona Filipa de Lencastre, Dom Duarte, Dom Fernando, Dom Pedro,  Dom João I, Dom Sebastião, Nunes Álvares Pereira, Dom João II e Afonso de Albuquerque.

Segunda parte denominada Mar Português: É selecionado um contexto específico do passado de Portugal, neste caso, os fatos e personagens ligados às grandes navegações portuguesas. 

A segunda parte é compostas pelos poemas: Infante, Horizonte, Padrão, Monstrengo, epitáfio de Bartolomeu Dias, os Colombos, Ocidente, Fernão de Magalhães, ascensão de Vasco da Gama, Mar Português (poema da célebre frase: “Tudo vale a pena se a alma não é pequena), a Última Nau e Prece.

Terceira parte denominada Encoberto: é a parte mais fantástica da obra (fantasiosa), aparecem muitas figuras míticas e imaginadas que contrastam com um olhar mais realista da nação portuguesa. 

Aqui, nós temos um olhar saudosista da grande nação que Portugal foi e a sua decadência à época de Fernando Pessoa, como pode ser visto com a leitura do poema Nevoeiro na subdivisão Os Tempos .

A terceira parte subdivide-se em: os Símbolos (I), os Avisos (II) e os Tempos (III).

POSSÍVEIS QUESTÕES PARA O VESTIBULAR

As questões, às quais eu tive acesso, ressaltaram os aspectos culturais da nação portuguesa, a cobrança dos mitos, nos quais a obra se baseia, especialmente no mito de Dom Sebastião, as grandes navegações, a escola literária a qual o autor pertence, sendo esta o modernismo.

Deixo aqui, a indicação de um site bem bacana que traz várias questões sobre ela: https://faciletrando.wordpress.com/2020/06/23/mensagem/

MINHA EXPERIÊNCIA DE LEITURA

É uma leitura rápida, todavia, com muitos detalhes que, se eu não tivesse pesquisado antes sobre a obra, eu não tinha entendido nada. 

Não foi a minha obra favorita do Projeto Fuvest e se fosse para desvendar a “mensagem” deixada por Fernando Pessoa, eu ousaria dizer que o autor escreveu esta coletânea de poemas aos portugueses  e/ ou como uma forma de resposta da nação portuguesa para o mundo.

Por fim, como este é o último post referente ao Projeto Fuvest 2020/2021/2022, eu quero aproveitar e agradecer a todos pelos inúmeros acessos que o blog obteve com o projeto e espero ter ajudado a todos da melhor forma possível rumo à aprovação!


Um beijo e até o próximo post!!

FUVEST: Resumo da obra Romanceiro da Inconfidência

Capa do livro publicado pela Global Editora

SOBRE A AUTORA E A OBRA

Cecília Meireles nasceu no dia 07 de janeiro de 1907 no Rio de Janeiro. Perdeu seus pais ainda muito pequena e foi criada por sua avó Jacinta Garcia Benevides. Em 1917, a autora se formou como professora, no qual passou a dedicar o seu aprendizado a línguas, música e a cultura oriental.

Até o ano de 1934, Cecília dirigiu o Diário de Notícias, no qual publicava matérias voltadas à reforma educacional, sendo este um assunto muito discutido na época. Neste mesmo ano, ela fundou no bairro de Botafogo, a Biblioteca Infantil, local em que havia a promoção de eventos culturais.

Em 1940, a autora lecionou literatura e cultura brasileira na Universidade do Texas e em 1942, fez parte da equipe do jornal A Manhã, escrevendo matérias inerentes ao folclore infantil.

Na vida pessoal, a autora foi casada por duas vezes, sendo seu primeiro casamento com o pintor Fernando Correia dias e após o falecimento do mesmo, veio a se casar com o também professor Heitor Vinícius da Silveira Grillo.

Com relação a sua obra, o seu primeiro livro de poesia, Espectros foi publicado em 1919. Todavia, Cecília Meireles é considerada uma autora do segundo período do modernismo (1930-1945), contudo, ela possui uma voz própria, isto é, sua poesia não segue a produção literária da época, como os poemas escritos em versos livres e com a utilização de um português coloquial.

A autora produz seus poemas com a presença marcante da musicalidade, métrica e rima. E, é através destas características que a autora aborda em seus escritos temas como a dualidade entre o que é efêmero (aquilo que é passageiro) e o eterno, sendo assim considerada neossimbolista (escrita composta por elementos místicos, espirituais e  transcendentais).

Em novembro de 1964, a autora veio a falecer e no ano seguinte recebeu (postumamente), o prêmio Machado de Assis pelo conjunto de sua obra.

SOBRE O ESTILO NARRATIVO

No que tange especificamente a obra Romanceiro da Inconfidência, Cecília viajou para a cidade de Ouro Preto em 1945, a fim de pesquisar sobre o tema, objeto do seu livro.

Nota-se, portanto, que a ideia do livro em análise surgiu anos antes de sua publicação, ocorrida em 1953. O trabalho de pesquisa da autora consistiu na visita de todos os pontos e cidades marcadas pela Inconfidência Mineira, bem como de uma pesquisa histórica aprofundada.

Para passar aos leitores a sua ideia, Cecília Meireles se utilizou da técnica do romanceiro, uma forma poética, lírica e narrativa dividida em romances. Esta forma de escrita era muito utilizada no período medieval português.

Composto por 85 romances e poemas de introdução e finalização, como são os casos dos cenários e das falas. A obra conta com um eu lírico diverso, capaz de dar voz a pessoas históricas conhecidas e outras desconhecidas, mas que passam a visão do modo de vida da época narrada.

Como dito anteriormente, os romances contam com ritmo, aqui visto como equivalente a musicalidade devido a predominância de rimas nos poemas e de métrica, composta de versos heptassílabos e pentassílabos.

CONTEXTO HISTÓRICO E CULTURAL 

Para se entender a obra escrita por Cecília Meireles, se faz necessário o prévio conhecimento do ciclo da mineração, especialmente, a forma de tributação adotada pela Coroa Portuguesa, que consistia na cobrança de uma cota anual de 100 arrobas calculadas em cima do ouro extraído.

No início da exploração, era possível o cumprimento da tributação imposta, todavia, com o tempo, o ouro foi ficando cada vez mais escasso, logo, a cota anual foi deixando de ser paga integralmente, o que gerou a desconfiança da Coroa Portuguesa, de que a queda da arrecadação não era ligada ao fato da escassez do ouro, mas sim a corrupção e desvio de verbas.

Foi dessa desconfiança, que surgiu a derrama, que consistia na constrição de bens da população como complemento para a integralidade da cota anual de 100 arrobas. Este instrumento de confisco foi usado somente uma vez, pois nas demais tentativas, a sua execução sempre restou frustrada, devido a impossibilidade de pagamento das dívidas negociadas.

Aqui, devo mencionar que alguns membros da elite mineira foram extremamente beneficiados com a exploração do ouro, bem como pelo esquema de corrupção existente na época. Tais membros possuem nome, sobrenome e até poemas sobre eles, sendo estes Joaquim Silvério dos Reis e Rodrigues de Macedo.

Portugal continuava insatisfeita com a baixa arrecadação em sua colônia e forçando ao máximo uma postura mais rigorosa na forma de cobrança das dívidas, incitou o povo mineiro, especialmente a elite, o sentimento de revolta em busca da independência de Minas Gerais em relação a Portugal, bem como se livrar do pagamento da dívida. 

Ressalto, que nesta época, não havia a ideia de independência da nação, pois cada Estado (Capitania) era independente entre si.

A inspiração para esta revolução e busca pela independência, vieram dos ideais iluministas, que serviram de base para a Revolta das Treze Colônias nos EUA diante da Inglaterra e posteriormente para a Revolução Francesa.

Cumpre frisar que além do Iluminismo, também era difundida a ideia do Arcadismo, que consiste na retomada da cultura clássica, como os poetas latinos Virgílio e Horácio, de onde tiraram o lema da Inconfidência “Liberdade, ainda que tarde”, incorporado à bandeira atual do Estado de Minas Gerais.

Os inconfidentes eram:

Representando o clero/igreja: os padres José da Silva e Oliveira Rolim, Manuel Rodrigues da Costa, Carlos Correia de Toledo e Melo e o cônego Luís Vieira da Silva; 

Representando o Exército: o capitão José de Resende e Costa, o sargento-mor Luís Vaz de Toledo Pisa ; 

Representando os intelectuais, poetas e juristas: Cláudio Manuel da Costa, Tomás Antônio Gonzaga); 

Representando a elite mineira e proprietários de terras: João Rodrigues de Macedo, Domingos de Abreu Vieira, Alvarenga Peixoto e Joaquim Silvério dos Reis; 

Representando o grupo mais humilde (entenda como humilde o que tinha menos posses quando comparado aos outros Inconfidentes): o alferes Joaquim José da Silva Xavier, mais conhecido como Tiradentes. 

SOBRE O ENREDO

A coletânea de poemas está dividida em cinco partes:

Primeira parte (fala inicial, cenário e romances 1 a 19)

Inicia-se com a fala inicial, na qual a poeta aborda a execução de Tiradentes, seguido de um retrospecto do cenário da Inconfidência/Conjuração Mineira. Nesta primeira parte, nós acompanhamos a descoberta do ouro, bem como observamos a ganância e ambição do homem por este metal nobre.

Fala inicial: Aduz sobre a execução de Tiradentes “Ó meio-dia confuso, ó vinte e um de abril sinistro”. Lembrando, que Tiradentes foi executado em 21/04/1792 no Rio de Janeiro.

Cenário: A poeta nos apresenta Minas Gerais, passeando pelo cenário/palco da Inconfidência Mineira e condenação de Tirandentes: “por onde o passo da ambição rugia; por onde se arrastava, esquartejado, o mártir sem direito de agonia.”

Dos romances desta primeira parte, cito alguns que retratam fidedignamente a ambição e sua consequência e o trabalho escravo na busca insaciável pelo ouro :

Romance I ou da Revelação do Ouro: A poeta questiona a natureza (riachos, montanhas), sobre a exploração de Ouro Preto por gerações de homens em busca do ouro: 

“Selvas, montanhas e rios estão transidos de pasmo. É que avançam, terra a dentro, os homens alucinados. Levam guampas, levam cuias, levam flechas, levam arcos; atolam-se em lama negra, escorregam por penhascos, morrem de audácia e miséria, nesse temerário assalto, ambiciosos e avarentos, abomináveis e bravos, para fortuitas riquezas estendendo inquietos braços, – os olhos já sem clareza, – os lábios secos e amargos.”

“Que a sede de ouro é sem cura, e, por ela subjugados, os homens matam-se e morrem, ficam mortos, mas não fartos.”

Romance II ou do Ouro Incansável: Trata da disputa de todos (reis, nobres, pobres, famílias, ladrões, contrabandistas) pelo ouro e dessa ambição surge a necessidade da exploração. Todavia, desta cobiça pelo ouro, surgem mortes, rivalidades e prisões:

“Mil bateias vão rodando sobre córregos escuros; a terra vai sendo aberta por intermináveis sulcos; infinitas galerias penetram morros profundos. De seu calmo esconderijo, O ouro vem, dócil e ingênuo; torna-se pó, folha, barra, prestígio, poder, engenho. É tão claro! – e turva tudo: honra, amor e pensamento.”

Romance IV ou da Donzela Assassinada: Conta-nos sobre uma jovem donzela apaixonada por um rapaz pobre e de origem humilde. Seu pai não aceitava este sentimento da menina e a matou com um punhal:

“Se voasse o meu lencinho, grosso de sonho e de sal, e pousasse na varanda, e começasse a contar que morri por culpa do ouro – que era de ouro esse punhal que me enterrou pelas costas a dura mão de meu pai – sabe Deus se choraria quem o pudesse escutar, – se voasse o meu lencinho e se pudesse falar, como fala o periquito e voa o pombo torcaz…”

Romance VI ou da Transmutação dos metais: mostra a grande expectativa pela chegada dos baús com ouro a Portugal e Espanha, todavia, ao despregar os baús viram que o ouro foi substituído por outros metais como o chumbo. Assim, os monarcas enfurecidos, querem fazer justiça frente à traição sofrida.

Romance VII ou do negro das Catas: narra o trabalho dos negros escravizados na procura insaciável pelo ouro. “Já se ouve cantar o negro. Chora neblina, a alvorada. Pedra miúda não vale: liberdade é pedra grada…”

Romance VIII ou do Chico-Rei: Continua com a busca incansável pelo ouro em nome do Rei, sendo tal metal destinado única e exclusivamente para Portugal. “Tigre está rugindo nas praias do mar. Vamos cavar a terra, povo, entrar pelas águas: O Rei pede mais ouro, sempre, para Portugal.”

Romance XII ou de Nossa Senhora da Ajuda: Súplica de sete crianças à Santa, pois um deles (Joaquim José) será condenado à forca, em razão do ouro. “(Agora são tempos de ouro. Os de sangue vêm depois. Vêm algemas, vêm sentenças, vêm cordas e cadafalsos, na era de noventa e dois.)”

Romance XIII ou do Contratador Fernandes: Conta a história da chegada do Conde Valadares a Serro Frio, a fim de perseguir o Contratador José Fernandes, tendo em vista que o mesmo é possuidor de terras em que há ouro e diamantes:

 “Deste Tejuco não volto sem ter metade das lavras, metade das lavras de ouro, mais outro tanto das catas; sem meu cofre de diamantes, todos estrelas sem jaça, – que para os nobres do Reino é que este povo trabalha!” Todavia, o Contratador Fernandes, mais astuto que o Conde, conseguiu induzir o Conde a ser seu amigo e parceiro no ouro. “Mas, depois de fruta e doce, mas, depois de doce e fruta, colocam diante do Conde uma terrina ampla e funda, para que os dedos distraia de saudades e de angústias. Agora, o jovem fidalgo descerra a máscara astuta: entre suspiro e sorriso, toma nas mãos e calcula os folhelhos de ouro, e acalma a fingida desventura. (Ai, ouro negro das brenhas, ai, ouro negro dos rios… Por ti trabalham os pobres, Por ti padecem os ricos. Por ti, mais por essas pedras que, com seu límpido brilho, mudam a face do mundo, tornam os reis intranquilos! Em largas mesas solenes, vão redigindo os ministros cartas, alvarás, decretos, e fabricando delitos.)”

Romance XIV ou da Chica da Silva e Romance XV ou das cismas de Chica da Silva: Apresenta-nos Chica da Silva “a dona do dono de Serro do Frio”, sendo este o Contratador José Fernandes. Chica demonstra certa desconfiança com as intenções do Conde Valadares para com o Contratador. José Fernandes tenta tranquilizá-la alegando que o Conde foi “comprado” com o ouro. “- Eu neste Conde não creio; com seus modos não me iludo; detrás de suas palavras, anda algum sentido oculto. Os homens, à luz do dia, olham bem, mas não vêem muito: dentro de quatro paredes, as mulheres sabem tudo.  Deus me perdoe, mas o Conde vem cá por outros assuntos.”

Romance XVI ou da Traição do Conde: Mostra que a cisma de Chica da Silva tinha um fundo de verdade, tendo em vista que José Fernandes foi traído pelo Conde, já cheio de ouro. “Fala o Conde de má morte: – Ordens são, que hoje recebo… Fala o Conde mui fingido: – Padece por vós meu zelo: de um lado, o dever de amigo, mas, de outro, a lealdade ao Reino… João Fernandes não responde: ouve e recorda em silêncio o que lhe dissera a Chica, em tom de pressentimento.”

Romance XVII ou das lamentações no Tejuco: Com a traição do Conde, todos lamentam a prisão de José Fernandes. “Maldito o Conde, e maldito esse ouro que faz escravos, esse ouro que faz algemas, que levanta densos muros para as grades das cadeias, que arma nas praças as forcas, lavra as injustas sentenças, arrasta pelos caminhos vítimas que se esquartejam!”

Segunda parte (cenário, fala e romances 20 a 47)

Revela a preparação para a Inconfidência/Conjuração Mineira, com a descrição das ideias liberais e iluministas, as reuniões preparatórias de seus membros, a atividade de divulgação das ideias dos Inconfidentes pelas ruas de MG feita por Tiradentes, testemunhas e delatores,  com acusações em fatos não presenciados, mas com o poder de condenar os  Inconfidentes.

Cenário: Um olhar saudosista para o passado, no qual o cenário é o mesmo e ao mesmo tempo diferente devido a toda a história lá vivida.

Fala à antiga Vila Rica: Sobre as falas e discursos já passados e não mais escutados no presente pela cidade de Vila Rica.

Dos romances desta segunda parte, cito alguns que esta movimentação rumo a Conjuração Mineira:

Romance XXIV ou da bandeira da inconfidência: Planejamento da conjuração. É neste poema que escutamos o lema da bandeira de Minas: Liberdade ainda que tarde. Obviamente, os inconfidentes já são considerados réus, devido aos atos praticados.

Romance XXVI ou da semana santa de 1789: É a preparação para o pior, as prisões, sentenças, forca e mortes. “Pois o amor não é doce, pois o bem não é suave, pois amanhã, como ontem, é amarga, a Liberdade.”

Romance XXVII ou do animoso Alferes: Poema que fala de Tiradentes, chamado aqui de Alferes, prestes a ser preso, interrogado e sentenciado:

“venham já soldados que a prender se apressem; venham já meirinhos que os bens lhe sequestrem; venham, venham, venham.. – que sua alma excede escrivães, carrascos, juízes, chanceleres, frades, brigadeiros, maldições e preces!” “Falas sem sentido acaso repete, – pois sente, pois sabe que já se acha entregue. Perguntas, masmorras, sentença… Recebe tudo além do mundo…”

Romance XXVIII ou da denúncia de Joaquim Silvério, Romance XXIX ou das velhas piedosas e Romance XXXIV ou de Joaquim Silvério: fala sobre a carta escrita por Joaquim Silvério denunciando os inconfidentes, em troca de mais terras e mais poder. 

Romance XXXVI ou das sentinelas: fala da iminência da prisão de Tiradentes pelos sentinelas que estão à sua espreita e encalço.

Romance XXXVII ou de Maio de 1789: A continuação da perseguição, no mês de Maio de 1789, por Tiradentes e outros inconfidentes como Gonzaga e Alvarenga, Toledo e a busca por Cláudio, bem como a apreensão do povo pela movimentação dos sentinelas.

Romance XXXVIII ou do embuçado: A perseguição pelos inconfidentes através do interrogatório do povo.

Romance XLIII ou as conversas indignadas: Devido ao movimento da inconfidência, iniciou-se a fuga de parentes, amigos e até dos próprios inconfidentes, exceto Tiradentes, tido como o louco alferes.

Romance XLIV ou da testemunha falsa: necessidade de testemunha falsa para condenar os inconfidentes; “- Todo coberto de medo, juro, minto, afirmo, assino. Condeno. (Mas estou salvo!) Para mim, só é verdade aquilo que me convém.”

Terceira parte (romances 48 a 64)

Com a delação dos Inconfidentes, narrada na segunda parte, aqui, nós acompanhamos a morte de Cláudio Manuel da Costa e a de Joaquim da Silva Xavier, o Tiradentes, que constituem a essência da terceira parte. 

Romance XLIX ou de Cláudio Manuel da Costa: trata da morte por envenenamento de Claudio, um dos membros da Inconfidência. O corpo dele nunca foi encontrado.

Romance LIII ou das palavras aéreas: trata da força das palavras que podem decidir a vida de homens, através de palavras ditas ou escritas por outros homens, podem chegar em outras colônias portuguesas e até em Portugal.

Romance LV ou de um preso chamado Gonzaga: um dos juristas Inconfidentes, todavia, mesmo sendo conhecedor das leis, ele foi incapaz  de se libertar da prisão.

Romance LIX ou da reflexão dos justos: reflexão pela luta de Tiradentes da defesa dos ideais dos Inconfidentes e a ausência de apoio de seus próprios colegas e do povo em sua prisão.

Romance LX ou do caminho da forca: um dos poemas mais emblemáticos do livro, trata do caminho para forca de Tiradentes, assistido por todos no Rio de Janeiro, inclusive por Dona Maria I.

Quarta parte (romances 65 a 80)

Concentra-se na condenação de outros Inconfidentes, quais sejam, Tomás Antônio Gonzaga e Alvarenga Peixoto. Ambos foram condenados ao degredo, isto é, ao exílio de sua pátria para um local fixado, neste caso Moçambique.

Romance LXVI ou de outros maldizentes: sobre a prisão de Tomas Antônio Gonzaga e do sequestro dos bens de sua propriedade, como é o caso das esporas de prata que são objeto de leilão. No final fala do seu exílio na África, especificamente para Moçambique.

Romance LXXI ou de Juliana de Mascarenhas e Romance LXXIII ou da inconformada Marília: Em Moçambique, Tomas Antônio Gonzaga conhece Juliana Mascarenhas, filha de um riquíssimo comerciante de escravizados. Com ela vem a contrair matrimônio, deixando no passado, o amor que nutria por Dorotéia Seixas, a pastora Marília.

Fala à Comarca do Rio das Mortes: relata o abandono da flora, fauna, das casas após a Inconfidência e a escassez do ouro.

Romance LXXVIII ou de um tal Alvarenga, Romance LXXIX ou da morte de Maria Ifigênia e Romance LXXX ou do enterro de Bárbara Heliodora:  um dos inconfidentes que teve sua vida marcada por perdas. A primeira, a perda da pátria, devido ao degredo, a segunda a morte de sua filha Maria Ifigênia e de sua esposa Bárbara Heliodora (provavelmente por tuberculose). 

Quinta parte (romances 81 a 85)

A quinta parte nos apresenta um cenário pós-inconfidência mineira, com a descrição de D. Maria I – a Rainha Louca, vinte anos após a condenação dos inconfidentes no Rio de Janeiro e o desfecho da obra.

Romance LXXXII ou dos passeios da Rainha louca e Romance LXXXIII ou da rainha morta: passeios da rainha pelo Rio de Janeiro, mesma cidade em que foi morto Tiradentes. “Toda vestida de preto, solto o grisalho cabelo, escondida atrás do leque, velhinha, a chorar de medo, Dona Maria Primeira passeia pela cidade.”

Romance LXXXIV ou dos cavalos da inconfidência: participação dos cavalos em vários momentos da Conjuração Mineira, que assim como os Inconfidentes, todos eles agora estão mortos e desaparecidos.

“Eles eram muitos cavalos, – rijos, destemidos, velozes – entre Mariana e Serro Frio, Vila Rica e Rio das Mortes. Eles eram muitos cavalos, transportando no seu galope coronéis, magistrados, poetas, furriéis, alferes, sacerdotes. E ouviam segredos e intrigas, e sonetos e liras e odes: testemunhas sem depoimento, diante de equívocos enormes.

Eles eram muitos cavalos: e uns viram correntes e algemas, outros, o sangue sobre a forca, outros, o crime e as recompensas. Eles eram muitos cavalos: e alguns foram postos à venda, outros ficaram nos seus pastos, e houve uns que, depois da sentença levaram o Alferes cortado em braços, pernas e cabeça. E partiram com sua carga na mais dolorosa inocência.”  

POSSÍVEIS QUESTÕES PARA O VESTIBULAR

A minha dica principal é estudar a Conjuração/Inconfidência Mineira para a resolução das questões, caso você não tenha tempo ou não queira ler o mesmo livro. 

Caso você venha a fazer a leitura de o Romanceiro da Inconfidência, tente assistir alguns vídeos no Youtube ou resumos sobre o tema, pois o prévio conhecimento deste momento histórico é essencial para entender a obra e interpretar as questões propostas.

SOBRE A MINHA EXPERIÊNCIA DE LEITURA

Já falei várias vezes por aqui que poesia não é o meu gênero favorito, mas com a leitura deste livro, eu fui capaz de apreciar o que eu senti falta nos outros livros de poesia cobrados no Vestibular da Fuvest, a musicalidade, a rima e até da métrica. 

Dos livros cobrados, a única obra que chega perto deste tipo de escrita é Poemas Escolhidos de Gregório de Matos, que confesso não foi um livro nada fácil de ser lido e apreciado.

Achei um livro muito bem escrito e fiel ao momento histórico retratado, mas em alguns momentos, eu o achei um pouco cansativo. Contudo, não me impediu de ir até o fim da leitura.

Um beijo e até o próximo post!!

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