Centenário da semana de arte moderna

Post especial aqui no blog em comemoração ao centenário da semana de arte moderna, que ocorreu entre os dias 13 e 18 de fevereiro de 1922, no Teatro Municipal de São Paulo (este mês, o Teatro está com uma programação especial em virtude do centenário). 

Antes de adentrar no tema principal deste post, gostaria que você, leitor, tivesse em mente o significado e a importância de se saber (mesmo que de forma sucinta) sobre o movimento das vanguardas.

A palavra vanguarda é de origem francesa (avant-garde), cujo significado é o que marcha na frente. Logo, podemos entender este movimento de vanguarda como a reunião de pessoas que apresentam práticas inovadoras nos campos artístico e literário. Tais práticas têm como base as tendências do futuro e através deste olhar, os artistas são capazes de “antecipar” esta visão para o momento presente (movimento futurista).

Na Europa (tendo como centro cultural na época a cidade de Paris), o movimento de vanguarda surgiu no início do século XX e perdurou após a Primeira Guerra Mundial. Ressalte-se que, não houve uma arte moderna uniforme no continente europeu, mas um conjunto de tendências artísticas de vários países, com traços em comum, como o sentimento de liberdade criadora e o desejo de romper com o passado. 

Já no Brasil, o movimento de vanguarda iniciou-se oficialmente em 1922, com a realização da Semana de Arte Moderna. Porém, desde a década de 1910 já vinham ocorrendo manifestações artísticas de um grupo que formava a vanguarda modernista brasileira, entre eles os escritores Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Ronald de Carvalho, Manuel Bandeira, Juó Bananére (pseudônimo de Alexandre Marcondes Machado), dos pintores Anita Malfatti e Di Cavalcanti, bem como do escultor Victor Brecheret.

Até hoje não se sabe ao certo quem foi o autor da ideia referente a realização da semana de arte moderna em São Paulo. Todavia, existem registros de que Oswald de Andrade firmou a promessa de que no ano do centenário da Independência do Brasil, isto é, em 1922, haveria uma ação dos artistas e escritores para colocar em prática os preparativos inerentes a essa semana tão marcante.

O evento contou com um discurso inaugural do escritor Graça Aranha, intitulado “A emoção estética da arte moderna”, bem como com a participação de artistas do Rio de Janeiro e de São Paulo, os quais foram apresentados para o público em geral leituras de poemas (Guilherme de Almeida e Ronald de Carvalho),  música (Ernâni Braga e Villa-Lobos), bem como artes plásticas (Anita Malfatti, Vicente do Rego Monteiro, Zina Aita, Di Cavalcanti, Harberg, Brecheret, Ferrignac e Antonio Moya).

As obras apresentadas causaram diversas reações ao público, isto é, houveram  vaias, aplausos, gritos e até latidos. Inclusive, o escritor Mário de Andrade fez, em meio a caçoadas e ofensas, uma pequena palestra sobre as artes plásticas ali expostas. 

Em uma visão isolada, a semana de arte moderna não causou tanto impacto na época, pois os jornais pouco publicaram sobre o evento, bem como a opinião pública ficou distante ou até mesmo indiferente a ação dos artistas, tendo em vista a inexistência de um projeto artístico comum.

Todavia, nos tempos atuais, a semana de arte moderna possui enorme importância histórica, devido à concentração das várias tendências de renovação da cultura brasileira com o objetivo de combater a arte tradicional.

Ademais, o evento em tela conseguiu chamar a atenção dos meios artísticos de todo o país, servindo até mesmo como meio para aproximar artistas com ideias modernistas que não pertenciam ao eixo São Paulo – Rio de Janeiro. Foi através deste movimento que houve o intercâmbio de ideias e técnicas no campo da literatura, da música e da arte, fazendo com que criássemos uma visão e até mesmo uma identidade própria sobre o significado destas áreas na cultura brasileira.

Logo, tudo o que existe hoje no campo da literatura, das artes plásticas, da música e do cinema está de alguma forma relacionado às propostas e às experiências desenvolvidas pela arte moderna no começo do século XX. 

Compreender a arte moderna implica conhecer o conjunto de transformações que ocorreram nesse período (o desenvolvimento científico e tecnológico e a Primeira Guerra Mundial), e a forma de ver e sentir o mundo que delas resultou. 

Por fim, deixo o direcionamento para um vídeo no YouTube da Editora Antofágica sobre curiosidades da semana de arte moderna.

Um beijo e até o próximo post!

Projeto FUVEST

Inicio este post agradecendo a todos os acessos que o blog obteve nos anos de 2020 e 2021, devido ao Projeto Fuvest. Espero que esta iniciativa tenha te ajudado de alguma forma na sua preparação ao vestibular, bem como tenha estimulado a leitura de obras da literatura nacional, portuguesa e africana!!

Para quem não sabe sobre o Projeto, ele tem como objetivo a leitura de mais livros escritos em língua portuguesa e de quebra ajudar os vestibulandos neste período tão importante em nossas vidas, o ingresso no Ensino Superior.

Opto pela leitura dos livros indicados pela Fuvest, pois a maior parte dos vestibulares se baseia nela, razão pela qual tal seleção de livros foi escolhida, fazendo parte do conteúdo da prova de Português e Literatura.

Por conta da pandemia, os livros cobrados na Fuvest 2022 (todos já resumidos e analisados aqui no blog) serão novamente cobrados na Fuvest 2023. A partir de 2024 a 2026, ocorrerá o rodízio de três obras em cada ano.

Vamos às listas??

FUVEST 2023

LIVROSAUTORES
Poemas EscolhidosGregórios de Matos
Quincas BorbaMachado de Assis
AngústiaGraciliano Ramos
Campo GeralGuimarães Rosa
Romanceiro da InconfidênciaCecília Meireles
Nove NoitesBernardo Carvalho
Terra SonâmbulaMia Couto
MensagemFernando Pessoa
Alguma PoesiaCarlos Drummond de Andrade

FUVEST 2024

LIVROSAUTORES
Quincas BorbaMachado de Assis
AngústiaGraciliano Ramos
Campo GeralGuimarães Rosa
MensagemFernando Pessoa
Alguma PoesiaCarlos Drummond de Andrade
Romanceiro da InconfidênciaCecília Meireles
Nós matamos o cão tinhoso!Luís Bernardo Honwana
Dois irmãosMilton Hatoum
Marília de DirceuTomás Antônio Gonzaga

FUVEST 2025

LIVROSAUTORES
Quincas BorbaMachado de Assis
Romanceiro da InconfidênciaCecília Meireles
Alguma PoesiaCarlos Drummond de Andrade
Nós matamos o cão tinhoso!Luís Bernardo Honwana
Dois irmãosMilton Hatoum
Marília de DirceuTomás Antônio Gonzaga
Os ratosDyonélio Machado
A Ilustre Casa de RamiresEça de Queirós
Água FundaRuth Guimarães

FUVEST 2026

LIVROSAUTORES
Nós matamos o cão tinhoso!Luís Bernardo Honwana
Dois irmãosMilton Hatoum
Marília de DirceuTomás Antônio Gonzaga
Os ratosDyonélio Machado
A Ilustre Casa de RamiresEça de Queirós
Água FundaRuth Guimarães
Primeiros CantosGonçalves Dias
Várias HistóriasMachado de Assis
Amar, Verbo IntransitivoMário de Andrade

Você vai prestar o vestibular em algum destes anos? 

Ou tem curiosidade de ler algum destes livros?

Compartilha aqui comigo nos comentários!!

Um beijo e até o próximo post!!

Felicidade Conjugal

Capa do livro publicado pela Editora 34

Última leitura feita em 2021 e devidamente favoritada, Tolstói assim como em A morte de Ivan Ilitich, não decepcionou!!

Na verdade, ouso dizer que em Felicidade Conjugal, o autor foi além, tendo em vista a apresentação de uma narrativa em primeira pessoa, pela perspectiva de uma mulher em pleno século XIX, bem como na época em que esta novela foi escrita (1859), Tolstoi ainda não era casado. 

Logo, meus caros, esse homem sabia de fato o que ele estava escrevendo, como passarei a relatar, pois ô novelinha com força de um baita de um romance/calhamaço viu?!?!

Como dito anteriormente, a história em tela é dividida em duas partes, sendo narrada por Mária, uma jovem de dezesseis / dezessete anos, no qual ainda de luto por sua mãe, ela, Kátia (sua governanta) e Sônia (sua irmã caçula) estão morando no campo. Nas primeiras páginas, nós vemos que a tristeza permeia a todas na casa e que a vida de Mária parece sem sentido.

Até que um dia, elas recebem a visita de um amigo de seu falecido pai, Sierguiéi, um vizinho da família e que devido a morte dos genitores de Mária, atua como tutor da propriedade de sua família. A pessoa de Sierguiéi para a nossa protagonista tinha uma importância especial, pois sua mãe dizia a ela que gostaria de um homem como ele para ser seu marido.

À medida que Sierguiéi as visitava no campo, Mária foi mudando o seu comportamento, como forma de amadurecimento em suas atitudes, ao tempo que a tristeza do luto ia embora e dava lugar a alegria. Além disso, nós vemos o primeiro despertar de Mária ao amor.

É lindo acompanhar o amor florescendo e sendo correspondido: “Ele não era mais um velho tio, que me acarinhara e me orientara, era uma pessoa igual a mim, que me amava e me temia e a quem eu também amava e temia.”

Nossa narradora tinha certeza do amor como sentimento, pois a vida lhe mostrava como compartilhar este amor por outras pessoas e por si mesma: “Eu sorria, rezava, chorava e amava tão ardentemente, tão apaixonadamente, nesses momentos, a todos no mundo e a mim mesma.”

E diante desse sentimento, nós tivemos a declaração de amor mais feroz, mais real e mais linda já narrada (se você gostou de Mr. Darcy com Elizabeth Bennet imagina o que você, como leitor, achará deste trecho).

No último capítulo da primeira parte, nós acompanhamos os preparativos para o casamento, os medos, anseios e a expectativa para o grande dia. A data chega e passa rápido demais para o novo casal, o que deixa Maria assustada em um primeiro momento, mas não o bastante para afastar as convicções de seu sentimento e pertencimento à Sierguiéi.

A segunda parte se inicia após dois meses de casamento, Mária relata os sentimentos ainda em alta e a rotina diária no campo. Todavia, há os primeiros apontamentos sobre a vida a dois, sobre a diferença de idade entre o casal e, principalmente, se os sentimentos vivenciados hoje perdurarão pelo resto da vida.

Além de tais questionamentos, nós acompanhamos uma mudança de cenário, sendo esta a saída do campo para São Petersburgo. É neste ponto que vislumbramos o afastamento do casal. 

Mária fica deslumbrada com a vida na cidade, com as pessoas que conhece, com os bailes e recepções. Por outro lado, temos um Serguiéi ranzinza, ciumento e contrário ao comportamento de sua esposa perante as suas obrigações conjugais e familiares.

Deste ponto, as discussões entre o casal aumentam, o que põe à prova o amor e a felicidade conjugal. Obviamente, pararei aqui com meu relato, pois quero que você dê uma chance a este livro fantástico e tenha sua própria experiência de leitura.

Sobre a minha experiência literária, só posso dizer que o autor escreve com maestria e fidedignamente os ciclos de uma relação. 

Na verdade, através deste livro, ele descreveu as várias facetas da paixão, do desejo, da desilusão com certas idealizações que temos sobre a vida a dois, bem como, a capacidade que o tempo e o diálogo possuem para dar lugar a um amor mais tranquilo, sereno e maduro.

Como casada, só posso dizer que não tem como (e nem recomendo) lutar todas as batalhas que queremos, pois é necessário aprender a ceder, a ouvir e saber ser ouvido e a falar com a melhor calma que você pode ter no momento (caso não tenha espere a poeira baixar para conversar, caso contrário, você vai falar certas coisas com o único e exclusivo objetivo de magoar o próximo). Se você conseguir isso, aí sim, você alcançará a verdadeira felicidade conjugal.

Por fim, mas não menos importante, deixo como sugestão a peça musical tocada por Mária no início e ao final do livro, denominada Sonata ao luar de Beethoven, interpretada pelo saudoso pianista brasileiro Nelson Freire. 

Posso estar viajando, mas a cadência e musicalidade do primeiro movimento desta peça combina perfeitamente com o desenvolvimento do amor entre o casal de protagonistas, Logo, reforço a leitura desta obra, bem como a sonata!!

Um beijo e até o próximo post!

Melhores leituras de 2021 (segundo eu mesma)

Imagem meramente ilustrativa, tendo em vista que algumas obras foram lidas em e-book e duas peças shakespearianas estão contidas no mesmo livro

Foram o total de vinte um livros lidos e resenhados para o blog, e claro, que não poderia faltar a seleção das obras que conquistaram o meu coração, como mostrarei a seguir:

PS: a lista abaixo, não segue um ranking, mas tão somente a minha própria experiência de leitura e o reforço da indicação destas obras para vocês!!

A morte de Ivan Ilitch: Obra prevista na lista do Projeto Reeducação do Imaginário e meu primeiro contato com a escrita do autor russo Liev Tolstói. Esta obra descreve tão bem, mas tão bem, o sentido do tempo e da morte que não tem como este autor não ganhar um fã.

Fahrenheit 451: Distopia que dispensa comentários, pois como dito na resenha deste livro para o Projeto Reeducação do Imaginário, Ray Bradbury conseguiu trazer a sua ficção, escrita na década de 1950, para a nossa realidade atual com tanta fidedignidade, que não tinha como esta obra não estar nas melhores leituras deste ano.

Grandes Esperanças: outra leitura feita para o Projeto Reeducação do Imaginário, este romance vitoriano conquistou o meu coração e um lugar especial na minha estante. A jornada de redenção moral de Pipi, escrita com maestria por Charles Dickens, é tão linda que, só me resta, mais uma vez, recomendar a leitura deste clássico.

Hamlet: leitura feita para o mês de Outubro aqui no blog e tida como uma das mais importantes peças de Shakespeare. Nesta obra, nós acompanhamos a podridão do Reino da Dinamarca, através da cobiça e ganância de um trono e de como tais sentimentos levaram a destruição deste mesmo reino. Hamlet e seus vários solilóquios que valem muito a pena serem lidos.

Terra Sonâmbula: leitura obrigatória que rolou no Projeto Fuvest neste ano, no qual através dessa iniciativa, eu pude conhecer o autor moçambicano Mia Couto, bem como a história de seu país através de duas linhas narrativas muito bem escritas, estruturadas e entrelaçadas ao final do livro. Com certeza, darei mais chances à obra do autor aqui no blog.

Édipo Rei: Tragédia grega escrita por Sófocles e lida devido a obra O Eleito de Thomas Mann. Leitura rápida e com a capacidade de te fazer ler até o fim, devido às reviravoltas que a narrativa nos apresenta. Recomendo muito a leitura, principalmente pela edição da Zahar.

Macbeth: Uma das peças mais magníficas do Bardo, também do Projeto Reeducação do Imaginário, que nos mostram até onde a loucura, a cobiça e a inveja podem levar um homem. Ademais, assim como em Édipo Rei, esta obra nos leva a importantes reflexões sobre o destino e livre arbítrio. Quer começar a ler Shakespeare? Pode iniciar por Macbeth, pois não tem erro.

1984: Livro lido em e-book, na edição lançada pela Antofágica, outra distopia que dispensa apresentações e comentários, pois George Orwell nos apresentou uma sociedade e um sistema totalitário de governo assustadores e incômodos, que mesmo assim você não consegue parar de ler.

Deserto dos tártaros: A perfeita mistura de A montanha mágica de Thomas Mann e A morte de Ivan Ilitch de Tolstói. Nesta novela, do autor italiano Dino Buzzati, nós acompanhamos o que o tempo é capaz de fazer em nossas vidas e nos leva a uma reflexão tão profunda, que este livro, bem como os demais citados já estão no meu hall de livros da vida.

Felicidade conjugal: última leitura do ano e que a resenha sairá já em janeiro de 2022. Liev Tolstói não estava para brincadeira quando escreveu esta novela e pasmem, ele ainda era solteiro e criou toda uma narrativa a partir do ponto de vista feminino em pleno século XIX. Somente leiam este livro, leiam a minha futura resenha e deixem nos comentários um agradecimento pela indicação da obra (brincadeira, mas pode deixar um comentário!! 😉).

🍾Por fim, desejo a todos um 2022 repleto de saúde, prosperidade e leituras incríveis!!🍾

Você fez a leitura de algum destes livros?? 

Quais foram os seus livros favoritos do ano?? 

Um cântico de Natal e outras histórias – Parte II

Mais um Natal sendo celebrado aqui no blog, sendo esta a segunda parte do post lançado em 2019, denominado Um cântico de Natal e outras histórias – Parte I.

Este conto foi escrito em 1843, sendo lançado antes do Natal deste mesmo ano. Charles Dickens tentou trazer através dessa narrativa o espírito natalino, há muito tempo perdido na sociedade inglesa da época, que estava mais preocupada com a Revolução Industrial a sua volta.

Logo, o autor teve a ideia de criar uma história que pudesse comover as pessoas e trazer à tona os sentimentos de empatia e solidariedade de volta. E claro, Dickens alcançou o resultado almejado e o livro foi um grande campeão de vendas.

Aliás, o conto fez tanto sucesso que as celebrações natalinas voltaram à moda, com a recuperação de diversas tradições, dentre elas as decorações das casas e ruas, os corais, as ações beneficentes e até mesmo a tradição da árvore de natal espalhada pelo mundo.

Para quem não conhece este conto mágico e fascinante, ele nos apresenta a figura de Ebenezer Scrooge, um homem velho, ríspido, avarento, insensível, e principalmente, nosso protagonista odeia o Natal.

Todavia, na véspera da celebração, ele tem uma experiência sobrenatural, a começar pela visita de seu falecido sócio Marley, que o alerta sobre as correntes forjadas com os sentimentos mais mesquinhos e egoístas que ele teve em vida e o peso dessas mesmas correntes que ele terá que carregar por toda a eternidade. 

Logo, Marley informa a Srooge que ele ainda tem chance de mudar o seu destino, razão pela qual, o nosso protagonista receberá a visita de três fantasmas, sendo eles o Fantasma dos Natais Passados, o Fantasma do Natal Presente e o Fantasma dos Natais Futuros.

Conforme a narrativa avança, nós conhecemos a trajetória que fizeram Ebenzer Scrooge ser como ele é hoje, descobrimos o que as pessoas ao seu redor pensam de fato dele, bem como as dificuldades que cada uma delas suporta, principalmente, do seu funcionário Bob Cratch.

Ademais, acompanhamos o que pode vir a ser o destino do nosso protagonista, caso ele não venha a mudar suas atitudes e seus sentimentos não somente com relação ao Natal, mas principalmente, com as pessoas ao seu redor. Obviamente, aqui eu paro com o meu relato, pois eu quero muito que você leia este conto lindo de doer!!!

Sobre a minha experiência de leitura, eu posso concluir que, a magia deste conto está em nos mostrar como até aquele momento, Scrooge mais perdeu do que ganhou, pois por mais que ele tivesse dinheiro, ele não gastava um tostão com ele mesmo, sua vida poderia ser comparada ao sinônimo de amargura e solidão, tendo em vista que no final de tudo, ele acabaria sozinho, já que ele nunca deixou ninguém ser seu amigo.

Ressalto ainda que, o conto possui uma força descomunal de nos mostrar que somos responsáveis pelo nosso caminho e, consequentemente, pelo nosso destino. Mas quando finalmente, nós conseguimos olhar a nossa vida por uma perspectiva diferente, nós descobrimos que somos capazes de mudar o nosso comportamento e enxergarmos que tal mudança vale a pena. 

O livro ainda conta com ilustrações originais feitas por John Leech, considerado um dos cartunistas mais famosos do século XX, o qual conseguiu captar a essência da história através de seus desenhos.

Trago ainda à baila, o tópico referente a tradução, para o portugês, do título da obra, sendo este apresentado ao leitor como  Uma história de Natal , Um cântico de Natal (título adotado pela Editora Martin Claret), Um conto de Natal ou Uma canção de Natal (título adotado pelo selo editorial Penguin Companhia)

Este conto foi adaptado diversas vezes para o cinema, sendo a que eu mais recomendo, a animação da Disney lançada em 2009, denominada Os fantasmas de Scrooge, disponível no streaming Disney+.

Por fim, desejo a todos os leitores deste blog, um Natal repleto de presentes como amizade, a gratidão, o amor por si mesmo e pelo próximo, a compaixão e solidariedade, assim como Ebenezer Scrooge conseguiu enxergar e por em prática até o final de sua jornada!!!

Um beijo e até o próximo post!!

Resenha de O velho e o mar

Mais um dos clássicos lido por aqui, sendo este o meu primeiro contato com a escrita do autor norte-americano Ernest Hemingway.

Capa do livro publicado pela Editora Bertrand Brasil

A novela em tela foi publicada em 1952, período em que o autor morava em Cuba, sendo esta sua última obra publicada em vida. Ressalto também que, este livro rendeu a Hemingway os Prêmios Pulitzer em 1953 e o Nobel de Literatura em 1954.

Por ser dono de uma escrita direta, simples e fluída, esta obra é facilmente indicada para o leitor que deseja livros rápidos de serem lidos (em um final de semana você consegue perfeitamente concluir esta leitura). 

Ademais, o livro conta com um enredo bem simples, mas com passagens muito bonitas, que te fazem refletir sobre a forma que encaramos a própria vida. E sobre o que fala o enredo então? Bom, nós acompanhamos o octogésimo quinto dia em diante, de pescaria do nosso protagonista Santiago. 

Sim, é um dia específico na vida do pescador, pois o mesmo está sem pescar um peixe sequer a oitenta e quatro dias. Todavia, segundo o próprio Santiago, sua sorte mudará a partir deste dia, pois conseguirá reverter a situação (a maré de azar), em que se encontra (“Cada dia é um novo dia. É melhor ter sorte. Mas eu prefiro fazer as coisas sempre bem. Então, se a sorte me sorrir, estou preparado”).

Durante os preparativos, nós conhecemos a vida do próprio Santiago em terra, sendo esta a de um senhor muito velhinho (“tudo o nele existia era velho, com exceção dos olhos que eram da cor do mar, alegres e indomáveis”), que mora sozinho em uma casa simples e com quase nada nela, sendo até mesmo a “sua cama” feita de uma pilha de jornais velhos.

O pescador também conta com a ajuda e a amizade do aprendiz Mandolin, um menino que trabalhava com ele no barco, mas que devido a falta de peixes, os pais o fizeram abandonar o trabalho com Santiago para ir trabalhar com outro pescador.

Apesar do ocorrido, Mandolin nunca abandonou Santiago, sendo que o menino sempre o ajudava quando podia, bem como buscava comida para ele em um quiosque conhecido  para ele ter com o que se alimentar e também falava com ele sobre beisebol, um dos esportes favoritos de Santiago, bem como do maior jogador de sua época, Joe Dimaggio.

Saliento aqui que, a forma como Mandolin se preocupa e é prestativo com Santiago é tocante, pois os dois não possuem nenhum laço familiar, mas tal amizade é tão única e verdadeira, que nenhuma diferença de idade é capaz de desfazer.

Voltando ao octogésimo quinto dia, o barco já está preparado e o nosso pescador está a postos para o grande dia da sua sorte sorrir ao seu favor. E não é que ele consegue pegar um peixe mesmo?

Neste dia, Santiago consegue pegar um peixe enorme, o maior já pescado em sua vida (não é história de pescador), mas a batalha entre os dois não é nada fácil, após dias de luta entre o peixe e Santiago, o pescador consegue enfiar seu arpão no peixe que vem a morrer. 

O animal era tão grande, que por estar sozinho, Santiago não consegue colocá-lo para dentro do barco, sendo obrigado a amarrá-lo por fora dele. Todavia, durante o retorno à costa, Santiago tem que lidar com o sol a pino, com suas feridas, bem como com os terrores do próprio mar, sendo neste caso, tubarões que tentam a qualquer custo atacar o peixe.

E aqui eu paro com minha experiência literária, a fim de que você, leitor, possa ter a sua e saber o desfecho desta história. Mas, deixo aqui abaixo, algumas citações do livro, a fim de aguçar a sua curiosidade:

“Mas o homem não foi feito para a derrota – disse em voz alta. – Um homem pode ser destruído, mas nunca derrotado.”

“É uma estupidez não ter esperança, pensou. Além disso acho que é um pecado perder a esperança. Mas não devo pensar em pecados. Já tenho problemas demais para começar a pensar em pecados. Para dizer a verdade, também não compreendo bem o que são os pecados.”

“A sorte é uma coisa que vem de muitas formas, e quem é que pode reconhecê-la?”

Também trago a baila algumas ilustrações presentes no livro, que ajudam a nós leitores contextualizarmos o enredo da obra:

Por fim, eu confesso que não é o meu livro favorito da vida, porém, tal fato não foi capaz de me impediu de admirar esta narrativa permeada de pensamentos, reflexões, solidão, luta pela sobrevivência (do peixe, do homem – representado por Santiago e da própria natureza) e a necessidade de nos mantermos perseverantes para enfrentarmos os desafios que encontramos no decorrer da nossa jornada.


Um beijo e até o próximo post!

Resenha da obra Demian

Capa do livro publicado pela Editora Record

Décimo nono livro do Projeto Reeducação do Imaginário que eu leio, e o primeiro que foca de forma mais densa em questões filosóficas, religiosas e a busca do ser humano, independente da fase em que se encontra da vida, pelo autoconhecimento.

SOBRE O AUTOR

Hermann Hesse nasceu em 02 de julho de 1877 na cidade de Wurtemberg, localizada no sudoeste da Alemanha. O autor descende de uma família suábia e de cunho estritamente religioso, tendo em vista seu pai ser um grande historiador religioso e sua mãe filha de um missionário. 

Diante de sua criação, a vida do autor era destinada à carreira eclesiástica, sendo educado em quatro seminários. Já jovem, trabalhou como aprendiz de relojoeiro e, mais tarde, auxiliar de livraria. Desde os 13 anos, o autor já escrevia poesia e o contato com o mundo livreiro lhe proporcionou a possibilidade de publicar em 1899 seu primeiro livro, denominado Cantos Românticos.

Em 1911 realizou a sua primeira viagem à Índia, local de nascimento de sua mãe, à procura do autoconhecimento. Em 1923, adotou a cidadania suíça e lá viveu até o seu falecimento em 1962, aos 85 anos de idade. 

Também foi na Suíça, que o autor veio a escrever O jogo das contas de vidro, livro este considerado por muitos como sua obra prima. Em 1946, o autor recebeu o Nobel de Literatura pelo conjunto de sua obra. 

SOBRE A OBRA

Escrito em 1919, ou seja, logo após a Primeira Guerra Mundial, Demian é considerado o livro que deu um grande destaque ao autor e seus escritos, bem como considerado um dos grandes livros representantes da juventude alemã daquela época.

Sobre a repercussão de Demian, trago um trecho do livro A História da Literatura Ocidental de Otto Maria Carpeaux – volume IV, página 2460:

“O Hesse de Demian é, no fundo, o mesmo adolescente de 1900; apenas, a religiosidade recalcada é agora fervor místico que se refere a Dostoievski. O romantismo converteu-se em anarquismo político de acentos humanitários, a revolta do adolescente perpétuo em profecia apocalíptica de tabula rasa: para que assuma o poder político e espiritual a nova juventude do mundo. A mocidade expressionista recebeu Demian com a mais profunda gratidão, como mensagem de saúde espiritual depois da doença da guerra.”

Demian pode ser vista como uma obra com enfoque psicanalítico da doutrina de Freud, o qual Herman Hesse era um grande estudioso, bem como, a sua abordagem se volta para a figura do protagonista Emil Sinclair em busca de uma visão mais ampla do mundo, através do rompimento com o passado e as tradições ligadas a ele, bem como com a desvinculação da zona de conforto para a busca da própria razão de ser e de existir.

O livro nos apresenta a existência de dois mundos, o denominado mundo luminoso e ideal, no qual o nosso protagonista está inserido desde a infância, até o inevitável aparecimento do denominado mundo sombrio e real, no qual ele passará a adentrar, a fim de encontrar as respostas que tanto anseia sobre si mesmo.

Há um trecho no posfácio escrito pelo tradutor Ivo Barroso que descreve muito bem sobre o que a obra se trata:

E ainda mais que uma história ou romance de educação é o relato de um processo de ‘deseducação’, ou preferindo-se, de ‘reeducação’, de laborioso apagar das pegadas que o puritanismo educacional deixa impressas na alma adolescente: a timidez, a humildade, o alheamento – e que conduzem, mais tarde, inapelavelmente à solidão e à inadaptabilidade, à surda revolta e ao amargo constrangimento.

SOBRE O ENREDO

O livro, narrado em primeira pessoa pelo nosso protagonista já adulto chamado Emil Sinclair, contará a sua história desde a infância até o início da vida adulta, com seu alistamento para a Guerra (me lembrei na hora de Hans Castorp em A Montanha Mágica, que ao final do romance também vai para Guerra).  

Quando criança, Emil foi criado, por seus pais e irmãs, em um ambiente seguro e longe das vicissitudes da vida. Até que se vê em um mundo bem diferente daquele até então conhecido.

Tudo começa a mudar devido a uma mentira para levar vantagem sobre um ato não cometido. Tal mentira é contada por nosso protagonista em um grupo de amigos que retornava da escola para suas casas. Todavia, o que Emil não tinha noção, era que essa mentira poderia o levar a arcar com consequências muito sérias. 

No ápice da tortura psicológica sofrida em razão de sua conduta (aqui, eu confesso que já estava sofrendo com a angústia que este menino estava sentindo), Emil conhece a figura enigmática de Max Demian. Um menino mais velho que nosso narrador, mas apesar da idade, o mesmo possuía uma sabedoria e maturidade muito difícil de encontrar em uma criança qualquer (em alguns casos até mesmo em adultos).

Demian resolve o dilema vivido pelo nosso protagonista (não sabemos como), e a partir daí, nós conseguimos enxergar em Demian um mentor e até mesmo a figura de um protetor para Emil, não só neste episódio, mas em vários momentos de sua vida, principalmente, nos que mais Emil precisa de ajuda para enxergar determinada situação por uma perspectiva diferente. 

Nota-se, portanto, que é profunda a conexão existente entre Emil e Demian, independentemente da distância que os dois terão em vários momentos da vida. Pois quando eles se encontram é como se não houvesse lapso temporal que os tivesse separado ou até mesmo que diminuísse tal conexão. Logo, Demian é a figura que vai ajudar Emil na formação de seu caráter.

Até mesmo durante este distanciamento entre Demian e Emil, nosso protagonista encontra em outra personagem chamada Pistórius (músico/organista na Igreja local), a figura de um mentor, isto é, a pessoa necessária para ajudar Emil em sua jornada e na sua busca por si mesmo através da religião.

Aproveito o ensejo e saliento que, nesta obra, nós encontramos a discussão de questões religiosas bem interessantes, envolvendo o misticismo e o cristianismo, como é o caso do Deus Abraxas, caracterizado como a figura de um pássaro se libertando do ovo.

Tal divindade nos mostra a dualidade existente no mundo, na qual o bem e o mal caminham juntos e até dentro de nós mesmos (tema este abordado de forma diferente em O médico e o monstro, de Stevenson).

Ademais, há a personagem de Eva, mãe de Demian, inicialmente idealizada por Sinclair em desenhos e visões, depois vista pessoalmente.

Obviamente, pararei por aqui para que você, caro leitor, tenha sua própria experiência literária com esta obra surpreendente.

SOBRE MINHA EXPERIÊNCIA DE LEITURA E A INDICAÇÃO AO PROJETO

Inicialmente, não julgue este livro pelo número de páginas nele contido, pois apesar de curto, ele é de um complexidade gritante e totalmente capaz de te tirar da sua zona de conforto.

Ressalto aqui um trecho muito bem elucidado pelo tradutor Ivo Barroso, no qual, é feito o cotejo da vida do autor e o enredo da obra: 

“De posse desses elementos, fácil nos é perceber quanto às figuras de Sinclair, Demian e Pistórius encerram do próprio Hesse, não passando de sínteses ou projeções de suas vivências. Sinclair, mais do que todos, é o êmulo real do autor: a mesma infância, o mesmo ambiente parental, a mesma inadaptabilidade ao mundo cotidiano. Demian será talvez o Hesse ideal, o que gostaria de ter sido, decisivo, homem do destino, marcado pelo sinal de Caim. Também Pistórius é um heterônimo de Hesse, organista na vida real, filho de teólogo, guia de outrem mas incapaz de encontrar o próprio caminho. Tudo indica, ainda, ter servido para o vigoroso retrato de Eva a significativa figura da própria mãe do poeta.”

Acredito que a indicação deste livro ao Projeto Reeducação do Imaginário seja apoiada na reflexão que a obra nos levar a enxergar sobre esse mundo louco em que vivemos e as incontáveis tarefas diárias que temos, as quais nos impedem de olhar para dentro de nós e nos questionar sobre as nossas atitudes e sobre o rumo da nossa própria vida. 

Por fim, indico um vídeo no Youtube do Café Literário sobre Demian através da análise literária e psicanalítica da obra.

Um beijo e até o próximo post!

Fahrenheit 451

Mais um livro do Projeto Reeducação do Imaginário concluído com sucesso e o segundo livro da famosa trilogia distópica que eu leio!

Capa do livro publicado pela Editora Biblioteca Azul

SOBRE A EDIÇÃO

A edição pela qual eu fiz a minha leitura foi lançada em 2020 pela Editora Biblioteca Azul com tradução de Cid Knipel, com textos de apoio de Neil Gaiman, Jonathan R. Eller, Margaret Atwood e François Truffaut, bem como com uma galeria de capas do livro de várias partes do mundo.

Caso você queira um exemplar da obra para chamar de seu, eu aconselho a compra desta edição em tela, pois o trabalho desenvolvido pela Editora foi primoroso e vale a pena ter na estante.

SOBRE A OBRA E SOBRE O AUTOR 

Em meados de 1944, Ray Douglas Bradbury leu O zero e o infinito, de Arthur Koestler, sendo a leitura deste livro o ponto de partida de sua carreira, mas demoraria nove anos para que nós, leitores, soubessemos sobre a temperatura em que o papel pega fogo.

A obra em tela foi concebida a partir de cinco contos (A fogueira, Fênix Brilhante, Os Exilados, Usher II e O Pedestre ), escritos ao longo de dois a três anos. Foi através destes escritos que o autor investiu $9.50 para alugar uma máquina de escrever numa sala subterrânea de datilografia da UCLA. 

Em 1950, o livro ganhou forma em apenas nove dias, ganhando o nome inicialmente de O Bombeiro. Para ilustrar esta experiência de escrita, segue abaixo a citação do próprio  autor sobre a obra:

“Não escrevi Fahrenheit 451 – o livro me escreveu. Existia um ciclo de energia saindo da página, entrando pelos meus olhos, percorrendo o meu sistema nervoso e saindo pelas minhas mãos. A máquina de escrever e eu éramos gêmeos siameses, conectados pelas pontas dos dedos.”

Com a versão revisada, o agente literário do autor, Don Congdon começou a apresentar a novela para as editoras. As grandes editoras da época, não se interessaram pelo escrito, até que a revista recém-inaugurada Galaxy Science Fiction expressou seu interesse na obra e a revista Playboy publicou O Bombeiro nas edições dois, três e quatro. Somente em 1953, o autor fechou um contrato para a publicação da obra em formato de livro com a Editora Ballantine Books.

O livro teve como seu primeiro título conhecido por Fahrenheit 270, seguido de Fahrenheit 204 e Fahrenheit 205. No dia 22 de janeiro, depois de uma sequência infrutífera de ligações telefônicas de Bradbury para departamentos de física e química de várias Universidades, uma única ligação para o Corpo de Bombeiros de Los Angeles revelou que o ponto de combustão do papel acontece aos 451 graus Fahrenheit, sendo este o nome que prevaleceu para o livro.

A obra Fahrenheit 451 não se tornou campeã de vendas, mas as críticas foram bem favoráveis. Todavia, em 1960 a obra foi silenciosamente modificada, a fim de que o livro tivesse a aprovação de comitês escolares como leitura de sala de aula. Uma edição especial pelo selo Bal-Hi, impressa pela primeira vez em 1967, manteve a composição tipográfica da primeira edição, mas o texto foi alterado em quase cem pontos para remover profanidades e referências à sexualidade, bebidas, uso de drogas e nudez. 

Essa versão não foi feita com a intenção de substituir as edições de brochura vendidas nas livrarias, mas, no começo de 1973, o texto censurado foi transferido acidentalmente para impressões sucessivas do livro comercializado. Assim, alguns estudantes notaram a diferença entre o texto lido na escola e os exemplares mais antigos e comunicaram Ray Bradbury sobre o fato. Logo, desde 1979, uma nova composição tipográfica do texto foi restaurada e somente desta que o livro foi impresso.

Por fim, a obra foi adaptada para o cinema em 1966 por François Truffaut (há um texto de apoio do cineasta na edição em comento), versão encontrada com facilidade no Youtube. Em 2018, ganhou uma nova versão disponível pela HBO Max ( da qual eu não gostei tanto assim).

SOBRE O ENREDO

Na obra, acompanhamos nosso protagonista Guy Montag, um bombeiro que não combate incêndios, como estamos acostumados a ver em “nosso mundo”. Na verdade, ele incita o fogo através da queima dos livros tidos como proibidos pela sociedade, na qual ele se encontra inserido. É desta atividade de bombeiro, que advém o nome da obra, ou seja, Fahrenheit 451 é a temperatura da queima do papel (233°C).

Mas quais livros eles queimam? Todos eles, principalmente os clássicos que são citados durante a narrativa, principalmente entre as personagens Montag e o Capitão Beatty:

“Os negros não gostam de Little Black Sambo, Queime-o. Os brancos não se sentem bem em relação à Cabana do pai Tomás. Queime-o. Alguém escreveu um livro sobre o fumo e o câncer de pulmão? As pessoas que fumam lamentam? Queimemos o livro. Serenidade, Montag. Paz, Montag. Leve sua briga lá para fora. Melhor ainda para o incinerador. Os enterros são tristes e pagãos? Elimine-os também. Cinco minutos depois que uma pessoa morreu, ela está a caminho do Grande Crematório, os incineradores atendidos por helicópteros em todo o país. Dez minutos depois da morte, um homem é um grão de poeira negra. Não vamos ficar arengando os in memoriam para os indivíduos. Esqueça-os. Queime tudo, queime tudo. O fogo é luminoso e o fogo é limpo.”

Todavia, Montag tem seus pensamentos transformados ao conhecer sua vizinha Clarisse McClellan, uma adolescente totalmente diferente (e quando eu digo totalmente é totalmente mesmo), de sua esposa Mildred. 

A garota é extrovertida, falante e questionadora, Montag acha a menina louca inicialmente, mais instigante a ponto de fazê-lo questionar sobre a sua própria vida, como por exemplo, a sua felicidade conjugal, seu trabalho e, principalmente, sobre o seu próprio senso crítico.

Cumpre frisar, que há uma guerra acontecendo ao redor de tal sociedade, mas as pessoas simplesmente ignoram tudo o que está ao seu redor. Aqui o ignorar é no sentido de não se importarem com o que está acontecendo (totalmente alienados). Como se tal informação não passa na TV, então ela não é importante.

Com este despertar, Montag se depara com uma profissão que, até então era a coisa mais certa da sua vida, mas que agora é vista sem mérito algum; depara-se também em um casamento distante e vazio, ao ponto de não se lembrar como eles se conheceram ou se realmente se amaram algum dia.

E aqui, eu comento de outra característica despertada em Montag, a curiosidade em descobrir o motivo pelo qual os livros são queimados. É neste momento que nosso protagonista questiona o conteúdo dos livros por ele incinerados.

Como esta mudança de pensamento, Montag se torna uma ameaça a própria Corporação, sendo por ela caçado como fugitivo e criminoso. E aqui, eu encerro este tópico da minha resenha, para que você mesmo tenha a sua experiência literária.

SOBRE A INDICAÇÃO DO LIVRO AO PROJETO E MINHA EXPERIÊNCIA DE LEITURA

Mais um livro clássico e atemporal lido neste projeto. A forma com que a ficção se assemelha a nossa realidade é gritante e assustadora ao mesmo tempo, no sentido de que somos uma sociedade que pouco lê e cada vez menos nos interessamos pelo conhecimento da literatura.

Vemos que a televisão e redes sociais estão cada vez mais engolindo o interesse pelo conhecimento, o que podemos verificar pela quantidade de reality shows tanto na TV aberta quanto em serviços de streaming. 

Até mesmo, a “necessidade de consumo” de um determinado produto ou marca divulgado por artistas ou até influenciadores digitais, como se tal coisa fosse a causa determinante de nossa felicidade. Nota-se, portanto, que a televisão, redes sociais, bem como as pessoas podem ser vistas como caixas de fósforo prontas para incendiar o nosso conhecimento. 

Mas você está mandando eu parar de ver TV ou de ter rede social? 

Primeiro, ninguém é obrigado a fazer ou a deixar de fazer, senão em virtude da lei. Em segundo, eu não condeno nenhum meio de comunicação, mas sim a falta de senso crítico, como uma forma de alienação, que a nossa sociedade como um todo vem deixando de lado com o passar do tempo.

Trago a baila um trecho do texto de apoio contido nesta edição, escrito pelo autor Neil Gaiman, o qual ilustra perfeitamente, o significado dos livros, bem como da educação do nosso imaginário:

“A ficção nos dá empatia: ela nos coloca na mente de outras pessoas, nos dá a capacidade de ver o mundo através de seus olhos. A ficção é uma mentira que nos diz verdades repetidas vezes.”

Por fim, se eu pudesse dar um conselho para sua vida, meu caro leitor, seria continuar lendo, continuar aprendendo e sendo curioso, pois tais hábitos nunca poderão ser tirados de você e sempre servirão para moldar a sua opinião e senso crítico do mundo ao seu redor.

Um beijo e até o próximo post!!

Resenha: Grandes Esperanças de Charles Dickens

Décimo primeiro livro da lista do Projeto Reeducação do Imaginário, o qual conquistou de imediato meu coração com sua narrativa real e fiel aos pensamentos do nosso protagonista, e eu espero que venha conquistar um lugar também em seu coração, como vou mostrar a seguir.

SOBRE O AUTOR

Charles John Huffman Dickens nasceu em Portsmouth em sete de fevereiro de 1812, sendo o mais velho de oito filhos. O autor teve seus estudos interrompidos (1824), devido às dívidas contraídas por seu pai, o qual foi preso devido a estas pendências. Logo, o ainda menino Charles, teve que arranjar um emprego para ajudar nas despesas domésticas, sendo seu primeiro trabalho em uma fábrica de graxa para sapatos, colando rótulos nos vidros.

Dickens retomou seus estudos em 1825 – 1827 e neste ano, conseguiu um emprego em um escritório de advocacia (o que me lembrou muito do Sr. Jaggers e de seu empregado Wemmick, personagens da obra em tela). 

Já em 1831, o autor inicia seu trabalho como repórter parlamentar e conhece seu primeiro amor, Maria Beadnell. O que aconteceu para os dois não ficarem juntos, eu não sei, mas em 1836, Dickens se casa com Catherine Hogarth, com a qual tem dez filhos. O episódio da separação de Charles de seu grande amor, Maria Beadnell, é visto por muitos estudiosos de sua obra, presente em algumas de suas narrativas, sendo ela em Grandes Esperanças, na figura de Pip e Estella, bem como em um Conto de Natal.

Em nove de junho de 1870, Charles Dickens vem a falecer, após um derrame, aos cinquenta e oito anos de idade. Seu corpo está enterrado na Abadia de Westminster, ao lado de outros grandes nomes da literatura inglesa.

SOBRE A OBRA

Fiz a leitura de Grandes Esperanças através do livro publicado pela Penguim Companhia, considerado por muitos como uma das melhores traduções da obra para o português (feita por Paulo Henriques Britto, nesta edição)

Ademais, o livro conta com introdução e notas dos professores da University College London, David Trotter e Charlotte Mitchell, respectivamente. Ressalto que os textos de apoio ajudam e muito a compreender o contexto histórico e cultural, no qual a obra está inserida, bem como levantam questões pertinentes acerca da visão das personagens centrais do romance em tela.

Deixo como complemento a experiência literária de Grandes Esperanças, o vídeo da Univesp do Professor Daniel Puglia sobre a obra. 

Por fim, ainda no Youtube, nós encontramos com facilidade a versão cinematográfica de Grandes Esperanças de 1946.

SOBRE O ENREDO

A obra é dividida em três volumes: sendo o primeiro sobre a infância, o segundo da juventude e o último sobre a fase adulta da vida de nosso protagonista e narrador Philip Pirrip, mais conhecido por Pip.

No primeiro volume, nós conhecemos a real condição de Pip, ou seja, a de um menino de origem humilde, órfão, e por isso vem a ser criado “com a mão” pela irmã, denominada somente como Sra. Joe e por seu cunhado (e grande amigo), o ferreiro Joe, cuja morada da família está localizada em uma região rural da Inglaterra, denominada no romance como charcos.

A realidade conhecida por Pip era de que o mesmo era considerado um estorvo para a irmã, sendo ele considerado pela Sra. Joe o culpado pela vida que ela leva, bem como considerado um fracassado desde pequeno. Em contrapartida, o cunhado de Pip, o ferreiro Joe, pode ser visto como uma figura paterna para o menino.

Ainda sobre a realidade de Pip, esta rotina é mudada de cabeça para baixo, quando em uma visita ao túmulo dos pais no cemitério local, o menino é abordado por um homem foragido. Pip assustado e temendo pela própria vida, tem que obedecer ao que o forçado pede, sendo uma lima para conseguir se livrar dos grilhões, aos quais está preso, bem como comida, tendo em vista que o homem estava sem comer a dias.

Pip, temendo por sua vida – parte II, consegue reunir tudo o que o homem pediu, inclusive o pastel assado pela irmã para o Natal e os  entrega ao forçado, que no momento consegue reconhecer a bondade existente no menino e muda, um pouco, seu modo ser com Pip.

Conforme a narrativa do primeiro volume evolui, nós acompanhamos o aprendizado do menino a ler e escrever, onde conhecemos Biddy, uma jovem muito perspicaz que o ensina nesta tarefa e mais tarde se torna professora na região. Conhecemos também, os lugares deste vilarejo, como o Javali Azul e a figura do Sr. Pumblechook, o senhor, dono de uma mercearia que adora meter o bedelho na vida dos outros e principalmente na de Pip.

É através da figura do Sr. Pumblechook, que Pip vem a ser chamado para brincar na Casa Satis, um casarão (ou mausoléu), cuja propriedade pertence à Sra. Havisham, uma mulher um tanto excêntrica, que possui uma filha adotiva chamada Estella.

Nesta ocasião, Pip tem outro momento de conhecimento de sua própria realidade. Estella, o humilha já no primeiro dia de convívio, o diminuindo por causa de suas roupas e seu modo de ser. Enquanto, Pip com vergonha do que é, acaba aos poucos se apaixonando pela menina.

Sobre a Casa Satis, a propriedade que outrora deveria ter sido muito próspera, no momento da narrativa, nós somos apresentados a um local que parou no tempo e um momento muito específico do tempo, qual seja, o dia do quase casamento da Sra. Havisham.

A mulher foi largada no altar e desde então não tira seu vestido de noiva do corpo e mantém da mesma forma o salão, onde aconteceria a recepção de suas bodas, com o bolo de casamento podre e comido por ratos, bem como a decoração do ambiente e até mesmo os relógios do local marcam a mesma hora (08h40), como se o tempo naquele lugar não pudesse avançar.

Por ter sido maltratada pelo homem que ela amou, a Sra. Havisham, cria Estella para ser uma lady, cuja tarefa é a de aprender a se vingar  e menosprezar os homens ao seu redor. Com a evolução da narrativa, nós vemos que Estella, aprendeu direitinho tais ensinamentos e no lugar do coração, havia um vazio irreparável.

Ao final do primeiro volume, nós tomamos conhecimento de que Pip, vem a receber uma herança robusta, a fim de que o mesmo venha a se tornar um cavalheiro em Londres. A notícia sobre tal renda é dada por um advogado, sendo este o Sr. Jaggers que será o responsável pela herança de Pip, até o menino completar vinte e um anos.

Todavia, em nenhum momento, a identidade de seu benfeitor ou benfeitora é divulgada ao jovem, o que o faz acreditar que esta pessoa venha a ser a Sra. Havisham, tendo como motivo a preparação do jovem em meio a sociedade londrina, para que ao se tornar um cavalheiro, venha desposar Estella

No segundo volume, Pip é um jovem que está aprendendo a se tornar um cavalheiro, todavia, ao se ver com uma quantia considerável de dinheiro, não consegue gastá-lo de forma sábia. Logo, nós acompanhamos os erros e equívocos do jovem para com a sua fortuna e seu egoísmo ao tentar a todo custo renegar o seu passado.

 Aqui cito a passagem do ferreiro Joe em Londres, o qual gostaria de se encontrar com Pip e o jovem nos relata que seu pensamento era de que se houvesse uma quantia a ser dada a Joe, ele a daria, somente para não ter que vê-lo pessoalmente. Concluímos, assim que o dinheiro herdado não transformou Pip em um cavalheiro, mas sim, em um jovem egoísta, calculista e ingrato com quem tanto o amava.

Já no final deste volume, nós tomamos o conhecimento de quem vem a ser o benfeitor do jovem e como brilhantemente, o autor consegue quebrar a cara do nosso protagonista com tal revelação. 

E aqui, eu paro com a minha narrativa, pois eu espero que você queira muito descobrir, com a leitura do terceiro volume, de quem vem a ser, de fato, o benfeitor de Pip, o que ele vem a fazer com tal informação, a ascensão e queda social do jovem em Londres, e a sua jornada não para se tornar um cavalheiro, mas sim,  a dura jornada para se tornar um homem íntegro.

INDICAÇÃO DA OBRA AO PROJETO REEDUCAÇÃO DO IMAGINÁRIO

Até o momento, foi o melhor livro do projeto que eu li, pois a forma que o autor conseguiu mostrar, através da narrativa em primeira pessoa, o sentimento de resignação ao passado do protagonista, sua culpa, seu arrependimento e o caminho da redenção de forma tão real que Pip e as demais personagens ocuparão um lugar precioso na minha estante e no meu coração.

Espero que nós, como leitores, tenhamos sempre em mente que a vida não é composta de condição social e aquisição de bens, mas que ela compreende algo valioso, sendo estes, a amizade, a solidariedade, a humildade e a nossa busca por uma versão melhor de nós mesmos.

Espero muito que você dê uma chance ao autor e se surpreenda e se emocione com o desfecho das grandes esperanças de Pip!

Um beijo e até o próximo post!

Resenha de Hamlet de William Shakespeare

Há algo de podre no reino da Dinamarca… é com esta célebre frase, que adentramos na história de Hamlet, escrita por William Shakespeare em 1601. Nesta época o autor contava com 36 anos de idade e treze anos de carreira. 

É a peça mais longa escrita pelo dramaturgo, com precisamente 3.880 linhas dispostas em 05 atos, o que dificulta a sua interpretação teatral na íntegra, mas não impede, nós leitores, de contemplarmos este grande clássico!

O início da peça se passa no turno da noite no Castelo de Elsinore, sendo esta a morada dos Reis da Dinamarca. O castelo está sendo protegido, pois em vida, o Rei Hamlet matou o Rei da Noruega, sendo este Fórtimbras. Logo, para vingar a morte do Rei, seu filho, que também se chama Fórtimbras, busca vingança através da invasão da Dinamarca. 

Feita a observação acima, voltamos ao início da peça. Os sentinelas tentam convencer Horácio, amigo do Príncipe Hamlet, que eles têm visto o fantasma do rei morto. De início, Horácio não acredita em uma palavra desse papo de fantasma. Mas, o rapaz mudou completamente de opinião, ao ver ele mesmo o fantasma do Rei Hamlet, de armadura e tudo, olhando para eles.

Depois do encontro acima narrado, Horário informa ao Hamlet sobre o ocorrido e com quem a aparição se parecia, fazendo com que o Príncipe fosse vê-lo com seus próprios olhos. À noite, o Fantasma apareceu novamente e quis falar com Hamlet em particular. O rapaz, impressionado com tal situação, seguiu o fantasma, o qual revelou que Cláudio (tio do Príncipe Hamlet e irmão do Rei Hamlet) o matou com um frasco de veneno despejado em seu ouvido durante uma sesta no jardim do castelo.

Diante deste falecimento precoce e da traição imperdoável, o Fantasma exige que Hamlet vingue sua morte. Logo, o Príncipe assume o compromisso de vingança e traça como plano fingir-se de louco para apurar os fatos relatados pelo fantasma e pensar (que é o que Hamlet mais faz), na estratégia de vingança.

Todavia, ao fazer-se de louco, as pessoas ao seu redor começaram a estranhar o seu comportamento, muitos achavam que era pelo luto profundo pela morte do pai, outros pelo casamento express de seu Tio Cláudio com sua mãe Gertrudes (a rainha viúva do Rei Hamlet que se casou com o cunhado) e até mesmo que Hamlet sofria de amor por Ofélia.

Sobre Ofélia, a qual Hamlet amava, era filha de Polônio, conselheiro-chefe de Cláudio e irmã de  Laertes, o qual está partindo para a França, a fim de retornar aos estudos na Universidade de Paris. 

Nem seu pai e nem seu irmão acreditam que Hamlet nutra sentimentos pela moça, fazendo o alerta a Ofélia para esquecê-lo o quanto antes. Aqui trago um trecho da peça que narra o conselho de Laertes: 

“Quanto a Hamlet, e às suas gentilezas,

Deves tomá-las por brinquedo ou farsa;

Uma flor da primeira juventude,

Ardente, não fiel; doce e não firme,

O perfume e a brandura de um minuto,

Não mais.” 

Inicialmente, Ofélia não estava disposta a esquecer Hamlet, pois ela sabia de seus sentimentos por ele e que a recíproca era verdadeira. Mas a moça ficou preocupada com o comportamento atual do Príncipe, o qual insiste com a amada para que ingresse em um convento, pois ele não nutre sentimentos por ela. 

É durante este encontro entre Hamlet e Ofélia que nós temos o mais famoso dos solilóquios da literatura:

Ser ou não ser, essa é que é a questão:

Será mais nobre suportar na mente

As flechadas da trágica fortuna,

Ou tomar armas contra um mar de escolhos

E, enfrentando-os, vencer? Morrer – dormir,

Nada mais; e dizer que pelo sono

Findam-se as dores, como os mil abalos

Inerentes à carne – é a conclusão

Que devemos buscar. Morrer – dormir;

Dormir, talvez sonhar – eis o problema:

Pois os sonhos que vierem nesse sono

De morte, uma vez livres destes invólucro

Mortal, fazem cismar. Esse é o motivo

Que prolonga a desdita desta vida.

Quem suportara os golpes do destino,

Os erros do opressor, o escárnio alheio,

A ingratidão no amor, a lei tardia,

O orgulho dos que mandam, o desprezo

Que a paciência atura dos indignos,

Quando podia procurar repouso

Na ponta de um punhal? Quem carregara

Suando o fardo da pesada vida

Se o medo do que vem depois da morte

O país ignorado de onde nunca

Ninguém voltou – não nos turbasse a mente

E nos fizesse arcar co’o mal que temos

Em vez de voar para esse, que ignoramos?

Assim nossa consciência se acovarda,

E o instinto que inspira as decisões

Desmaia no indeciso pensamento,

E as empresas supremas e oportunas

Desviam-se do fio da corrente

E não são mais ação. Silêncio agora!

A bela Ofélia! Ninfa, em tuas preces

Recorda os meus pecados.”

Ainda buscando indícios da autoria do crime contra seu pai, Hamlet pede à companhia de teatro itinerante que está na região para encenar uma peça, cuja narrativa seria a morte de um rei, cujo falecimento foi causado por um parente próximo. A ideia de Hamlet era que, caso Cláudio ficasse indiferente à apresentação teatral, o fantasma estaria mentindo, mas se ele viesse a se incomodar com a representação, ele saberia que seu tio era culpado.

Quando o homicídio é encenado, Cláudio fica pistola e diz “Parem a peça!”, ato que Hamlet interpreta como prova de sua culpabilidade. 

Obviamente, Gertrudes não gostou nada da apresentação teatral, bem como não gostou nada de como seu marido, o rei, ficou abalado com a encenação. Logo, ela resolveu chamar Hamlet para uma conversinha particular, aquela de mãe para filho. 

Claro, que Gertrudes é orientada por Polônio sobre o rumo que tal conversa tem que tomar e o mesmo ficará no mesmo recinto que eles (atrás das cortinas), a fim de espiar o rumo do diálogo.

Durante seu deslocamento aos aposentos de sua mãe, Hamlet vê Cláudio rezando, distraído. Nesta cena, eu e o mundo achamos que seria a oportunidade perfeita para Hamlet concretizar a sua vingança e matar o seu tio. 

Contudo, o que Hamlet fez??? Ele pensou e muito, pois caso ele matasse Cláudio agora, no momento de seu diálogo com o Divino, seu tio iria diretamente para Paraíso, caso viesse a falecer. Diante disto, Hamlet não matou Claudio, tendo em vista que seu pai não teve a oportunidade de se confessar e ir para o céu (lembrando que o espírito está vagueando por aí, lutando para vingar a sua morte).

Em virtude deste pensamento, Hamlet seguiu seu percurso ao quarto de sua mãe. A conversa entre os dois não foi nada agradável, já que Hamlet jogou umas verdades na cara de Gertrudes, principalmente, com relação ao seu casamento apressado com seu Tio Claudio, o que ele considerava um incesto. 

Hamlet percebe um movimento atrás das cortinas e achando que seria Claudio de tocaia, pega a sua espada e dá um golpe acertando o seu suposto rival. Mas, quem acaba morto é Polônio. Nesta cena, o Fantasma do Rei Hamlet aparece para o príncipe e continua a pedir vingança por sua morte.

Claudio, o usurpador, vendo que Hamlet matou Polônio e temendo por sua própria cabeça,  manda o Príncipe à Inglaterra, acompanhado e vigiado por Rosencrantz e Guildenstern (amigos da onça, diga-se de passagem, de Hamlet), com o pretexto de acalmar os ânimos do jovem. 

Contudo, o Rei Cláudio tem um plano por trás de tal conduta, qual seja, ele manda uma carta, através de um portador, para que o Príncipe seja morto durante a viagem. 

Voltando à pobre Ofélia, depois da morte do pai, a moça endoidou de vez, cantando músicas sem nexo pela corte, não falando coisa com coisa, quando indagada. Seu irmão, Laertes, retorna da França em busca de vingança pela morte de seu pai e mais enfurecido ainda o rapaz fica ao ver o estado mental de sua irmã. 

O Rei Claudio vendo que Laertes quer a morte de alguém, informa o rapaz que Hamlet é o único responsável pelo falecimento de Polônio, pela loucura e posterior suicídio de sua irmã (ela se afogou no rio perto do Castelo). 

Na cena seguinte, nós descobrimos que Hamlet está vivo e de volta à Dinamarca. Mas como ele se livrou da encomenda de sua morte???? Bom, o barco em que Hamlet estava foi atacado por piratas a caminho da Inglaterra e a correspondência encaminhada pelo Rei Claúdio que ordenava o assassinato do príncipe foi por ele interceptada. Com o extravio da carta, Hamlet mandou matar Rosencrantz e Guildenstern em seu lugar.

Claudio, vendo que seu plano inicial para a morte de Hamlet não deu certo, continuou instigando Laertes a duelar com Hamlet para honrar a morte de seu pai e irmã. Logo, o rei usurpador entrega ao rapaz veneno para passar na lâmina de sua espada, que será usada no duelo contra o príncipe. 

Contudo, o Rei Cláudio conta com um “Plano B”, no qual, caso Hamlet não morra no duelo, lhe será servido um cálice de vinho com veneno, para enfim, garantir a morte do jovem.

Na cena seguinte,  acompanhamos o diálogo entre dois coveiros, sobre se seria correto enterrar no solo sagrado uma pessoa que acabou de tirar a própria vida. Nesta ocasião, Hamlet e Horário se aproximam de um dos coveiros e ao lado de uma sepultura que está sendo preparada, Hamlet encontra um crânio, o qual o príncipe segura em suas mãos e olha o objeto fascinado.

O coveiro informa que aquele crânio é de Yurick, um bobo da corte do Rei Hamlet, o qual o jovem Hamlet conheceu na sua infância. Quando o cortejo fúnebre aparece liderado por Laertes, o príncipe descobre que aquela sepultura, a qual está sendo preparada, é para Ofélia.

Hamlet tenta conversar com Laertes, mas é no cemitério mesmo e durante o funeral de Ofélia, que o duelo começa. O rei, já deixou tudo pronto para a execução do plano B, ou seja, deixou a taça envenenada para Hamlet. Claudio a oferece ao Príncipe que se recusou a tomá-la naquele momento. Todavia, o que Claudio não contava era que quem viria a tomar daquele cálice… fosse Gertrudes, a qual, toma a bebida e começa a passar mal. 

Hamlet é atingido por Laertes e revida a investida. No meio da briga, as espadas são trocadas. Com isso, Laertes é atingido também pela espada envenenada. A Rainha Gertrudes fala a todos os presentes que foi envenenada e que está morrendo. Laertes, vê que foi usado pelo Rei Cláudio e confessa a Hamlet que o rei é o culpado de toda aquela tragédia..

Diante da morte de sua mãe e de Laertes, Hamlet fere o rei com a espada envenenada e obriga Cláudio a beber a taça com veneno à força, causando a morte de seu tio. Assim, Hamlet, vingou a morte de seu pai. 

Antes de morrer, Hamlet e Laertes se perdoam. Ao ver Hamlet também morrendo, Horário (o amigo fiel de Hamlet), também deseja se matar, mas o príncipe o impede e lhe pede para que viva e conte a sua história:

“Eu morro, Horácio!

O violento veneno me domina

O espírito. Eu não vivo até que cheguem

Notícias da Inglaterra. Mas auguro

Que a eleição será de Fortimbrás.

Dou-lhe o meu voto, embora na agonia.

Diz-lhe o que se passou e as ocorrências

Que me envolveram. O resto é silêncio.”

Por fim, após a morte geral, o exército de Fórtimbras chega a Elsinore, logo, ao lhe ser contada a história de Hamlet, o Príncipe norueguês convoca uma audiência com a nobreza presente e o mesmo assume o Reino da Dinamarca.

Anedotas da edição do box da editora Nova Fronteira e do livro Shakespeare – The Invention of the human 

A edição do box da Nova Fronteira, conta com algumas observações muito pertinentes sobre a peça feitas por Barbara Heliodora, uma das tradutoras das obras de Shakespeare mais importantes do Brasil. Também foi utilizado como leitura complementar o livro escrito pelo crítico literário Harold Bloom.

Para saber mais sobre as edições acima citadas, recomendo a leitura da minha resenha sobre Macbeth, pois nela há mais detalhes sobre tais livros.

Abaixo, as observações pertinentes das edições acima citadas:

Há um Hamlet anterior à obra de Shakespeare, mas nós não temos este trabalho, me quem o compôs. Por não termos como comprovar a existência ou não desta obra, muitos acreditam que ela não se passa de uma suposição.

Na verdade, muitos estudiosos acreditam que a obra predecessora à Hamlet de Shakespeare tenha sido de autoria de Thomas Kyd, autor de “A Tragédia Espanhola”, nesta peça, a vingança é altamente representativa, pois a sanguinolência, a loucura, seja ela real ou fingida, bem como a vingança eram as mais populares formas dramáticas daquele período.

A diferença entre ambas as peças é a profundidade existente em Hamlet. Shakespeare ao esboçar a tragédia deu ao seu protagonista uma tarefa de vingança a executar e em torno dela criou toda uma avaliação da vida humana que chega às suas últimas consequências na famosa dúvida: “ser ou não ser”. 

Harold Bloom, assim como o estudioso Peter Alexander acreditam que o próprio Shakespeare tenha escrito Ur-Hamlet, não antes de 1589, quando o autor iniciava na dramaturgia. Todavia, a posição majoritária é de que a forma final da história de Hamlet seja de Shakespeare, mas não a sua ideia original, como veremos no próximo tópico.

Na crônica nórdica (Edda) e no conto francês de Belleforest, o Príncipe Amleth, desde de o início está correndo perigo por parte de seu tio assassino, logo, astuciosamente fingiu idiotice e loucura como forma de preservar a sua vida. Talvez em Hamlet, Shakespeare tenha seguido o paradigma anteriormente narrado, mas pouco resta dele na peça.

Nota-se que Shakespeare não teve qualquer preocupação com a originalidade de seu material. O importante em sua obra é o que resulta de alguma história mais do que conhecida anteriormente à qual seu tino imprimiu vida nova por sua capacidade de, mudando o ponto de vista, tirar do antigo material sentidos novos, dar-lhe maior alcance e intensidade ao conteúdo por meio de novas formas.

As tragédias anteriormente escritas pelo autor prenunciavam isso e as obras posteriores, embora ecoem, são muito diferentes de Hamlet, tanto em espírito quanto em tonalidade. Nenhuma outra personagem nas peças, como Falstaff (personagem presente na Henríada) ou Cleópatra correspondem às infinitas reverberações de Hamlet.

Há um questionamento bem interessante levantado pelo autor incitando o nosso raciocínio no sentido de que há a possibilidade  de imaginarmos Hamlet (personagem) em outra peça de Shakespeare? Os grandes vilões como Iago de Otelo, Edmund de Rei Lear e Macbeth – seriam destruídos, segundo o autor, pela zombaria de Hamlet. Nenhuma personagem das peças escritas posteriormente pelo Bardo poderiam estar no mesmo patamar de Hamlet, tendo em vista que outras personagens shakespearianas podem até sustentar o ceticismo, mas não a aliança entre o ceticismo e o carisma (durante a leitura da peça é nítido que o povo e a corte gostam de Hamlet, tanto o é, que Cláudio via o Príncipe como uma ameaça ao trono).

Hamlet sempre esteve na peça errada, mas ele já é a peça. A corte de Elsinore é uma ratoeira muito pequena para capturar o Príncipe dinamarquês, mas ele voluntariamente retorna para morrer e para matar.

Para Harold Bloom, Hamlet é Shakespeare ou o seu substituto, pois a personagem é o filho ideal para o dramaturgo. Tal opinião é compartilhada por James Joyce, o qual identificou Hamlet da Dinamarca com o único filho de Shakespeare – Hamnet –  que morreu aos onze anos em 1596, quatro ou cinco anos antes da versão final da tragédia de Hamlet.

Em meados de 1601, Shakespeare desempenhou o papel do fantasma do Rei Hamlet durante a encenação da peça.

Tudo na peça depende das atitudes de Hamlet para com a exigência de vingança do fantasma. A questão de Hamlet sempre será o próprio Hamlet, dono de uma consciência ambivalente e dividida, o que faz ser coerente com o que o drama pode sustentar.

Peter Alexander, em seu livro “Hamlet, father and son (1955)”, apontou que o fantasma e rei Hamlet era um formidável lutador e líder guerreiro, enquanto o príncipe Hamlet era um universitário intelectual, representante de uma nova era. Os dois Hamlets se confrontam, mesmo com nada em comum além dos nomes. O fantasma/Rei Hamlet espera que o jovem Hamlet seja uma versão de si mesmo, assim como Fortinbras é uma cópia do velho Fortinbras. Logo, podemos apontar a existência de duplos, somente com relação ao nome, na peça.

Hamlet é um jovem na casa dos 20 anos ou menos, estudante da Universidade de Wittenberg, a qual deseja retornar. Tal instituição também é frequentada pelo seu nobre amigo Horácio, bem como por Rosencrantz e Guildenstern. Laertes, da mesma geração que os demais, presumidamente também deseja voltar para a Universidade de Paris. Nota-se que é desta forma que vemos estas personagens durante os quatro primeiros atos. Porém, no ato V, estas mesmas personagens parecem mais velhas aos olhos do leitor, o que pode vir a representar a maturidade de cada um.

Em “The Birth of Tradegy” (1873), Nietzsche descreveu corretamente Hamlet, isto é, ele o viu não como um homem que pensa demais, mas sim como um homem que pensa sabiamente, como pode ser visto no seguinte trecho: conhecimento mata a ação; ação requer o véu da ilusão: Essa é a doutrina de Hamlet, não aquela sabedoria barata de Jack o sonhador (não encontrei referência sobre esta personagem), o qual reflete muito, sobre um excesso de possibilidade e não chega na ação. Não uma reflexão, não um conhecimento verdadeiro, um vislumbre dentro de uma verdade horrível, supera qualquer motivo para ação, ambos em Hamlet e no homem dionisíaco (conceito de Nietzsche que expressa a consciência fragmentada ou instabilidade existencial).

Um dos atrativos de Hamlet é que todos nós, como leitores, nos sentimos um pouco como Hamlet, já que a vida que recebemos ao nascer seria uma tarefa imposta do mesmo modo que a ele a da vingança imposta pelo pai. 

Ademais, podemos ressaltar a questão da liberdade, nos questionando se Hamlet era livre ou não. Acho, na minha humilde opinião, que ele não era livre, pois ao mesmo tempo que ele queria voltar para a Universidade, sua mãe pediu para ele ficar e, mesmo a contragosto, ele ficou. Hamlet, buscou a vingança por exigência do fantasma de seu pai, quando eu acho que ele não agiria de tal forma, como podemos ver pela sua ambivalência de pensamentos e ações. Enxergando a personagem desta forma, nós podemos trazer esta questão para a nossa vida, ou seja, nos questionando se nossa liberdade é ilimitada ou limitada como a de Hamlet.

Apesar do Harold Bloom não ter gostado nem um pouco da versão de Lawrence Olivier de Hamlet para o cinema, eu deixo a dica do filme, pois o mesmo é encontrado facilmente no Youtube, na íntegra e legendado.

Por fim, deixo aqui a citação do conselho, muito valioso diga-se de passagem de Polônio, ao seu jovem filho Laertes (Ato I, Cena III): “Guarda este poucos lemas na memória: Sê forte. Não dês língua a toda a ideia, nem forma ao pensamento descabido; Sê afável, mas sem vulgaridade. Os amigos que tens por verdadeiros, agarra-os a tu’alma em fios de aço; mas não procures distração camarada sem critério. Evita entrar em brigas; mas se entrares, aguenta firme, a fim que outros te temam. Presta a todos ouvido, mas a poucos a palavra: ouve a todos a censura, mas reserva o teu próprio julgamento. Veste de acordo com a tua bolsa, porém sê rico sem ostentação, pois o ornamento às vezes mostra o homem, que em França os de mais alta sociedade são seletos e justos nesse ponto. Não seja usurário nem pedinte: emprestando há o perigo de perderes o dinheiro e o amigo; e se o pedires, esquecerás as normas da poupança. Sobretudo sê fiel e verdadeiro contigo mesmo; e como a noite ao dia, seguir-se-á que a ninguém serás falso.”

Desejo a todos um ótimo Halloween e até o próximo post!!!

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