Janet, a entortada

Ilustração do livro O médico e o monstro e outros experimentos

Conto escrito por Robert Louis Stevenson em 1881, presente na edição publicada em 2019 pela Editora Darkiside sob o título O Médico e o Monstro e outros experimentos.

O reverendo Murdoch Soulis era um velho, severo e solitário pastor da paróquia de Balweary, localizada à beira da água do rio Dule e ao lado do bosque Hanging Shaw.

O bosque era um lugar que após o pôr do sol era evitado pelos prudentes habitantes do vilarejo, exceto pelo Pastor Soulis que sempre caminhava por lá, proferindo em voz alta seus pensamentos e sermões não divulgados aos cristãos durante o culto.

Este aspecto comportamental do pastor despertava curiosidade nos moradores mais novos no vilarejo, bem como receio dos habitantes mais antigos, tendo em vista, que estes tinham conhecimento e lembranças do primeiro ano do sacerdócio do pastor na paróquia local. E é neste ponto que a nossa história de terror e mistério começa….

Há cinquenta anos atrás o vilarejo recebia o jovem pastor Murdoch, cheio de energia e empolgação. Com uma rotina repleta de orações, cultos e estudos bíblicos, o sacerdote precisava de ajuda para a arrumação do presbitério e para as tarefas domésticas.

A pessoa indicada foi uma senhora chamada Janet M’Clour. Todavia, nem todos do vilarejo concordaram com a indicação feita, tendo em vista os boatos que rolavam no local sobre a velha Janet, entre eles, a de ter parido um dragão, de não comungar e de seu envolvimento com as trevas.

O jovem pastor achou aquilo tudo tolice e que o mal não tinha lugar no vilarejo controlado pela fé do povo. Então, Janet foi contratada para trabalhar na Paróquia de Balweary. Contudo, algumas donas de casa do local começaram a azucrinar Janet, a acusando de bruxaria entre outras coisas.

No momento do conflito, o Pastor Murdoch chegou para separar a briga e defender Janet. Nesta ocasião, a velha renunciou, perante o pastor e as outras mulheres, o demônio (dizem que foi a contragosto e com muitas caretas).

Com o trabalho na casa paroquial, os habitantes do vilarejo notaram que Janet estava um tanto quanto diferente, pois a mulher começou a andar com o pescoço entortado, isto é, “a cabeça dela para um lado que nem corpo enforcado e um sorriso na cara que nem a de um cadáver enforcado.”

Todavia, com o passar do tempo, os moradores do local se acostumaram com este novo jeito de andar de Janet, mas relataram que, após a renúncia ao diabo, Janet nunca mais foi a mesma e que de sua boca não saia mais a palavra Deus.

Com a chegada do mesmo de Julho no vilarejo, o tempo parecia esquisito, isto é, sem nuvens, o gado não conseguia subir as montanhas, a crianças estavam sempre cansadas, o vento e o calor eram muito mais intensos que nos anos anteriores. 

Até mesmo o pastor Murdoch estava diferente, pois não conseguia comer e nem dormir direito. Seu lugar preferido não era mais a casa paroquial, mas sim o cemitério do vilarejo. Conforme passava mais tempo no local, o pastor começou a observar o aparecimento de corvos no cemitério.

O sacerdote saiu à procura do que estava chamando a atenção de tais animais, até se deparar com um homem estranho e sinistro (para dizer o mínimo), em cima de um túmulo.

O pastor tentou a aproximação do homem, mas quanto mais ele chegava perto mais a pessoa misteriosa se afastava até chegar próximo ao presbitério. Murdoch não gostou nada daquilo e correu o mais rápido que pôde até a casa paroquial, mas ao chegar não encontrou mais o suspeito.

Após o ocorrido, o religioso não conseguiu fazer mais nada, pois as palavras das orações lhe escapavam e os pensamentos também, exceto, a figura do homem sinistro. Ao ir até a janela de seu aposento, o pastor notou que a água do rio Dule estava grossa e que Janet estava lá lavando roupa.

Murdoch ficou observando-a e lembrou do que as pessoas do vilarejo lhe disseram sobre a sua ajudante. Os habitantes do local teimavam em dizer que a mulher já havia falecido há muito tempo e que ela nada mais era que um fantasma.

O pastor afastou os pensamentos e se culpou por estar julgando a pobre mulher desta forma. Em seguida, rezou por Janet, por ele e foi se deitar.

E assim, veio a noite de 17 de agosto de 1712, uma data sempre lembrada pelos habitantes do vilarejo. O clima estava mais quente que nos demais dias e de uma escuridão jamais vista. O sacerdote não conseguia dormir e voltou a pensar no homem misterioso e em Janet.

Neste momento, no quarto de Janet se escutou um barulho muito alto e depois um silêncio horripilante. Rapidamente, o pastor pegou uma vela e foi até o quarto de sua ajudante.

A porta estava destrancada e ao espiar dentro do aposento encontrou Janet “pendurada ao lado do antigo armário de carvalho; a cabeça para cima do ombro, os olhos arregalados, a língua saltando para fora da boca e os calcanhares trinta centímetros para cima do chão”.

Murdoch conseguiu reunir toda a sua fé e coragem para trancar o quarto de Janet e desceu as escadas da casa paroquial. O pastor não conseguia raciocinar completamente, após a cena horrível que presenciou, mas de repente, ele ouviu um barulho vindo do quarto da mulher.

Era um barulho de passos, principalmente no local em que se encontrava o corpo de Janet. O pastor não entendia como aquilo estava acontecendo, pois ele tinha acabado de trancar a porta e não havia mais ninguém na casa (ou ela achava que não havia).

O sacerdote saiu da casa paroquial e permaneceu lá fora com sua vela, mas o barulho de passos ficava cada vez mais alto e próximo. Nesta hora, Murdoch estava com medo e rezou suplicando a proteção de Deus.

O fogo da vela foi perdendo força e na porta do presbitério estava Janet. Ela estava caminhando devagar em direção ao bosque. O pastor começou a gritar para que a mulher fosse embora e neste exato momento, uma luz divina, vinda do céu “queimou” o corpo da velha mulher até o mesmo virar cinzas.

Em seguida, começou uma chuva torrencial no local e consequentemente gritos dos habitantes do povoado. Muitos acham que o tal homem misterioso habitava o corpo de Janet, bem como muitos alegaram que o viram andar pelo vilarejo até não ser mais encontrado.

Todavia, o homem que mais sofreu em Balweary foi o Pastor Murdoch que delirou por muito tempo após o ocorrido até se tornar o velho severo e solitário que é hoje.

Espero que tenham gostado e se assustado com o conto!!

🎃Um beijo e até o próximo post!!🎃

Biscoitinhos amanteigados para o Halloween

Aí vai uma receita super versátil para qualquer época do ano, mas devido ao Halloween, ela foi devidamente adaptada para a ocasião!!

Abaixo, seguem as fotos das ferramentas de trabalho, dos ingredientes e do modo de preparo:

Espero que vocês gostem e desfrutem desta receitinha deliciosa e fácil de ser executada!!!

Um beijo e até o próximo post!!!

CONTOS DE TERROR E MISTÉRIO – BOOKWORMS CLUB GOLD

Dando início para mais um ano, aqui no blog, do mês de Halloween!! Aproveito e deixo a sugestão dos posts de 2019 e 2020 do mesmo período para vocês darem uma olhadinha:

Coraline

A lenda do cavaleiro sem cabeça e outros contos

Sweeney Todd – o barbeiro demoníaco da Fleet Street

O médico e o monstro

Para nossa primeira resenha deste ano, eu escolhi um livro de contos em inglês, adaptados para os níveis 3 (1000 palavras) e 4 (1400 palavras). O livro é de uma coleção lançada pela Oxford, chamada Bookworms Club, feita para ser debatida em sala de aula, conforme as atividades apresentadas.

Sobre os contos, eu li a adaptação de Black Cat do autor norte-americando Edgar Allan Poe (1809-1849) e The Experiment do autor britânico Montague Rhodes James (1862-1936). 

Bora falarmos sobre eles??

🎃 Black Cat (um dos contos do livro Tales of Mystery and Imagination)🎃

A narrativa se inicia com o relato de um homem, que não se considera louco, mas em razão de seus atos, será morto. Logo, ele passa a nos contar a sua história.

Nosso narrador, desde muito jovem, sempre gostou de animais. Conforme ele foi crescendo, o amor pelos animais também foi aumentando na mesma proporção, tanto o é, que ele acabou se casando com uma moça que também adorava animais, a qual para agradar o marido, sempre lhe comprava um novo bichinho de estimação, como peixes, pássaros, cães, galinhas e um gato.

O felino, chamado Pluto, era um enorme gato preto e esperto. A admiração de seu dono por ele era tamanha, que este o amava mais do que os outros animais. O nosso narrador não deixava que sua mulher cuidasse do gato, pois ele gostava de fazer tudo pelo bichinho, e como retribuição, o gato sempre estava ao seu lago em qualquer lugar e a qualquer momento.

Após vários anos, a vida do nosso narrador foi mudando lentamente e seu amor por Pluto também. Ele passou a beber constantemente, começou a ser violento com sua esposa e os outros animais e especialmente, passou a odiar seu gato de estimação.

Em uma noite, após voltar para casa bêbado, Pluto ao ver seu dono tentou se esconder e o mordeu, motivo pelo qual, fez com que o nosso narrador ficasse muito nervoso com a atitude do animal. Logo, para castigá-lo, ele pegou uma faca e arrancou um dos olhos de seu gato.

Após meses do ocorrido, a ferida do olho de Pluto estava melhor, mas o animal continuava fugindo de seu dono. No início, o nosso narrador sentiu vergonha do fez com seu gato, mas conforme o vício no álcool continuava, o sentimento de remorso foi substituído pela raiva.

Em uma manhã, o nosso protagonista pegou uma corda e a amarrou ao redor do pescoço de seu gato e deixou o bichinho para morrer preso a uma árvore. No mesmo dia, à noite, a casa do nosso narrador pegou fogo, ele e a esposa conseguiram fugir, mas o restante de sua moradia foi destruída.

Ao voltar para a sua casa, havia um grupo ao redor da única parede que permaneceu de pé após o incêndio e nela havia uma imagem, isto é, o formato de um grande gato, no qual dava para ver também o formato de uma corda ao redor de seu pescoço.

O homem ficou atordoado com o que viu e por várias noites ficou perambulando ao redor da vizinhança procurando entre os gatos um igual a Pluto, porém sem sucesso. Em uma noite, bebendo em seu bar favorito, o homem encontrou um gato no bar e de imediato simpatizou-se com o animal e o levou para casa. 

Todavia, o sentimento de empatia pelo felino foi se transformando em ódio, mas o nosso narrador fez de tudo para não maltratar mais nenhum bichinho. O gato começou a assustá-lo, pois o animal possuía uma marca misteriosa. Tal sinal foi crescendo e tomando a forma de uma forca.

Conforme o medo pelo gato ia aumentando, nosso protagonista ia ficando mais nervoso e angustiado, até que um dia, ao ir com sua esposa até o porão de sua casa, o homem tentou matar o gato com um machado, sua esposa tentou impedi-lo, mas com este ato, ela acabou sendo a vítima da arma e caiu morta no chão.

Mesmo com a morte da mulher, nosso narrador permaneceu calmo, frio e calculista, ao ponto de traçar planos para esconder o corpo de sua esposa. Até que uma ideia veio-lhe a mente, ele decidiu esconder o corpo atrás de uma parede oca do porão. Logo, com muita frieza, o homem acomodou o corpo e cobriu a parede com gesso.

Após esconder o corpo da esposa, a próxima vítima do nosso protagonista era o gato, mas, ele não conseguia o encontrar em nenhum lugar, o levando a crer que o animal tinha desaparecido. Diante deste cenário, o homem não conseguia esconder a sua felicidade e o sentimento de liberdade que aquilo trazia.

Contudo, rapidamente, as perguntas por sua esposa foram aumentando, ao ponto de a Polícia ser chamada para averiguar a situação. Os investigadores revistaram a casa inteira, a fim de encontrar alguma prova do paradeiro da mulher. 

O homem, muito confiante do seu plano, permaneceu calmo durante o trabalho dos policiais, até que os mesmos foram revistar o porão. Lá, eles também não encontraram nada, mas no momento em que os investigadores estavam indo embora, eles ouviram um barulho detrás de uma parede, o som foi crescendo e crescendo até parecer um grito longo e sem fim.

Os policiais começaram a quebrar a parede e atrás dos tijolos estava o corpo da mulher e no topo de sua cabeça, um gato preto de um olho só. O gato preto mandou seu dono para morte devido ao seu ato cruel.

🎃O experimento (conto do livro The Unquiet Grave)🎃

Nos últimos dias do mês de Dezembro, o pastor chamado Dr. Hall está trabalhando em seus estudos, quando um de seus empregados o informa sobre a morte do Sr. Squire Bowles.

Dr. Hall ficou perplexo com a notícia do falecimento do homem, pois no dia anterior o tinha visto muito bem de saúde. Ao perguntar ao Sr. Wickem, o escriturário/servidor público do vilarejo, o mesmo informou que a morte do Sr. Squire foi repentina e muito dolorosa, razão  pela qual sua esposa e seu enteado queriam que o enterro do falecido fosse o mais rápido possível.

Após retornar do encontro com a família, Dr. Hall juntamente com o Sr. Wickem deram início aos peculiares preparativos do funeral do Sr. Squire. Por que peculiares??? Bom, o Sr. Squire, antes de morrer, informou que não queria ser enterrado no mausoléu da família, mas sim em uma cova, sem caixão, no jardim da igreja.

Sim, o Sr. Squire tinha algumas ideias estranhas sobre a vida após a morte. Mas, tanto o Dr. Hall quanto o Sr. Wickem seguiram as orientações dadas pelos familiares e deixaram tudo pronto para o enterro às vinte duas horas do dia seguinte.

Chegado o momento do velório e enterro do Sr. Squire, onde compareceram todos os moradores do vilarejo, alguns vizinhos e o enteado Joseph. A viúva Sra. Squire não compareceu à cerimônia.

Com a sua morte, o Sr. Squire deixou para sua esposa e enteado terras, a casa e tudo o que havia dentro dela. Contudo, nenhum dinheiro foi encontrado, o que era muito estranho, pois o falecido era um homem muito rico e recebia o valor arrecadado em suas terras em dinheiro vivo todos os anos, logo, onde foi parar este dinheiro??

Durante a procura por algo que indicasse o paradeiro do dinheiro, Joseph e sua mãe encontram na biblioteca uma carta escrita um dia antes de sua morte pelo Sr. Squire e endereçada a um amigo chamado Sr. Fowler.

Nesta correspondência, o Sr. Squire fala sobre os seus estudos sobre a vida após a morte. Com base em suas descobertas, o Sr. Squire informa que por um tempo a alma do homem já morto fica presa em alguns lugares em que ele conheceu em vida. Na verdade, esta permanência da alma é tamanha ao ponto de conseguir se comunicar com os vivos.

Ainda relata que segundo os experimentos do livro escrito pelo Dr. Moore, quando a alma é chamada, a pessoa que a chama terá que abrir a boca do corpo inanimado para  conseguir ouvir os desejos do falecido, bem como onde ele escondeu o seu dinheiro. E é nesta parte que a carta para e não se tem mais nenhuma pista do paradeiro do dinheiro.

O enteado do Sr. Squire, Joseph encaminhou a carta escrita pelo seu padrasto ao Sr. Fowler e o mesmo o escreveu de volta. Com o retorno da resposta do amigo do falecido, mãe e filho decidiram que Joseph iria naquela noite realizar o procedimento relatado pelo Sr. Squire na carta endereçada ao seu amigo, isto é, perguntaria a alma de seu padrasto onde estava escondido o dinheiro. Inclusive, sua mãe deu um pano para que Joseph usasse para se cobrir durante o ato.

Feito o experimento, Joseph atordoado, confessa à mãe que a alma do Sr. Squire estava raivosa e sua voz era similar a um cão rosnando. Joseph sentiu que o espírito estava ali esperando por seu chamado. Ao terminar de questionar sobre o paradeiro do dinheiro, o corpo do Sr. Squire saiu da cova e agora sua alma estava livre e perambulando nos lugares conhecidos em vida.

Joseph estava tão assustado que não conseguia passar mais uma noite sequer na casa herdada por ele e sua mãe. Diante do desespero de seu filho, a Sra. Squire sugeriu que os dois, ao anoitecer, pegassem um barco rumo à Holanda, tendo em vista que fantasmas não podem seguir os vivos sobre a água.

Ao chegar o barco, rumo a Holanda, o barqueiro pegou a bagagem e informou que a viagem seria tranquila e que junto com eles havia mais um passageiro no barco, rumo ao mesmo destino.

Ambos estranharam a presença de mais um passageiro e perguntaram ao condutor se ele sabia quem ele era, todavia, o mesmo informou que não o conhecia e que o misterioso passageiro mantinha o seu rosto escondido, mas que sua voz era estranha, como a de um cão rosnando.

O conto termina informando que naquela época, as mulheres que envenenavam seus maridos eram queimadas até a morte. Os registros de um certo ano em Norwich relataram que uma mulher foi punida dessa maneira e seu filho foi enforcado em seguida. Nenhum deles foi sentenciado por seus crimes, mas eles confessaram ao pastor de seu vilarejo o que eles fizeram. O nome do vilarejo continua sendo um mistério, pois até hoje o dinheiro continua escondido.

O livro de experimentos do Dr. Moore encontra-se disponível na biblioteca da Universidade de Cambridge, e na página 144 está escrito o que segue:

“O experimento provou-se muitas vezes verdadeiro para encontrar ouro escondido no solo ou roubo ou assassinato ou qualquer outra coisa. Vá até o túmulo do morto e chame por seu nome por três vezes e diga ‘Pode deixar a escuridão e vir a mim esta noite e me dizer verdadeiramente onde o ouro está escondido’. Depois, pegue um pouco de terra do túmulo do morto, amarre-a com um pano limpo e durma com ela sob a orelha direita. E onde quer que você deite ou durma, à noite ele virá e lhe dirá a verdade, seja acordado ou dormindo.”

Um beijo e até o próximo post!!

Contos de fada: A Bela e a Fera

O melhor conto de fadas de todos os tempos (eu garanto de forma totalmente imparcial #sqn)

Para celebrar o Dia das Crianças que está quase aí, no post de hoje, eu recomendo aos pimpolhos e, assim como eu, para os não tão pimpolhos assim, a leitura do meu conto de fadas e da princesa da Disney favoritos, A Bela e a Fera!!

Até este ano (2021), eu só conhecia a história da Bela e a Fera devido a animação da Disney e ao filme francês com o mesmo nome, inspirado na versão original da história. 

Logo, para mudar esta situação, eu aproveitei para reviver toda a magia que a Bela e a Fera inspiram e fiz a leitura da versão original, escrita por Madame de Villeneuve (1740) e da versão clássica, escrita por Madame de Beaumont (1756).

As versões acima citadas foram publicadas pela Editora Zahar, através de sua coletânea de livros intitulada Clássicos Zahar em edição de bolso de luxo. Além dos contos, a edição também traz em seu bojo o texto de apresentação escrito por Rodrigo Lacerda e ilustrações de Walter Crane e outros:

Neste post, não contarei o enredo do conto de fadas, tendo em vista, que quase todo mundo conhece pelos filmes e até através de peças de teatro, mas cito aqui para quem não sabe que, este conto teve uma história real que o inspirou, sendo esta a de Pedro González, um espanhol nascido em 1537, portador da denominada síndrome do lobisomem (hipertricose – crescimento anormal de pelos no rosto e por todo o corpo).

Além da hipertricose, Pedro contraiu matrimônio com a bela Catarina, filha de um serviçal da corte da Rainha Catarina de Médici. O casamento aconteceu, pois a identidade do noivo foi escondida até a ocasião. Inicialmente, ao conhecer o seu marido, Catarina até chegou a desmaiar, mas com o tempo, o medo passou a dar lugar ao amor e consequentemente a uma união feliz e duradoura.

Portanto, de forma totalmente parcial, eu indico a leitura deste encantador conto de fadas que serviu de inspiração ao filme de animação mais lindo de todos os tempos.

Por fim, deixo aqui também como dica de livros infanto-juvenis que já tem post aqui no blog:

O hobbit

A trilogia dos Senhor dos Anéis (A sociedade do anel, as duas torres e o retorno do rei)

Harry Potter e a criança amaldiçoada

Leve-me com você

Minha vida fora dos trilhos 

Em algum lugar das estrelas

🌹Espero que tenham gostado do post e até a próxima!!!🌹

FUVEST: RESUMO DA OBRA MENSAGEM DE FERNANDO PESSOA

Capa do livro publicado pela Editora Via Leitura

SOBRE O AUTOR

Fernando Pessoa nasceu em Portugal, no ano de 1888 e faleceu em 1935, aos 47 anos de idade. O autor perdeu seu pai muito cedo (aos cinco anos de idade) e seu irmão mais novo, aos seis anos. Sua mãe contrai um novo matrimônio, quando o autor tinha seus sete anos de idade. Devido à constituição desta nova família, Fernando vai morar na África do Sul, local em que seu padrasto é cônsul. 

Logo, toda a formação do autor se dá em língua inglesa, momento em que o mesmo mostra todo seu esforço e aplicação no decorrer do período escolar, principalmente com os romancistas ingleses, bem como Shakespeare e Homero.

Em 1905, Fernando Pessoa regressa definitivamente para Portugal e somente em 1908, o autor começa a escrever em língua portuguesa.

Cumpre ressaltar a heteronímia presente na vida e obra do autor. Desde de a infância, Fernando Pessoa tinha a capacidade e até mesmo a necessidade de criar personagens imaginados, no qual ele escrevia cartas, com que ele conversava. 

Em sua poesia, a heteronímia se divide em vários desdobramentos, onde a voz lírica e o poeta estão interligados, mas podem não ser a mesma pessoa. Logo, alguns sentimentos descritos na poesia, podem não ser os próprios sentimentos do poeta. Aqui, eu cito os três heterônimos fundamentais na obra de Fernando Pessoa: Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos.

SOBRE A OBRA E CONTEXTO HISTÓRICO E CULTURAL

A coletânea de poemas que teve como início de produção o ano de 1913, mas que veio a ser publicada somente em 1934 (segundo período do modernismo – 1930 a 1945), retrata a história de Portugal. Devido a heteronímia presente na obra do autor, cabe salientar que, o livro Mensagem foi escrito pelo próprio Fernando Pessoa.

Com relação ao contexto histórico, a obra foi produzida no período entre guerras, onde a maior parte da produção literária da época era voltada para o nacionalismo.

Ademais, a obra foi lançada propositalmente à venda no dia 01/12/1934, pois este é o dia da Restauração da Independência de Portugal e fim da União Ibérica.

SOBRE O ESTILO NARRATIVO

A obra em tela teve como base a epopeia clássica Os Lusíadas de Camões. Falo isso porque, ao ler a obra, é nítida as semelhanças de seus temas, sendo estes o heroísmo, o nacionalismo e as grandes navegações.

Todavia, ao mesmo tempo que se assemelha a obra acima citada, desta de difere, pois, Mensagem foi escrita voltada ao período em que Fernando Pessoa vivia, sendo este, o período entre guerras, como dito no tópico anterior.

O texto do autor, é dividido em três partes: Brasão, composto de dezenove poemas; Mar Português, composto de doze poemas; Encoberto, composto por treze poemas. Os poemas não possuem métrica e nem rima.

SOBRE O ENREDO

O livro apresenta ao leitor temas como os heróis de Portugal, dentre eles Dom Sebastião, o poder da nação Portuguesa, especialmente, durante o período das grandes navegações e o nacionalismo, característica muito presente em obras modernistas.

É de extrema importância ressaltar que a obra Mensagem possui alguns mitos, que serviram de base para o desenvolvimento do enredo, são elas:

Sebastianismo (ou mito do encoberto): Dom Sebastião, rei que desapareceu na África durante a Batalha de Alcácer-Quibir (Marrocos – 1578), retornaria triunfante para levar Portugal novamente a um patamar de glórias e conquistas (messianismo). 

Ele seria o responsável pelo Quinto Império, tendo em vista que sua figura seria encarregada de levar a fé cristã a outros lugares do mundo. Recomendo a leitura do poema – O quinto império, contido na terceira parte em I – Os Símbolos.

Mito do espírito aventureiro português: os portugueses teriam conquistado os mares e ampliado seus territórios por conta de um talento inato e uma predestinação divina, elementos responsáveis pelo êxito das grandes navegações portuguesas nos séculos XV e XVI.

Mito do herói fundador: a cidade de Lisboa teria sido fundada pelo herói mitológico Ulisses.

Agora, vamos a divisão da obra, que pode ser vista como à ascensão, o ápice e o declínio de Portugal:

Primeira parte denominada Brasão: o autor recria a história de Portugal, através da figura dos heróis da nação portuguesa e a importância dos mesmos para a formação e desenvolvimento de Portugal. A primeira parte é subdividida em os Castelos (I e II), as Quinas (III), a Coroa (IV) e o Timbre (V).

São tidos como heróis as seguintes personagens: Ulisses, Viriato (os dois primeiros tidos como os fundadores de Lisboa e Portugal, respectivamente), Dom Henrique, Dona Tareja, Dom Afonso Henriques, Dom Diniz, Dom João I, Dona Filipa de Lencastre, Dom Duarte, Dom Fernando, Dom Pedro,  Dom João I, Dom Sebastião, Nunes Álvares Pereira, Dom João II e Afonso de Albuquerque.

Segunda parte denominada Mar Português: É selecionado um contexto específico do passado de Portugal, neste caso, os fatos e personagens ligados às grandes navegações portuguesas. 

A segunda parte é compostas pelos poemas: Infante, Horizonte, Padrão, Monstrengo, epitáfio de Bartolomeu Dias, os Colombos, Ocidente, Fernão de Magalhães, ascensão de Vasco da Gama, Mar Português (poema da célebre frase: “Tudo vale a pena se a alma não é pequena), a Última Nau e Prece.

Terceira parte denominada Encoberto: é a parte mais fantástica da obra (fantasiosa), aparecem muitas figuras míticas e imaginadas que contrastam com um olhar mais realista da nação portuguesa. 

Aqui, nós temos um olhar saudosista da grande nação que Portugal foi e a sua decadência à época de Fernando Pessoa, como pode ser visto com a leitura do poema Nevoeiro na subdivisão Os Tempos .

A terceira parte subdivide-se em: os Símbolos (I), os Avisos (II) e os Tempos (III).

POSSÍVEIS QUESTÕES PARA O VESTIBULAR

As questões, às quais eu tive acesso, ressaltaram os aspectos culturais da nação portuguesa, a cobrança dos mitos, nos quais a obra se baseia, especialmente no mito de Dom Sebastião, as grandes navegações, a escola literária a qual o autor pertence, sendo esta o modernismo.

Deixo aqui, a indicação de um site bem bacana que traz várias questões sobre ela: https://faciletrando.wordpress.com/2020/06/23/mensagem/

MINHA EXPERIÊNCIA DE LEITURA

É uma leitura rápida, todavia, com muitos detalhes que, se eu não tivesse pesquisado antes sobre a obra, eu não tinha entendido nada. 

Não foi a minha obra favorita do Projeto Fuvest e se fosse para desvendar a “mensagem” deixada por Fernando Pessoa, eu ousaria dizer que o autor escreveu esta coletânea de poemas aos portugueses  e/ ou como uma forma de resposta da nação portuguesa para o mundo.

Por fim, como este é o último post referente ao Projeto Fuvest 2020/2021/2022, eu quero aproveitar e agradecer a todos pelos inúmeros acessos que o blog obteve com o projeto e espero ter ajudado a todos da melhor forma possível rumo à aprovação!


Um beijo e até o próximo post!!

FUVEST: Resumo da obra Romanceiro da Inconfidência

Capa do livro publicado pela Global Editora

SOBRE A AUTORA E A OBRA

Cecília Meireles nasceu no dia 07 de janeiro de 1907 no Rio de Janeiro. Perdeu seus pais ainda muito pequena e foi criada por sua avó Jacinta Garcia Benevides. Em 1917, a autora se formou como professora, no qual passou a dedicar o seu aprendizado a línguas, música e a cultura oriental.

Até o ano de 1934, Cecília dirigiu o Diário de Notícias, no qual publicava matérias voltadas à reforma educacional, sendo este um assunto muito discutido na época. Neste mesmo ano, ela fundou no bairro de Botafogo, a Biblioteca Infantil, local em que havia a promoção de eventos culturais.

Em 1940, a autora lecionou literatura e cultura brasileira na Universidade do Texas e em 1942, fez parte da equipe do jornal A Manhã, escrevendo matérias inerentes ao folclore infantil.

Na vida pessoal, a autora foi casada por duas vezes, sendo seu primeiro casamento com o pintor Fernando Correia dias e após o falecimento do mesmo, veio a se casar com o também professor Heitor Vinícius da Silveira Grillo.

Com relação a sua obra, o seu primeiro livro de poesia, Espectros foi publicado em 1919. Todavia, Cecília Meireles é considerada uma autora do segundo período do modernismo (1930-1945), contudo, ela possui uma voz própria, isto é, sua poesia não segue a produção literária da época, como os poemas escritos em versos livres e com a utilização de um português coloquial.

A autora produz seus poemas com a presença marcante da musicalidade, métrica e rima. E, é através destas características que a autora aborda em seus escritos temas como a dualidade entre o que é efêmero (aquilo que é passageiro) e o eterno, sendo assim considerada neossimbolista (escrita composta por elementos místicos, espirituais e  transcendentais).

Em novembro de 1964, a autora veio a falecer e no ano seguinte recebeu (postumamente), o prêmio Machado de Assis pelo conjunto de sua obra.

SOBRE O ESTILO NARRATIVO

No que tange especificamente a obra Romanceiro da Inconfidência, Cecília viajou para a cidade de Ouro Preto em 1945, a fim de pesquisar sobre o tema, objeto do seu livro.

Nota-se, portanto, que a ideia do livro em análise surgiu anos antes de sua publicação, ocorrida em 1953. O trabalho de pesquisa da autora consistiu na visita de todos os pontos e cidades marcadas pela Inconfidência Mineira, bem como de uma pesquisa histórica aprofundada.

Para passar aos leitores a sua ideia, Cecília Meireles se utilizou da técnica do romanceiro, uma forma poética, lírica e narrativa dividida em romances. Esta forma de escrita era muito utilizada no período medieval português.

Composto por 85 romances e poemas de introdução e finalização, como são os casos dos cenários e das falas. A obra conta com um eu lírico diverso, capaz de dar voz a pessoas históricas conhecidas e outras desconhecidas, mas que passam a visão do modo de vida da época narrada.

Como dito anteriormente, os romances contam com ritmo, aqui visto como equivalente a musicalidade devido a predominância de rimas nos poemas e de métrica, composta de versos heptassílabos e pentassílabos.

CONTEXTO HISTÓRICO E CULTURAL 

Para se entender a obra escrita por Cecília Meireles, se faz necessário o prévio conhecimento do ciclo da mineração, especialmente, a forma de tributação adotada pela Coroa Portuguesa, que consistia na cobrança de uma cota anual de 100 arrobas calculadas em cima do ouro extraído.

No início da exploração, era possível o cumprimento da tributação imposta, todavia, com o tempo, o ouro foi ficando cada vez mais escasso, logo, a cota anual foi deixando de ser paga integralmente, o que gerou a desconfiança da Coroa Portuguesa, de que a queda da arrecadação não era ligada ao fato da escassez do ouro, mas sim a corrupção e desvio de verbas.

Foi dessa desconfiança, que surgiu a derrama, que consistia na constrição de bens da população como complemento para a integralidade da cota anual de 100 arrobas. Este instrumento de confisco foi usado somente uma vez, pois nas demais tentativas, a sua execução sempre restou frustrada, devido a impossibilidade de pagamento das dívidas negociadas.

Aqui, devo mencionar que alguns membros da elite mineira foram extremamente beneficiados com a exploração do ouro, bem como pelo esquema de corrupção existente na época. Tais membros possuem nome, sobrenome e até poemas sobre eles, sendo estes Joaquim Silvério dos Reis e Rodrigues de Macedo.

Portugal continuava insatisfeita com a baixa arrecadação em sua colônia e forçando ao máximo uma postura mais rigorosa na forma de cobrança das dívidas, incitou o povo mineiro, especialmente a elite, o sentimento de revolta em busca da independência de Minas Gerais em relação a Portugal, bem como se livrar do pagamento da dívida. 

Ressalto, que nesta época, não havia a ideia de independência da nação, pois cada Estado (Capitania) era independente entre si.

A inspiração para esta revolução e busca pela independência, vieram dos ideais iluministas, que serviram de base para a Revolta das Treze Colônias nos EUA diante da Inglaterra e posteriormente para a Revolução Francesa.

Cumpre frisar que além do Iluminismo, também era difundida a ideia do Arcadismo, que consiste na retomada da cultura clássica, como os poetas latinos Virgílio e Horácio, de onde tiraram o lema da Inconfidência “Liberdade, ainda que tarde”, incorporado à bandeira atual do Estado de Minas Gerais.

Os inconfidentes eram:

Representando o clero/igreja: os padres José da Silva e Oliveira Rolim, Manuel Rodrigues da Costa, Carlos Correia de Toledo e Melo e o cônego Luís Vieira da Silva; 

Representando o Exército: o capitão José de Resende e Costa, o sargento-mor Luís Vaz de Toledo Pisa ; 

Representando os intelectuais, poetas e juristas: Cláudio Manuel da Costa, Tomás Antônio Gonzaga); 

Representando a elite mineira e proprietários de terras: João Rodrigues de Macedo, Domingos de Abreu Vieira, Alvarenga Peixoto e Joaquim Silvério dos Reis; 

Representando o grupo mais humilde (entenda como humilde o que tinha menos posses quando comparado aos outros Inconfidentes): o alferes Joaquim José da Silva Xavier, mais conhecido como Tiradentes. 

SOBRE O ENREDO

A coletânea de poemas está dividida em cinco partes:

Primeira parte (fala inicial, cenário e romances 1 a 19)

Inicia-se com a fala inicial, na qual a poeta aborda a execução de Tiradentes, seguido de um retrospecto do cenário da Inconfidência/Conjuração Mineira. Nesta primeira parte, nós acompanhamos a descoberta do ouro, bem como observamos a ganância e ambição do homem por este metal nobre.

Fala inicial: Aduz sobre a execução de Tiradentes “Ó meio-dia confuso, ó vinte e um de abril sinistro”. Lembrando, que Tiradentes foi executado em 21/04/1792 no Rio de Janeiro.

Cenário: A poeta nos apresenta Minas Gerais, passeando pelo cenário/palco da Inconfidência Mineira e condenação de Tirandentes: “por onde o passo da ambição rugia; por onde se arrastava, esquartejado, o mártir sem direito de agonia.”

Dos romances desta primeira parte, cito alguns que retratam fidedignamente a ambição e sua consequência e o trabalho escravo na busca insaciável pelo ouro :

Romance I ou da Revelação do Ouro: A poeta questiona a natureza (riachos, montanhas), sobre a exploração de Ouro Preto por gerações de homens em busca do ouro: 

“Selvas, montanhas e rios estão transidos de pasmo. É que avançam, terra a dentro, os homens alucinados. Levam guampas, levam cuias, levam flechas, levam arcos; atolam-se em lama negra, escorregam por penhascos, morrem de audácia e miséria, nesse temerário assalto, ambiciosos e avarentos, abomináveis e bravos, para fortuitas riquezas estendendo inquietos braços, – os olhos já sem clareza, – os lábios secos e amargos.”

“Que a sede de ouro é sem cura, e, por ela subjugados, os homens matam-se e morrem, ficam mortos, mas não fartos.”

Romance II ou do Ouro Incansável: Trata da disputa de todos (reis, nobres, pobres, famílias, ladrões, contrabandistas) pelo ouro e dessa ambição surge a necessidade da exploração. Todavia, desta cobiça pelo ouro, surgem mortes, rivalidades e prisões:

“Mil bateias vão rodando sobre córregos escuros; a terra vai sendo aberta por intermináveis sulcos; infinitas galerias penetram morros profundos. De seu calmo esconderijo, O ouro vem, dócil e ingênuo; torna-se pó, folha, barra, prestígio, poder, engenho. É tão claro! – e turva tudo: honra, amor e pensamento.”

Romance IV ou da Donzela Assassinada: Conta-nos sobre uma jovem donzela apaixonada por um rapaz pobre e de origem humilde. Seu pai não aceitava este sentimento da menina e a matou com um punhal:

“Se voasse o meu lencinho, grosso de sonho e de sal, e pousasse na varanda, e começasse a contar que morri por culpa do ouro – que era de ouro esse punhal que me enterrou pelas costas a dura mão de meu pai – sabe Deus se choraria quem o pudesse escutar, – se voasse o meu lencinho e se pudesse falar, como fala o periquito e voa o pombo torcaz…”

Romance VI ou da Transmutação dos metais: mostra a grande expectativa pela chegada dos baús com ouro a Portugal e Espanha, todavia, ao despregar os baús viram que o ouro foi substituído por outros metais como o chumbo. Assim, os monarcas enfurecidos, querem fazer justiça frente à traição sofrida.

Romance VII ou do negro das Catas: narra o trabalho dos negros escravizados na procura insaciável pelo ouro. “Já se ouve cantar o negro. Chora neblina, a alvorada. Pedra miúda não vale: liberdade é pedra grada…”

Romance VIII ou do Chico-Rei: Continua com a busca incansável pelo ouro em nome do Rei, sendo tal metal destinado única e exclusivamente para Portugal. “Tigre está rugindo nas praias do mar. Vamos cavar a terra, povo, entrar pelas águas: O Rei pede mais ouro, sempre, para Portugal.”

Romance XII ou de Nossa Senhora da Ajuda: Súplica de sete crianças à Santa, pois um deles (Joaquim José) será condenado à forca, em razão do ouro. “(Agora são tempos de ouro. Os de sangue vêm depois. Vêm algemas, vêm sentenças, vêm cordas e cadafalsos, na era de noventa e dois.)”

Romance XIII ou do Contratador Fernandes: Conta a história da chegada do Conde Valadares a Serro Frio, a fim de perseguir o Contratador José Fernandes, tendo em vista que o mesmo é possuidor de terras em que há ouro e diamantes:

 “Deste Tejuco não volto sem ter metade das lavras, metade das lavras de ouro, mais outro tanto das catas; sem meu cofre de diamantes, todos estrelas sem jaça, – que para os nobres do Reino é que este povo trabalha!” Todavia, o Contratador Fernandes, mais astuto que o Conde, conseguiu induzir o Conde a ser seu amigo e parceiro no ouro. “Mas, depois de fruta e doce, mas, depois de doce e fruta, colocam diante do Conde uma terrina ampla e funda, para que os dedos distraia de saudades e de angústias. Agora, o jovem fidalgo descerra a máscara astuta: entre suspiro e sorriso, toma nas mãos e calcula os folhelhos de ouro, e acalma a fingida desventura. (Ai, ouro negro das brenhas, ai, ouro negro dos rios… Por ti trabalham os pobres, Por ti padecem os ricos. Por ti, mais por essas pedras que, com seu límpido brilho, mudam a face do mundo, tornam os reis intranquilos! Em largas mesas solenes, vão redigindo os ministros cartas, alvarás, decretos, e fabricando delitos.)”

Romance XIV ou da Chica da Silva e Romance XV ou das cismas de Chica da Silva: Apresenta-nos Chica da Silva “a dona do dono de Serro do Frio”, sendo este o Contratador José Fernandes. Chica demonstra certa desconfiança com as intenções do Conde Valadares para com o Contratador. José Fernandes tenta tranquilizá-la alegando que o Conde foi “comprado” com o ouro. “- Eu neste Conde não creio; com seus modos não me iludo; detrás de suas palavras, anda algum sentido oculto. Os homens, à luz do dia, olham bem, mas não vêem muito: dentro de quatro paredes, as mulheres sabem tudo.  Deus me perdoe, mas o Conde vem cá por outros assuntos.”

Romance XVI ou da Traição do Conde: Mostra que a cisma de Chica da Silva tinha um fundo de verdade, tendo em vista que José Fernandes foi traído pelo Conde, já cheio de ouro. “Fala o Conde de má morte: – Ordens são, que hoje recebo… Fala o Conde mui fingido: – Padece por vós meu zelo: de um lado, o dever de amigo, mas, de outro, a lealdade ao Reino… João Fernandes não responde: ouve e recorda em silêncio o que lhe dissera a Chica, em tom de pressentimento.”

Romance XVII ou das lamentações no Tejuco: Com a traição do Conde, todos lamentam a prisão de José Fernandes. “Maldito o Conde, e maldito esse ouro que faz escravos, esse ouro que faz algemas, que levanta densos muros para as grades das cadeias, que arma nas praças as forcas, lavra as injustas sentenças, arrasta pelos caminhos vítimas que se esquartejam!”

Segunda parte (cenário, fala e romances 20 a 47)

Revela a preparação para a Inconfidência/Conjuração Mineira, com a descrição das ideias liberais e iluministas, as reuniões preparatórias de seus membros, a atividade de divulgação das ideias dos Inconfidentes pelas ruas de MG feita por Tiradentes, testemunhas e delatores,  com acusações em fatos não presenciados, mas com o poder de condenar os  Inconfidentes.

Cenário: Um olhar saudosista para o passado, no qual o cenário é o mesmo e ao mesmo tempo diferente devido a toda a história lá vivida.

Fala à antiga Vila Rica: Sobre as falas e discursos já passados e não mais escutados no presente pela cidade de Vila Rica.

Dos romances desta segunda parte, cito alguns que esta movimentação rumo a Conjuração Mineira:

Romance XXIV ou da bandeira da inconfidência: Planejamento da conjuração. É neste poema que escutamos o lema da bandeira de Minas: Liberdade ainda que tarde. Obviamente, os inconfidentes já são considerados réus, devido aos atos praticados.

Romance XXVI ou da semana santa de 1789: É a preparação para o pior, as prisões, sentenças, forca e mortes. “Pois o amor não é doce, pois o bem não é suave, pois amanhã, como ontem, é amarga, a Liberdade.”

Romance XXVII ou do animoso Alferes: Poema que fala de Tiradentes, chamado aqui de Alferes, prestes a ser preso, interrogado e sentenciado:

“venham já soldados que a prender se apressem; venham já meirinhos que os bens lhe sequestrem; venham, venham, venham.. – que sua alma excede escrivães, carrascos, juízes, chanceleres, frades, brigadeiros, maldições e preces!” “Falas sem sentido acaso repete, – pois sente, pois sabe que já se acha entregue. Perguntas, masmorras, sentença… Recebe tudo além do mundo…”

Romance XXVIII ou da denúncia de Joaquim Silvério, Romance XXIX ou das velhas piedosas e Romance XXXIV ou de Joaquim Silvério: fala sobre a carta escrita por Joaquim Silvério denunciando os inconfidentes, em troca de mais terras e mais poder. 

Romance XXXVI ou das sentinelas: fala da iminência da prisão de Tiradentes pelos sentinelas que estão à sua espreita e encalço.

Romance XXXVII ou de Maio de 1789: A continuação da perseguição, no mês de Maio de 1789, por Tiradentes e outros inconfidentes como Gonzaga e Alvarenga, Toledo e a busca por Cláudio, bem como a apreensão do povo pela movimentação dos sentinelas.

Romance XXXVIII ou do embuçado: A perseguição pelos inconfidentes através do interrogatório do povo.

Romance XLIII ou as conversas indignadas: Devido ao movimento da inconfidência, iniciou-se a fuga de parentes, amigos e até dos próprios inconfidentes, exceto Tiradentes, tido como o louco alferes.

Romance XLIV ou da testemunha falsa: necessidade de testemunha falsa para condenar os inconfidentes; “- Todo coberto de medo, juro, minto, afirmo, assino. Condeno. (Mas estou salvo!) Para mim, só é verdade aquilo que me convém.”

Terceira parte (romances 48 a 64)

Com a delação dos Inconfidentes, narrada na segunda parte, aqui, nós acompanhamos a morte de Cláudio Manuel da Costa e a de Joaquim da Silva Xavier, o Tiradentes, que constituem a essência da terceira parte. 

Romance XLIX ou de Cláudio Manuel da Costa: trata da morte por envenenamento de Claudio, um dos membros da Inconfidência. O corpo dele nunca foi encontrado.

Romance LIII ou das palavras aéreas: trata da força das palavras que podem decidir a vida de homens, através de palavras ditas ou escritas por outros homens, podem chegar em outras colônias portuguesas e até em Portugal.

Romance LV ou de um preso chamado Gonzaga: um dos juristas Inconfidentes, todavia, mesmo sendo conhecedor das leis, ele foi incapaz  de se libertar da prisão.

Romance LIX ou da reflexão dos justos: reflexão pela luta de Tiradentes da defesa dos ideais dos Inconfidentes e a ausência de apoio de seus próprios colegas e do povo em sua prisão.

Romance LX ou do caminho da forca: um dos poemas mais emblemáticos do livro, trata do caminho para forca de Tiradentes, assistido por todos no Rio de Janeiro, inclusive por Dona Maria I.

Quarta parte (romances 65 a 80)

Concentra-se na condenação de outros Inconfidentes, quais sejam, Tomás Antônio Gonzaga e Alvarenga Peixoto. Ambos foram condenados ao degredo, isto é, ao exílio de sua pátria para um local fixado, neste caso Moçambique.

Romance LXVI ou de outros maldizentes: sobre a prisão de Tomas Antônio Gonzaga e do sequestro dos bens de sua propriedade, como é o caso das esporas de prata que são objeto de leilão. No final fala do seu exílio na África, especificamente para Moçambique.

Romance LXXI ou de Juliana de Mascarenhas e Romance LXXIII ou da inconformada Marília: Em Moçambique, Tomas Antônio Gonzaga conhece Juliana Mascarenhas, filha de um riquíssimo comerciante de escravizados. Com ela vem a contrair matrimônio, deixando no passado, o amor que nutria por Dorotéia Seixas, a pastora Marília.

Fala à Comarca do Rio das Mortes: relata o abandono da flora, fauna, das casas após a Inconfidência e a escassez do ouro.

Romance LXXVIII ou de um tal Alvarenga, Romance LXXIX ou da morte de Maria Ifigênia e Romance LXXX ou do enterro de Bárbara Heliodora:  um dos inconfidentes que teve sua vida marcada por perdas. A primeira, a perda da pátria, devido ao degredo, a segunda a morte de sua filha Maria Ifigênia e de sua esposa Bárbara Heliodora (provavelmente por tuberculose). 

Quinta parte (romances 81 a 85)

A quinta parte nos apresenta um cenário pós-inconfidência mineira, com a descrição de D. Maria I – a Rainha Louca, vinte anos após a condenação dos inconfidentes no Rio de Janeiro e o desfecho da obra.

Romance LXXXII ou dos passeios da Rainha louca e Romance LXXXIII ou da rainha morta: passeios da rainha pelo Rio de Janeiro, mesma cidade em que foi morto Tiradentes. “Toda vestida de preto, solto o grisalho cabelo, escondida atrás do leque, velhinha, a chorar de medo, Dona Maria Primeira passeia pela cidade.”

Romance LXXXIV ou dos cavalos da inconfidência: participação dos cavalos em vários momentos da Conjuração Mineira, que assim como os Inconfidentes, todos eles agora estão mortos e desaparecidos.

“Eles eram muitos cavalos, – rijos, destemidos, velozes – entre Mariana e Serro Frio, Vila Rica e Rio das Mortes. Eles eram muitos cavalos, transportando no seu galope coronéis, magistrados, poetas, furriéis, alferes, sacerdotes. E ouviam segredos e intrigas, e sonetos e liras e odes: testemunhas sem depoimento, diante de equívocos enormes.

Eles eram muitos cavalos: e uns viram correntes e algemas, outros, o sangue sobre a forca, outros, o crime e as recompensas. Eles eram muitos cavalos: e alguns foram postos à venda, outros ficaram nos seus pastos, e houve uns que, depois da sentença levaram o Alferes cortado em braços, pernas e cabeça. E partiram com sua carga na mais dolorosa inocência.”  

POSSÍVEIS QUESTÕES PARA O VESTIBULAR

A minha dica principal é estudar a Conjuração/Inconfidência Mineira para a resolução das questões, caso você não tenha tempo ou não queira ler o mesmo livro. 

Caso você venha a fazer a leitura de o Romanceiro da Inconfidência, tente assistir alguns vídeos no Youtube ou resumos sobre o tema, pois o prévio conhecimento deste momento histórico é essencial para entender a obra e interpretar as questões propostas.

SOBRE A MINHA EXPERIÊNCIA DE LEITURA

Já falei várias vezes por aqui que poesia não é o meu gênero favorito, mas com a leitura deste livro, eu fui capaz de apreciar o que eu senti falta nos outros livros de poesia cobrados no Vestibular da Fuvest, a musicalidade, a rima e até da métrica. 

Dos livros cobrados, a única obra que chega perto deste tipo de escrita é Poemas Escolhidos de Gregório de Matos, que confesso não foi um livro nada fácil de ser lido e apreciado.

Achei um livro muito bem escrito e fiel ao momento histórico retratado, mas em alguns momentos, eu o achei um pouco cansativo. Contudo, não me impediu de ir até o fim da leitura.

Um beijo e até o próximo post!!

FUVEST: RESUMO DA OBRA ALGUMA POESIA

Capa do livro publicado pela editora Companhia das Letras

Segundo livro do autor lido para o Projeto Fuvest, logo, deixo o direcionamento do post da obra Claro Enigma, na qual eu abordei sobre o autor, contexto histórico e cultural, bem como estilo narrativo. Dá uma olhadinha primeiro lá e depois volta aqui!

SOBRE A OBRA

Alguma poesia foi o primeiro livro publicado por Carlos Drummond de Andrade em 1930. Nesta época, o Brasil vivia a revolução, na qual fez com que Getúlio Vargas subisse ao poder e deixava para trás os traços da tida “primeira república”.

Na seara literária, Manuel Bandeira lançava sua obra consagrada Libertinagem, Murilo Mendes publicava também seu livro Poemas e Rachel de Queiroz, nos apresentava a obra O Quinze.

Em 1930, Carlos Drummond contava com seus vinte e oito anos vividos, já não mais morava em sua cidade natal Itabira, sendo a capital Belo Horizonte sua morada.

Através de cartas trocadas entre Mario de Andrade e o autor, nós descobrimos que a ideia de “Alguma poesia” surgiu em 1924, todavia, a mesma só veio a ser publicada em 1930, isto é, na transição da primeira (1922 a 1930) para a segunda (1930 a 1945) fase do modernismo.

Nota-se que, apesar do autor de ter começado sua obra poética em 1920, o mesmo não é considerado um dos Heróis do Modernismo, como Tarsila do Amaral e Mario de Andrade, sendo a este último dedicada a obra “Alguma Poesia”.

Carlos Drummond de Andrade é então, considerado um dos representantes da produção literária correspondente à segunda fase do modernismo (chamada Geração de 30), tendo em vista as características da sua escrita se assemelharem mais com esta fase.

Sobre o modernismo cumpre ter em mente que, a produção literária da época, era voltada para a busca do elemento nacional – o ethos – que representasse uma universalização da cultura brasileira.

A obra é formada por quarenta e nove poemas, o que nos mostra que o seu título “Alguma Poesia” pode ser visto como despretensioso ou até mesmo contraditório, pois ao lermos a coletânea, nós acompanhamos um lado mais denso, profundo, sensível e pessoal de Drummond.

Ressalto que tal enfoque pessoal não é tão vislumbrado nas demais obras do autor, tendo em vista que em outros poemas de sua maturidade nós identificamos mais questões políticas e sociais, como acontece em Claro Enigma, por exemplo.

Ademais, os poemas não possuem um padrão métrico costumeiro, como por exemplo no poema A rua diferente. Saliento o posto aqui do blog e leitura obrigatória para Fuvest, Poemas escolhidos de Gregório de Matos, no qual eu abordo mais sobre o sistema métrico dos poemas.

Na verdade, em Alguma Poesia há uma reunião de vários estilos, desde poemas curtos/pílula como em cota zero; versos sem rima como poder ser visto no poema denominado Poesia.

Ademais, o autor em seus escritos não se utiliza de uma linguagem rebuscada, como a obra do nosso representante barroco acima citado, mas é presente o uso de uma linguagem coloquial, a abordagem de temas corriqueiros, espontâneos e com bom humor (poemas-piada), como por exemplo no poema cidadezinha qualquer.

Vislumbra-se ainda que, há alguns poemas na obra que são dedicados a amigos e contemporâneos do autor, como é o caso dos poemas Europa, França e Bahia, dedicado a Mario de Andrade e Jardim da Praça da Liberdade, dedicado a Gustavo Capanema, amigo de infância, de carreira política e de serviço público no Rio de Janeiro.

POSSÍVEIS QUESTÕES PARA O VESTIBULAR

Indico, como sempre, a leitura da obra, a fim de analisar os sentimentos do autor inseridos no poema.

Veja, nenhum vestibular irá cobrar que você decore o poema, mas sim que você entenda o contexto histórico e cultural, no qual ele foi escrito; se o poema possui características de intertextualidade (citação de outras obras dentro do poema), metalinguagem (linguagem que descreve sobre ela mesma).

Por fim, acho que quando se trata da cobrança de textos poéticos, vale a pena investir na resolução de questões. Aliás, essa é a minha dica para todas as matérias!!

SOBRE A MINHA EXPERIÊNCIA DE LEITURA

Sim…ainda continuo não sendo uma grande apreciadora de poesia e entre as duas obras exigidas na Fuvest, eu ainda fico com a obra Claro Enigma.

Todavia, minha preferência não afasta a apreciação da genialidade e leveza na escrita do autor, o que me faz entrar numa espiral na qual eu não sou uma grande fã de poesia, mas continuo lendo o gênero.

DICAS DE MAIS CONTEÚDO SOBRE A OBRA

Site: https://jornal.usp.br/cultura/em-alguma-poesia-sujeito-poetico-e-chave-para-observar-o-brasil/

Site: https://www.guiaestudo.com.br/alguma-poesia

Canal Leio, logo escrevo: https://www.youtube.com/watch?v=Xsf4ThxHQ6U

Um beijo e até o próximo post!!

FUVEST: Resumo da obra Terra Sonâmbula

Capa do livro publicada pela Companhia das Letras

Nunca o nosso mundo teve ao seu dispor tanta comunicação. E nunca foi tão dramática a nossa solidão.

Nunca houve tanta estrada. E nunca nos visitamos tão pouco.

(Mia Couto) 

SOBRE O AUTOR

Antonio Emílio Leite Couto, conhecido como Mia Couto (seu pseudônimo advém de sua paixão por gatos), nasceu no dia 05 de julho de 1955, na cidade da Beira, província de Sofala em Moçambique. 

Aos catorze anos de idade, teve alguns poemas publicados no jornal “Notícias da Beira” e após três anos, foi morar na capital de Moçambique, Lourenço Marques (atual Maputo). 

Formado em Biologia e trabalhado como jornalista, o mesmo laborou no jornal Tribuna até à destruição das suas instalações em Setembro de 1975, por colonos que se opunham à independência. Foi nomeado diretor da Agência de Informação de Moçambique (AIM) e formou ligações de correspondentes entre as províncias moçambicanas durante o tempo da guerra de libertação. Trabalhou também na revista Tempo até 1981 e continuou a carreira no jornal Notícias até 1985. 

Como escritor, o autor possui mais de trinta livros publicados, sendo seu romance Terra Sonâmbula, objeto deste conteúdo, considerado um dos dozes melhores livros africanos do Século XX.

Mia Couto recebeu inúmeros prêmios, entre eles o Camões em 2013 e o Neustadt International Prize em 2014 e é membro correspondente da Academia Brasileira de Letras.

SOBRE A OBRA E ESTILO NARRATIVO

Terra Sonâmbula é o primeiro romance de Mia Couto, sendo publicado pela primeira vez em 1992. Aclamado pela crítica, no mesmo ano da publicação, o autor recebeu o Prêmio Nacional de Ficção da Associação dos Escritores Moçambicanos.

Mia Couto faz de sua escrita uma espécie de poesia inovadora e consegue reescrever seu país de uma forma original. O autor também reinventa o português com combinações e formas de linguagem moçambicanos, usando as expressões e marcas linguísticas multiculturais presentes no imaginário de seu país, o que me lembrou muito o autor Guimarães Rosa.

A título de ilustração, cito algumas das palavras inventadas pelo autor: “sozinhidão”, “inutensílio”, “nuventanias”, entre outras. Tais invenções vocabulares não produzem apenas neologismos, mas um jogo de significados que convidam o leitor a perceber o caráter arte-fato da obra, apontando a língua como matéria. 

Insta salientar que o autor faz uso do insólito, como meio de representação do imaginário cultural popular. Através deste método, Mia Couto recria a língua portuguesa através dos mitos e histórias locais, visando a recuperação do sentido poético da vida que se esconde por trás dos anos de sofrimento em Moçambique. Logo, as produções literárias de Mia Couto transformam-se em escrita de resistência, ou seja, uma forma de sobrevivência em meio ao caos social instaurado no país.

Ademais, o autor traz em seus textos um conjunto de sentimentos através das tradições dilaceradas, a guerra, a fragmentação dos sonhos que revelam cenários de morte, tristeza, dor, sofrimento, miséria, fome, doença e o modo como os mortos governam e interferem no mundo.

CONTEXTO HISTÓRICO E CULTURAL

Devido aos problemas da guerra civil, o autor e outros escritores aderiram a uma poesia e prosa de tom engajado, como dito acima, de resistência. Dessa forma, os escritores iniciam um processo de reflexão sobre a nação e sua identidade, dialogando com a história pretérita e presente, buscando a recuperação dos valores tradicionais, assim como a relação dessa história com a modernidade.

Na obra, objeto deste resumo, o enredo circunscreve a nação moçambicana pós-independência (1964-1975 e guerra civil 1967-1992) e propõe uma crítica às identidades nacionais excludentes, bem como questiona as fronteiras culturais representada entre o homem e a natureza; entre os vivos e os mortos; em um lugar sem fronteiras e sem limites. 

Assim, o autor passa a se preocupar mais com a estética literária e insere no contexto das narrativas, elementos que visam recuperar os sonhos que retratam a tradição e o passado moçambicano, imprimindo uma reflexão acerca da desintegração da paisagem e da identidade de Moçambique.

SOBRE O ENREDO

A obra apresenta dois planos narrativos dispostos em onze capítulos narrados em terceira e primeira pessoa, sendo estes respectivamente, Muidinga e Kindzu (através de seus cadernos). Ademais, nestes dois planos há a associação de tempos e lugares distintos.

No primeiro capítulo, nós conhecemos as seguintes personagens: Tuahir e Muidinga, um velho e uma criança, respectivamente, fugitivos do campo de deslocados e andarilhos por força da guerra que assolou o lar de ambos. 

Aqui, cito um trecho do livro, no qual nos é narrado o ambiente da estrada morta, título do primeiro capítulo e agora o lar das nossas personagens: 

Naquele lugar, a guerra tinha morto a estrada. Pelos caminhos só as hienas se arrastavam, focinhando entre cinzas e poeiras. A paisagem se mestiçara de tristezas nunca vistas, em cores que se pegavam à boca […]. E os viventes se acostumaram ao chão, em resignada aprendizagem da morte. A estrada que agora se abre a nossos olhos não se entrecruza com outra nenhuma. Está mais deitada que os séculos, suportando sozinha toda a distância

Durante a andança dos dois pela estrada morta, eles encontram um ônibus queimado, que servirá de guarida durante a noite. Perto do veículo, eles encontram um corpo baleado e com ele uma mala fechada e intacta. 

No interior da mala, há roupas, comida, papéis e cadernos. As capas destes cadernos servirão para acender uma fogueira à noite e seu conteúdo será uma história a ser contada pela nossa terceira personagem, Kindzu.

No primeiro caderno, Kindzu nos conta sobre a sua infância, a forma como seu pai Taímo, via através de sonhos, o futuro através de mensagens dos antepassados, bem como o início da guerra em seu país:

O tempo passeava com mansas lentidões quando chegou a guerra. Meu pai dizia que era confusão vinda de fora, trazida por aqueles que tinham perdido seus privilégios. No princípio, só escutávamos as vagas novidades, acontecidas no longe. Depois, os tiroteios foram chegando mais perto e o sangue foi enchendo nossos medos. A guerra é uma cobra que usa os nossos próprios dentes para nos morder. Seu veneno circulava agora em todos os rios da nossa alma. De dia já não saíamos, de noite não sonhávamos. O sonho é o olho da vida. Nós estávamos cegos.

Além do cenário acima, Kindzu também nos conta como a guerra interferiu diretamente na relação de sua família e as visões de seu pai se intensificaram, a ponto de informar a todos que seu filho mais novo Juhnito (o nome verdadeiro é Vinticinco de Junho, dia da Independência de Moçambique) iria morrer, sendo necessária à sua mudança para o galinheiro da família, a fim de enganar a morte.

Todavia, de nada adiantou a estratégia traçada pelo pai de Kindzu, pois seu irmão desapareceu, como? Não se sabe, mas tal acontecimento foi um divisor de águas para o restante da família, principalmente no comportamento de Taímo que cada vez mais se afogava na bebida até vir a falecer.

Com o passar do tempo, os demais irmãos de Kindzu se foram só restando ele, para o desgosto de sua mãe, que vai perdendo a sanidade mental. Ademais, a guerra crescia e tirava dali a maior parte dos habitantes, sobrando as casas de cimento vazias com paredes, cheias de buracos de balas e invadidas pelos bandos.

Contudo, ainda restava um amigo a Kindzu, o dono de um empório local, o indiano Surendra Valá e sua esposa Assma. O casal era visto como forasteiro e não era bem-vindo devido a sua etnia. Contudo, ao ter sua loja queimada, o mesmo foi embora, deixando nosso narrador devastado:

Eu agora estava órfão da família e da amizade. Sem família o que somos? Menos que poeira de um grão. Sem família, sem amigos: o que me restava fazer? Única saída era sozinhar-me, por minha conta, antes que me empurrassem para esse fogo que, lá fora, consumia tudo.

Vendo-se sozinho em um lugar que não via mais como seu lar, Kindzu, resolveu ouvir as palavras do adivinho de sua cidade e partir com a sua canoa (que tem o nome de seu pai, Taímo) para o mar.

Durante sua viagem, Kindzu sonhava com seu pai. Em todos os sonhos, ele tentava conversar com seu pai sobre a vontade de se entregar aos guerreiros blindados e acabar com a guerra (naparama), mas mesmo em sonho, o pai de Kindzu o ignorava e o comparava aos mortos, pois estes andavam com ossos desencontrados, com alma de uma outra pessoa.

Chegamos em uma passagem do livro (triste demais, por sinal), em que descobrimos como Tauahir e Muidinga acabaram juntos.  O velho conta para a criança, que ele estava no campo de deslocados, vindo de sua aldeia distante. Em uma noite lhe pediram para ajudar a enterrar seis crianças recém-falecidas.  Tuahir ajudou a arrastar os corpos para um buraco, quando reparou que os dedos de uma das crianças se cravaram no chão, lutando pela vida e contra o abismo. 

Ao verem que os demais coveiros continuariam a enterrar as crianças estando elas vivas ou mortas, Tuahir informou a todos que aquele menino era seu sobrinho. Ao se deparar com aquela criança em um estado lastimável e sem forças, o mesmo lhe prometeu que não iria abandoná-lo.

Com o tempo, o menino se recuperou e ganhou forças novamente, logo, Tuahir resolveu chamá-lo de Muidinga, o mesmo nome que tinha sido dado a seu filho mais velho, que faleceu nas minas do Rand.

Quanto à viagem (muito doida, por sinal) de Kindzu, o mesmo chegou a Matimati, lugar no qual foi orientado, por Assane – secretário do Administrador, a não ficar devido a violência. No retorno ao mar, um anão (Tchóti) que veio do céu caiu em seu barco, com o propósito de ser conduzido até um navio encalhado, a fim de resgatar comida, roupas e o que achasse. 

Neste navio, Kindzu conheceu Farida, filha do Céu , que possuía uma irmã gêmea, da qual foi separada no nascimento, tendo em vista, que em sua terra, ter filhos gêmeos era considerado maldição. Abusada por um homem português (Romão Pinto) e deste ato de violência, ela teve um menino. 

Em nenhum momento Farida notou alguma vontade de lhe dar cuidados. Foi à igreja e entregou a criança como se fosse uma encomenda de ninguém, um lapso da vida. Ficou lá, na Missão, nunca mais ela o viu.

Houve um tempo que tentou regressar atrás, recuperar esse menino. A Irmã Lucia, religiosa que morava na Missão,  falou sobre seu filho, Gaspar, uma criança que nunca em sua face foi visto rabisco de sorriso. Apenas de noite, enquanto dormia, o menino gargalhava. Eram risos que faziam gelar quem quer que escutasse. 

Tentou um encontro com seu filho, mas o menino fugiu da Missão não tendo mais nenhuma notícia de seu paradeiro. Por motivo dessa criança, ela só chorava lágrimas de leite. 

Desde então ela queria cumprir um sonho antigo: sair dali, viajar para uma terra que ficasse longe de todos os lugares. Quando soube de que um navio naufragara, ela se juntou ao grupo de pescadores que se dirigia para o lugar do acidente. Os pescadores saquearam o navio e a deixaram sozinho no mesmo. 

Quanto mais tempo conviviam juntos, Kindzu entendia o que o unia a Farida, os dois estavam divididos entre dois mundos. Kindzu retorna para Matimati e deixa Farida no navio, lhe prometendo que encontrará o seu filho Gaspar. 

Em sua estadia em Matimati, Kindzu reencontra Sarendra e sua esposa e testemunha a ação da milícia armada, a fome e a miséria que assolam aquele lugar. Também conhece a outra irmã de Farida, Carolinda que é esposa do administrador de Matimati – Estevão Lopes.

Kindzu conversa com Dona Virgínia (mãe de criação de Farida e esposa de Romão Pinto) e Tia Euzinha (tia biológia de Farida e Carolinda), mas não consegue desvendar o paradeiro de Gaspar.

Enquanto isso, Tuahir e Muidinga continuam na estrada. Nela, eles foram mantidos refém por Siqueleto, mas acabam sendo liberados pelo mesmo, que morre de uma forma muito estranha (jorra sangue por sua orelha até ele se desfazer). Além de Siqueleto, nossas personagens encontram pela estrada Nhamataca, o fazedor de rios. 

Aqui ressalto que tanto a morte de Siqueleto, quanto a transformação de Nhamataca em rio  são metafóricas, no sentido de que tais elementos fantásticos invadem a realidade de Tuahir e Muidinga. 

Contudo,  Tuahir fica muito doente e eles resolvem construir uma coanoanoa, a fim de percorrer o pântano até chegar ao mar, pois Tuahir sentia que estava morrendo. Ao chegar no mar, Muidinga coloca Tuahir em outra canoa, chamada Taímo, a maré vem a subir e Tuahir é entregue ao mar. 

Sozinho, Muidinga retorna ao ônibus e, neste momento, as narrativas se entrelaçam, pois é Kindzu que está no chão baleado ao lado da mala, e em seus últimos momentos de vida, ele vê Muidinga indo em sua direção para pegar seus pertences, dentre eles seus cadernos e pensa que enfim ele (Kindzu) encontrou o Gaspar.

POSSÍVEIS QUESTÕES DE VESTIBULAR

Como pode ser visto no item anterior, a história se passa em Moçambique, no período pós-independência, no qual, o país enfrentou mais de dezesseis anos de guerra civil entre 1976 e 1992, com a assinatura do Acordo Geral de Paz.

A guerra matou cerca de um milhão de pessoas e outros cinco milhões de civis foram deslocados e sofreram amputações por minas terrestres.

Como dito anteriormente, o autor me lembrou Guimarães Rosa com o uso de neologismo e a forma de contar a história pelo olhar de uma criança, assim como em Campo Geral. Logo, fique de olho em questões comparativas entre estas duas obras.

Ademais, há também a comparação com a obra Nove Noites de Bernardo de Carvalho, devido a construção narrativa, mistura entre presente e passado, intercalando as cartas do antropólogo e a visão do autor.

As questões que eu pude analisar versavam, em sua grande maioria, sobre o enredo da obra, sendo assim recomendo a leitura do livro e o meu resumo, por óbvio…kkkkk.

MINHA EXPERIÊNCIA DE LEITURA

É o meu primeiro contato com o autor e posso dizer que me surpreendi com uma leitura triste, principalmente na descrição do cenário em que as personagens viviam e o poder que a guerra possui em dizimar a nossa terra e até mesmo os nossos sonhos.

A narrativa baseou-se nas crenças e tradições dos povos de Moçambique, com uma mistura do passado e presente, bem como pela presença constante do sobrenatural que caminha lado a lado com o mundo real. 

No decorrer da leitura, nós podemos acompanhar a crescente esperança do autor quanto ao futuro, escrito ainda quando o país saía de duas grandes guerras: a primeira pela libertação do país dos laços coloniais que o prendiam a Portugal e a segunda por um violento confronto civil.

Nota-se, portanto, a constante busca das personagens por identidades possíveis, pela reconstrução de suas histórias, com mais dignidade, pela preservação das tradições e compreensão dos mistérios da própria existência.

Gostou deste conteúdo? Indica e compartilha com outras pessoas!!Um beijo e até o próximo post!!

Resenha do livro Adams Óbvio

Capa do livro publicado pela Faro Editorial

Adams Óbvio é um daqueles livros maravilhosamente simples e rápidos. Uma hora de leitura é mais do que suficiente para terminar mas as reflexões são profundas. Escrito por Robert Updegraff em 1916, trata-se de um conto sobre O. B. Adams, um publicitário que, apesar de não ter nenhuma característica especial, construiu uma carreira de sucesso buscando a simplicidade e objetividade.

O autor ilustra neste conto como o óbvio é o caminho mais rápido para o sucesso mas, ao mesmo tempo, escapa aos olhos da maioria das pessoas. Com vários exemplos vemos como é fácil construir raciocínios complexos, mas é nas soluções simples que há verdadeiro valor. O óbvio é simples, mas demanda grande esforço para ser encontrado.

Por fim, temos uma espécie de guia para testar se a solução que encontramos é realmente óbvia e como treinar a nossa capacidade de identificar o óbvio nos problemas que enfrentamos.

Cinco maneiras de testar o óbvio

– A solução óbvia é simples, depois que for descoberta
O óbvio parece oculto de todos até que seja revelado. Neste momento, todos ficam com a sensação de “como é que não pensei nisso antes?”

– O óbvio é compatível com a natureza humana
A natureza humana é simples e, assim, toda solução óbvia deve ser capaz de apelar à pessoa comum, sem necessidade de sofisticações ou rodeios

– O óbvio é simples de ser explicado e colocado no papel
Devemos ser capazes de expressar uma ideia em poucas palavras ou não estamos diante de algo óbvio

– O óbvio surpreende as pessoas
As boas ideias tem uma capacidade de iluminar e surpreender as pessoas pela sua originalidade

– O óbvio tem o seu momento
As ideias tem um momento. De nada adianta uma ideia brilhante que seja aplicada antes ou depois da janela de oportunidade

Cinco caminhos para reconhecer o óbvio

– Não ser contaminado pela maneira como as coisas sempre foram feitas
É tentador seguir as rotinas que existem e buscar algum aprimoramento, mas o óbvio exige um olhar original. Busque olhar para os problemas a partir do zero, como se fosse a primeira pessoa a enfrentar o desafio

– Inverter a lógica das coisas
Se algo é feito de determinada maneira por muito tempo, inverter as premissas pode abrir a mente para aquilo que é realmente necessário

– Buscar a opinião do público
Se a minha ideia é direcionada para um público específico, por que não perguntar a ele o que acha?

– Procurar o que passa despercebido
Há oportunidades de aperfeiçoamento por toda parte. O que ninguém mais viu?

– Identificar as necessidades específicas de cada caso
Quais são os desejos que não foram atendidos ainda? Como posso fazer para?

Eu tenho certeza que ao acompanhar a história de Adam você vai se lembrar de diversas situações na sua vida e no mundo em que o óbvio fez a diferença. Mais importante ainda, o que é óbvio e estamos deixando passar?

A leitura vale muito a pena!

FUVEST: Resumo da obra Campo Geral

Capa do Livro lançado pela Editora Global em 2019

Mais um livro de Guimarães Rosa analisado para o nosso Projeto Fuvest.

Por aqui já temos uma resenha do autor, na qual eu faço a remissão a esta no que tange as informações SOBRE O AUTOR, SOBRE O CONTEXTO HISTÓRICO E CULTURAL E ESTILO NARRATIVO.

SOBRE A OBRA E O ENREDO

Novela (composição de um único núcleo narrativo, isto é, os acontecimentos giram em torno de um grupo de personagens específicos, bem como o tamanho do texto varia de 40 a 60 páginas), publicada em 1956 através da coletânea chamada Corpo de Baile e republicada em 1964 no conjunto Manuelzão e Miguilim.

O enredo nos apresenta um menino de oito anos, chamado Miguilim, que mora com sua mãe (Nhá Nina), seu pai (Nhô Bernardo – Béro), irmãos (Maria Andrelina, Maria Francisca, Expedito José, Tomé de Jesus e o irmão mais velho Liovaldo que não morava mais com eles) e sua avó (Izidra, irmã da mãe de Nhá Nina), em um ponto bem remoto no Mutúm (sertão mineiro). 

Ninguém que vive neste lugar o acha bonito de se viver ou até mesmo de apreciar, especialmente a mãe de Miguilim. Nota-se que até então, nós não temos a visão de Miguilim sobre o local em que ele vive, mas sim a visão das demais personagens reproduzidas através da visão de mundo do menino.

Já no início da narrativa, nós percebemos que o menino se dá muito bem e trata com carinho sua mãe, mas a sua relação com o pai não é a mesma coisa, tanto o é, que sempre que o pai vê Miguilim com sua mãe, o mesmo considera o menino um mal-agradecido por não ter nenhum tipo de estima por ele.

O pai de Miguilim era um homem ciumento, possessivo e violento, principalmente com o menino e com a esposa, chegando até a impedir que seu irmão, Tio Terez vá visitar a sua família e que principalmente, fale com Nhá Nina. 

Aqui, já é possível para nós leitores, através do olhar de Miguilim e das atitudes de Nhô Bero e Vó Izidra, desconfiarmos que o Tio Terez e Nhá Nina têm/tiveram um caso amoroso, razão pela qual o Tio vai embora.

Ademais, quando nosso protagonista presenciava esta violência, seu irmão Expedito (Dito) que gostava muito dele e segundo Miguilim “Deus tinha dado a ele todo juízo”, o consolava e lhe dizia palavras de apoio e confiança, como se o Dito fosse um guia para Migulim ao mundo adulto, como se o ajudasse nessa transição da fase infantil para adulta.

Passado algum tempo, Miguilim estava voltando do local de trabalho de seu pai para a casa da família, quando ele se depara com Tio Terez, que lhe pede para que entregue uma carta escrita por ele aos cuidados de Nhá Nina.

Neste momento, nós presenciamos o conflito vivido por Miguilim, pois ao mesmo tempo que ele gosta do Tio, ele entende que a entrega da carta à sua mãe é errada, o que demonstra um processo de amadurecimento da personagem.

Há mais dois eventos, em que podemos vislumbrar este processo de amadurecimento de Miguilim.

O primeiro ocorre quando o seu irmão mais amado, Dito, corta o pé, adoece e vem a falecer. Essa para mim, foi uma das partes mais tristes do livro, pois a tristeza de Miguilim com a morte do irmão é tão intensa e real, que não há a possibilidade de você não ficar cabisbaixa também.

Após a morte do Dito, a relação entre Miguilim e seu pai se torna ainda pior: “Pai disse a Mãe que ele não prestava, que menino bom era o Dito, que Deus tinha levado para si, era muito melhor tivesse levado Miguilim em vez d’o Dito.”

Já o segundo evento ocorre com o seu irmão mais velho – Liovaldo, que não vive mais com a família, em uma visita começa a azucrinar Miguilim e o mesmo começa a revidar em seu irmão. O fato é que seu pai, Nhô Bero, achou totalmente equivocada a atitude do menino, pois o mesmo deveria ter respeitado a hierarquia familiar e o mesmo acaba sendo espancado por seu pai, bem como Nhô Bero quebra com todas as gaiolas de passarinho e os poucos brinquedos de Miguilim.

São com estes fatos que vemos o ápice do amadurecimento do Miguilim, pois ao invés do menino chorar com a surra e com os danos aos seus bens, ele começa a rir desvairadamente da situação na frente de seu pai. Apesar de no momento, todos acharem que o menino havia enlouquecido, acaba gerando uma certa admiração e respeito de seus familiares por Miguilim.

Após tais acontecimentos, Miguilim adoece (de quase morrer mesmo), e seu pai tem uma crise de consciência e de culpa, pois ele acabou de perder o Dito e estava perdendo o Miguilim também: “Nem Deus não pode achar isto justo direito, de adoecer meus filhinhos todos um depois do outro, parece que é a gente só quem tem de purgar padecer!?”

Nota-se que, ao mesmo tempo que Não Béro é violento, ele também se sente culpado por seus atos, o que nos mostra a complexidade da personagem e da obra.

Todavia, como desgraça muita é pouca, Nhô Bero acaba matando seu ajudante Luisaltino, acredito que por uma crise de ciúme deste rapaz com sua esposa (com a leitura da obra, dá a entender que eles teriam tido um caso). Com o acontecimento do crime, o pai de Miguilim perde a cabeça e acaba tirando a própria vida.

Miguilim se recupera, contudo, com a morte de seu pai, Tio Terez retorna e informa que irá morar com eles e trabalhar na lavoura de seu irmão. A Vó Izidra, vendo o retorno do Tio Terez, anuncia que irá embora, pois lá (no Mutum) não ficava mais.

Na cena final do livro, aparecem dois homens a cavalo, sendo que um deles está portando óculos de grau (Dr. José Lourenço , do Curvelo). O homem, pergunta a Miguilim se ele tem dificuldade para enxergar, pois o menino “aperta muito a vista”. Ao ver a dificuldade do nosso protagonista, o homem cede seus óculos para ele.

No momento em que Miguilim está na posse dos óculos, ele enxerga tudo (o menino “tem a vista curta” = miopia).

Logo, tudo o que ele via nitidamente era novo e diferente, inclusive e especialmente, a beleza do Mutum: “O Mutúm era bonito! Agora ele sabia”.

POSSÍVEIS QUESTÕES PARA O VESTIBULAR

Ao analisar como a obra em tela é cobrada nos vestibulares, eu pude verificar que a maior parte das questões envolviam o conhecimento do enredo, através de citações de trechos da novela, bem como sobre o estilo narrativo da obra, qual seja, o narrador figura–se como um adulto, a fim de contar efetivamente a história, mas visualiza os fatos como se pertencesse ao íntimo do universo infantil, diminuindo a distância entre as duas realidades. 

A narrativa é determinada pela sabedoria mítica e sertaneja, isto é, acompanha o crescimento do protagonista, não só no caráter físico, mas a evolução de seus pensamentos, de sua forma de pensar (novela de formação).

Nota-se, portanto, que as narrativas com este tema, sempre trazem a visão de mundo da criança com o desenvolvimento de emoções como amor, amizade, religiosidade e até mesmo violência, através das relações afetivas e familiares.

MINHA EXPERIÊNCIA DE LEITURA

Mais um livro de Guimarães Rosa difícil de ser lido e compreendido de imediato, mas independentemente dos obstáculos literários, é possível apreciar a genialidade do autor.

E já fica como meta, na minha lista infindável de leituras, O grande sertão Veredas, tido como a obra prima do autor.

Conhece alguém que está para prestar vestibular ou se preparando para este exame? Indica o conteúdo aqui do blog!!!

Um beijo e até o próximo post !!

%d blogueiros gostam disto: