Sweeney Todd – O barbeiro demoníaco da Rua Fleet

Mais um post com as leituras de Halloween aqui no blog, sobre um livro também publicado pela Editora Wish, no qual ao apoiar o projeto de financiamento no Cartase do livro A lenda do cavaleiro sem cabeça e outros contos, eu adquiri também a novela gótica Sweeney Todd. 

A edição em capa dura, páginas amareladas, diagramação super confortável,  ilustrada e lindo de ver, ler e de se ter na estante, conta com o prefácio da edição inglesa de 1850 e outro prefácio da Editora Wish escrito pela preparadora de texto Valquíria Vlad e tradução de Carolina Caires Coelho.

O livro foi originalmente publicado em 1846, em plena Londres Vitoriana, em formato de publicações periódicas, semelhantes aos folhetins, denominadas penny bloods (comercializadas entre as décadas de 1830 e 1840), na qual cada capítulo era vendido a um centavo de libra (penny) e tinham como enredo histórias de horror passadas em grandes centros urbanos, cheias de crime e sangue (blood).

Inicialmente, o consumidor deste tipo de folhetim eram adultos, mas com o passar dos anos o tipo de consumidor foi mudando e tais histórias foram sendo lidas por adolescentes. 

Em razão desta mudança, foi exigido dos escritores e editores uma adaptação do conteúdo com um tom mais aventureiro, bandidos sedutores, entre outros estilos de personagens. Logo, o produto desta adaptação foi denominado penny dreadful, comercializadas entre as décadas de 1860 e 1870.

Sobre a origem da história do Sweeney Todd, foi publicada originalmente sob o título O colar de pérolas, sendo a origem da lenda do barbeiro baseada em escritos franceses, nos quais narravam crimes cometidos por um barbeiro e uma patissière em Paris.

Com relação ao autor desta novela, o escrito tem sua autoria atribuída a Thomas Prest e James Rymer. No entanto, até hoje não se sabe qual dos dois é o verdadeiro autor, tendo em vista que na época não havia a preocupação por parte dos escritores em assinar seus textos e ambos trabalhavam para o The People’s Periodical and Family Library, periódico pelo qual Sweeney Todd foi lançado, gerando a incerteza de sua autoria.

O sucesso desta novela no século XIX foi enorme e se perpetuou após está época, o que originou adaptações para os palcos da Broadway na peça Sweeney Todd, o barbeiro demoníaco da Rua Fleet e em 2007 ganhou uma adaptação para o cinema, dirigida por Tim Burton e protagonizada por Jonny Deep, como o barbeiro e Helena Bonham Carter, como a Sra. Lovett (a patissière).

Sobre a história, diferentemente da contada no filme, é narrada em terceira pessoa, na qual nós temos o barbeiro Sweeney Todd, proprietário da Barbearia localizada na Rua Fleet, descrito como uma pessoa bem sinistra e dono de uma risada de dar medo em qualquer um.

Na verdade, quem entra em sua barbearia sozinho, nunca sai de lá e nunca é mais visto por seus parentes e conhecidos. Até o final do livro, você não sabe como tais clientes desaparecem.

Nosso barbeiro demoníaco conta com um ajudante, cujo nome é Tobias, um menino de doze anos que sofre o livro inteiro nas mãos de Sweeney Todd e cansado deste tratamento cruel resolve investigar o seu patrão, sofrendo como consequência pela sua curiosidade e importunação a ida para o manicômio do Sr. Fogg, localizado em Peckham Rye.

Concorrendo ao prêmio de pessoa mais esquisita e sinistra, nós temos a Sra. Lovett, a dona da casa de tortas mais conhecida de Londres, cujo ingrediente de tais tortas é pra lá de especial e a origem de tal ingrediente e por quem ele é fornecido, a gente só descobre ao final do livro.

Em paralelo, nós também temos a história de Johanna Oakley, filha única do oculista da cidade, que está sofrendo pela ausência de seu grande amor e noivo Mark Ingestrie, que embarcou para as Índias, a fim de conseguir um bom dinheiro para poderem se casar. Como Mark não retornou na data limite dada a Johanna, a nossa jovem corajosa estava inconsolável. 

Porém, o destino de todas as personagens acima citadas está para mudar,  com a entrada do Sr. Thornhill, amigo de Mark, na barbearia do Sr. Sweeney Todd para fazer a barba. Thornhill está com um colar de pérolas destinado a Johanna, todavia, a sua saída do estabelecimento, bem como o colar de pérolas nunca foi vista e nem narrada, até o final da história.

O mistério do livro irá sondar o desaparecimento de Thornhill e demais clientes da barbearia, como eles somem do estabelecimento sem serem vistos e, se mortos, para onde vão os corpos das vítimas?

Foi um livro muito gostoso de ler (pode até parecer mórbido, mas de fato foi bacana ler este livro), razão pela qual indico a leitura, não dá medo (dica para quem é medroso, assim como eu), com uma escrita fluída e um desfecho pra lá de macabro.

Um beijo e até o último post do mês de Halloween aqui no Magia das Palavras!!!

A lenda do cavaleiro sem cabeça e outros contos

Para comemorar um ano do blog, nada melhor do que darmos continuidade com as leituras de Halloween não é mesmo?!?!

Logo, o post de hoje será sobre um projeto que eu apoiei do Cartase este ano e que tomou forma de uma maneira linda e impecável nas mãos da Editora Wish.

O livro reúne quatro contos escritos pelo autor, biografista, ensaísta e historiador norte-americano Washington Irwing, dentre eles o seu conto mais famoso lançado em 1820, A lenda do cavaleiro sem cabeça, no qual este ano completa duzentos anos de sua publicação.

A edição em capa dura, corte colorido, fitilho, páginas amareladas, diagramação excelente, super ilustrado e lindo de ver conta com o prefácio escrito por Oscar Nestarez, escritor e pesquisador da literatura de horror e introdução de Jim Anotsu, escritor, roteirista e tradutor.

ATENÇÃO: CONTÊM MUITOS SPOILERS

A lenda do cavaleiro sem cabeça (1820)

Em inglês o título do conto se chama The Legend of Sleep Hollow, um vilarejo que descende dos colonos holandeses originais e um lugar que permanece sob o poder de alguma espécie de encantamento, cujos moradores estão propensos a todo tipo de crenças maravilhosas, sujeitos a transes, miragens, repleto de histórias locais, lugares assombrados e superstições obscuras.

Todavia, este lugar enigmático conta com um espírito que o assombra, sendo este de um soldado hessiano, cuja cabeça foi levada por uma bala de canhão em alguma batalha anônima durante a Guerra da Independência.

Alguns historiadores da região limitam-se em dizer que o corpo do soldado está enterrado no cemitério da Igreja local, no qual o espectro cavalga até o local da batalha em busca da sua cabeça perdida.

Neste peculiar vilarejo vivia Ichabod Crane, um jovem de trinta anos, alto, extremamente delgado, de ombros estreitos e braços e pernas compridos, que tinha como objetivo instruir as crianças da região, sendo denominado como mestre-escola. 

Nossa personagem também era um grande admirador de histórias fantásticas, tendo em vista que nenhuma delas era vulgar ou monstruosa demais para ele, muito menos a lenda do cavaleiro sem cabeça. 

Todavia, independente das histórias de fantasmas, espíritos e bruxas, não há nada que o causasse maior perplexidade que uma mulher, e neste caso ela tem nome e endereço conhecidos, Katrina Van Tassel, filha única de um importante fazendeiro holandês, de dezoito anos e dona de uma beleza estonteante.

Ichabod estava decidido a conquistar a afeição de Katrina, mas contava com um rival, sendo este o rapaz robusto e de grande conhecimento e competência em equitação Abraham Brom Van Brunt, o herói da região, cuja alcunha era Brom Bones.

Logo, é de se imaginar que nosso mestre-escola tornou-se objeto de caprichosa perseguição de Brom Bones e seus amigos. Tais atos compreendiam a invasão de sua escola à noite virando o local de cabeça para baixo até a ridicularização de Ichabod na presença de sua pretendida.

Esta situação durou por um tempo, até a sorte de nosso mocinho mudar com um convite para uma festa na residência dos Van Tassel. Ichabod fez o seu melhor, desde sua vestimenta até o empréstimo do cavalo, chamado Gunpowder, do fazendeiro Hans Van Ripper para ir até o seu destino.

Durante a festa, Ichadod comeu, dançou, sendo sua parceira de dança a dona de seu coração que sorria com graça em resposta a todos os seus olhares apaixonados. Enquanto isso, Brom Bones estava em um canto sozinho do local morrendo de ciúmes da cena.

Ao final da dança, nosso querido mestre-sala foi atraído para um grupo de sábios, na qual conversavam sobre tempos antigos, histórias de guerra e, claro, histórias de fantasmas e de seu espectro favorito, o cavaleiro sem cabeça.

Conforme a festa se dissipava, nosso Ichabod ficou para trás, a fim de conversar em particular com sua pretendida, já que estava totalmente convencido que estava no caminho certo para o sucesso. Todavia, algo que, o próprio narrador não sabe, aconteceu de errado, pois o mestre-sala se retirou apressadamente bem abatido e cabisbaixo.

Foi precisamente na hora das bruxas que Ichabod fez a sua viagem de retorno para casa. A hora era tão infeliz quanto ele, já que todas as histórias de fantasmas e espíritos que ele ouvira à tarde agora se faziam mais presentes em sua memória, tendo em vista que ele se aproximava de uma parte da estrada em que muitas das cenas das histórias se haviam dado.

Nesse exato momento, um barulho ao lado da ponte chegou aos ouvidos do nosso mestre, no meio do bosque ele viu uma sombra imponente. Ichabod reuniu toda a coragem que restava e perguntou quem era. Como não obteve resposta tentou continuar firmemente seu trajeto.

Todavia, nosso professor teve companhia durante sua viagem. Era a companhia de uma figura que não tinha cabeça, mas seu horror cresceu ainda mais ao ver que a cabeça que deveria repousar sobre os ombros, era levada diante dele na maçaneta da cela.

Ichabod tentou fugir, mas o cavaleiro sem cabeça o perseguia até que o mesmo arremessou a sua cabeça em nosso professor, que não conseguiu se desvencilhar do objeto, e a cabeça encontrou o seu Crânio numa colisão horrível.

No dia seguinte ao episódio, Gunpowder foi encontrado sem sela e com as rédeas debaixo das patas junto ao portão de Hans Van Ripper, contudo, não havia sinal de Ichabod. O fazendeiro começou a ficar preocupado com a ausência do professor.

Começaram-se as buscas, na qual encontraram a sela pisoteada de terra perto da Igreja e na margem do regato, o chapéu do mestre-escola e ao lado uma abóbora despedaçada. Infelizmente, como Ichabod era solteiro e não deixou dívidas, as pessoas logo pararam de pensar nele. A escola foi para outro lugar do vilarejo e um novo pedagogo foi contratado para o exercício da função.

Muito tempo de depois dos acontecimentos anteriormente narrados, um fazendeiro de Nova York informou que Ichabod Crane estava vivo e que havia abandonado o vilarejo em parte por medo do espírito, medo de Hans Van Ripper pela sela e em outro pelo coração partido por Katrina Van Tessel.

Contudo, as velhas senhoras do campo afirmam que Ichabod foi arrebatado por meios sobrenaturais. E aí? Qual final você prefere hein?!?!?

Rip Van Winkle (1819)

Esta história se passa em um vilarejo, localizado ao pé das montanhas Kaatskill. Era um povoado de grande antiguidade, fundado por alguns colonos holandeses, no qual vivia um sujeito simples e bondoso chama Rip Van Winkle.

Nosso protagonista era um bom vizinho também, contudo era totalmente dominado pela esposa rabugenta. Todavia, o único defeito de Rip era sua aversão a todo tipo de trabalho lucrativo. 

Na verdade, nosso bom homem estava pronto para cuidar de todas as tarefas dos outros, menos das suas, como o cumprimento do dever familiar e a manutenção de sua fazenda, denominado o pedaço de terra mais mal cuidado da vizinhança.

Seus filhos eram mal cuidados e sua esposa ficava sempre muito nervosa com Rip devido ao seu temperamento um tanto quanto contemplativo da vida. Seu único aliado era seu cachorro Wolf seu companheiro de fuga do trabalho na fazenda e da fúria de sua mulher.

Rip sempre levava consigo uma arma e seu fiel companheiro para floresta e lá caminhavam. Logo, em um desses passeios, eles subiram uma dos pontos mais altos das montanhas e por lá ficou contemplando a paisagem. Como já estava ficando tarde, Rip começou a se preparar para o seu retorno, mas foi interrompido por uma voz que o chamava.

Rip percebeu uma figura estranha escalando as rochas  e ao se aproximar ficou surpreso com a aparência do estranho, que era um sujeito baixo, seu traje era à moda holandesa antiga e trazia no ombro um sólido barril cheio de bebida.

Nosso protagonista se ofereceu para ajudar o desconhecido e juntos escalaram um barranco estreito na montanha. Chegaram a uma depressão, que lembrava um pequeno anfiteatro e era habitada por um grupo de personagens de aparência peculiar.

O conteúdo do barril foi servido ao estranho grupo e Rip decidiu provar da bebida oferecida. Logo, um gole levou a outro e quando viu ele já havia caído em um sono profundo.

Ao acordar, Rip não viu mais o homem que ajudou, nem os integrantes do grupo pitoresco e muito menos a depressão em que ficou. Ao ver sua espingarda se deparou com uma arma velha e enferrujada e o seu cachorro havia desaparecido. Ao se levantar percebeu que seu corpo não era mais o mesmo, suas articulações eram rijas e desprovidas da agilidade que estava habituado.

Com certa dificuldade, ele desceu as montanhas e retornou ao vilarejo. Mas se deparou com pessoas que não conhecia, as roupas destas eram diferentes das que estava acostumado, o próprio vilarejo estava mudado, era maior e mais populoso. 

Ao encontrar o caminho para casa, se deparou com uma construção decadente e abandonada. Rip retornou ao vilarejo para encontrar alguém que conhecia, mas ao questionar o paradeiro de seus amigos soube que vários se mudaram com suas famílias ou faleceram, vendo-se então sozinho no mundo.

A se ver em total desespero perguntou aos curiosos que o cercavam se conheciam Rip Van Winkle, no qual apontaram para um rapaz encostado a uma árvore preguiçoso e tão esfarrapado quanto ele.

Em meio a este cenário conflituoso, uma jovem com seu filho no colo foi indagada pelo nosso bom senhor, pois a mesma despertou uma torrente de lembranças em Rip.

O velho perguntou a ela o nome de seu pai e na mesma hora a jovem respondeu que era Rip Van Winkle, mas que havia vinte anos que saiu de casa com seu cachorro e sua espingarda e nunca mais voltou. Logo, em seguida, Rip perguntou sobre a mãe da jovem e ela respondeu que havia falecido pouco tempo depois em um ataque de fúria contra um mascate da Nova Inglaterra.

Após a conclusão do relato e do alívio ao saber do falecimento da esposa dominadora, Rip se apresentou a jovem como seu pai e relatou tudo o que lhe aconteceu no fatídico dia em que saiu de casa e não retornou.

Alguns sempre fingiam duvidar da veracidade da história, alegando que Rip havia perdido o juízo. Todavia, os antigos moradores acreditavam totalmente no relato. Ademais, a quem disesse ser esse o sonho comum de todo marido dominado pela mulher querer tomar um gole da bebida tranquilizante de Rip Van Winkle.

O noivo espectral e a cozinha da estalagem (1819)

Foi exatamente na cozinha de uma estalagem holandesa, que o narrador tomou conhecimento da história do noivo espectral. O pano de fundo desta história fica localizado no alto de uma das montanhas Odenwald da Alta Alemanha em que ficava localizado o castelo do Barão Von Landshort.

O nobre tinha uma única filha, dona de uma beleza sem igual em toda a Alemanha e educada sob a supervisão de duas tias solteiras que dominavam todos os ramos do conhecimento necessários para a educação de uma dama.

Ao atingir a idade de dezoito anos, ocorreu uma negociação entre o Barão  e um velho nobre da Baviera para unir a dignidade de suas casas por meio do casamento dos seus filhos.

Os filhos não se conheciam, logo, foi providenciada uma grande reunião familiar para a celebração do casamento do jovem casal.

O jovem Conde Von Altenburg seguia seu rumo ao castelo do Barão e, encontrou no meio do percurso, com Herman Von Starkenfaust, um jovem companheiro de armas que havia servido com ele no Exército. Desse reencontro, os jovens contaram todas as suas aventuras passadas, bem como a notícia das núpcias do Conde.

 Aos chegarem as montanhas Odenwald, os jovens foram abordados por ladrões, no qual o conde veio a receber um ferimento mortal. Com seu último alento, o Conde pediu ao amigo que fosse imediatamente ao castelo do Barão Landshort e explicasse o motivo do descumprimento de seu compromisso com a filha do nobre.

Enquanto isso, no castelo, o jantar havia sido adiado de hora em hora devido ao não comparecimento do noivo até chegar ao ponto da refeição não ser mais postergada. Todos estavam a mesa para comer quando uma corneta vinda de fora do portão anunciou a chegada de um estranho.

Achando ser o futuro genro, o barão correu até o encontro do jovem. Herman, o fiel amigo do verdadeiro genro, tentou explicar o ocorrido, mas o nobre não quis ouvir devido ao seu êxtase e logo foram para a parte interna do castelo.

Herman, ao conhecer a noiva ficou enfeitiçado por ela, como amor à primeira vista. Contudo, em meio a toda festa, o semblante do hóspede desconhecido ganhava um aspecto cada vez mais triste e melancólico. Logo, a tristeza insondável do suposto noivo gelou com a alegria de todos os convidados.

O jovem subitamente se levantou para ir embora e, ao ser questionado pelo Barão sobre sua saída repentina o mesmo lhe respondeu que seu compromisso não era com a noiva e sim com os vermes, pois estava morto, o que o impedia de cumprir com o seu compromisso.

Ao retornar ao castelo e contar a todos o ocorrido, Barão ficou consternado e se trancou em seus aposentos. Quanto à noiva, a sua situação era inenarrável, tendo em vista que a jovem perdeu seu noivo antes de poder abraçá-lo.

Ao dirigir-se a um quarto com vista para um pequeno jardim, a jovem ficou absorta em seus pensamentos ao olhar para a lua. Porém, sua atenção foi direcionada a uma música suave vinda do jardim e no meio dele havia uma figura alta e então ela viu o Noivo Espectral.

Após uma semana do ocorrido, a jovem sumiu do castelo. Logo, uma das suas tias começou a gritar que fora o noivo espectral que havia raptado a sua sobrinha. Iniciou-se a busca pelo jovem e o consolo ao velho barão que havia perdido sua única filha.

Ao sair em busca de sua filha com os demais, o Barão foi comunicado de que uma dama foi vista se aproximando dos portões do castelo acompanhada de um homem a cavalo. Ao se deparar com os visitantes, o Barão foi surpreendido com o retorno de sua filha.

Neste momento, o mistério foi esclarecido, pois o jovem, que não era nenhum espectro, foi apresentado como Sir Herman Von Starkenfaust, no qual narrou sua aventura com o jovem conde e sua incapacidade de contar a verdade sobre o ocorrido, sendo o assunto encerrado com grande alegria, pois o genro do Barão não era um fantasma.

O diabo em Tom Walker (1824)

Este conto começa com a narrativa da história de um pirata chamado Kidd que enterrou, debaixo de uma das árvores de uma profunda enseada em Massachussetts, seu tesouro e que o Diabo além de presidir a ocultação do dinheiro também exercia a guarda do tesouro, principalmente dos adquiridos por meios ilícitos. Na verdade, a riqueza permaneceu enterrada, pois Kidd foi preso e levado à forca.

Por volta do ano de 1727, havia um sujeito avarento e mesquinho chamado Tom Walker, na qual era casado com alguém tão miserável quanto ele, a ponto de conspirarem um contra o outro. A casa do casal parecia abandonada e tinha uma péssima reputação na vizinhança assim como os donos dela. 

Em um determinado dia, Tom Walker resolveu pegar um atalho pelo pântano para voltar a sua casa. Conforme o percurso ia avançando, Tom se deu conta que a rota não foi a melhor escolha feita e resolveu parar para descansar em um antigo forte que havia no meio do caminho.

O local tinha várias lendas, mas como Tom não tinha medo disso continuou a desbravar o local até que seu cajado encontrou um crânio rachado com um machado indígena cravado bem fundo. Neste momento, Tom ouviu a voz de alguém  mandando ele não mexer naquele crânio.

Ao se deparar com o estranho, Tom viu que o mesmo tinha cabelos pretos e espessos que saltavam da cabeça em todas as direções e levava um machado no ombro. O sujeito tinha um grande par de olhos vermelhos e indagou o intruso sobre o motivo pelo qual Tom estava em seu terreno.

Tom achou aquele sujeito petulante e disse que o local pertencia ao Diácono Peabody. O estranho sujeito rebateu o argumento dizendo que aquele terreno pertencia a ele muito antes que alguém da raça de Tom ocupasse aquelas terras.

Nosso protagonista, ainda desconfiando do sujeito perguntou o seu nome e o mesmo informou que tinha vários, dentre eles Caçador, Mineiro negro, Lenhador negro e o Velho Scratch ou Diabo. Disse que era a quem os peles-vermelhas consagravam e para quem de vez em quando assava um homem por meio de um sacrifício.

E assim se deu o início de uma longa conversa e ao final com uma proposta feita pelo sujeito a Tom, dizendo que a fortuna do pirata Kidd estava enterrada em seu terreno e lhe era oferecida desde que aceitasse certas condições, das quais o narrador não tinha conhecimento.

Ao voltar para casa, Tom estava pensando na proposta feita pelo Velho Scratch e contou para a mulher sobre o encontro acima relatado. A mulher, tão avarenta e destemida como Tom foi atrás do sujeito para ver se conseguia alguma coisa também. Todavia, diferente de Tom, a esposa não caiu nas graças do sujeito e não fez nenhum acordo com ela. 

Não contente com a negativa, a esposa voltou no dia seguinte ao terreno do mineiro negro lhe oferecendo tudo o que ela tinha de valor, como bule e talheres em prata. Mas, após tal episódio, a mulher de Tom nunca mais retornou para casa.

Tom se consolou com a perda de suas posses bem como de sua mulher. Na verdade até sentiu gratidão pelo Lenhador pela gentileza feita pelo sumiço da esposa. Logo, diante da situação, ele procurou novamente o velho Scratch e com ele fez o acordo.

O acordo consistia na abertura de um escritório de empréstimos em Boston, no qual o dinheiro seria emprestado a dois por cento ao mês através da extorsão de títulos de propriedades, execução de hipotecas e até a falência dos comerciantes que recorriam a tal prática. Nota-se, portanto, que Tom se tornou o usurário do dinheiro do Diabo.

Sua fama de agiota logo se espalhou e Tom foi ficando cada vez mais rico, mais avarento e mais ambicioso pelo dinheiro. Mas, conforme envelhecia, mais ficava preocupado com o acordo feito com o mineiro negro e mais disposto a enganá-lo para se livrar de sua obrigação. Logo, nosso protagonista começou a frequentar fervorosamente a igreja.

Mesmo com toda a sua “fé”, Tom ainda tinha medo da cobrança da dívida pelo Diabo, logo sempre levava consigo uma pequena Bíblia e deixava em cima da mesa outra cópia do livro sagrado.

Até que um dia, ao encerrar a hipoteca de um especulador de terras que implorava por mais prazo e dizia que o velho Tom havia ficado mais rico a suas custas, o nosso protagonista irritado proferiu a seguinte frase: Que o diabo me carregue se eu tiver ganhado um tostão.

Consequentemente ao fato acima relatado, ouviram-se três batidas na porta do escritório e lá estava o Diabo informando a Tom que a sua hora havia chegado.

Nunca um pecador foi tão pego de surpresa, já que Tom não estava em posse de seu amuleto de proteção, a Bíblia. O velho Scratch pegou Tom e o carregou no lombo de cavalo e partiu sem nunca mais ser visto.

Tom nunca voltou para encerrar a hipoteca mencionada, logo, curadores foram nomeados para cuidar dos bens de Tom, mas ao encontrarem os títulos das propriedades, as mesmas estavam reduzidas a cinzas, razão pela qual não havia nenhum bem para administrar, sendo este o fim de Tom Walker e sua riqueza ilícita.

Agradeço a todos que me acompanharam e ainda acompanham o blog e me incentivam cada vez mais a compartilhar as minhas experiências literárias por aqui!!!

Até semana que vem com mais posts de Halloween aqui no blog!!

O médico e o monstro – O estranho caso do Dr. Jekyll e o Sr. Hyde

Capa do livro publicado pela Editora Darkside

E com este clássico da literatura universal, nós abrimos a temporada para a leitura temática de Halloween aqui no Magia das Palavras!!!

O médico e o monstro é o vigésimo livro da lista do Projeto Reeducação do Imaginário e o primeiro contato que eu tenho com o autor escocês Robert Louis Stevenson.

SOBRE O AUTOR

Imagem do autor disponível na Edição da Darkside

Robert Louis Stevenson nasceu em 1850 na cidade de Edimburgo na Escócia. Para muitos críticos literários, seus escritos são considerados infanto-juvenis, mas em nenhum momento tal característica foi capaz de desabonar as suas obras e das mesmas serem elogiadas por vários escritores, bem como de serem adaptadas para cinemas e teatros

Devido a saúde debilitada, em 1887 o autor saiu em busca de um clima mais ameno para viver com a sua esposa Fanny Osbourne e passa a estabelecer morada nas Ilhas Samoanas, sendo este cenário o pano de fundo de alguns contos, como por exemplo A praia de Falesá, O demônio da garrafa e A ilha das vozes (todos presentes na edição da Darkside).

O autor permaneceu nas Ilhas até o final de sua vida em 1894, sendo conhecido por lá como tusitala, o contador de histórias.

SOBRE A EDIÇÃO

Mais uma vez a Editora Darkside arrasando na edição de seus livros! Este livro foi lançado em 2019 e faz parte do selo Medo Clássico, no qual apresenta ao leitor seis contos escritos pelo autor, dentre eles um de seus contos mais famosos – O médico e o monstro.

Ademais, a edição possui introdução, tradução e notas escritas por Paulo Raviere, as ilustrações mais lindas que já vi feitas por Alcimar Frazão, bem como uma galeria de fotos do autor no decorrer de sua vida, principalmente durante sua estadia nas Ilhas Samoanas.

SOBRE A OBRA

Ilustração contida no livro publicado pela Editora Darkside

ATENÇÃO: ALERTA DE SPOILER

A história é narrada pelo Dr. Utterson, advogado e amigo de longa data do médico Dr. Henry Jekyll na Londres do século XIX.

Utterson era o advogado responsável pelo testamento do Dr. Jekyll, no qual dispunha que no caso de sua morte ou “desaparecimento ou ausência inexplicável por qualquer período excedente a três meses de calendário”, todos os seus bens passariam a ser do Sr. Edward Hyde.

Utterson não ficava à vontade com o documento feito pelo amigo, pois nunca ouviu falar do benfeitor do testamento. Logo, diante dessa situação, Utterson foi até a porta da casa de Sr. Hyde e ficou à espreita esperando o seu aparecimento.

O Sr. Hyde era “um homem pequeno, se vestia de modo bastante ordinário e sua aparência afrontava com intensidade o observador”, de acordo com a visão do advogado.

Duas semanas após o encontro entre o Dr. Utterson e o Sr. Hyde, o Dr. Jekyll entra em cena através de um jantar oferecido aos seus amigos, dentre eles o advogado. Nesta ocasião, Utterson indagou Jekyll sobre o testamento e sobre seu encontro com Hyde. Jekyll não gostou das novidades e informou à Utterson que não haveria qualquer alteração no testamento e garantiu que ele poderia se livrar de Hyde quando quisesse.

Após esta cena, a história dá um salto temporal de um ano com a narrativa de um crime de ferocidade singular, qual seja a morte do cavalheiro Sr. Crew pelo Sr. Hyde.

Após o crime, Hyde fugiu e o Dr. Jekyll se isolou em seu laboratório. Todos os seus empregados ficaram preocupados com a atitude do médico e procuraram o Dr. Utterson para interceder no caso. O advogado junto ao mordomo da residência do médico forçaram a entrada no laboratório com um machado:

Bem no meio estava um corpo de homem gravemente contorcido e em convulsão. Eles se aproximaram na ponta dos pés, o viraram de costas e se depararam com o rosto de Edward Hyde. Vestia roupas grandes demais, roupas do tamanho do médico; as linhas do rosto ainda se moviam como que em sinal de vida, mas a vida se fora; e pelo frasco esmagado na mão e aquele forte odor de amêndoas que estava no ar, Utterson sabia que olhava para o corpo de alguém que dera fim a própria vida.

Chegamos tarde demais, disse ele com severidade, tanto para salvar como para punir. Hyde se foi por conta própria. E agora nos resta somente encontrar o corpo de seu patrão.

Todavia, os questionamentos não paravam por aí, tendo em vista que se Hyde estava morto, onde estaria o Dr. Jekyll??

Mais um vez, o mordomo e o advogado, saem a procura pela residência e, ao chegarem ao gabinete do médico, havia um grande envelope endereçado ao Sr. Utterson com a seguinte mensagem:

Meu caro Utterson, quando esta chegar às suas mãos, terei desaparecido, sob quais circunstâncias, não tenho condições de prever; porém meu instinto e todas as circunstâncias de minha situação inominável me dizem que o fim é certo e haverá de ser em breve. Vá então, e primeiro leia a narrativa que Lanyon me avisou que levaria às suas mãos; e caso tenha interesse em saber mais, volte à confissão de seu infeliz e desmerecedor amigo, Henry Jekyll.

Lanyon, outro amigo de longa data do médico, foi o primeiro a testemunhar a transformação do Sr. Hyde no Dr. Jekyll, após o apelo feito pelo médico para entregar alguns frascos em um determinado endereço, a fim de realizar a transformação. Após tal acontecimento, Lanyon rompeu sua relação com o amigo, pois não concordava com tal descoberta científica, bem como rechaçou de imediato o comportamento do médico.

Ao final do conto, nós temos um relato completo do experimento e transformação narrado pelo próprio Dr. Jekyll, no qual o Dr. Utterson pôde concluir sobre o desaparecimento e/ou fim de seu amigo.

SOBRE A MINHA EXPERIÊNCIA DE LEITURA E A INDICAÇÃO DA OBRA AO PROJETO REEDUCAÇÃO DO IMAGINÁRIO

O conto trata, de uma forma muito verdadeira através de uma história fantástica, a essência da natureza dual do homem, da capacidade de nos dividirmos entre o bem e o mal e a duplicidade da vida.

Pelo relato do Dr. Jekyll, ao final da narrativa, nos é mostrado que há uma linha tênue que dividirá sempre a moral e o intelectual e nos é revelado que o homem não é na verdade um, e sim dois, como se fossemos gêmeos opostos que brigassem pelo espaço de atuação incansavelmente.

Há um trecho no livro que a personagem descreve a sensação de impunidade, bem como o cometimento de um crime pelo mero prazer em atuar de forma ilícita:

Os homens antes contratavam bandidos para levar a cabo os crimes, enquanto sua própria pessoa e reputação ficavam protegidos no abrigo. Fui o primeiro a fazer isso por prazer, fui o primeiro assim capaz de passar diante dos olhos do público com enorme carga de respeitabilidade, e num instante, como estudante, arrancar os adereços e saltar de cabeça no mar da liberdade. Apenas para mim, em minha manta impenetrável, a segurança era completa.

No relato há culpa do Dr. Jekyll pelas atitudes monstruosas do Sr. Hyde, bem como há culpa e arrependimento de sua própria conivência com tais atos que o levaram a sua penitência e consequentemente ao seu fim.

Já leu este livro ou pelo menos o conto de O médico e o monstro? Compartilha sua experiência aqui comigo nos comentários!!

Um beijo e até o próximo post!!

FUVEST: Resumo da obra Claro Enigma

Claro enigma | Amazon.com.br
Capa do livro publicado pela Editora Companhia das Letras em 2012

SOBRE O AUTOR

Carlos Drummond de Andrade nasceu em 31 de outubro de 1902, na cidade de Itabira, no Estado de Minas Gerais.

Drummond formou-se em Farmácia, mas ele nunca exerceu a profissão. Já nesta época, o autor produzia seus textos e suas poesias. 

Logo, ao ir para o Rio de Janeiro, para trabalhar como funcionário público, ele amadurece essa produção literária e se torna um dos poetas mais influentes do modernismo brasileiro do século XX. 

CONTEXTO HISTÓRICO E CULTURAL

Aqui estamos diante da segunda fase do modernismo (1930/1945). Até este momento, o mundo passou pela Grande Depressão de 1929 e ao final desta fase, nós tivemos o início da segunda guerra mundial.

Este contexto de depressão e desilusão que o mundo estava vivendo será retratado na poesia produzida nesta fase do modernismo, tendo em vista que o poeta desta fase é um homem de seu tempo e é  por ele influenciado.

A segunda fase do modernismo também é conhecida como a fase do amadurecimento, isto é, se na primeira fase nós tínhamos que mostrar que o modernismo veio para ficar e o motivo pela qual ele apareceu, na segunda fase isso não é mais necessário.

Aqui, nós teremos uma preocupação sociopolítica, há um questionamento do homem sobre o sentido do mesmo estar no mundo e no seu tempo. Há um aprofundamento das conquistas da geração de 1922 e a linguagem passa por uma renovação.

Carlos Drummond de Andrade é tido como um dos grandes representantes da poesia da segunda fase do modernismo. O autor passou por várias fases importantes:

Fase Gauche (década de 1930): nós temos uma linguagem marcada pela ironia e humor, além de uma forte influência do gauchismo, palavra de origem francesa que significa lado esquerdo. Aqui é representada pelo indivíduo que não consegue adequar-se às convenções ditadas pela sociedade, logo, ele é visto como um ser torto.

Fase Social (1940-1945): Neste momento há um interesse pelos problemas e pela vida social. Aqui o contexto histórico diz muito e se reflete na poesia do autor. Lembrando que aqui, a sociedade já passou pela primeira guerra mundial, a depressão de 1929 e está vivendo a segunda grande guerra.

Fase do “não” (1950-1960): O poeta voltou seus escritos para temas como a filosofia, a metafísica, sendo estas características encontradas em sua poesia filosófica, na qual questiona o seu papel como poeta, seu papel no mundo. É o estar no mundo. Foi nesta fase que a obra Claro Enigma foi publicada (1951).

Durante esta fase, o mundo vivia a Guerra Fria, que teve início em 1947 (com o fim da segunda guerra mundial) e só veio a terminar em 1991 (com o fim da União Soviética). Ademais, foi também um período marcado pelas consequências da bomba atômica, atirada em Hiroshima no dia 6 de agosto de 1945.

Fase da memória (1970-1980): É a fase final da poesia de Drummond, na qual o autor irá contemplar aspectos memorialistas, através de temas como a família, a morte e a finitude da vida.

SOBRE A OBRA E O ESTILO NARRATIVO ADOTADO

Claro Enigma é um livro marcado por um certo desencanto, isto é, o autor dava sinais da exaustão do seu engajamento político e anos de militância, através de seus versos que caminham para uma dissolução de uma ideologia que Drummond carregava consigo.

Por esta obra, o poeta propõe um olhar em seu interior através de assuntos como a sua origem, a força do amor e o poder da memória.

Nessa publicação, Drummond volta a investir em formatos clássicos, como é o caso de alguns sonetos  e outras composições que obedecem a rima e a métrica.

Sobre a epígrafe do livro, a mesma foi escrita pelo filósofo francês Paul Valéry: Les événements m’ennuient. (em tradução literal  – Os acontecimentos me entediam), é utilizada como forma de nos dizer que tal obra foi composta com sentimentos de desencanto, melancolia e mostra como o poeta é incapaz de intervir no mundo (sua pequenez).

ESTRUTURA DA OBRA

A obra Claro Enigma é composta de quarenta e um poemas, divididos em seis partes:

1ª divisão – Entre lobo e cão: de um lado o lobo que é a representação do mal, da raiva; e o cão que representa a bondade, a passividade. Tais poemas, nesta divisão, tratam de questões existenciais, principalmente a dualidade entre o bem e o mal.

2ª divisão – Notícias amorosas: Aqui o poeta fala do amor, mas não com o olhar romântico ou sentimentalismo excessivo. Na verdade, o autor olha o amor de uma forma muito mais racionalizada e muitas vezes até pessimista. 

3ª divisão – O menino e os homens: É o momento em que o poeta na condição de menino vai homenagear grandes nomes da poesia brasileira como Mário de Andrade, Manoel Bandeira e Mário Quintana. É uma louvação aos seus poetas preferidos.

4ª divisão – Selo de Minas: Aqui o autor lembra, através de sua poesia, da sua terra natal (Itagiba), de seus familiares, bem como hábitos e costumes de sua vida. Estas lembranças não nos são contadas com um tom nostálgico ou até mesmo saudosista, mas são ditas de forma racionalizada.

5ª divisão – Lábios cerrados: aqui nós temos seis poemas com a temática do silêncio. O autor narra sobre pessoas importantes do seu passado e até mesmo de familiares que já se foram. Aqui a morte e a finitude da vida se fazem presentes como temas.

6ª divisão – A máquina do mundo: é composta por dois poemas, sendo um deles o que dá título a esta divisão. Este poema foi extremamente importante, pois foi considerado pelos críticos literários o melhor poema produzido no século XX. A máquina do mundo mantém um diálogo com a obra Os Lusíadas, especificamente com o canto X, em que Camões fala desta máquina do mundo, que traz todas as informações resumidas em um só lugar. 

Aqui a figura do eu-lírico é um caminheiro que encontra na estrada esta máquina do mundo. O interessante é que ele não recebe todas as respostas, logo, ele continua a caminhar.

Como é uma obra que trabalha com questões existenciais é bom lembrar que a marca da questão existencial é a dúvida, perguntas das quais não temos respostas. Nota-se, portanto, que ao final da obra nós não temos nenhuma conclusão, acredito que advém daí o nome dela “claro enigma”.

POSSÍVEIS QUESTÕES PARA O VESTIBULAR

Ao analisar as questões de diversos vestibulares, eu pude verificar que a cobrança se baseia na interpretação através das fases, das divisões da obra e características da escrita do autor, através  da análise dos poemas fornecidos pela Banca.

Vi questões que cobravam o conhecimento da forma estrutural do poema, sendo esta o soneto (dá uma olhadinha no resumo da obra poemas escolhidos), bem como questões que cobravam a interpretação dos sentimentos do poeta em sua composição. 

Indico a leitura da obra e que você saiba bem o contexto histórico e cultural, as fases das composições do poeta, bem como sobre cada divisão da obra Claro Enigma. 

Ademais, dê uma atenção especial para o poema A máquina do mundo, pois ele é bem cobrado nas questões. Veja as características e a sua representatividade num todo.

IMPRESSÃO GERAL DO LIVRO

Como eu disse no post sobre Poemas escolhidos de Gregório de Matos, eu não tenho muito costume de ler poesia, mas especificamente deste livro eu gostei bastante e acredito que a obra é um bom início neste gênero literário.

De fato, é cristalino o pessimismo e a desilusão com o mundo, que se faz presente até hoje, apesar de não serem as mesmas questões sociopolíticas que o autor passou, mas são outras também capazes de nos mostrar a nossa pequenez.

Recomendo a todos a leitura desta obra muito fluída, bem escrita, que dá para ler em um fim de semana e é capaz de te fazer refletir sobre cada pensamento e visão de mundo do poeta.

Já leu esta obra? Se positivo, compartilha aqui comigo sua experiência!!!

Um beijo e até o próximo post!!

Sessão Pipoca – Setembro de 2020

Mais um vale sessão pipoca por aqui e, confesso que o mês de Setembro não foi tão produtivo como o mês passado, mas dos filmes que eu vi, aliás todos disponíveis na Netflix, eu gostei bastante e indico muito!!

El Camino: A breaking bad movie

Sinopse: Após fugir do cativeiro, onde foi mantido quando sequestrado, dramaticamente, Jesse Pinkman (Aaron Paul) inicia uma jornada em busca da própria liberdade, mas antes precisa se reconciliar com o passado para, só então, ter seu futuro garantido.

Com a conclusão da série no final de agosto para mim, eu não pensei duas vezes em iniciar este mês com o filme El Camino. Apesar de sentir falta do Walter White, já que ele era a essência da série, eu gostei muito do filme, pois acho que o Jesse merecia um final digno também.

Aaron Paul arrasando mais uma vez com a sua personagem mais icônica e Vince Guilligan mostrando mais uma vez a sua genialidade na produção deste filme.

NOTA: 4/5

O diabo de cada dia

Sinopse: Ambientada entre a Segunda Guerra Mundial e a Guerra do Vietnã, O Diabo de Cada Dia acompanha diversos personagens num canto esquecido de Ohio, os quais a vida acabam se conectando. Willard Russell (Bill Skarsgård) é um atormentado veterano, sobrevivente de uma carnificina, que não consegue salvar sua bela esposa de uma morte agonizante por conta de um câncer, mesmo com toda a oração e devoção de sua parte. Enquanto isso, Carl (Jason Clarke) e Sandy Henderson (Riley Keough), um casal de assassinos em série, percorrem as rodovias americanas em busca de modelos adequadas para fotografar e exterminar. E no meio disso tudo está Arvin Russell (Tom Holland), filho órfão de Willard e Charlotte (Haley Bennett), que cresceu para ser um homem bom mas começa a demonstrar comportamentos violentos quando passa a desconfiar que o líder religioso da cidade, Preston Teagardin (Robert Pattinson), é uma farsa.

É um filme com um elenco muito forte e dedicado, principalmente com relação ao sotaque já que o filme se passa num lugarzinho no interior dos EUA. Atuações excelentes, dando destaque para o Tom Holland e do Robert Pattinson.

Informo que é um filme violento, com muito tiro, porrada e por pouco teria bomba também, mas que representa o fanatismo religioso e a violência de uma forma muito cristalina e cruel.

NOTA: 4,5/5

O destino de uma nação (Darkest Hour)

Sinopse: O Destino de uma Nação acompanha Winston Churchill (Gary Oldman) que está prestes a encarar um de seus maiores desafios: tomar posse do cargo de Primeiro Mnistro da Grã-Bretanha. Paralelamente, ele começa a costurar um tratado de paz com a Alemanha nazista que pode significar o fim de anos de conflito.

Aqui o destaque vai para a brilhante atuação de Gary Oldman, cuja interpretação foi tão boa, mas tão boa que ele ganhou todos os prêmios de cinema, entre eles o Oscar de melhor ator, por este filme.

Destaco também o cuidado com a produção, desde a ambientação até algumas formas de filmagem, bem como a cena com o discurso mais famoso de Churchill, que são lindas de se assistir. Este filme, com certeza vale uma sessão pipoca!!

NOTA: 5/5

Já viu algum destes filmes? Quer me indicar algum filme que você gostou muito?

Deixa nos comentários a sua opinião!!

Um beijo e até o próximo post!!!

O Senhor dos Anéis – A sociedade do anel

Capa do livro publicado pela Editora Harper Collins em 2020

Décimo livro da lista do Projeto Reeducação do Imaginário, do brilhante autor sul-africano J. R.R. Tolkien. 

Deixo a observação que este post será diferente dos demais, pois tratarei de cada livro individualmente e farei um post em separado para falar sobre o autor e a obra, bem como a indicação da mesma ao projeto.

Ademais, insta salientar que é interessante e até de suma importância, a leitura de “O Hobbit” para a compreensão do ambiente em que se passa a narrativa, o conhecimento de algumas personagens que aparecem tanto neste romance como também em O senhor dos anéis, bem como  a forma que Bilbo Bolseiro adquire o anel, objeto deste livro.

SOBRE A EDIÇÃO

A edição pela qual eu fiz a minha leitura foi lançada em 2020 pela Editora Harper Collins. Aqui ressalto o trabalho excelente de edição, desde a capa, contracapa, fonte, diagramação, prefácio, bem como a transcrição dos poemas originais em inglês e notas sobre as runas e ilustrações feitas pelo próprio autor.

O livro, na verdade é único, todavia, o mesmo foi divido em três partes, composta de seis livros.

MINHA EXPERIÊNCIA DE LEITURA DE “A SOCIEDADE DO ANEL

A primeira parte da história, inicia-se com os seguintes dizeres:

Três Anéis para os élficos reis sob o céu, sete para os anões em recinto rochoso, nove para os homens, que a morte escolheu, um para o Senhor Sombrio no espaldar tenebroso na Terra de Mordor aonde a Sombra desceu.

Um anel que a todos rege, um anel para achá-los, um anel que a todos traz para na escuridão atá-los, na Terra de Mordor aonde a Sombra desceu.

O livro se passa muito anos após a história de O Hobbit, com os preparativos para o aniversário de 111 anos de Bilbo Bolseiro e de 33 anos de Frodo, que termina com o sumiço do velho hobbit durante a festa. 

Ressalto aqui que, Bilbo não sumiu, mas decidiu se aposentar, tendo em vista que o mesmo viveu por anos sob a influência do ”um  anel” e já estava se sentindo afetado pelo objeto. Com a saída de cena de Bilbo, nós conhecemos seu herdeiro, Frodo, um jovem Hobbit que com o sumiço de seu parente herda todos os seus bens, inclusive o “um anel”.

No capítulo “A sombra do passado”, no momento em que Gandalf, o Cinzento,  se dá conta de que aquele anel em posse de Frodo, aqui já com 50 anos, era de fato o “um anel”, isto é, o anel regente de todos os anéis do poder, o mago intercede para que o Frodo nunca o use, pois apenas o desejar pelo anel, já é capaz de corromper o coração de alguém.

Ao saber sobre a história do anel, principalmente como este foi conquistado por Gollum, Frodo se revolta e questiona Gandalf o motivo pelo qual Bilbo não matou a criatura traiçoeira quando teve oportunidade.

Aqui cito uma das passagens mais bonitas do livro e que representa como esta história pode ser vista como uma metáfora da vida:

O que vou fazer? Que pena que Bilbo não apunhalou essa vil criatura quando teve a chance!

Pena? Foi a pena que deteve sua mão. A pena e a compaixão: de não golpear sem necessidade. E ele foi recompensado, Frodo. Tenha certeza de que ele teve tão poucos danos devidos ao mal, e escapou por fim, porque começou sua posse do Anel desse modo. Com pena…

Seja como for, agora ele é tão mau quanto um Orque e apenas um inimigo. Ele merece a morte.

Merece! Imagino que merece. Muitos que vivem merecem a morte. E alguns que morrem merecem a vida. Você pode dá-la a eles? Então não seja ávido demais por conferir a morte em julgamento. Pois nem, mesmo os muito sábios conseguem ver todos os fins.

Ainda no livro I, nós iremos acompanhar a fuga de Frodo e seus companheiros (Sam, Merry e Pippin) do Condado, perseguidos pelo terror dos  Nove Cavaleiros Negros de Mordor, até que por fim, com o auxílio do engimático e podereso Tom Bombadil, bem como de Aragorn, também conhecido como o Caminheiro e Passolargo, conseguem chegar à casa do elfo Elrond, em Valfenda.

O livro II já começa em Valfenda, local em que ocorreu o grande Conselho de Elrond, em que podemos rever Bilbo e Gandalf e termos uma visão mais geral do problema a ser enfrentado com o “um anel”. 

Após discutirem, o Conselho decide pela destruição do “um anel”, bem como foi designado que Frodo seria o portador do objeto. Os Companheiros do Anel, denominada “A sociedade do anel” foram então escolhidos para auxiliar Frodo em sua tarefa, qual seja, chegar a Montanha de Fogo em Mordor, a terra do próprio inimigo, o único lugar em que o Anel poderia ser destruído.

Nessa sociedade estavam Aragorn e Boromir, filho do Senhor de Gondor, representando os Homens; Legolas, filho do Rei-élfico de Trevamata, pelos Elfos; Gimli, filho de Glóin, da Montanha Solitária, pelos Anões; Frodo com seu serviçal Samwise e seus dois jovens parentes Meriadoc e Peregrin, pelos Hobbits; e Gandalf, o Cinzento.

E aqui é que de fato a aventura começa, os companheiros do anel viajam em segredo para longe de Valfenda, até que, frustrados em sua tentativa de atravessar no inverno o alto passo de Caradhras, foram levados por Gandalf através do portão oculto e entraram nas vastas Minas de Moria, buscando um caminho por baixo das montanhas. Nesta parte da história, meu coração quase parou quando Gandalf, em batalha com um terrível monstro do mundo inferior (Balrog), caiu em um escuro abismo e nos passa a impressão de que o mesmo se foi. 

Com a suposta morte de Gandalf, Aragorn, agora já conhecido pelo leitor como herdeiro oculto dos antigos Reis do Oeste, leva a Comitiva avante desde o Portão leste de Moria até a terra Élfica de Lórien. 

Este lugar místico conta com a presença da elfa extremamente poderosa e portadora de um dos anéis, Galadriel que ao se despedir da comitiva do anel diz a seguinte frase: que te seja uma luz nos lugares escuros, quando todas as outras luzes se apagam. Esta frase me tocou muito, pois a mensagem de que “sejamos sempre luz” é cristalina, poética e possivelmente aplicável a nossa vida.

Ao sair de Lórien, a comitiva já tinha se dado conta que se fazia necessária a decisão de qual rumo deveriam tomar: ir ao leste para Mordor ou prosseguir com Boromir em auxílio de Minas Tirith, principal cidade de Gondor, na guerra vindoura ou dividir-se, o que desencadearia com a desfazimento da sociedade do anel.

Quando ficou evidente que Frodo estava resolvido a continuar a sua viagem à terra do inimigo, Boromir tenta se apossar do Anel à força, devido ao seu desejo pelo poder que o objeto possui. 

Ademais, no decorrer da jornada da comitiva, os mesmos estavam sendo vigiados por espiões e pela criatura Gollum, antigo possuidor do “um Anel” e que ainda ansiava por ele.

Por fim, a primeira parte termina com o desfazimento da sociedade, na qual Frodo e Samwise seguem para Mordor e os demais sofrendo um ataque de orques, a serviço  do Senhor Sombrio e do mago traidor Saruman de Isengard.

E este post termina por aqui e eu volto com a minha experiência de leitura de As duas torres em breve!

Um beijo e até o próximo post!!

A Montanha Mágica

Capa do livro publicado em 2016 pela Editora Companhia das Letras

Sexto livro do Projeto Reeducação do Imaginário, e o primeiro livro que eu leio do autor alemão e ganhador do Prêmio Nobel de Literatura, Thomas Mann.

SOBRE O AUTOR E A OBRA

Thomas Mann, foto contida na Edição da Companhia das Letras

Thomas Mann foi um escritor alemão, considerado um dos maiores escritores do século XX. 

O autor nasceu em Lübeck, Alemanha, no dia 6 de junho de 1875. Era filho do rico comerciante Johann Heinrich Mann e da brasileira Júlia da Silva Bruhns.

Em 1892, com a morte do pai, que deixou uma ótima herança, a família se mudou para Munique, centro das artes e da literatura, local onde Thomas completou sua formação.

Em 1893, o autor foi para a Itália, onde morava seu irmão o escritor Heinrich Mann, permanecendo no país até 1898. Nessa época iniciou seu trabalho no manuscrito do romance “Buddenbrooks”, pelo qual ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 1929.

Durante a Primeira Guerra Mundial, Thomas Mann ficou ao lado daqueles que defendiam o nacionalismo alemão, mas o militarismo cruel que se instalou no país abalou profundamente seus ideais e convicções.

Opositor do nazismo, depois da ascensão de Hitler ao poder, Thomas Mann deixa a Alemanha em 1933 e se exila em Küsnacht, na Suíça, onde permaneceu até 1938, quando se mudou para os Estados Unidos. 

Thomas Mann faleceu em Kilchberg, próximo a Zurique, na Suíça, no dia 12 de agosto de 1955.

A obra “A montanha mágica” foi publicada em 1924, na qual retrata a concepção do autor sobre os ideais democráticos de uma Europa esfacelada pela Primeira Guerra Mundial.

SOBRE A EDIÇÃO

A edição pela qual eu fiz a minha leitura foi a publicada pela Editora Companhia das letras em 2016 e conta com a tradução do brilhante Hebert Caro e posfácio de Paulo Astor Soethe.

O livro conta com uma introdução, denominada “Propósito” mais sete capítulos divididos e vários subtítulos, totalizando 829 páginas de narrativa, mais o posfácio que vale muito a leitura.

MINHA EXPERIÊNCIA DE LEITURA E INDICAÇÃO INDICAÇÃO DESTE LIVRO PARA O PROJETO REEDUCAÇÃO DO IMAGINÁRIO

ATENÇÃO: ALERTA DE SPOILER

Com a conclusão da obra, eu posso garantir que este livro tornou-se um dos favoritos da vida e que no futuro eu pretendo fazer a releitura deste clássico,

O livro, a apesar de enorme (a minha edição contém 848 páginas), também é enorme em ensinamentos e reflexões sobre o tempo e sobre a morte.

A narrativa nos contará a história de um jovem de 23 anos, chamado Hans Castorp, recém-formado em Engenharia Naval em Hamburgo, sua cidade natal. Órfão, foi criado por seu tio, o cônsul Tienappel e dono de uma ótima herança deixada por seus pais.

Antes de assumir sua vaga na firma Tunder & Wilms (estaleiro, fábrica de máquinas e caldeiras), Castorp realiza uma viagem, de três semanas, para Davos-Platz, especificamente ao Sanatório Internacional para Tuberculosos Berghof, onde seu primo Joaquim Ziemssen se encontra.

Saliento aqui que Hamburgo é uma cidade portuária alemã, na qual nos mostra o tempo do comércio, da produção, do dinheiro. Esta visão de tempo é muito importante para a compreensão do romance e para o estabelecimento de um paralelo entre a Montanha e a Planície.

Ao chegar no Sanatório, Hans Castorp se diz saudável e em um primeiro momento acha o local enfadonho, pois a rotina de tratamento para a tuberculose se baseia em alimentação e repouso em um ambiente seco e com ar rarefeito. 

Aqui, saliento o diálogo de apresentação de Hans Castorp ao Diretor-Médico do sanatório, o Dr. Behrens, no qual ele diz ao nosso protagonista que até hoje nunca conheceu alguém saudável na vida e que a medida de tempo não é feita em segundos, minutos ou semanas, mas sim em meses e anos.

Nestas três primeiras semanas, nós conheceremos várias personagens peculiares e caricatas como o italiano iluminista Setembrinni, os russos aristocráticos e ordinários, a sociedade do meio-pulmão e a futura dona do coração do nosso herói, a russa Clawdia Chauchat.

Acredito que devido a esta paixão, ao meu totalmente não correspondida, Hans Castorp encontra-se também com tuberculose, pois ele precisa de algum motivo plausível para os seus parentes na planície, a fim de ficar mais tempo na Montanha.

Como era rico, não precisava trabalhar e poderia viver muito bem dos juros de sua herança, a fim de arcar com a sua nova morada.

E assim, meus caros leitores, o tempo na Montanha fica suspenso, a luta pela sobrevivência fica suspensa e é o que faz a Montanha ser tida como mágica e distante da vida na planície..

A vida na Montanha impedia de ver o que acontecia lá embaixo, qual seja a iminência da primeira guerra mundial. Nota-se que este livro foi escrito quando já havia acabado a primeira grande guerra.

Ademais, a narrativa não possui nenhuma ação, tendo em vista que a mesma sempre irá se basear na rotina, já descrita acima, da vida no Sanatório, mas este microcosmo conta com personagens e diálogos que te levam a refletir sobre as questões da época e de sua visão de mundo, como é o caso do Setembrinni e do Naphta, um judeu convertido ao cristianismo e da ordem dos jesuítas.

Através destas duas personagens, nós teremos os diálogos mais conflituosos sobre filosofia e sobre a vida. Do holandês Mynheer Peeperkorn aprendemos sobre dinheiros e poder; nós temos também o próprio Dr. Behrens, que em todo o romance eu achei esta personagem um louco e questionei em vários momentos sua postura como médico; e a alienação dos demais pacientes com o mundo exterior.

Na medida em que a leitura flui, você percebe que a Montanha, descrita inicialmente como uma paraíso, nas verdade é um inferno, pois é um local em que poucos saem com vida e que na realidade representa um local a espera da morte.

Saliento os subtítulos mais bonitos do livro para mim denominados “Neve”, na qual nosso protagonista reflete sobre a sua vida na planície e na montanha, bem como “Como um soldado, como um valente”, referente ao Joaquim Ziemssen valem muito a pena serem lidos caso você esteja na dúvida da leitura desta obra.

Ao final do romance tomamos o conhecimento de que Hans Castorp chegou ao sanatório em 1907 e ficou lá por sete anos, descendo a planície para lutar na primeira guerra mundial, na qual não sabemos se o mesmo sobreviveu ou não.

Acredito que pelo tom de despedida do autor ao narrar este retorno ao “mundo real”, nosso herói não tenha sobrevivido, mas tenha acordado para a realidade ao seu redor.

Sobre a indicação do livro ao Projeto Reeducação do Imaginário, A Montanha Mágica apresenta ao leitor questões que transcendem a história em si, ou seja, faz o leitor perceber a relação cotidiana entre a vida e a morte, entre reflexão e atividade não refletida, criando assim nossa própria subjetividade.

Vejo a obra como uma redefinição do tempo de uma sociedade em crise e incapaz de se ver a beira de uma catástrofe, como foi a Primeira Guerra Mundial. 

É um livro que te faz pensar filosoficamente no sentido das coisas e da vida no decorrer do tempo, razão pela qual indico imensamente a leitura desta grande obra.

Já leu este livro ou algum livro do Thomas Mann??

Deixa aqui nos comentários a sua opinião!!

Um beijo e até o próximo post!!

FUVEST: Resumo da obra A Relíquia

Capa do livro publicado pela Edições Best Bolso em 2016

SOBRE O AUTOR

José Maria Eça de Queirós nasceu em 25 de novembro de 1845 em Póvoa de Varzim – Portugal. Em 1855 saiu da casa dos avós paternos e iniciou os seus estudos regulares em um colégio interno no Porto. 

Em Coimbra, o autor nunca foi um aluno brilhante, pelo contrário, queixava-se do pequeno alcance intelectual dos professores, bem como a forma obtusa de conduzir o ensino e avaliação.

Entre 1866, ano de sua formatura na Universidade de Coimbra, e 1871 Eça tenta estabelecer-se como advogado em Lisboa, todavia, sem sucesso. Após este episódio, começa a dirigir um jornal em Évora, de onde retornou a Lisboa em meados de 1867. 

Em 1870, o autor participou ativamente da elaboração do programa e na realização das Conferência Democráticas, onde decidiu ingressar na diplomacia. Antes de assumir o seu primeiro cargo de cônsul na Inglaterra (1874-1888), viveu seis meses na província, em Leiria, como administrador do Conselho.

Em 1872, Eça já era um escritor conhecido, pois além de vários folhetins, que foram reunidos postumamente com o título de Prosas Bárbaras (1903), tinha escrito duas obras em parceria com Ramalho Ortigão, intituladas As Farpas (1871) e O Mistério da Estrada de Sintra (1870).

Em 1876, é publicado o primeiro romance queirosiano, sendo este O Crime do Padre Amaro. Ademais, a vida do autor foi dedicada a sua obra e aos seus amigos. Em 1886, aos 41 anos, casou-se com Emília de Castro, de família nobre portuguesa, com quem teve quatro filhos.

Eça de Queirós faleceu em 1900, deixando revistas as provas da Correspondência de Fradique Mendes e de A Ilustre Casa de Ramires. Posteriormente, foram publicados vários textos do autor, entre os quais A Capital! (1925) e O Egito (1926).

SOBRE A OBRA

A obra  A Relíquia foi publicada no ano de 1887, durante a segunda fase do realismo, caracterizado pelo olhar pessimista e análise da sociedade, principalmente da burguesia lisboeta da época.

Logo, este olhar do autor sempre terá um cunho crítico, irônico e ácido com suas personagens e narrativa.

A obra conta com duas personagens principais, Teodorico Raposo e Dona Maria do Patrocínio, mais conhecida como Titi. Estes estarão sempre em contato (são tia e sobrinho), em conflito (um bon vivant e uma religiosa fervorosa) com Teodorico tentando construir uma imagem de santo para a tia. Nota-se, portanto, que o autor ao narrar a história utiliza-se de perfis psicológicos para com suas personagens e através deles faz a sua crítica ao cientificismo e ao conservadorismo provinciano.

CONTEXTO HISTÓRICO E CULTURAL

O realismo em geral sempre põe em xeque os ideais românticos. ou seja, o movimento em vigência sempre se contraria ao movimento que passou.

Aqui também temos a segunda fase da revolução industrial (capitalismo e industrialização) e do pensamento científico, como é o caso do positivismo e do evolucionismo de Darwin (darwinismo). Acerca do tema, dá uma olhadinha no resumo da obra Quincas Borba!

ESTILO NARRATIVO

A obra é narrada em primeira pessoa, sendo este Teodorico Raposo, cuja alcunha é Raposão. Toda a narrativa, predominantemente, ocorre em Portugal e Jerusalém. Por fim, o tempo desta narrativa é o psicológico.

A narrativa leva em conta as característica da própria escola literária, como o objetivismo e cientificismo (a razão em detrimento da emoção), o materialismo e pessimismo (é muito difícil uma obra literária deste período ter um final feliz, o que impõe a negação ao romantismo), as reações a monarquia e ao clero, sendo esta última muito acentuada na obra e a preocupação com o tempo vivido, o tempo presente.

A narrativa é dividida em uma introdução mais cinco capítulo. Ademais, no decorrer da narrativa nós podemos vislumbrar a utilização da intertextualidade, isto é, a citação de outras obras, como é o caso da Bíblia.

ENREDO

Na introdução, nós temos o anúncio da composição de um livro de memórias da vida do protagonista. Teodorico informa que em 1875, após uma desilusão amorosa, foi enviado de Campo de Santana (Portugal) para Jerusalém pela tia Dona Patrocínio das Neves (Titi).

As memórias do protagonista não tratarão de pontos turísticos, mas de lembranças sinceras do que ele viveu. Para saber sobre a descrição dos lugares de Jerusalém, o protagonista indica a leitura do “Jerusalém passeada e comentada”, do autor alemão Topsius.

O primeiro capítulo, narrará a história de Teodorico Raposo ainda criança, isto é, desde que seus pais se conheceram. Contará também sobre seus avós e sua tia, Dona Patrocínio. Sobre a morte de sua mãe, após o seu nascimento (em uma sexta-feira santa) e a morte de seu pai, aos 7 anos de idade.

Como ficou órfão, Teodorico irá para Lisboa ficar com a Titi, que é muito severa e religiosa:

Não fiz o sinal da cruz. Mas entreabri a cortina; e o oratório da Titi deslumbrou-me, prodigiosamente. Era todo revestido de seda roxa, com painéis enternecedores em caixilhos floridos, contando os trabalhos do Senhor; as rendas da toalha do altar roçavam o chão tapetado; os santos de marfim e de madeira, com auréolas lustrosas, viviam num bosque de violetas e de camélias vermelhas. A luz das velas de cera fazia brilhar duas salvas nobres de prata, encostadas à parede, em repouso, como broquéis de santidade; e erguido na sua cruz de pau preto, sob um dossel, Nosso Senhor Jesus Cristo era todo de ouro, e reluzia.

Aos nove anos, Teodorico foi enviado ao Colégio Interno dos Isidoros em Santa Isabel. No local conheceu Crispim, que se tornaria o seu cunhado. Já nesta idade, Teodorico entendia que sempre havia de agradar Titi, pois a mesma era muito rica e ele seu único herdeiro (“E tudo pertença à Titi. Que rica que era a Titi! Era necessário ser bom, agradar sempre A Titi!”)

Um pouco mais velho, Teodorico foi terminar os seus estudos em Coimbra, na casa do Doutor Roxo, reconhecido no estudo de teologia. Nosso protagonista odiou Doutor Roxo, todavia, após a morte do mesmo, Teodorico mudou-se para hospedagem de Pimentas, onde conheceu a liberdade e as fortes delícias da vida:

Nunca mais rosnei a delambida oração a São Luís Gonzaga, nem dobrei o meu joelho viril diante de imagem benta que usasse auréola na nuca; embebedei-me com alarido nas Camelas; afirmei a minha robustez, esmurrando sanguinolentamente um marcador do Trony; fartei a carme com saborosos amores no Terreiro da Erva; vadiei ao luar, ganindo fados; usava moca; e como a barba me vinha, basta e negra, aceitei com orgulho a alcunha de Raposão.

Nesta época, nosso protagonista conheceu Adélia e apaixonou-se. Todavia, a amada tinha um caso com outro e Teodorico ficou devastado com a traição.

Tornou-se bacharel em Direito e descobriu o seu rival na herança de Titi: “E além disso o seu rival não é outro, Teodorico, senão Nosso Senhor Jesus Cristo!”

Para que a herança ficasse com ele, Teodorico passou a ir em todas as missas, pregar quadros de santos, até desconhecidos por Titi em seu quarto, ou seja, travou uma batalha contra Jesus Cristo.

Ao encontrar com Rinchão, em uma roda de amigos, Teodorico ficou com vontade de ir a Paris, para gozar da vida da mesma forma que o amigo, bem como para esquecer Adélia. Todavia, para Titi, Paris é um lugar asqueroso e pecaminoso.

Logo, Titi mandou Teodorico a Jerusalém, a terra sagrada de Nosso Senhor Jesus Cristo. Teodorico não gostou em nada do destino, consultou um judeu conhecido seu e achou que seu lugar de destino era só mar e deserto.

Contudo, Teodorico repensou em sua viagem, pois para chegar a Jerusalém, tinha de atravessar regiões bem festivas e repleta de mulheres, como era o caso de Andaluzia, Nápoles, Grécia. Com tal pensamento em mente, um clarão sulcou-me a alma.

 Já de viagem marcada, Titi pediu a Teodorico um presente, uma relíquia vinda de Jerusalém, sendo este trecho que dá nome ao conto:

– Aqui está! – declarou a Titi. – Se entendes que mereço alguma cousa, pelo que tenho feito por ti, desde que morreu tua mãe, já educando-te, já vestindo-te, já dando-te égua para passeares, já cuidando da tua alma, então traze-me desses santos lugares uma santa relíquia, uma relíquia milagrosa que eu guarde, com que me fique sempre apegando nas minhas aflições e que cure as minhas doenças.

Nos segundo, terceiro e quarto capítulos, Teodorico nos contará a sua chegada à Alexandria em um domingo, dia de São Jerônimo, acompanhado de seu colega Topsius, Doutor alemão pela Universidade de Bonn e sócio do Instituto Imperial de Escavações Históricas.

Durante sua estadia, conheceu Miss Mary e se apaixonou. Ao chegar a véspera da viagem para Jerusalém. Teodorico estava triste por deixar a nova amada, então esta lhe deu sua camisola para se lembrar dela durante a viagem.

Ao chegar em Jerusalém, Teodorico, pode viver o passado, ao ver Cristo ser crucificado e ressuscitado, bem como encontrou a relíquia que daria à Titi:

E que me encontrava certamente diante de uma árvore ilustre! Fora um galho igual (o nono talvez) que, arranjado outrora em forma de coroa por um centurião romano da guarnição de Jerusalém, ornara sarcasticamente, no dia do suplício, a cabeça de um carpinteiro de Galiléia, condenado…

Sim, condenado por andar, entre quietas aldeias e nos santos pátios do templo, dizendo-se filho de Davi e dizendo-se filho de Deus, a pregar contra a velha religião, contra as velhas instituições, contra a velha ordem, contra as velhas formas! E eis que esse galho, por ter tocado os cabelos incultos do rebelde, torna-se divino, sobe aos altares, e do alto enfeitado dos andores faz prostrar no lajedo, à sua passagem, as multidões enternecidas…

Ao retornar para Portugal, Teodorico resolveu se livrar do presente de Miss Mary, a fim de não haver pistas que o “incriminasse”, logo, entregou a uma moradora de rua a camisola dada para que esta pudesse vendê-la.

No último capítulo, nós veremos a derrocada de Teodorico, ao ler que o embrulho dado a moradora de rua era na verdade a coroa de espinhos e o embrulho dado a Titi era a camisola de Miss Mary.

Ao ver tal presente pecaminoso, Titi expulsou Teodorico de casa e este teve que sair imediatamente e sem nenhum dinheiro.

Devido a situação em que se encontrava, Teodorico teve que aprender a se virar e usar seu intelecto de bacharel. Aliás, foi devido a esta máquina de pensar que vislumbrou a real natureza das medalhas, dos bentinhos, das águas, das lascas, das pedrinhas, das palhas que trouxe de Jerusalém, que até então considerava um lixo eclesiástico, como verdadeiras relíquias, capazes de lhe gerarem rendimentos: Dava-se um caco de barro – e recebia-se uma rodela de ouro!…

Contudo, no decorrer de seu novo estilo de vida, Teodorico perdeu sua tia Titi. Ao saber de sua morte, nosso protagonista foi até o cartório do Justino, a fim de saber do testamento da tia:

O prédio do Campo de Santana e quarenta contos de inscrições, para o Senhor dos Passos da Graça. As ações da Companhia do Gás, as melhores pratas, a casa de Linda-a-Pastora para o Casimiro, que já se não mexia, moribundo. Padre Pinheiro recebia um prédio na Rua do Arsenal. A deliciosa quinta do Mosteiro, com o seu pitoresco portão de entrada, onde se viam ainda as armas dos condes de Lindoso, as inscrições de Crédito Público, a mobília do Campo de Santana, o Cristo de ouro – para o Padre Negrão. Três contos de réis e o relógio, para o Margaride. A Vicência tivera as roupas de cama. Eu – o óculo!

Ao ver que sua herança foi um óculo, Teodorico ficou louco de raiva e resolveu insultar o cadáver da Titi chamando contra ela todas as cóleras da natureza. 

Durante seu acesso de raiva e revolta, o nosso protagonista caiu de joelhos e bateu a testa no assoalho do quarto. Neste momento, ele ouviu uma voz repousada e suave:

Quando tu ias ao alto da graça beijar no pé uma imagem – era para contar servilmente à Titi a piedade com que deras beijo; porque jamais houve oração nos teus lábios, humildade no teu olhar – que não fosse para que a Titi ficasse agradada no seu fervor de beata. O Deus a que te prostravas era dinheiro de G. Godinho; e o céu para que teus braços trementes se erguiam – o testamento da Titi… Para lograres nele o lugar melhor, fingiste-te devoto, sendo incrédulo; casto, sendo devasso; caridoso, sendo mesquinho; e simulaste a ternura de filho, tendo só a rapacidade de herdeiro… Tu foste ilimitadamente o hipócrita! Tinhas duas existências: uma ostentada diante dos olhos da Titi, toda de rosários, de jejuns, de novenas; e longe da Titi, sorrateiramente, outra, toda de gula, cheia da Adélia e da Benta… Mentiste sempre; e só eras verdadeiro para o céu, verdadeiro para o mundo, quando rogavas a Jesus e à Virgem que rebentassem depressa a Titi.

Depois resumiste esse laborioso dolo de uma vida inteira num embrulho – onde acomodaras um galho, tão falso como o teu coração; e com ele contavas empolgar definitivamente as pratas e prédios de D. Patrocínio! Mas noutro embrulho parecido trazias pela Palestina, com rendas e laços, a irrecusável evidência do teu fingimento…Ora, justiceiramente aconteceu que o embrulho que ofertaste à Titi e que a Titi abriu – foi aquele que lhe revelava a tua perversidade! E isto provaste, Teodorico, a inutilidade da hipocrisia!

A leitura do trecho acima nos mostra, de forma cristalina, a crítica ao estilo de vida da burguesia lisboesta, onde vemos que Teodorico vivia duas vidas, uma verdadeira e de malícia e outra fingida com a demonstração de sua falsa santidade.

Após o breve bate-papo com Deus, Teodorico reencontrou seu amigo de escola, o Crispim. Agora homem, Crispim era dono da fábrica de fiação Teles Crispim & Cia e com o reencontro, aproveitou a oportunidade para chamar Teodorico para trabalhar com ele. 

Com o passar do tempo, Crispim teve a ideia de apresentar sua irmã, Dona Jesuína (tinha trinta e dois anos e era zarolha), para Teodorico e estes logo se casaram e tiveram filhos. Por fim, ao escrever o livro de memórias, nosso protagonista refletiu sobre o episódio da misteriosa troca dos embrulhos:

Quando em vez de uma coroa de martírio aparecera, sobre o altar da Titi, uma camisa de pecado – eu deveria ter gritado, com segurança: “Eis aí a relíquia! Quis fazer a surpresa… Não é a coroa de espinhos. E melhor! E a camisa de Santa Maria Madalena!… Deu-ma ela no deserto...”

POSSÍVEIS QUESTÕES PARA O VESTIBULAR

Ao analisar como a obra foi cobrada nos vestibulares, pude verificar que se faz necessária a leitura do livro, posto que a maior parte das questões são baseadas no enredo e na características das personagens.

Cumpre ainda salientar a importância de se ter em mente as principais características da escola literária, bem como da escrita do autor, pois nada impede que exista tal cobrança também.

IMPRESSÃO GERAL DO LIVRO

Fazia muito tempo que não lia algum livro do escritor e, assim como Machado de Assis, eu sou suspeita para falar sobre Eça de Queirós e seu senso crítico e irônico.

Do autor eu li somente o Primo Basílio e O Crime do Padre Amaro, logo, com A Relíquia, eu pude conhecer o humor de Eça, pois em vários momentos da narrativa eu me pegava dando risada com perspicácia maliciosa de Teodorico e a fé cega e conservadora de Titi.

É um livro curto e muito prazeroso de se ler, razão pela qual recomendo fortemente a leitura, independente de você ser vestibulando ou não.

Já leu este livro? Se positivo me conta o que achou?

Um beijo e até o próximo post!!

Sessão Pipoca – Agosto de 2020

Como eu gosto de uma boa história, independente de ser narrada através de livros, filmes ou série, eu resolvi compartilhar por aqui o que eu ando assistindo nos serviços de Streaming disponíveis na minha casa, obviamente!

Espero que gostem das minhas escolhas e comentários totalmente parciais sobre a minha experiência!

Sinopse: Marion Crane (Janet Leigh) é uma secretária que rouba 40 mil dólares da imobiliária onde trabalha para se casar e começar uma nova vida. Durante a fuga a carro, ela enfrenta uma forte tempestade, erra o caminho e chega em um velho hotel. O estabelecimento é administrado por um sujeito atencioso chamado Norman Bates (Anthony Perkins), que nutre um forte respeito e temor por sua mãe. Marion decide passar a noite no local, sem saber o perigo que a cerca.

Comecei o mês muito bem, obrigada! Um clássico do cinema, com uma história envolvente e personagens muito bem explorados, com destaque a Norman Bates, interpretado brilhantemente pelo ator Antony Perkins, bem como pela clássica cena do chuveiro interpretada pelo Janet Leigh (esta cena é o ponta pé inicial da trama central…só digo isso)!!

O filme está disponível na Netflix e super recomendo a sessão pipoca para este filmaço!!

NOTA: 5/5

Sinopse: Sophie é uma jovem de 18 anos que trabalha na chapelaria de seu pai. Em uma de suas raras idas à cidade ela conhece Hauru, um mágico bastante sedutor, mas de caráter duvidoso. Ao confundir a relação existente entre eles, uma feiticeira lança sobre Sophie uma maldição que faz com que ela tenha 90 anos. Desesperada, Sophie foge e termina por encontrar o Castelo Animado de Hauru. Escondendo sua identidade, ela consegue ser contratada para realizar serviços domésticos no local, se envolvendo com os demais moradores do castelo.

Ainda no início do mês assisti a esta animação japonesa confusa, em alguns momentos, mas encantadora num todo, tendo em vista que você acompanha a evolução interior e exterior, ou seja, você vê um mágico poderoso, mas que por dentro tem medo, uma velha, mas que é uma garotinha e um castelo seguro e acolhedor, enquanto há uma guerra lá fora.

O filme está disponível na Netflix e por mais que possa parecer um filme muito doido, eu recomendo a sessão pipoca!!

NOTA: 4/5

Sinopse: Em No Coração do Mar, o navio baleeiro Essex parte em busca de óleo de baleia no inverno de 1820. O navio é liderado pelo nada experiente capitão George Pollard (Benjamin Walker), que tem Owen Chase (Chris Hemsworth) como seu primeiro oficial. Owen sonha em ser capitão e tem o objetivo de superar a meta traçada por seu empregador. Eles navegam por meses em busca de baleias, mas quando encontram se deparam com uma grande ameaça, uma gigantesca baleia branca que irá lutar por sua sobrevivência e acabará atacando o navio e sua tripulação. A grande tragédia marítima da vida real inspiraria Moby Dick, de Herman Melville.

Para quem quiser saber mais sobre o romance Moby Dick, aqui no blog há uma resenha deste livro, considerado um clássico da literatura universal. Sobre o filme, eu gostei bastante da história narrada, mas confesso que foi um pouco cansativo em alguns momentos, pois a narrativa não era tão fluída, mesmo sendo uma aventura marítima.

Apesar de tudo, acredito que vale a pena uma sessão pipoca (o filme está disponível na Netflix) e indico bastante a leitura do livro Moby Dick, este sim é lindo e poético!!

NOTA: 3,5/5

Sinopse: Andy (Charlize Theron) e seus companheiros formam um grupo de soldados que possuem a inestimável virtude da vida eterna. Eles vivem através dos anos oferecendo seus serviços como mercenários para aqueles que podem pagar, se passando como seres humanos comuns dentre os demais. No entanto, tudo muda com a descoberta de que existe uma outra imortal que atua como fuzileira naval.

Com este filme, eu iniciei a minha segunda quinzena de Agosto e, para uma filme de ação e entretenimento, acredito que ele cumpre a sua função. Acredito em uma continuação e assistiria somente para me entreter, pois não é aquela narrativa que te faça refletir sobre a vida, mas funciona bem para desestressar!

O filme é uma produção da Netflix e vale a sessão pipoca em casa!

NOTA: 3/5

Sinopse: Bilbo Bolseiro (Martin Freeman) vive uma vida pacata no condado, como a maioria dos hobbits. Um dia, aparece em sua porta o mago Gandalf, o cinzento (Ian McKellen), que lhe promete uma aventura como nunca antes vista. Na companhia de vários anões, Bilbo e Gandalf iniciam sua jornada inesperada pela Terra Média. Eles têm por objetivo libertar o reino de Erebor, conquistado há tempos pelo dragão Smaug e que antes pertencia aos anões. No meio do caminho encontram elfos, trolls e, é claro, a criatura Gollum (Andy Serkis) e seu precioso anel.

Vi este filme pelo Globo Play e confesso que não gostei tanto do filme assim?!?! Acho que eu estava com muita expectativa do livro, inclusive, tem resenha no blog sobre O Hobbit, mas parece que faltou algo na história, o que não ocorre com a trilogia dos filmes do Senhor dos Anéis.

Vou dar uma chance para as continuações (ainda não entendi como conseguiram fazer três filmes para o livro…mas tudo bem) e ver se a minha opinião muda e se vale a sessão pipoca!

NOTA: 2,5/5

Sinopse: Laura Biel é uma diretora de vendas que tem sua vida virada do avesso quando, em uma viagem a Sicília, Massimo Torricelli, um membro da família da máfia siciliana, a sequestra lhe dando 365 dias para se apaixonar por ele.

Trata-se de um filme polonês, original da Netflix, que fez um burburinho quando estreou na plataforma. Confesso que não gostei nada do filme, pois é sem enredo, sem grandes atuações e totalmente sem sentido nenhum até para uma continuação.

Não vale uma sessão pipoca, mas caso queira dar uma oportunidade a ele vai na fé!!

NOTA: 0/5

Sinopse: Walter White (Bryan Cranston) é um professor de química na casa dos 50 anos que trabalha em uma escola secundária no Novo México. Para atender às necessidades de Skyler (Anna Gunn), sua esposa grávida, e Walt Junior (RJ Mitte), seu filho deficiente físico, ele tem que trabalhar duplamente. Sua vida fica ainda mais complicada quando descobre que está sofrendo de um câncer de pulmão incurável. Para aumentar rapidamente a quantidade de dinheiro que deixaria para sua família após sua morte, Walter usa seu conhecimento de química para fazer e vender metanfetamina, uma droga sintética. Ele conta com a ajuda do ex-aluno e pequeno traficante Jesse (Aaron Paul) e enfrenta vários desafios, incluindo o fato de seu concunhado ser um importante nome dentro da Agência Anti-Drogas da região.

Este mês, nós concluímos a série mais bem construída e produzida até o momento para mim!!

É uma série que mostrou não precisar de computação gráfica, cenários estupendos para contar uma história, e convenhamos, que história foi essa?!?!

Não quero contar muito da série além do que está descrito na sinopse acima, mas peço somente que, faça um favor a si mesmo e veja está série sensacional!!

NOTA: 5/5

Já assistiu algum destes filmes ou a série indicados??

Deixa aqui nos comentários o que você achou!!

PS: Também aceito sugestões de filmes e séries!!

Um beijo e até o próximo post!!

FUVEST: Resumo da obra Poemas escolhidos de Gregório de Matos

Mais um livro lido para o Projeto Fuvest e cobrado nos vestibulares de 2020, 2021 e 2022.

SOBRE O AUTOR

Gregório de Matos e Guerra, nasceu em 20 de dezembro de 1633 ou 1636, foi o terceiro filho de um fidalgo, estabelecido no recôncavo baiano.

Formou-se em direito em Coimbra. Em Lisboa foi juiz, mas retornou ao Brasil em 1681, a convite do arcebispo da Bahia, para exercer os cargos de vigário-geral e tesoureiro-mor.

Gregório foi desligado de suas funções por ordem do arcebispo Frei João da Madre de Deus por insubordinação e sua crítica ferrenha através de seus escritos, ocasião em que criou muitas inimizades em seu meio, fazendo-o receber a alcunha de Boca do Inferno.

Em 1694 foi deportado a Angola, podendo retornar ao Brasil sob as seguintes condições: desde que não à Bahia, mas a Pernambuco, e cessando a crítica satírica (o que não era muito fácil para ele, pois viveu, até a sua morte supostamente em 1696, sempre a ponto de ser punido).

CONTEXTO HISTÓRICO E CULTURAL

O Barroco no Brasil ocorreu em 1601 a 1768, período este conhecido como Contrarreforma e da criação da Companhia de Jesus. Foi através deste movimento que tentou-se impedir a reforma protestante (criada por Martinho Lutero) e a manutenção ou até mesmo a imposição da fé católica.

Tal escola literária, conta com uma literatura genuinamente brasileira, tendo em vista que o Quinhentismo era uma literatura de informação (crônicas de viagem) e de catequese produzida por estrangeiros.

Durante o período da produção da obra de Gregório de Matos, nós estávamos diante de um reino português em decadência, devido ao fracasso do comércio oriental, a insustentabilidade da economia portuguesa com o tráfico de escravos da África e nativos indígenas, e a intensificação das restrições comerciais do Brasil, sugando assim tudo o que podia da colônia, impedindo o seu próprio desenvolvimento.

O açúcar, principal fonte de produção brasileira na época, enfrentava uma forte concorrência com as colônias espanholas e inglesas na América Central.

A essas transformações socioeconômicas correspondiam mudanças no quadro político, caracterizando as formas de domínio e controle da metrópole sobre a colônia: as Câmaras, representativas do poder local, iam sendo debilitadas à medida que se fortalecia o poder dos governadores e demais funcionários reais representantes do poder metropolitano.

A poesia de Gregório de Matos satirizará estas tensões políticas e econômicas de sua época. Lembrando que nesta época, Salvador era a capital do Brasil e juntamente com Recife eram os maiores polos comerciais de cana de açúcar.

Gregório enraíza na cidade da Bahia a figuração tradicional do desconcerto do mundo, que lhe parece invertido.

Para entender os poemas de Gregório de Matos, temos que ter em mente suas influências (Luís de Camões e Francesco Petrarca), bem como as características desta escola literária, quais sejam:

CARACTERÍSTICADESCRIÇÃO
PersonificaçãoDar características humanas a seres que não são humanos, como é o caso da cidade da Bahia, por exemplo.
MetáforaJogo de comparação sem um elemento comparativo.
Antítese e paradoxoSão figuras de linguagem de oposição, através  de palavras e de ideias
AnadiploseUtilização da última palavra de um verso começando o verso seguinte. Como se fosse uma espiral.
Relação dicotômicaCorpo x alma, sagrado x profano, céu x inferno
Rebuscamento e hipérboleOrnamentação excessiva de linguagem
Renascentismo x Ética CristãAntropocentrismo x Teocentrismo
Cultismo/GongorismoJogo de palavras (sinônimos, antônimos, homônimos, trocadilhos, figuras de linguagem, hipérbatos)
Conceptismo/QuevedismoJogo de ideias (comparações e argumentação engenhosa)
Temática religiosaSentimento de culpa e arrependimento
Emprego de medidas poéticasVersos decassílabos (dedique um tempo do estudo para o aprendizado da contagem das sílabas poéticas).

SOBRE A EDIÇÃO

Esta edição, publicada pela Companhia das Letras em 2011, é voltada aos vestibulandos. Foi utilizada a comparação com as edições de Afrânio Peixoto e James Amado, recorrendo, quando fosse o caso, a algumas antologias que contêm lições ou notas de Sérgio Buarque de Holanda e de Segismundo Spina e da edição da Academia.

ESTILO NARRATIVO

Já se definiu a sátira como “a luta cômica de duas sociedades, uma normal e outra absurda”, ou seja, o poeta com sua escrita galante, parece tão absurdo diante da realidade da Bahia quanto a realidade da Bahia é absurda aos olhos do mesmo.

A lírica-amorosa de Gregório de Matos, por sua vez, traz como temática os choques entre ascetismo (filosofia religiosa) e sensualismo, espírito e matéria, fazendo os contrários passarem por uma série de transformações e aproximações que os faz inseparáveis.

Nesse trabalho de confronto e fusão dos opostos, Gregório mostra-se hábil na espécie de ocultar a realidade dos contrários. Segundo Gérard Genette (crítico literário francês), a poesia barroca tende a transformar toda diferença em oposição, toda oposição em simetria, e a simetria em identidade. Nos limites desse trajeto, o diferente torna-se idêntico, o outro torna-se o mesmo.

Na poesia religiosa, por sua vez, a dualidade matéria x espírito projeta-se na dualidade culpa x perdão. Três espaços se encontram aqui: o da religião (o confessionário), o da lei (o julgamento) e o da poesia (o soneto). A poesia aparece como a única coisa salva o poeta, perante si mesmo, perante os outros e perante Deus.

POESIA DE CIRCUNSTÂNCIA

SATÍRICA E ENCOMIÁSTICA

A maioria dos poemas escritos eram críticas irônicas a cidade da Bahia, no qual se verifica que uma de suas mazelas é a falta de verdade de honra e de vergonha devido aos negócios praticados na época, derivado da ambição e usura de seus governantes e funcionários.

Entende-se os negócios da época o comércio escravo e o açúcar.

Entende-se por funcionários do governo: meirinhos, guardas e sargentos.

Entende-se por governantes: a Justiça (bastarda, vendida e injusta), o Clero (simonia, inveja e roubalheira), Câmara (não pode acudir, não quer o poder e não vence o Governo).

Além da crítica ao Governo, há um contraste da cidade da Bahia, no qual Gregório traça um paralelo do recôncavo que um dia ele conheceu como a terra abundante e de açúcar excelente a terra que hoje comercializa o seu melhor produto no estrangeiro, por produtos inúteis a sua população.

Ademais, o próprio autor critica a condescendência do povo baiano com a corrupção praticada e o desprezo aos mesmos com a exaltação do povo estrangeiro.

A sátira de Gregório, em alguns casos, tinha um destinatário certo e sabido, como é o caso do poema intitulado “Ao Padre Lourenço Ribeiro, homem pardo que foi vigário da Freguesia do Passé”. Neste escrito, nós encontramos uma resposta ao Padre Lourenço, que desdenhou através de trovas a pessoa do autor.

POESIA AMOROSA

LÍRICA

É uma poesia amorosa literalmente. São sonetos que abordarão temas como amores não vividos, amores desprezados e até platônicos. Nestes poemas, encontramos o contraste de ideias e palavras, mas não de forma irônica, como visto na poesia satírica e erótica.

ERÓTICO-IRÔNICA

São poemas de conteúdo sensual e com a utilização de expressões de baixo calão, no qual vemos o emprego do erotismo através de um jogo de palavras e de muita ironia. Como exemplo, eu cito o poema A uma freira, que satirizando a delgada fisionomia do poeta lhe chamou “Pica-Flor”, página 275.

POESIA RELIGIOSA OU SACRA

É a poesia, na qual vemos a existência da fé, da culpa e do arrependimento.  Foi nesta espécie que eu li um dos sonetos mais bonitos de livro, denominado “A Jesus Cristo Nosso Senhor”, página 313.

POSSÍVEIS QUESTÕES PARA O VESTIBULAR

Ao analisar as questões de diversos vestibulares, eu pude verificar que a cobrança se fundava nas características da escola literária através da análise do poema fornecido pela Banca.

Cumpre também destacar a cobrança da forma estrutural ou até técnica do poema, sendo esta o soneto. Lembrando que este é dividido em catorze linhas, sendo estas divididas em quatro estrofes compostas de dois quartetos e dois tercetos.

Nas duas primeiras estrofes é apresentado ao leitor uma tese, já no primeiro terceto será apresentado o desenvolvimento e no segundo terceto a resolução da tese/problema.

Ademais, este soneto apresenta características peculiares como é o caso de versos decassílabos, ou seja, cada linha tem dez sílabas poéticas (a sílaba poética não conta a última sílaba do verso).

Salienta-se também outra característica do poema que são as rimas interpoladas nos quartetos (A/B/B/A), as rimas intercaladas nos tercetos (C/D/E/C/D/E), bem como a contagem das sílabas poéticas (versos decassílabos).

Por fim, caso você não queira ler ou não tenha tempo para ler esta obra, fica a dica de estudo das características do barroco, bem como seu contexto histórico e cultural.

IMPRESSÃO GERAL DO LIVRO

Até o momento, este foi o maior desafio literário que eu tive este ano, pois:

  1. Faz tempo que eu concluí o ensino médio (ano de 2005);
  2. Não lembrava mais nada do período do Barroco Brasileiro, somente do Aleijadinho (bem pouco, por sinal);
  3. Não estou acostumada a ler poesia.

E como foi a leitura deste livro então?

Não foi nada fácil, a linguagem rebuscada, as palavras que não são mais utilizadas e até não tinham mais sinônimos, contribuíram para a leitura ser lenta e maçante em alguns momentos, tendo em vista que em alguns poemas eu tinha que fazer a releitura por não ter entendido nada.

As poesias que eu mais gostei foram as satíricas, pois eu adoro uma ironia e um humor negro. No que tange ao sarcasmo, alguns escritos tinham o nome da pessoa interessada, razão pela qual o autor fazia jus ao seu apelido de Boca do Inferno e também fez com que ele fosse expulso da Bahia e para lá não pudesse mais voltar.

Também gostei bastante da poesia religiosa, porque era cristalino o arrependimento do poeta em seu escrito (eu-lírico).

Por fim, recomendo a leitura deste, desde que você já tenha em mente as características do barroco e caso você queira sair da sua zona de conforto lendo um clássico da literatura nacional em forma de poesia.

Já leio este livro? Está se preparando para o vestibular?

Compartilha aqui comigo sua experiência de leitura!!

Um beijo e até o próximo post!!

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