Resenha do livro 1984 de George Orwell

Capa do livro publicado pelo Editora Antofágica em 2021

Aproveitei a promoção do E-book desta obra, lançada pela Editora Antofágica este ano na Amazon (pasmem… eu paguei R$ 0,25!!!), e confesso que foi o dinheiro mais bem investido em um livro e abaixo eu te mostro o porquê.

A história tem como pano de fundo um mundo dividido em Euroásia, Lestásia e Oceania, sendo nesta localizada uma Londres totalitária, denominada no livro como Pista nº 1.

É através deste “universo” que nos é apresentado como protagonista Winston Smith, um funcionário público que trabalha no Ministério da Verdade, reeditando notícias do The Times e destruindo, através de um tubo pneumático, todas as evidências que apontam para o contrário do que será reeditado.

Deixo abaixo, algumas ilustrações feitas por Rafael Coutinho que nos mostram de forma fiel, o mundo em que vivia o nosso protagonista:

A forma que o autor descreve a rotina de Winston, tanto no trabalho quanto em casa, é cristalina e nos faz vislumbrar uma vida ligada no piloto automático ou até mesmo uma vida em que não se pode sair pela tangente em nenhum momento.

De início, Winston nos parece indiferente a tudo o que está ao seu redor, isto é, não demonstra nenhum sentimento de revolta contra o regime totalitário do Grande Irmão, contra a ideologia pregada pelo Partido, qual seja, a Ingsoc, contra as pessoas, principalmente durante os Minutos de Ódio (ataques ao traidor do regime Emmanuel Goldstein). 

Conforme a narrativa evolui, vemos que Winston não concorda com o regime imposto, mas não tem forças para lutar contra o sistema, logo, só lhe resta desabafar em seu diário o que ele realmente pensa e escondê-lo para não ser preso por seus pensamentos.

Todavia, este sentimento de ódio ao Grande Irmão virá à tona através das personagens O’Brien (membro do Partido Interno, no qual Winston vê uma certa cumplicidade de pensamentos contra o sistema) e de Julia, que se torna amante do nosso protagonista.

No que tange a relação com Julia, tal relacionamento não é permitido, tendo em vista que Winston é divorciado e relações sexuais são vistas como crime pelo Partido. 

Nota-se, portanto, que o regime e ideologia do Grande Irmão tem como objetivo controlar a vida das pessoas, através da Teletela, seus pensamentos, bem como controlar a forma como elas se comunicam.

Esse controle de comunicação é feito através da Novilíngua, um idioma capaz de exterminar qualquer expressão contrária aos ideais do Partido. Aqui, ressalto a palavra “duplipensar” que significa acreditar em duas ideias opostas e aceitar ambas, cito como exemplo o nome do Ministério, no qual Winston trabalha, o da Verdade: retificação de notícias através de mentiras impostas como verdades absolutas pelo Partido. 

Ao pesquisar sobre a obra e sobre o autor, vi que o livro foi escrito em um momento conturbado da vida de George Orwell (seu nome de batismo era Eric Arthur Blair), o mesmo tinha acabado de se tornar viúvo, pai solteiro, sofria de tuberculose (falecendo da doença em janeiro de 1950), bem como vivenciava há um bom tempo a Guerra ao seu redor.

Logo, o romance 1984 pode ser visto como uma metáfora sobre o poder, já que para o autor, o objetivo de qualquer Guerra não é vencer o inimigo ou defender uma causa, mas sim, manter o poder nas mãos das mesmas pessoas que provocaram o evento bélico.

Com a Guerra, nós limitamos o acesso à educação, à cultura e a vida dos cidadãos. Daí, vem o lema do Partido e ideologia do Grande Irmão “guerra é paz, liberdade é escravidão, ignorância é força.

Ademais, acredito que poucos autores conseguiram descrever de uma forma tão real a tortura sofrida por Winston e todos aqueles que foram “condenados” como opositores ao Regime do Grande Irmão. Aqui fica a ressalva da cena da tortura com os ratos que é de arrepiar só de lembrar.

A leitura deste livro é envolvente, fluída, incômoda e profética, sendo esta última característica dita no sentido comparativo com os dias de hoje, isto é, como a tecnologia pode tirar de você a sua privacidade ou até mesmo intervir na forma de pensar, um exemplo claro são as Fake News

Há também quem diga, e de certa forma eu também concordo, que a tecnologia serviu também para exibir a sua privacidade nas redes sociais e em outros meios de comunicação, utilizando esta forma como captação de público para a venda de uma imagem ou produto, como é o caso do Instagram, Facebook e até mesmo o programa Big Brother (idealizador do programa John de Mol, jura de pé junto que não se inspirou na personagem do livro 1984 para dar nome ao reality show).

Saliento que há duas adaptações para o cinema inspiradas no livro, sendo a primeira lançada em 1956 (você encontra facilmente no Youtube para assistir), bem como uma lançada coincidentemente (ou não), em 1984:

Sinopse: 1984, Londres. O Reino Unido está sob o regime socialista, sendo controlado com mão de ferro pelo partido. Há em todo lugar telas de TV, que servem como os olhos do governo para saber o que os cidadãos fazem. No intuito de controlá-los são exibidas constantemente imagens através destas mesmas telas, relatando as batalhas enfrentadas pela Oceania em outros continentes. Winston Smith (John Hurt) vive sozinho e trabalha para um dos departamentos do governo, manipulando informações de forma que as notícias sejam positivas para a população. Até que, um dia, ele passa a se interessar por uma colega, Julia (Suzanna Hamilton), que o leva até os arredores da cidade. Eles passam a ter um relacionamento, algo proibido pelo partido, que deseja eliminar a libido na população.

Antes de me despedir, informo que ainda este ano farei a leitura de Fahrenheit 451 e admirável mundo novo, que junto com 1984 fazem parte da chamada trilogia distópica. Logo, aguardem…

Por fim, recomendo muito a leitura, e pergunto para quem já leu o livro, se também notou este tom profético de George Orwell.

Um beijo e até o próximo post!!

Resenha da obra O deserto dos tártaros

Capa do livro lançado pela Editora Nova Fronteira

Tida como a obra prima do autor italiano Dino Buzzati, a novela foi publicada em 1940 e no decorrer da leitura vieram à mente, dois outros livros já resenhados aqui no blog, quais sejam A montanha mágica de Thomas Mann e A morte de Ivan Ilitch de Tolstói.

A lembrança das obras acima, veio de um tema principal que interliga tais obras, o tempo, a solidão e a morte.

No deserto dos tártaros, nós conhecemos a história de Giovanni Drogo, um militar de vinte anos, convocado para assumir o posto de tenente no Forte Bastiani. Inicialmente, nosso protagonista vê tal oportunidade como a chance de sua vida, tendo em vista que até então dedicou seus anos aos estudos e a academia militar.

Ao chegar em seu destino, Giovanni, não via a hora de pedir transferência para outra guarnição, tendo em vista que ele era jovem e ficando no local ele não iria ter o que idealizava, qual seja, status, dinheiro e belas mulheres. 

Ao falar com o Major Matti, solicitando a transferência, soube que sua estadia teria que ser no mínimo de quatro meses, pois deveria aguardar até o próximo exame médico. Ao chegar tal oportunidade, Giovanni desiste de ir embora e permanece no local na espera dos inimigos (os tártaros) que podem chegar a qualquer momento pelo deserto à frente do Forte.

Devido a permanência no Forte, Giovanni adquiriu com o tempo os hábitos do local e assim sua vida foi seguindo e o nosso protagonista mostra uma certa ilusão com o tempo, ele se enxerga naquele momento com todo o tempo do mundo devido a sua jovialidade.

Aqui eu deixo um dos trechos mais bonitos do livro sobre a ilusão acerca da passagem do tempo:

“Mas a uma certa altura, quase instintivamente, vira-se para trás e vê-se que uma porta foi trancada às nossas costas, fechando o caminho de volta. Então sente-se que alguma coisa mudou, o sol não parece mais imóvel, desloca-se rápido, infelizmente, não dá tempo de olhá-lo, pois já se precipita nos confins do horizonte, percebe-se que as nuvens não estão mais estagnadas nos golfos azuis do céu, fogem, amontoando-se umas sobre as outras, tamanha é sua afoiteza; compreende-se que o tempo passa e que a estrada, um dia, deverá inevitavelmente acabar.

Todavia, a história dá um salto de dois anos, e nada mudou na vida de Giovanni Drogo. No decorrer deste período, só houve um momento em que acharam que os tártaros estavam chegando. 

Todos do Forte, inclusive Giovanni esperavam este momento, o momento de conhecer a glória, de lutar como um herói na guerra contra os tártaros. Contudo, não houve glória, não houve guerra, somente a indiferença com a vida de dois soldados do local.

A narrativa dá mais um salto temporal, agora Giovanni já está há quatro anos no Forte e devido a uma licença, ele retorna para a cidade. No capítulo que narra este retorno, nós vemos que os amigos de Giovanni já estão casados, com seus empregos, sua mãe já está mais velha e Maria, seu amor platônico, está mudada. 

Na verdade, nosso protagonista mudou, no sentido de que não consegue expressar o que sente por Maria e se vê deslocado na cidade, como se fosse um estrangeiro, o que contribui para o seu retorno ao Forte.

Giovanni tenta a sua transferência para a cidade e sofre uma desilusão com relação ao seu serviço. Ao falar com o General, nosso protagonista descobre que houve uma mudança no regulamento do Exército, no qual previa o corte para a metade do quadro de militares do Forte, como houveram muitos pedidos de transferência, principalmente, de seus superiores, o pedido de Drogo foi preterido e o mesmo deveria retornar ao seu posto.

Mesmo o tempo passando, Giovanni ainda tinha esperança de lutar contra o inimigo, tendo em vista que estavam construindo uma estrada no meio do deserto. A construção de tal obra demorou quinze anos, aqui, Giovanni já era capitão e continuava à espera do inimigo e da glória.

No transcorrer do lapso temporal, Drogo refletia sobre a solidão, de não ter constituído uma família, não ter filhos, não ter mais os amigos da cidade e até mesmo no Exército, como foi o caso no Tenente Coronel Ortiz e do Tenente Angustina, restando somente o Forte e a espera pelos tártaros. 

Nessa espera, Giovanni já está com cinquenta e quatro anos, já é major e continua esperando o seu momento de glória na Corporação. Todavia, com a idade, nosso protagonista, desenvolve uma doença hepática que o deixava debilitado e fraco. E foi neste momento, que os inimigos apareceram pela estrada que demorou quinze anos para ser construída e estavam em direção ao Forte.

Giovanni ficou desesperado, pois justo quando os inimigos apareceram ele estava doente e não tinha forças para combater, para ser o herói que ele tanto almejava e esperava ser. E como não tinha serventia para o Exército um oficial neste estado, nosso protagonista foi obrigado a abandonar o Forte e se tratar na cidade.

E essa passagem do livro é uma das mais tristes, pela indiferença dos colegas do Forte, pela perda da chance tão esperada de ser um herói, da solidão e da falta de alguém que realmente o amasse.

É uma obra linda (e ao mesmo tempo triste), atemporal e que nos faz olhar para nós mesmos de uma forma tão tocante, que poucas histórias conseguem. Indico muito a leitura deste livro e dos que eu citei acima!!

Um beijo e até o próximo post!!

Resenha de A morte de Ivan Ilitch

Capa do livro publicado pela Editora Antofágica

Nono livro da lista do Projeto Reeducação do Imaginário. A morte de Ivan Ilitch de Liev Tolstói é leitura obrigatória para quem quer adentrar no universo da literatura russa.

SOBRE O AUTOR

Liev Nikoláievitch Tolstói nasceu no dia 09 de setembro de 1828 em Iásnaia Poliana, propriedade rural da família, filho de uma família nobre, a criação do autor e seus irmãos, após a morte de sua mãe, ficou a cargo de tias paternas e preceptores.

Foi para a Universidade Imperial de Kazan, onde estudou letras orientais e direito, mas desistiu de ambos os cursos em 1847. Ao herdar a propriedade rural em sua cidade natal, o autor dividia seu tempo entre o local e as mesas de jogo em São Petersburgo, onde dizem as más línguas, ele nã tinha tanta sorte.

Tolstói se alistou no exército e combateu durante a Guerra da Crimeia, na cidade de Sevastópol, tendo dado baixa em sua carreira como tenente em 1856.

Em 1852, o autor se casou com Sófia Andrêievna Bers, com quem passou o resto de sua vida. Sua esposa teve um papel fundamental na criação das obras mais conhecidas do autor, sendo elas Guerra e Paz e Ana Karênina, bem como atuou na edição e revisão dos manuscritos do marido. Juntos tiveram treze filhos, sendo que somente oito chegaram a fase adulta.

Apesar do sucesso de crítica e o bom convívio familiar, em 1870, Tolstói apresentou uma crise aguda de depressão, o que o fez perder o sentido nas coisas que produzia. Ao reavaliar sua vida, Tolstói retomou as atividades de sua escola, aliás, Tolstói teve um papel fundamental na educação dos mujiques da região de Iásnaia Poliana, com influência na educação da Rússia.

Tornou-se vegetariano, estudou teologia e seitas cismáticas, bem como passou a questionar frequentemente os dogmas da Igreja Ortodoxa, sendo excomungado no início do século XX. Sua influência era tamanha que o escritor passou a ter discípulos de sua doutrina, chamada toltoísmo.

Contudo, a relação com a família ficou desgastada, principalmente com sua esposa, que não compartilhava das mesmas ideias que seu marido, no que tange a abdicação dos direitos autorais sobre sua obra. Tolstói faleceu em 20 de novembro de 1910 de pneumonia.

Deixo aqui a dica de um vídeo do Youtube sobre a vida do autor feito pela Paloma, do Livros da Paloma, bem como a leitura do texto de apoio desta edição escrita detalhadamente pelo historiador e doutor em literatura russa, Lucas Simone.

SOBRE A EDIÇÃO

A edição pela qual eu fiz a leitura da obra foi a publicada em 2020 pela Editora Antofágica. Trabalho primoroso, em capa dura, com textos de apoio espetaculares de Yuri Al’Hanati, Julián Fuks, Lucas Simone e Maria Julia Kovács, bem como ilustrado por Luciano Feijão que conseguiu captar de forma única a essência desta novela:

SOBRE A OBRA

ATENÇÃO: O TÓPICO A SEGUIR CONTÊM MUITOS SPOILERS

Novela publicada em 1886, na qual a narrativa se inicia com a recepção da notícia da morte, aos quarenta e cinco anos, do magistrado Ivan Ilitch em seu local de trabalho (Câmara de Justiça). De imediato já notamos que seus colegas de profissão não se importaram ou ficaram chateados com sua morte, mas se questionaram sobre quem ocuparia seu cargo no Tribunal: 

“Além das reflexões de cada um a respeito das transferências e possíveis mudanças de destino que aquela morte poderia acarretar, o próprio fato da morte de um conhecido próximo despertou em todos que ficaram sabendo dela, como sempre, uma sensação de alegria por ter morrido o outro, e não eles.”

Com relação a seu funeral, também era cristalino a indiferença das pessoas ali reunidas a respeito de sua morte, principalmente, a posição de sua esposa Praskóvia Fiódorovna em relação ao fato:

“E ela voltou a falar e revelou aquilo que claramente era seu principal assunto com ele (o colega do nosso protagonista no Tribunal presente no velório, Piotr Ivánovitch); que consistia na questão de como poderia obter indenização do governo em caso de morte do marido.

A partir do capítulo II, nós conhecemos o passado, desde a infância de Ivan Ilitch. Sabemos que seu pai era também funcionário público, que tinha mais dois irmãos, o mais velho seguiu os passos do pai e o mais novo era um fracassado que trabalhava nas ferrovias. Toda a família desprezava o irmão mais novo de Ivan.

Nosso protagonista era visto por todos da família, como um gênio e de uma honestidade incorruptível, já que estava no meio termo entre os dois irmãos. Estudou na escola de jurisprudência e se formou com distinção:

“Na escola de jurisprudência, ele já era o que viria a ser depois, ao longo de toda a vida: uma pessoa capaz, alegre, bondosa e sociável, mas que cumpria rigorosamente aquilo que considerava seu dever; e considerava seu dever tudo aquilo que assim consideravam as pessoas que ocupavam os mais altos postos.”

Após cinco anos de trabalho, foi oferecido a Ivan Ilitch um posto de juiz de instrução, no qual o nosso protagonista aceitou de bom grado e sobre esta nova posição há uma passagem no livro muito interessante da visão de mundo de Ivan:

“Mas agora, como juiz de instrução, Ivan Ilitch sentia que todos, sem exceção, até as pessoas mais importantes e cheias de si, estavam em sua mão, e que lhe bastava apenas escrever as devidas palavras no papel timbrado para que alguém importante e cheio de si fosse trazido até ele na condição de réu ou testemunha, e, se ele não quisesse prendê-la, a pessoa deveria permanecer diante dele e responder suas perguntas. ”

O poder fez com que Ivan visse de fato a vida de outro modo, tanto é que em seu novo círculo de amizade, composto por nobres ricos do Poder Judiciário, adotou um tom de insatisfação com o governo, de liberalismo moderado e civismo cortês, ou seja, Ivan passou a viver da forma que ele achava que a sociedade ditava.

Após dois anos como juiz de instrução, Ivan conheceu sua futura esposa, Praskóvia Fiódorovna, que advinha de uma família nobre, de fortuna e as pessoas de seu círculo social aprovavam a união. Logo, nosso protagonista fez aquilo que seria considerado correto pelas pessoas de alto nível, casou-se.

Com a gravidez da esposa, a vida conjugal do casal sofreu uma reviravolta, pois Praskóvia exigia que Ivan cuidasse dela e passou a ofendê-lo toda vez que este descumpria suas exigências. Diante de tal situação, mesmo após o nascimento da criança, Ivan Ilitch se agarrou ao trabalho como sua tábua de salvação, já que seu ofício era a única coisa que se impunha a sua esposa.

Logo, com relação a vida conjugal e familiar, Ivan Ilitch só exigia as conveniências que ela podia lhe proporcionar – o almoço caseiro, a dona de casa, a cama – e, sobretudo, aquela decência nas aparências, que era definida pela opinião pública.

Com o passar dos anos, cada vez mais Ivan concentrou seus esforços, bem como sua vida em seu serviço e cada vez mais deixou sua família de lado:

“No mundo do serviço, concentrava-se, todo o interesse de sua vida. E esse interesse o absorvia. A consciência de seu poder, a possibilidade de arruinar qualquer pessoa que ele quisesse arruinar, a importância, até na aparência, de sua entrada no tribunal e de seus encontros com os subordinados, seu sucesso perante os superiores e os subordinados, e, sobretudo, a maestria que ele podia sentir – tudo isso o alegrava e juntamente com as conversas com os colegas, os almoços e o uíste (jogo de cartas), preenchia sua vida. ”

A vida do nosso protagonista dá um salto de dezessete anos, e durante este período, Ivan agiu da mesma forma, ficando menos com a família e dando mais valor ao seu serviço, ao poder advindo de sua atividade, bem como os ditames sociais.

Mas, Ivan não estava satisfeito somente com isto, ele queria ganhar mais, ter um melhor cargo no Judiciário. Ao conseguir o almejado cargo, cujo salário seria de cinco mil, Ivan ficou extasiado e começou a traçar planos para a nova morada da família. 

Dentre estes planos, estavam como objetivo investir seu tempo e dinheiro na decoração da nova casa. Para ele, seu novo habitat deveria ser primoroso e de primeira linha, mas na realidade, era somente mais do mesmo do que se encontra em todas as casas de pessoas que não eram propriamente ricas, mas que queriam aparentar ser.

Em um destes investimentos, qual seja, nas cortinas da sala, Ivan ao explicar ao tapeceiro como queria que fosse o drapejamento, subiu em uma escada, mas o mesmo tropeçou e caiu, batendo o flanco no puxador de um caixilho. O machucado doeu no momento, mas logo a dor foi embora e sua satisfação com a aparência de sua casa prevaleceu.

Conforme a vida de Ivan Ilitch caminhava, ele passou a se queixar de um gosto estranho na boca e um incômodo no lado esquerdo da barriga. A partir do momento em que estas sensações aumentaram, Ivan começou a ficar mal-humorado, com ele mesmo e com a sua própria família e no meio de todos estes sentimentos de irritação e raiva sua esposa exigiu que Ivan fosse ao médico, a fim de verificar o que de fato era esta dor que ele sentia.

Ao comparecer ao médico, tudo que restou ao Ivan foi uma indecisão de diagnóstico, tendo em vista que ora eram os rins soltos ou uma doença cecal, na qual ambas não comprometiam com a sua vida. Ivan sentia, que aquele diagnóstico não estava certo, pois ele sabia o que ele estava sentindo. Ao começar a tomar os remédios, nosso protagonista viu que sua dor não diminuía, mas mesmo assim se obrigava a pensar que estava se sentindo melhor.

Mesmo diante da dor de Ivan, sua família não o compreendia, ficavam até desgostosos com suas exigências e aborrecimentos, bem como o culpavam alegando que sua aflição estava ligada ao fato de não conseguir cumprir estritamente as prescrições médicas. E assim Ivan tinha que viver, à beira da morte, sozinho e sem ninguém que o compreendesse e tivesse pena dele.

Conforme a dor não passava, aliás, só aumentava Ivan começou a entrar em desespero, pois percebia que estava morrendo, mas não conseguia entender ou não aceitava aquele destino.

Contudo, a doença era cruel com o nosso protagonista, que dormia cada vez menos e se tornava mais depende de ópio e morfina para a dor, bem como da ajuda do mujique doméstico Guerássim.

Aqui eu faço a ressalva sobre Guerássim, acredito que a empatia de Ivan pelo mujique advém da compaixão que o mesmo o tratava na hora de ajudá-lo a comer, a realizar sua higiene ou em cada pedido feito por ele. 

Quando Ivan ficava sozinho no cômodo, ele chorava igual criança, pelo desamparo, pela solidão, pela crueldade e indiferença das pessoas, pela crueldade de Deus e pela ausência Dele.

Em um desses momentos, Ivan achou estar ouvindo uma voz que respondia a todos os seus questionamentos sobre a vida, sobre a morte e, aqui eu cito, um dos trechos mais bonitos e verdadeiros sobre a vida do nosso protagonista, o que comprova a genialidade e a sensibilidade de Tolstói:

“O casamento… tão por acaso, e a decepção, e o cheiro da boca da esposa, e a sensualidade, o fingimento! E aquele serviço morto, e as preocupações com o dinheiro, e assim por um ano, dois, dez, vinte… e sempre a mesma coisa. E, quanto mais tempo se passava, mais morto tudo era. Como se eu caminhasse montanha abaixo, de maneira constante, imaginando que caminhava montanha acima. Foi bem assim. Na opinião da sociedade, eu ia montanha acima, e na mesmíssima medida a vida se afastava de mim… E então pronto, pode morrer! ”

Vemos, através deste trecho, que somente na doença, Ivan revisitou as alegrias de seu passado e se questionou se durante toda a sua vida ele a viveu de forma “errada”. Conforme, a doença foi evoluindo, o medo da morte passou a não ser mais um temor, mas um conformismo e uma forma de redenção. E então, Ivan aspirou o ar e no meio do suspiro, esticou-se e morreu.

No texto de apoio escrito por Maria Julia Kovács, professora do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, destaca que a doença que acometeu Ivan provavelmente tratava-se de um câncer.

SOBRE MINHA EXPERIÊNCIA DE LEITURA E INDICAÇÃO PARA O PROJETO REEDUCAÇÃO DO IMAGINÁRIO

Meu primeiro contato com o autor e já me tornei fã e quero ler tudo o que este homem escreveu!

É uma narrativa impactante, cruel e verdadeira, tudo ao mesmo tempo, que te leva a refletir sobre a sua própria vida, a fazer as mesmas perguntas que Ivan Ilitch fez ao final de seu ciclo e a se indagar se assim como ele, nós também estamos vivendo a vida de forma “errada”.

Aqui o “errado” é no sentido do valor que nós damos a determinadas coisas, como o dinheiro, o trabalho, o pouco ou nenhum tempo gasto com a família, a incompreensão e a indiferença.

Quantas vez nós não agimos de determinada forma para agradar a outrem ou conforme os padrões sociais? Quantas vezes não somos indiferentes com o problema do outro? Quantas vezes nós adiamos a nossa própria felicidade?

E assim, se passam anos da nossa vida, que quando olhamos para trás ou até no espelho, enxergamos de fato, que este tempo não irá voltar. 

Talvez este seja o sentido de viver a vida de forma “correta”, nos importarmos menos com que os outros pensam, nos importamos mais e convivermos mais, dentro da possibilidade de cada um, com quem amamos, amar, sem ter medo de viver, sem ter medo do depois, ou seja, sem ter medo de ser feliz.

Recomendo muito, mas muito a leitura deste livro e espero que assim que você concluir a leitura venha compartilhar comigo, aqui nos comentários ou no Instagram (@magia.das.palavras), o que você achou!!!

Um grande beijo e até o próximo post!!

Resenha de O Senhor dos anéis – O retorno do Rei e finalização da obra

Capa do livro publicado pela Editora Harper Collins

Continuando a leitura do décimo livro da lista do Projeto Reeducação do Imaginário – O Senhor dos anéis. No post de hoje, eu tratarei da terceira e última parte do livro, intitulada O retorno do rei.

Aqui, chegamos ao fim desta jornada INACREDITÁVEL, iniciada com a leitura de O hobbit em Julho de 2020 (temos também a resenha de a sociedade do anel e as duas torres). Foi uma trajetória repleta de aventuras, ensinamentos e, em O retorno do rei não foi diferente, aliás, foi de tirar o fôlego!!!

SOBRE O ENREDO

O livro 5 retoma a parte final do livro 3, qual seja, a partida de Gandalf com Pippin para Minas Tirith. Nota-se, portanto, que a Comitiva do Anel se separa mais ainda, cada um enfrentando seus desafios.

Ao chegarem no destino, os dois precisam conversar com o Regente Denethor, pai de Boromir e Faramir. O diálogo não será nada fácil, pois Gandalf terá a missão de contar ao “rei” que quem tem direito ao seu trono é Aragorn.  Com o fim da conversa, Pippin se torna servo de Denethor e Gandalf precisa partir e deixa como missão para Pipin cuidar de Scadufax.

A outra parte da Comitiva, Aragorn, Legolas e Gimli, estão voltando de Isengard. Aragorn, sabe que deverá passar por um caminho obscuro e amaldiçoado por Isildur (a Terra da Sombra) e que os fantasmas que lá habitam ajudam o verdadeiro rei em sua trajetória.

Enquanto isso, em Rohan, os cavaleiros se preparam para partir à luta em defesa da terra de Gondor, contra a escuridão crescente, comandados pelo valente Rei Theóden e Merry que está no local, a serviço do rei, é dispensado de sua atividade. 

Nesta cena, eu fiquei como muita pena do Merry, pois era nítido que ele queria participar da batalha e fica pensando em seus amigos e no desempenho de seus grandes papéis nesta jornada. 

Ao observar a vontade de Merry em ajudar a tropa, um dos cavaleiros o chama para subir em seu cavalo e partir com eles para a batalha. Tal cavaleiro, nada mais é que Elryn disfarçada e depois revelada como uma excelente guerreira.

Acompanhamos também o delicado relacionamento entre Denethor e Faramir, o filho preterido, pois em um dado momento, seu pai diz com todas as letras que gostaria que ele tivesse morrido no lugar de Boromir. Esta cena tanto no filme quanto no livro, me deixou tão triste, pois o Faramir tenta de tudo para demonstrar o seu valor ao seu pai e é humilhado e desprezado por ele.

E não bastasse tudo isso, chegamos a momento do cerco de Gondor, ocasião em que temos uma batalha terrível. Faramir acaba se ferindo e seu corpo é entregue ao seu pai, que está determinado ao morrer queimado junto com o filho. 

Ao saber disso, Pippin vai atrás no campo de batalha de Gandalf, a fim de impedir a morte de ambos. No campo de batalha, Gandalf está lutando com Nazgul até que se ouve uma trombeta, anunciando a chegada dos cavaleiros de Rohan.

Ademais, seguimos acompanhando as batalhas e inclusive, testemunhamos a morte do regente Denethor e do Rei Theóden pelo Capitão Negro. Elryn tenta salvar o Rei, mas acaba se ferindo e Merry, ao ver tal cena, acaba intercedendo por ela e derrota o inimigo.

Ao perceberem que tal cavaleiro era Elryn e que a mesma estava viva, apesar de seu ferimento, ela é encaminhada a uma casa de cura. Assim, como Elryn, Merry após o seu reencontro com Pippin também é levado para a casa de cura e Faramir, após a morte de seu pai também está lá recebendo cuidados.

Neste meio tempo, Aragorn, Gimli e Legolas chegam a batalha, para o horror dos cavaleiros de Mordor. Ao saber dos feridos na casa de cura, Aragorn vai diretamente ao local e, como verdadeiro rei, ele exerce o seu poder de cura.

No final do livro 5, há um debate sobre os próximos passos a serem dados para mais uma batalha (rumo ao Portão Negro) e aqui temos uma das frases mais bonitas e conhecidas do livro:

“Outros males existem que poderão vir, pois o próprio Sauron é apenas um servidor ou emissário, todavia, não é nossa função controlar todas as marés do mundo, mas sim fazer o que pudermos para socorrer o tempo em que estamos inseridos, erradicando o mal dos campos que conhecemos para que aqueles que viverem depois tenham terras limpas para cultivar. Que tempo encontrarão não é nossa função determinar. ”

Já no livro 6, nós retornarmos a jornada de Frodo e Sam, na qual Frodo foi levado ao topo de uma torre pelos Orcs e Sam, em posse do anel, vai atrás de seu mestre.

Ao encontrar Frodo no topo da Torre de Cirith Ungol, o mesmo está desacordado. Sam, ao cantar uma música do Condado, vê Frodo despertar e após narrar os últimos acontecimentos ao seu mestre, eles tentam fugir dos Orcs deste lugar para continuar com a missão.

Durante este percurso, os Hobbits se deparam com uma tropa de Orcs, mas por sorte, eles estão usando as roupas encontradas da Torre em que Frodo estava e entram no meio da tropa e aguardam o momento certo para despistá-los.

Frodo e Sam conseguem chegar a Montanha da Perdição, a fim de cumprir o destino, qual seja, a destruição do anel. Tolkien nos mostra, através de sua narrativa, o quanto foi difícil e desgastante para Frodo o fardo do anel, bem como Sam foi importante durante toda a jornada e um dos mais fiéis amigos.

Contudo, destruir o anel não será nada fácil, pois Gollum reaparece no local para impedir a conclusão da missão de Frodo, bem como o hobbit estava considerando ficar com o anel para ele, o que nos mostra a influência do objeto sobre o portador.

Gollum consegue recuperar o anel de Frodo, arrancando o dedo do mesmo, mas ao estar na posse do objeto novamente, a criatura tropeça e cai no fogo da Montanha da Perdição junto com o anel. 

Com a destruição do anel, nós como leitores, bem como as personagens, temos a percepção da dissipação da neblina, das construções desmoronando, dos Nazgul desaparecendo e dos Orcs fugindo.

Com o cumprimento da demanda, a luta cessa e Gandalf irá atrás de grande águia e sai em busca de Sam e Frodo, que estão no meio da destruição da Montanha da Perdição. 

Durante a despedida da Comitiva do Anel, eles encontram rastejando Saruman e Língua de Cobra e Frodo fica encarregado de terminar o livro vermelho para Bilbo, que está preste a passar o velho Tûk em anos vividos (131 anos).


No retorno ao Condado, os Hobbits ficam sabendo no bando de batedores que invadiu sua pacífica vila. Ao chegarem no destino, os pequenos percebem que as casas estão diferentes e sombrias, as árvores que ficavam nas alamedas foram todas cortadas.


Vendo a situação e o pavor dos moradores do Condado, os hobbits começam a traçar estratégias para chegar até o chefe dos batedores. E quem é este chefe??? Ninguém mais, ninguém menos que o próprio Saruman.

Após uma rebelião dos hobbits contra o mal, eles conseguem expulsar tanto Língua de Cobra quanto Saruman. Este, começa a humilhar o seu comparsa e o mesmo não aguenta mais ser tratado desta forma e corta a garganta de Saruman e Língua de Cobra acaba sendo morto a flechada pelos Hobbits.


Depois de um tempo de trevas, veio a paz tão merecida para os Hobbits, eles começam a reerguer o Condado, Sam casa-se com Rosinha e juntos tem uma filha e enquanto isso, Frodo termina o livro para Bilbo. Já quase no final da obra, Frodo decide que é a hora de fazer uma viagem para ficar com Bilbo.


Sam fica arrasado com a partida de Frodo para outro mundo, além da Terra Média, junto com Bilbo e Gandalf. E aqui fica a poética simbologia de Tolkien sobre a vida após a morte ou até mesmo sobre a finitude da vida.

SOBRE O AUTOR

John Ronald Reuel Tolkien, nasceu em Bloemfontein, na República do Estado Livre de Orange (atual África do Sul), e, aos três anos de idade, com a sua mãe e irmão, passou a viver na Inglaterra, terra natal de seus pais.

Com a morte de sua mãe, Tolkien e seu irmão passaram a ser cuidados por Francis Morgan, momento no qual dedicou-se aos estudos demonstrando grande talento linguístico. Em 1905, os irmãos mudaram-se para a casa de uma tia em Birmingham. Em 1908, deu início à carreira acadêmica, ingressando na Universidade de Oxford. 

Em 1915, ao autor concluiu a sua licenciatura em literatura em língua inglesa. Todavia, a graduação não o impediu de ser convocado e, em 1916, depois de casar-se com Edith Bratt, foi chamado para a guerra. 

Tolkien sobreviveu à Primeira Guerra Mundial e em 1917, nasceu o seu primeiro filho, John Francis Reuel Tolkien. Logo depois começou a escrever os primeiros rascunhos do que se tornaria o seu segundo mundo, complexo e cheio de vida, servindo de pano de fundo para obras como O Hobbit, O Senhor dos AnéisO Silmarillion.

Com tais obras, o autor ficou conhecido como o pai da moderna literatura fantástica e é amplamente considerado como um dos maiores e sem dúvida o mais bem-sucedido autor deste gênero literário. Tolkien foi indicado duas vezes ao Prêmio Nobel da literatura, mas não ganhou nenhuma das vezes.

Em 1972, Tolkien recebeu o título de Doutor Honoris Causa em Letras da Universidade de Oxford, onde fora professor, bem como recebeu uma das maiores honras britânicas, qual seja, a da Ordem do Império Britânico, entregue pela Rainha Elizabeth II.

Em 2 de setembro de 1973, Tolkien morre na Inglaterra. Seu corpo foi enterrado junto com a esposa, no Cemitério de Wolvercote. No túmulo, abaixo do seu nome há a inscrição Beren.

SOBRE A INDICAÇÃO DA OBRA NO PROJETO REEDUCAÇÃO DO IMAGINÁRIO

Após finalizar a leitura da saga e rever os filmes, posso afirmar que foi uma experiência única e totalmente diferente de quando eu assisti pela primeira vez nos cinemas (eu tinha 13 anos).

Ao rever os filmes, a forma que eu via a história foi completamente diferente. Afinal, eu tinha 13 anos quando o primeiro filme estreou.

Nesta idade, eu assisti admirando somente o universo fantástico, criado brilhantemente por Tolkien, através de suas personagens e lugares mágicos.

Hoje, com 32 anos, eu visualizei este mesmo universo fantástico como uma metáfora da nossa vida e é desta forma de enxergar, eu acredito que advém a indicação da obra ao projeto reeducação do imaginário.

A metáfora é cristalina em diversos elementos da história:

Como no caso dos Hobbits que representam a inocência, ingenuidade e curiosidade e até mesmo que a força pode sim vir dos pequenos; 

A relação “pais e filhos” das personagens mais velhas com relação aos mais novas. Na qual, podemos ver como somos suscetíveis a falhas, erros, acertos e medos na forma de educar os nossos filhos;

A questão da fé e da esperança, presentes e ausentes, nas personagens e como tais elementos foram os divisores de águas no final da jornada de cada um.

O próprio anel que simboliza o poder, a cobiça, a ganância que existe dentro de todos nós e a capacidade de tal sentimento se sobrepor a outros e a forma que o mesmo age em cada ser humano, como é o caso das personagens Gollum/Smeagol e Frodo Bolseiro;

E o fim da jornada dos Hobbits, na qual durante toda a trajetória tinham medo de não voltarem a ver o Condado em que moravam, mas que ao retornarem, eles se depararam com um lugar que continuava o mesmo, mas eles já não eram mais os mesmos.

E este é o grande segredo da vida, como as experiências, boas ou não, são capazes de nos modificar, de nos fazer enxergar a vida com outros olhos ou por uma nova perspectiva.

Por fim, este é o tipo de história que é tão densa, tão profunda e com a capacidade de ser atemporal (foi escrita entre 1937 e 1949), que vale a pena de se ter na estante e guardada em nossa mente e em nosso coração.

Um beijo e até o próximo post!!!

Resenha de Mrs. Dalloway

Capa do livro publica pela Editora Antofágica

O que falar sobre este livro??

Bom, estava com muita vontade de lê-lo, pois ele preenche alguns requisitos do meu momento como leitora:

  • É um clássico;
  • É um livro bem famoso;
  • A crítica fala muito bem da escrita da autora Virginia Woolf.

Logo, eu fiz a minha leitura através da edição lançada em 2020 pela Editora Antofágica. Ressalto que a edição é lindíssima, ilustrada por Sabrina Gevaerd e com textos complementares Ana Carolina Mesquita e Carola Saavedra.

Todavia, ao concluir a leitura, eu simplesmente não achei tudo isso.

Antes de me julgarem, eu ressalto o respeito que eu tenho por quem ache este livro maravilhoso, mas eu não consegui vê-lo com os mesmos olhos. Até peço para que deixem nos comentários o que mais chamou atenção ou até mesmo cativou na leitura deste livro!!

Contudo, nem tudo são críticas, gostei bastante do estilo narrativo da autora, tendo em vista que Virginia Woolf utiliza muito bem o fluxo de consciência, isto é, o fluxo de pensamento da personagem aparece quase que emaranhado com o do narrador onisciente; o fato da história se passar em um dia na vida de Mrs. Dalloway, ainda mais em um dia de festa em sua residência, como Londres, local em que a história é ambientada e, que acaba se tornando uma personagem também em vários momentos:

Acho que o que mais me incomodou no livro foi a própria protagonista, pois ela é o tipo de personagem que você não tem vontade de se tornar amiga, se ela existisse ou até mesmo sentir raiva dela.

Na verdade, a única coisa que eu senti por Mrs. Dalloway foi a indiferença e isso para mim é pior do que sentir raiva, pois melhor sentir raiva do que não sentir simplesmente nada.

Mesmo assim, não quero que este post seja visto como somente uma crítica que o impeça de ler a obra, tendo em vista que cada leitor terá uma experiência diferente de leitura e percepção.

Diante do desabafo, vamos para o enredo. Há leitores que podem estranhar o fato do livro não possuir capítulos (a edição da Antofágica, pela qual eu fiz a leitura não tem), mas não vejam como uma estranheza, mas algo com muito sentido, tendo em vista que a história se passa em um dia específico na vida da nossa protagonista.

Mas o que tem de tão importante neste dia? É dia que Mrs. Dalloway dará uma festa em sua residência. A festa em si não tem um fim específico, mas para a nossa protagonista é um evento muito importante.

Durante o decorrer deste dia, nós viajamos ao passado de Clarissa, sim este é o primeiro nome de Mrs. Dalloway, no qual nos deparamos com uma pessoa muito deferente de como ela é hoje retratada.

Vimos que ela era apaixonada por Peter Walsh (ou somente ele era apaixonado por ela…não consegui formar a minha opinião sobre o assunto), vimos que seu casamento foi por uma mera convenção social, presenciamos a descrição de um beijo trocado com sua amiga, sendo esta cena descrita como o dia mais feliz de sua vida.

Quando voltamos ao tempo presente da nossa protagonista, acompanhamos a distância que Clarissa tem de sua filha, bem como de seu marido, pois é nítido que ela não o ama e também não consegui vê-la como mãe, como se ter um filho fosse uma obrigação da mulher (esta visão, o mundo possui até hoje, imagina na época em que o livro foi escrito, qual seja, o período entre Guerras).

Acredito que a minha indiferença com relação a Mrs. Dalloway é que ela não é aquilo que ela queria ser, seja lá o que ela queria da vida, mas ao acompanhar o seu dia, eu só consegui sentir um vazio, sem conseguir ter noção de algum sentimento vindo da protagonista.

Ademais, a personagem que mais me chamou a atenção foi Septimus, um homem transformado pela vivência na 1ª Guerra Mundial e devido a tudo o que ele viveu, ele comete o suicídio. Acredito que a forma como ele foi descrito, tanto sua vida antes e depois da guerra, o motivo pelo qual ele se casou com a Rezzia, os medos, anseios, sua falta de confiança nos outros, fazem dele uma personagem tão real que não tem como você não ficar impressionada.

Confesso que escrevendo este post, acho que estou olhando Mrs. Dalloway com outros olhos, mas ainda a vejo como se ela tivesse ligado sua vida no piloto automático e tivesse que fazer tudo aquilo que a sociedade lhe impõe, principalmente como mulher.

Logo, acredito que eu dê mais uma segunda chance a autora com o livro Ao Farol, que já está na minha lista interminável de livros para ler.

Deixo aqui alguns posts do blog relacionados a dois temas:

Londres como personagem do livro: Aqui no blog também temos um representante da literatura nacional, no qual o ambiente em que se passa a história também é visto como uma personagem, estou falando da obra O cortiço de Aluísio Azevedo.

Sobre o papel da mulher na sociedade: Temos também um post que descreve o papel da mulher na sociedade do século XIX, com o livro Orgulho e Preconceito da Jane Austen.

Deixo aqui também, a minha dica de filme sobre a autora Virginia Woolf e sobre o livro Mrs. Dalloway, chamado As Horas:

Sinopse: Em três períodos diferentes vivem três mulheres ligadas ao livro “Mrs. Dalloway”. Em 1923 vive Virginia Woolf (Nicole Kidman), autora do livro, que enfrenta uma crise de depressão e ideias de suicídio. Em 1949 vive Laura Brown (Julianne Moore), uma dona de casa grávida que mora em Los Angeles, planeja uma festa de aniversário para o marido e não consegue parar de ler o livro. Nos dias atuais vive Clarissa Vaughn (Meryl Streep), uma editora de livros que vive em Nova York e dá uma festa para Richard (Ed Harris), escritor que fora seu amante no passado e hoje está com Aids e morrendo.

Por fim, indico um vídeo no Youtube do Canal Univesp sobre Literatura Fundamental, no qual a Professora Noemi Jaffe comenta detalhadamente a vida da autora e da obra Mrs. Dalloway.

Um beijo e até o próximo post!!

FUVEST: Resumo da obra Nove noites

Capa do livro publicado pelo Companhia das Letras

Após um período de ausência devido a cursos, bloqueios criativos e férias, aqui está o resumo de mais uma obra da Fuvest!!

CONTEXTO HISTÓRICO E CULTURAL

Aqui eu ressalto atenção para perguntas interdisciplinares:

A morte do antropólogo foi durante o Estado Novo:A situação dos estrangeiros no Brasil do Estado Novo era delicada. A impressão era que estavam sob vigilância permanente. ”

A morte do antropólogo foi às vésperas da segunda guerra mundial: “Buel Quain se matou na noite de 02 de agosto de 1939 – no mesmo dia em que Albert Einsten enviou ao presidente Roosevelt a carta histórica em que alertava sobre a possibilidade da bomba atômica, três semanas antes da assinatura do pacto de não agressão entre Hitler e Stalin, o sinal verde para o início da Segunda Guerra e, para muitos, uma das maiores desilusões políticas do século XX.”

O livro foi escrito em 2001, mesmo ano do atentado de 11 de setembro nos EUA

ESTILO NARRATIVO

A obra conta com dois narradores, sendo eles Manoel Perna (o engenheiro, que na verdade era barbeiro e confidente do antropólogo) e o narrador-jornalista (o próprio autor).

Já no primeiro capítulo do livro ainda não sabemos o nome deste narrador (desconfiei do engenheiro, mas esperei os demais capítulos para ter certeza), mas já temos uma noção que a sua narrativa é referente a uma carta-testamento, sendo esta a única não entregue para as autoridades, podendo ser entregue a alguém que um dia poderá vir buscar informações sobre o seu amigo Buell Quain.

Ressalto que os capítulos narrados pelo Manoel Perna se iniciam com “Isto é para quando você vier”. O que corrobora com a ideia de que seu relato é direcionado para o leitor. Ademais, tais capítulos estão sempre em itálico e possuem uma escrita mais rebuscada e até mesmo poética.

Os capítulos escritos pelo narrador-jornalista, possuem letra padrão e nos contam, inicialmente, de onde ele tomou conhecimento da história do antropólogo (por um acaso em um artigo de jornal em 2001, no qual citava a morte de Buell Quain).

Desta curiosidade (até mesmo uma obsessão), o narrador-jornalista, procura a autora do artigo acima mencionado, para obter mais informações sobre o antropólogo. De onde desencadeia todo o processo metalinguístico ou meta-ficção.

Processo metalinguístico: processo de criação para a escrita do romance. Como jornalista, o autor teve uma vasta pesquisa de campo para a coleta dos dados necessários (viagens para Carolina e Nova York, acesso a quatro cartas escritas pelo antropólogo antes do suicídio – Ruth Benedict, Heloísa Alberto Torres, Ângelo Sampaio e Manoel Perna, bem como outras correspondências escritas pelo antropólogo durante sua vida no Brasil).

Ainda com relação a esta narrativa, nos capítulos 11 e 19, nós conhecemos mais sobre a história do próprio autor (da infância – 1970 até a fase adulta – até 2001), como se através desta digressão, o narrador também se tornasse personagem do livro.

Ademais, o livro possui fotos (do próprio Buell Quain, da equipe de antropólogos e do autor aos seis anos de idade com um indígena no Xingu).

Por fim, o livro nos mostra a ideia da memória, isto é, devido ao lapso temporal de 62 anos é difícil saber o que de fato é verdade ou mentira, deixando muitas dúvidas ao leitor.

ENREDO

No prólogo, nós já sabemos que o protagonista da história, chamado Buell Halvor Quain (Cãmtwyon para os índios) se suicidou, aos 27 anos de idade, no dia 02 de agosto de 1939.

Antes de praticar o ato deixou sete cartas com instruções para após a sua morte, sendo uma delas endereçada ao narrador Manoel Perna, engenheiro que conviveu com o antropólogo por nove noites (daí o nome da obra), em Carolina (na fronteira com o Maranhão com o que na época ainda fazia parte de Goiás e hoje pertence ao Estado de Tocantins).

Além da carta acima citada, as demais correspondências foram endereçadas para sua orientadora, Ruth Benedict da Universidade de Columbia; a Heloísa Alberto Torres, diretora do Museu Nacional localizado no Rio de Janeiro; ao capitão Ângelo Sampaio, delegado de polícia da cidade; ao seu pai, Eric P. Quain; ao seu cunhado, Charles C. Kaiser (marido de sua irmã, Marion) e ao reverendo Thomas Young, missionário americano.

Conforme a narrativa vai seguindo, nós tomamos conhecimento da vida profissional e pessoal do antropólogo, bem como suas atitudes no final da vida, tendo em vista que com base nos relatos e até mesmo pelas cartas por ele deixadas antes do suicídio e outras, nós estávamos diante de um homem jovem, atormentado e com medo.

Aqui, eu ressalto uma passagem do capítulo 5, na qual um dos antropólogos que trabalhou com Buell Quain no Brasil cita o que o próprio antropólogo disse a ele: “Castro Faria, eu não tenho mais nada a fazer no mundo. Já vi tudo. ”

O foco principal da narrativa é a tentativa de acharmos alguma informação sobre o motivo do suicídio, mas devido ao lapso temporal do cometimento do ato (02/08/1939) a publicação da história (2001), se torna difícil encontrar uma resposta definitiva.

Saliento que, ao lermos a descrição do antropólogo, entendemos que ele já era atormentado e agia de forma ambígua antes de sua chegada ao Brasil para a pesquisa de campo com os índios (inicialmente com os índios Karajá, mas mudou de planos ao chegar no Rio de Janeiro, pretendendo estudar os índios Trumai, que era uma tribo em extinção)

Relatos de pessoas que conviveram com ele, inclusive o narrador Manoel e os índios, informaram que ele ficava transtornado quando recebia cartas de seus familiares, devido ao processo de divórcio de seus pais, uma suposta traição de sua mulher (apesar de não ser casado) com o seu cunhado.

Há também relatos, da sua professora da Universidade de Columbia e da diretora do Museu Nacional que o seu transtorno era ligado a uma doença contagiosa, inclusive, nas cartas remitidas a elas, o antropólogo solicitava que as mesmas fossem desinfetadas.

Logo, no decorrer da narrativa, você como leitor, se questiona sobre a forma em que o antropólogo morreu (será que foi suicídio mesmo?), bem como se havia mais alguma carta escrita e nunca entregue as autoridades da época.

No capítulo 14, nós descobrimos quem é o sujeito da frase “isto é para quando você vier”, com base no trecho abaixo:

“Contou de uma tarde em que, voltando de uma caminhada solitária na praia, onde abandonara os colegas, deparou com a casa excepcionalmente vazia e um homem sentado na cozinha. E que, antes de poder se apresentar, o estranho, saindo da sombra, sacou uma máquina fotográfica e registrou para sempre o espanto e o desconforto do antropólogo recém-chegado de um passeio na praia, surpreendido pelo desconhecido.

E embora depois tenha se tornado amigos, por muito tempo o estranho não conseguiria tirar outra foto dele. Até irromper um dia em seu apartamento, sem avisar, decidido a fotografá-lo de qualquer jeito, depois de ter sabido que ele estava de partida para o Brasil. Queria uma lembrança do amigo antes de embarcar para a selva da América do Sul. Eu só sei que esse estranho era você. ”

Aqui, a narrativa nos dá a entender que o Buell Quain tinha algum envolvimento afetivo com alguém, uma mulher ou com o próprio fotógrafo. Todavia, não há nada concreto ou uma resposta exata sobre o assunto.

No final do livro, especificamente no capítulo 18 narrado pelo Manoel, nós temos o desfecho do que seria a oitava carta deixada pelo antropólogo (ficção), bem como a certeza que não há uma resposta certa com relação ao motivo de seu suicídio:

“O que lhe conto é uma combinação do que ele me contou e do que imaginei. Assim também, deixo-o imaginar o que nunca poderei lhe contar ou escrever. ”

Saliento, que conforme a narrativa do autor flui, nós acompanhamos alguns momentos de sua vida, como o relato de que seus pais também eram divorciados e quando era criança ele foi com seu pai para o Xingu e conheceu uma das tribos estudadas pelo antropólogo, os krahô.

Ademais, acompanhamos a sua saga na escrita deste livro, de onde surgiu a ideia para a escrita (foi de uma citação da morte do antropólogo em um artigo de jornal) até a sua viagem aos EUA em busca do filho do fotógrafo que tirou as fotos de perfil de Quain.

POSSÍVEIS QUESTÕES PARA O VESTIBULAR

A maioria das questões que eu vi sobre a obra cobraram o estilo narrativo e o nome da obra, conforme algumas respostas abaixo:

O autor Bernardo Carvalho constrói uma obra diferente e complexa, em que mistura realidade e ficção, apresentando um enigma em torno de um suicídio cujas causas serão investigadas. Porém, a verdade permanecerá ambígua.

São vários mistérios que se interligam, e adensam a narrativa, em que o leitor partilha a claustrofobia e evasão de identidade das personagens.

O título “Nove Noites” foi devido ao fato de que o personagem principal (o americano Quain – baseado em história real), antes de se suicidar, partilhou com um amigo nove noites de conversas e revelações.

MINHA EXPERIÊNCIA DE LEITURA

Não conhecia a obra e nem o autor, mas me surpreendi positivamente com a escrita, com o enredo e até mesmo com o processo criativo para a confecção da história, tendo em vista que sua origem foi através de um artigo que mencionava o suicídio do antropólogo em 1939.

Acredito que o fato de eu já estar no embalo de algumas séries investigativas como Manhunter: Unnabomber; Bandidos da TV e Gênio Diabólico, todas da disponíveis na Netflix, contribuíram para eu apreciar a leitura deste livro e querer saber o que o autor descobriu durante sua pesquisa de campo.

Por fim, deixo também a recomendação de um vídeo no YouTube, do Professor Marcelo Nunes, na qual ele explica o enredo da obra capitulo a capitulo de forma muito esclarecedora e didática.

E aí, já leu Nove Noites ou outra obra do autor Bernardo Carvalho?

Deixa nos comentários o que achou!!

Um grande beijo e até o próximo post!!!

Sessão pipoca: Novembro de 2020

Mais um mês concluído e não poderiam faltar séries e filmes, não é mesmo?!?! Confesso que novembro, as séries reinaram para mim, como eu te mostro a seguir (lembrando que todos os filmes e séries deste mês estão disponíveis na Netflix):

O Gambito da rainha

Sinopse: O Gambito da Rainha conta a história de Beth Harmon, uma menina órfã que se revela um prodígio do xadrez. Mas agora, aos 22 anos, ela precisa enfrentar seu vício para conseguir se tornar a maior jogadora do mundo. E quanto mais Beth aprimora suas habilidades no tabuleiro, mais a ideia de uma fuga lhe parece tentadora.

É uma minissérie muito bem feita, com ótimas atuações, ambientações e um roteiro impecável. Deu até vontade de aprender a jogar xadrez!! Recomendo muito!!

Nota: 5/5

The Alienist – The angel of darkness

Sinopse: Thriller psicológico dinâmico e atmosférico sobre um trio de especialistas formado pelo psiquiatra Laszlo Kreizler, o repórter jornalístico John Moore e o comissário de polícia Theodore Roosevelt, responsável por desenvolver as primeiras técnicas de psicologia e investigação para encontrar um assombroso serial killer na Era de Ouro de Nova York.

Achei o enredo da segunda temporada mais fluído e dinâmico que a anterior. As atuações continuam excelentes, principalmente do ator Daniel Bruhl como o alienista. Recomendo fortemente a série, devido as atuações e ambientação.

Nota: 4/5

The Crown – 4ª temporada

Sinopse: Filha do rei George VI, Elizabeth II sempre soube que não teria uma vida comum. Após a morte do seu pai em 1952, ela dá seus primeiros passos em direção ao trono inglês, a começar pelas audiências semanais com os primeiro-ministros. Ela assume a coroa com apenas 25 anos de idade, mas com grandes compromissos vêm grandes responsabilidades.

Eu acompanho a série desde o seu lançamento e eu achei esta a temporada com maior número de polêmicas envolvendo a família real, principalmente com relação ao casamento do Príncipe Charles e Lady Diana.

Não foi a temporada que eu mais gostei, mas as atuações e ambientações foram impecáveis como sempre, razão pela qual, eu recomendo a sessão pipoca!

Nota: 4/5

Rede de ódio

Sinopse: Um jovem passa a fazer sucesso incitando o ódio em campanhas nas redes sociais, atacando desde influenciadores virtuais a políticos renomados. O que ele não contava é que toda essa crueldade no mundo virtual cobraria seu preço no mundo real, complicando sua vida.

Um dos melhores filmes, para mim de 2020. É um filme real, cruel e mostram até onde o ser humano por ir em sua busca pela realização de seus objetivos, mesmo os mais obscuros. Recomendo muito, mais muito a sessão pipoca.

Nota: 5/5

Entrevista com o vampiro

Sinopse: São Francisco, anos 1990. Um jornalista entrevista um jovem que afirma ser vampiro, narrando suas experiências dos últimos 200 anos. Em flash-back, conhecemos Louis de Pointe du Lac, um homem que perdeu a mulher, morta durante o parto, e a vontade de viver. Com a ajuda de uma criatura da noite, Lestat de Lioncourt, ele se torna um vampiro e precisa aprender uma nova forma de vida.

É um filme ok como entretenimento e legal de ver os galãs dos anos 90 no auge!!

Nota: 2/5

The Jurassic World – Reino ameaçado

Sinopse: Três anos após o fechamento do Jurassic Park, um vulcão prestes a entrar em erupção põe em risco a vida na ilha Nublar. No local não há mais qualquer presença humana, com os dinossauros vivendo livremente. Diante da situação, é preciso tomar uma decisão: deve-se retornar à ilha para salvar os animais ou abandoná-los para uma nova extinção? Decidida a resgatá-los, Claire convoca Owen a retornar à ilha com ela.

Filme mais do mesmo, como os demais filmes da franquia. Caso você goste de dinossauros e querer se entreter, ok!!

Nota: 2/5

Resenha de O Senhor dos anéis – As duas torres

Capa do livro publicado pela Editora Harper Collins

Continuando a leitura do décimo livro da lista do Projeto Reeducação do Imaginário –  O Senhor dos anéis. No post de hoje, eu tratarei especificamente da segunda parte do livro, intitulada As duas torres.

Deixo mais uma vez a observação que este post será diferente dos demais já feitos para o projeto, pois tratarei de cada livro individualmente e farei um post em separado para falar sobre o autor e a obra, bem como a indicação da mesma ao Reeducação do Imaginário.

Por fim, deixo o convite para todos da leitura dos posts de O Hobbit e da primeira parte de O Senhor dos Anéis, A sociedade do anel.

MINHA EXPERIÊNCIA DE LEITURA DE AS DUAS TORRES

ATENÇÃO: ALERTA DE SPOILERS

A segunda parte do livro contou os feitos de toda a Comitiva após o rompimento da Sociedade do Anel, sendo esta  parte composta pelo Livro III e IV.

Iniciamos com a narrativa do arrependimento e morte de Boromir e de seu funeral em um barco entregue às Cataratas de Rauros. Faço aqui uma observação que o início da segunda parte de As duas torres é o final do filme A sociedade do anel.

Vimos também a captura de Meriadoc e Peregrin por soldados órquicos asquerosos, que os levaram rumo a Isengard, atravessando as planícies orientais de Rohan. E tivemos também a tomada de decisão de Aragorn em continuar a jornada com Legolas e Gimli ou procurar Merry e Pippin.

Achei muito legal de acompanhar a amizade de Legolas e Gimli se formando e sendo fortalecida durante a jornada de ambos.

Então surgiram os Cavaleiros de Rohan, uma tropa de ginetes liderados pelo Marechal Éomer cercou os Orques na beira da Floresta de Fangorn e os destruiu. 

Contudo, os hobbits escaparam para a mata e ali encontraram Barbárvore, o Ent, mestre secreto de Fangorn. Em sua companhia, eles testemunharam o despertar da ira do Povo das Árvores e sua marcha contra Isengard.

Enquanto isso, Aragorn e seus companheiros encontraram Éomer, que retornava da batalha. Ali, enquanto procuravam em vão pelos hobbits, reencontraram Gandalf, retornado da morte, agora como Cavaleiro Branco, porém ainda velado de cinzento.

Foi muito bacana e emocionante, assim como no filme, o retorno de Gandalf sempre que seus companheiros mais precisam de força e esperança para continuarem a sua jornada.

Com ele atravessaram Rohan até os paços do Rei Théodon da Marca, onde Gandalf curou o monarca e o resgatou dos feitiços de Língua de Cobra, seu maligno conselheiro de duas caras e aliado secreto de Saruman.

Eles cavalgaram com o rei e sua tropa contra as forças de Isengard e tomaram parte na desesperada vitória do Forte da Trombeta. Gandalf levou-os então a Isengard, e encontraram a grande fortaleza arruinada pelo Povo das Árvores, e Saruman e Língua de Cobra encurralados na torre de Orthanc.

Na negociação diante da porta, Saruman recusou-se a se arrepender, e Gandalf o depôs e quebrou seu cajado, deixando-o entregue à vigilância dos Ents. De uma alta janela, Língua de Cobra lançou uma pedra em Gandalf, mas ela não o atingiu e foi apanhada por Pippin. Ela revelou ser uma das quatro palantir sobreviventes, as pedras videntes de Númenor.

À noite, mais tarde, Peregrin não deteve ao fascínio a Pedra, razão pela qual a roubou, olhou dentro dela e lhe foi revelado a Sauron. 

O livro III terminou com a chegada de um Nazgûl sobre as planícies de Rohan, um espectro do anel cavalgando uma montaria alada, presságio de guerra iminente. Gandalf entregou a palantir a Aragorn e, levando Peregrin, partiu para Minas Tirith.

O livro IV, diferentemente do livro III, voltou-se a Frodo e Samwise, agora perdidos nas áridas colinas de Emyn Muil e como foram alcançados por Sméagol/Gollum. Aqui, veremos como Gollum é uma personagem importante do decorrer da jornada dos dois hobbits, bem como suas atitudes são ambíguas, nas quais você sente pena e repulsa.

Achei Frodo muito mais maduro neste livro, pois o hobbit domou Gollum e quase venceu sua malícia, de modo que a criatura os conduziu através dos Pântanos Mortos e das terras arruinadas até Morannon, o Portão Negro da Terra de Mordor, ao Norte.

Devido a impossibilidade de entrar pelo portão, Frodo aceita a utilização de uma entrada secreta que conhecia, qual seja, as muralhas ocidentais de Mordor, nas Montanhas de Sombra. 

Durante a jornada para lá foram apanhados por um grupo de batedores dos Homens de Gondor liderados por Faramir, irmão de Boromir. Faramir descobriu a natureza da demanda, mas resistiu à tentação à qual Boromir sucumbira e os mandou adiante para a última etapa de sua jornada, a Cirith Ungol, o Passo da Aranha, porém,  alertou-os de que era um lugar de perigo mortal e sobre seu companheiro de viagem, Gollum. 

No momento em que chegaram à encruzilhada e tomaram a trilha para a horrível cidade de Minas Morgul, uma grande escuridão emergiu de Mordor, cobrindo todas a terras. Então Sauron enviou seu primeiro exército, liderado pelo sombrio Rei dos espectros do anel, momento em que a Guerra do Anel teve seu início.

Gollum guiou os hobbits a um caminho secreto que evitava Minas Morgul, e na treva chegaram por fim a Cirith Ungol. Ali Gollum recaiu no mal e tentou traí-los, entregando-os à monstruosa guardiã do passo, Laracna. O golpe mortal de Laracna foi frustrado pelo heroísmo de Samwise, que repeliu seu ataque e a feriu.

A segunda parte termina com Frodo ferroado por Laracna, fazendo com que pensemos que o mesmo morreu, bem como com as escolhas de Samwise imaginando se a jornada deverá acabar em desastre ou se terá de abandonar o seu mestre. Por fim ele toma o Anel e tenta realizar sozinho a demanda desesperançada. 

Contudo, quando Sam está prestes a atravessar para a terra de Mordor, orques sobem de Minas Morgul e descem da torre de Cirith Ungol, que guarda o cume do passo. Oculto pelo anel, Samwise fica sabendo pela conversa dos orques que Frodo não está morto, e sim dopado. 

Persegue-os, mas é tarde demais, pois os orques levam o corpo de Frodo, descendo por um túnel que segue até o portão traseiro de sua torre. Samwise cai desfalecido diante dele, que se fecha com estrépito.

E este post termina por aqui, mas eu volto com a minha experiência de leitura de O retorno do rei.

Um beijo e até o próximo post!!

FUVEST: Resumo da obra Minha vida de menina

Capa do livro publicado pela Companhia das Letras

SOBRE A AUTORA

Helena Morley é um pseudônimo de Alice Dayrell Caldeira Brant, nascida em 28 de agosto de 1880, na cidade de Diamantina – Minas Gerais e seu falecimento foi aos noventa anos de idade em 1970, na cidade do Rio de Janeiro.

Os sobrenomes da autora vem de seus avós, assim Dayrell é seu sobrenome paterno, tendo em vista que seu avô era um médico inglês que estabeleceu morada, junto com sua família, em Diamantina para o exercício da profissão e de seu pai, no livro chamado Alexandre que trabalha no garimpo de diamantes e ouro na cidade.

O sobrenome Caldeira é materno, seu avô também era minerador e devido a atividade, conseguiu fazer sua fortuna. Já o sobrenome Brant adveio com o casamento com o seu primo Augusto Mario, no qual contraiu bodas aos vinte anos de idade.

Com o casamento, Alice foi morar no Rio de Janeiro, no qual sua vida simples foi alterada devido a ascensão social, pois seu marido era um político muito influente na época.

Aos sessenta anos de idade, a autora reencontrou os seus diários e mostrou as suas netas, a fim de apresentar as diferenças dos costumes da vida na sua época de menina para a vida, já atribulada, da época de suas netas.

Os diários fizeram tanto sucesso entre seus familiares e amigos, que Alice incentivada pelos demais, resolveu em 1942 publicar o livro Minha Vida de Menina. O livro caiu nas graças do público e críticos literários da época, devido a simplicidade de narrar fatos cotidianos da vida, dos costumes e tradições sem o uso de artifícios de invenção ou linguagem rebuscada.

SOBRE A OBRA 

(engloba contexto histórico/cultural, enredo e estilo narrativo)

Ao longo da adolescência, dos 12 anos aos 15 anos recém-completados, a autora escreveu um diário (incentivada por seu pai) sobre sua vida, de sua família, dos vizinhos e dos costumes presentes no século XIX. 

Nota-se, portanto, que o livro em tela apresenta a estrutura de um diário pessoal (não tem um enredo de começo, meio e fim), na qual descreve fatos ocorridos em Janeiro de 1893 a Dezembro de 1895, em Diamantina – MG.

Por ser um diário pessoal, nós teremos como “personagens” a própria autora e sua família composta por seus pais Alexandre e Carolina, seus irmãos Renato, Nhonhô e Luisinha, sua avó materna tão amada e querida Dona Teodora.

A família era muito simples e não vivia de luxo, pois no decorrer da narrativa você percebe que o pai de Helena nunca teve muita sorte no garimpo, razão pela qual a família passava por algumas dificuldades financeiras.

A condição era tão delicada, que não permitia que a família tivesse ajuda doméstica de empregados, na maior parte negros alforriados (já tinha sido promulgada a Lei Áurea em 13 de maio de 1888), como podemos ver no relato da menina da época. 

Logo, ela, seus irmãos e sua mãe eram responsáveis pelos afazeres de casa para sobreviver, enquanto o pai estava no garimpo e só retornava para casa aos finais de semana.

Sua avó materna é a matriarca da família, pois devido a sua situação financeira estável conseguia ajudar a todos os filhos e ainda dedicar total atenção a Helena, que era sua protegida.

A morte da avó, aos 84 anos,  em 1895 foi um dos momentos mais marcantes da narrativa, tanto é que Helena descreve que gostaria de não ter conhecido tanto a sua avó, pois só assim não sentiria tanta saudade e tristeza pela sua partida.

Além da rotina da família, a autora também descreve seu cotidiano na Escola Normal (seria o magistério ou pedagogia de hoje). Aqui fica o adendo que a profissão de professora era a única atividade possível de se obter algum rendimento para as mulheres da época.

Contudo, Helena não era muito de estudar, sempre passava de ano no sufoco e trocava os estudos pela possibilidade de se sentir livre e de aproveitar a vida ao máximo brincando.

Na época de férias escolares, a família vai para Boa Vista (região rural da cidade de Diamantina), local em que o pai de Helena trabalhava. Era uma forma da família ficar mais perto do pai também.

Além de Boa Vista, a história também se passa na chácara da avó materna de Helena, um lugar muito grande e com uma horta muito bem cuidada e variada em seu cultivo. O local é o ponto de encontro de todos os filhos e primos, logo, a alegria é garantida.

POSSÍVEIS QUESTÕES PARA O VESTIBULAR

Acredito que este livro poderá ser cobrado de forma intertextual ou até como comparação da vida no século XIX com o estilo de vida dos dias atuais, lógico sempre levando em conta o bom senso (é o que esperamos, no mínimo das bancas):

  • Questões como o racismo (o tratamento inferior aos negros em comparação com os brancos, mesmo após a aboliação da escravidão no país);
  • Questões sobre o papel da mulher na sociedade daquela época (principalmente com relação ao casamento e até da dependência financeira dos maridos) ou até mesmo da evolução do papel da mulher na sociedade,
  • A política também poderá ser cobrada como fonte de comparação com os dias atuais. Há até uma passagem no livro que fala sobre o voto de cabresto, podendo até ser cobrada de forma intertextual com a disciplina de História.

MINHA EXPERIÊNCIA DE LEITURA

Confesso que nunca tinha ouvido falar na autora e nem em sua obra, tanto na época da escola, bem como hoje até a realização do Projeto Fuvest aqui no blog. Mas, para a minha surpresa, eu posso afirmar que eu adorei o livro.

A leveza na narrativa torna a obra agradável de ser lida e apreciada. A felicidade descrita, mesmo com todos os trabalhos domésticos que precisam ser feitos para a sobrevivência e das adversidades não impediram de você, como leitor, se sentir feliz pela narradora, uma menina estonteante que conseguia aproveitar a sua vida ao máximo.

Indico muito a leitura deste livro para quem está a procura de leveza, alegria e vontade de ver a vida sendo vivida e apreciada de um forma simples e linda de se acompanhar.

Um beijo e até o próximo post!!!

FUVEST: Resumo da obra Sagarana

Capa do livro publicado pela Global Editora

SOBRE O AUTOR

João Guimarães Rosa nasceu em Cordisburgo – MG, em 1908. Dono de uma educação excepcional, sendo formado em Medicina e tendo trabalhado como Diplomata, além de ser um grande conhecedor da língua portuguesa e de outros idiomas. 

Sua paixão pelo aprendizado era tamanha que ele aprendeu o francês com a ajuda de um padre de sua cidade natal. Com a carreira de diplomata, Guimarães aprimorou o seu conhecimento em novas línguas, na qual ao falecer em 1967, o autor falava fluentemente oito línguas e compreendia mais dezesseis.

Essa gana por aprender novos idiomas se manifesta em sua obra através da criação de novas palavras, denominado neologismo.

Há um fato curioso sobre a vida do autor, pois o mesmo foi escolhido, por unanimidade, a integrar a Academia Brasileira de Letras em 1963. Todavia, Guimarães Rosa, como era muito místico e religioso, não tomou posse como um “imortal”, posto que teve uma premonição de que ao tomar posse, ele morreria. 

A protelação durou quatro anos, mas ao ser muito pressionado, o autor em 1967 tomou posse como imortal da Academia e três dias após o evento, ele morreu de enfarto fulminante.

Nota-se que este aspecto místico e repleto de neologismos permeia toda a sua produção literária, podendo ser vislumbrado em Sagarana.

CONTEXTO HISTÓRICO E CULTURAL

O autor faz parte da terceira fase do modernismo. Tal fase ainda traz temas discutidos anteriormente como questões existenciais e sociais, mas nesta fase há a potencialização destas questões através de um regionalismo universal e um olhar mais racional para o mundo em que vivemos.

Durante esta fase, o mundo passou pela Segunda Guerra Mundial, passará em seguida pelo Tribunal de Nuremberg, pela Revolução Cubana e, no Brasil, estamos no final da Era Vargas.

A terceira fase do modernismo é conhecida como a Geração de 45, esta é dividida pela poesia tradicional (neoparnasiano), representada pelo engenheiro da palavra João Cabral de Melo Neto, em sua obra-prima Morte e vida Severina e pela prosa experimental, no ponto de vista estético e da construção, como é o caso de Guimarães Rosa e Clarice Lispector. 

Esta prosa terá características como o intimismo e traços psicológicos, através do fluxo de consciência das personagens, com base nos seus medos e angústias. Além do neologismo (invenção linguística) mais ligada a obra de Guimarães Rosa.

SOBRE A OBRA E ESTILO NARRATIVO

A obra em tela foi publicada em 1946, na qual traz em seu bojo nove contos, narrados em primeira e terceira pessoa.

Insta salientar que, conforme dito anteriormente, a obra apresenta diversos neologismos, pois até o seu título possui tal característica, tendo em vista que saga (antiga língua escandinava): significa uma narrativa lendária, uma fábula e rana (advinda da língua tupi): representa aparência de; semelhante a. 

Logo, a palavra sagarana seria histórias em forma de lendas. Devido ao neologismo, o autor tem o seu próprio dicionário, denominado “O léxico de Guimarães Rosa”.

No que tange ao estilo narrativo, a obra possui:

  • regionalismo universal ou universalizante: é a narrativa ambientada em cenários e com personagens típicas do sertão mineiro (vaqueiros, jagunços, agricultores, latifundiários) de forma universal (o regionalismo é ultrapassado, ao tratar de temas que poderiam ocorrer em qualquer tipo de cenário (angústias, dualidade entre o bem e o mal, não somente no sertão) . 

Aqui faço um adendo aos vestibulandos que se faz importante a noção de dois espaços, Vidas Secas (outra obra do autor) e Sagarana. 

O sertão descrito na obra de Vidas Secas traz em seu bojo um regionalismo realista, tudo o que é narrado é específico daquele meio, o que acaba determinando o comportamento daquelas personagens (caráter mais científico).

Já em Sagarana, o regionalismo é universal, ou seja, aquele homem que está em Minas Gerais sente angústia, frustrações que ele poderia sentir em qualquer lugar, isto é, este meio não vai ser determinante para estes sentimentos como é em Vidas Secas.

  • experimentalismo linguístico: é a linguagem original, inventada (neologismos) ou recriada pela mistura de línguas ou formas regionais.
  • prosa poética: narrativas em prosa com ritmo, musicalidade (os contos possuem diversas cantigas no início de cada um, bem como decorrer de sua narrativa) e lirismo de poesia. 

ENREDO DE CADA CONTO

O burrinho pedrês 

Aqui, nós temos como personagens, o Sete de ouros (o próprio burrinho protagonista), Major Saulo, Francolim, Silvino e Badu. 

O conto tem como narrativa (em terceira pessoa) a história do burrinho velho, de propriedade do Major Saulo, já aposentado por todos e esperando a sua morte. Trata-se de uma metáfora da velhice.

Todavia, a sua aposentadoria é quebrada bem como a sua figura será lembrada para sempre (uma lenda), durante uma travessia de bois. Vários animais da fazenda do Major foram escolhidos para a tarefa, dentre eles o Sete-de-ouros que será montado por João Manico.

Durante o percurso, nós temos a figura de Raimundo, um contador de histórias que acaba animando o grupo de vaqueiros que participam da travessia. Esta jornada não foi nada fácil, pois houve chuva, tempestade e o aumento de volume do rio.

Ademais, a um outro conflito na narrativa entre dois vaqueiros Badu e Silvino. Eles tem uma rixa, pois Badu roubou a namorada de Silvino e o mesmo procura vingança, gerando uma atenção em cima dele pelos demais vaqueiros.

Se a ida foi difícil, a volta para a fazenda do Major foi pior, pois o rio estava com a sua correnteza muito forte, tornando a travessia perigosa. Os vaqueiros colocam Sete-de-ouros para ir na frente guiando os demais.

O burrinho com toda a sabedoria da idade, vai calculando os pontos mais seguros para a realização da travessia, carregando em seu lombo Badu desacordado devido a um bebedeira.

Francolim, um capataz do Major, segue atrás do burrinho e consegue junto com ele fazer a travessia. Mas os demais vaqueiros e animais são levados pelo rio e morrendo afogados.

Logo, o burrinho salva a vida de Badu e Francolim ao livrar os mesmos de um afogamento durante a travessia do rio.

A volta do marido pródigo

As personagens são Lalino Salãthiel, Maria Rita, Ramiro e Major Anacleto.

O conto nos apresenta a história humorística (narrativa em terceira pessoa) de Lalino Salãthiel, um malandro esperto, que trabalha na construção de uma rodovia que pretende ligar Belo Horizonte a São Paulo. 

O caboclo mineiro não é muito de trabalho, pois sempre chega atrasado, mais conversa do que trabalha, mas com este seu jeito sempre dá o seu jeitinho de garantir o seu emprego.

Ao pedir dinheiro emprestado a Ramiro (um espanhol que trabalha com Lalino na construção e sempre foi interessado em Maria Rita), o mesmo o empresta, desde que Maria Rita fique e Lalino nunca mais volte. 

Lalino concorda e  vende a esposa Maria Rita (uma mulher muito bonita e de causar inveja) a Ramiro para viajar ao Rio de Janeiro, a fim de se divertir com as “mulheres de revista”. 

Ao acabar com o dinheiro adquirido, o mesmo retorna a sua cidadezinha e começa a trabalhar de cabo eleitoral para o Major Anacleto. Ao se destacar nesta nova profissão, sempre com muita sagacidade e malandragem, Lalino faz de Major Anacleto vencedor na disputa política e este, como forma de agradecimento pelos serviços prestados, recupera a esposa Maria Rita para o seu colaborador e ainda expulsa os espanhóis da região.

Sarapalha

As personagens são primo Argemiro, primo Ribeiro e Luisa.

Conta a história dramática (narrativa em terceira pessoa) de Sarapalha, uma cidadezinha fantasma abandonada pelos moradores devido a um surto de malária. Aqui faço um adendo para questões de intertextualidade com biologia, devido a doença da malária.

Neste local, ainda vivem dois primos, Argemiro e Ribeiro, ambos contraíram malária, e lá ficam esperando a hora da morte com a assistência de uma velha negra e de um cachorro perdigueiro.

No decorrer de uma conversa entre os primos, nós ficamos sabendo que o Ribeiro era casado com Luísa, mas esta o abandonou por outro homem muitos anos atrás.  Com o decorrer da história, nós vemos que o primo Argemiro, ao qual Ribeiro é muito grato pelo mesmo ter ficado lá e ser sua companhia, não ficou só por isso. 

Na verdade, a sua permanência em Sarapalha é a mesma que de Primo Ribeiro, qual seja o sucídio lento e a espera do retorno de Luísa, que também era seu grande amor platônico.

Aqui nós podemos verificar que a natureza é integrada ao sofrimento das personagens, refletindo a sua tristeza, abandono e delírios. E que tais personagens, na verdade, por não terem mais nenhuma expectativa na vida, ficaram em Sarapalha para morrer (suicídio lento).

Duelo

As personagens são Turíbio Todo, Cassiano Gomes, Dona Silivana, Timpim Vinte Um.

Conta a história de vingança, estratégia e destino (narrativa em terceira pessoa), na qual Turíbio Todo, ao voltar de uma pescaria flagra sua esposa, Dona Silivana, o traindo com Cassiano Gomes. Devido a esta traição, Turíbio decide se vingar de Cassiano, todavia, o mesmo é covarde e seu rival é um militar que anda sempre armado.

Logo, a estratégia de Turíbio é fingir que não sabe de nada sobre a traição, reunir todas a suas armas e ficar de tocaia na casa de Cassiano Gomes a espera do ataque. Lá, Turíbio atira em um homem de costas, que ele pensa ser Cassiano, mas ao ver quem era ele atirou erroneamente no irmão de seu oponente.

Aqui, começa uma nova vingança, agora de Cassiano, o que dá origem ao nome do conto. Passado se meses neste clima de esconde-esconde e gato e rato. Cassiano, descobre que tem pouco tempo de vida, devido ao um problema cardíaco e resolve contratar um matador de aluguel para dar fim em Turíbio Todo.

Todavia, devido ao ataque cardíaco na cidadezinha de Mosquito, Cassiano fica acamado e não consegue encontrar o matador de aluguel a  altura. Mas, durante a sua estadia nesta cidade, ele conhece Timpim Vinte Um, um homem simples e pobre que pede ajuda a Cassiano, por causa de seu filho doente. Cassiano, ao simpatizar com Timpim ajuda o seu menino e se torna compadre do mesmo. 

Devido ao seu estado de saúde delicado, Cassiano vem a falecer, mas antes entrega todas as suas economias a Timpim para cuidar de seu filho. No decorrer destes acontecimentos, Turíbio Todo recebe uma carta de Dona Silivana informando que pode voltar para a cidade que seu maior oponente morreu.

Durante sua trajetória para a sua cidade natal, Turíbio encontra Timpim Vinte Um que vem em sua direção, há uma conversa entre os dois e já num lugar ermo da estrada, Timpim pergunta ao outro homem se ele é Turíbio Todo. Ao ter a resposta positiva a sua pergunta, ele mata Turíbio Todo devido a sua dívida de gratidão para com Cassiano Gomes.

A hora e a vez de Augusto Matraga 

O melhor conto do livro, na minha humilde opinião, tendo já sido cobrado individualmente, devido a sua importância. As personagens são Augusto Esteves, Dionóra, Mãe Quitéria, Pai Serapião, Joãozinho Bem-Bem.

Traz a história de redenção, de pecado e perdão, da dualidade entre o bem e o mal (narrativa em terceira pessoa), na qual nos apresentará Augusto Esteves (de Matraga não tinha nada) um valentão aparentemente de posses (mas em decadência devido a vida desregrada que leva), violento que não respeita sua esposa Dionória, sua filha, seus empregados, inclusive seus capangas, e nem ninguém. 

Sua vida vai do céu ao inferno e que tenta alcançar o paraíso novamente durante sua jornada de remissão de pecados. O início de sua derrocada se dá com a fuga de sua esposa e filha com outro homem que as trata bem e com respeito. 

Em seguida vem o abandono de seus empregados, especialmente de seus capangas, pois devido a decadência financeira, Augusto não honrava com os seus compromissos, razão pela qual, seus empregados estavam insatisfeitos e debandaram para o lado de seus oponente político na cidade, Major Consilva.

Diante de tais fatos, Augusto Esteves promete vingança a esposa e seus capangas. Logo, antes de se vingar da esposa, ele vai a fazenda do Major Consilva para tirar satisfação com ele e reaver os seus capangas. Todavia, Augusto não contava com a surra enorme que seus capangas deram nele como vingança por todo seu desprezo. 

O mesmo também foi marcado com ferro quente (igual marca de boi) e depois ele é levado a uma ribanceira para ser morto. Durante um momento de lucidez, Augusto tenta fugir e acaba caindo da ribanceira. Ao final do local da queda, moram um casal de idosos, Mãe Quitéria e Pai Serapião, que ao ver o corpo moribundo do homem começam a cuidar dele.

Com a recuperação, Augusto Esteves pede a ida de um padre até o casebre para se confessar de seus pecados. O padre, ao ouvir todo o relato fala para Augusto sobre a segunda chance que Deus está dando a ele e a possibilidade de fazer tudo diferente:

“Reze e trabalhe, fazendo de conta que a vida é um dia de capina com sol quente, que às vezes custa muito a passar, mas sempre passa…Cada um tem sua hora e a sua vez: você há de ter a sua.”

Após esta confissão Augusto Esteves promete a si mesmo de que irá para o céu, que a sua hora e sua vez há de chegar, nem que seja a porrete. Ele e o casal de idosos vão para outra região fazer a vida e Augusto se afasta de toda aquela vida mundana e passa a promover todo o tipo de bondade para com os outros para elevar a sua alma.

Durante este caminho de redenção, Augusto Esteves sofre ao saber da morte do seu único e fiel capanga que tentou vingar a sua morte e acabou sendo morto, que sua filha caiu na vida por causa de um caixeiro viajante. Todavia, a provação maior acontece ao passar ali na região um outro valentão e seu bando, chamado Joãozinho Bem-Bem.

Todos no vilarejo fogem do homem, menos Augusto que o convida para ficar em sua casa durante sua estada na cidade. Joãozinho se simpatiza com Augusto e vê que por trás de toda aquela bondade há também um homem valente e conhecedor de armas. 

Ao ir embora, Joãozinho Bem-Bem oferece seus serviços a Augusto, bem como o convida a fazer parte do bando dele. Augusto chega a titubear, mas continua firme no propósito de salvar a sua alma.

Passado um breve período Augusto sente que sua hora e sua vez está chegando e deixa a cidadezinha para cair no mundo esperando um sinal. Durante esta trajetória, ele chega a um povoado que está aflito por causa de Joãozinho Bem-Bem e seu bando, devido a morte de um de seus capangas por um morador deste lugar.

Como vingança a vida de seu empregado, Joãozinho resolve matar a família do assassino, já que o mesmo conseguiu fugir. Augusto Esteves é recebido por Joãozinho e convidado a ficar junto de seu bando e mais uma vez é convidado a fazer parte do time.

Augusto passa novamente pela tentação de mudar o seu rumo, mas seus pensamentos são interrompidos quando o pai, um senhor idoso, do assassino do capanga pede piedade pela vida de seus filhos jurados de morte. 

Ao não lograr êxito em sua clemência a Joãozinho Bem-Bem, o pai da família pede intercessão divina para que mande alguém para os ajudar. E neste momento, Augusto Esteves entende que sua hora e sua vez chegaram.

Augusto pede firmemente a Joãozinho que não mate a família do homem, caso contrário terá que passar por cima de seu cadáver. Joãozinho fica muito bravo com Augusto, bem como fica em alerta devido a ameaça.

E aqui, começa a luta, inicialmente com um tiroteio e a morte do bando e após uma luta de facas entre Joãozinho Bem-Bem e Augusto Esteves. Esta passagem do livro é muito impactante, pois ambos sabem que irão morrer, mas há um respeito entre eles, já que são no fundo iguais.

No fim, Joãozinho Bem-Bem vem a falecer, bem como Augusto Esteves, que morre aliviado, pois conseguiu alcançar a redenção tão almejada, tornando-se Augusto Matraga (que vem possivelmente de matraca, instrumento utilizado com muita rapidez por Augusto para atrair e matar os capangas do bando de Joãozinho Bem-Bem).

São Marcos

Conto narrado pela personagem José, logo a narrativa é em primeira pessoa, uma pessoa descrente e dono de um pensamento mais racional, científico que mora em Calango-Frito, uma cidadezinha mística e repleta de feiticeiros, dentre eles João Mangalô.

Apesar de toda a sua descrença, José conhece todas as ervas medicinais e rezas fortes, entre elas a oração de São Marcos. Durante o seu passeio pela floresta da cidade, José passa em frente da casa de João Mangalô, devido  sua falta de fé em feitiçaria, José debocha, tira sarro e provoca João Mangalô (“Ô Mangalô: negro na festa, pau na testa…”). Ao dizer isso, José acaba sendo vítima de um feitiço que o deixa completamente cego.

Como a visão não volta, José vai ficando cada vez mais desesperado, momento em que começa a recitar em voz alta a oração poderosa de São Marcos. José consegue correr pela floresta e chegar a casa de João Mangalô retornando assim a sua visão e iniciando a sua crença e reza forte (o poder das palavras) e feitiçaria.

Corpo Fechado

Narrado em primeira pessoa pelo médico da cidade, sendo esta uma das personagens do conto, bem como Manuel Fulô, Targino e Toniquinho das Pedras.

A história se passa em uma cidadezinha comandada pelos valentões do local, dentre eles o Targino. Já o nosso protagonista Manuel Fulô tem dois grandes amores em sua vida, uma mula chamada Beija-Flor e a noiva chamada Das Dor.

Durante a conversa com o médico, Manuel Fulô conta que tem uma mágoa com o feiticeiro da região, chamado Toniquinho das Pedras. O mesmo tem uma sela mexicana que Manuel é doido para comprar a sua mula Beija-Flor, mas que Toniquinho não a vende de jeito nenhum, tendo em vista que ele quer comprar a mula de Manuel para poder usar a sua sela.

No decorrer da cena, entra no bar o valentão da cidade Targino, no qual comunica a Manuel Fulô e a todos os presentes que pretende se aproveitar por um dia de Das Dor  e que se Manuel não se meter no assunto, ele (Targino) não fará nada contra ele.

Manuel Fulô não pode contar com a ajuda de ninguém, afinal quem vai se meter com o valentão da cidade não é mesmo?!?! Logo, no dia marcado, aparece Toniquinho das Pedras, que chama Manuel Fulô para uma conversa em particular. 

Ao terminar o assunto, Manuel entrega a Toniquinho a sua mula como parte de um acordo feito entre o dois, qual seja, a mula por um feitiço capaz de fechar o corpo de Manuel contra Targino.

Manuel chama Targino para o desafio, na qual aquele está munido somente de uma faquinha e este de um revólver carregado. Dado início ao duelo, Manuel escapa de todos os tiros proferidos, esfaqueia e mata Targino, se tornando o novo valentão da cidade.

Conversa de bois

Conto também narrado em primeira pessoa, mas tal narrador (Manuel Timborna) não participa diretamente da narrativa. Aqui, o narrador em conversa com outra pessoa defende que os animais conseguem se comunicar e conta a história de uma tragédia envolvendo oito bois que moviam um carro de bois.

A história se passa no trajeto que está sendo feito do sítio do Agenor Soronho, dono do carro de bois até a cidade. Este carro de bois está levando para o destino final rapadura para vender, e o corpo do pai do menino Tiãozinho para ser enterrado.

No decorrer do caminho, os bois veem que o menino está “babando água pelos olhos” de tão triste. Logo, os bois começam a conversar sobre a situação do menino que está desolado pela morte do pai, bem como revoltado com o patrão Agenor Soronho que tinha um caso amoroso com a mãe de Tiãozinho, enquanto o marido desta estava muito doente.

Os bois também não gostam de seu dono, razão pela qual, eles começam a traçar um plano de vingança contra Agenor. Ao perceber que o seu dono está adormecido no banco em cima do carro, os bois pensam que se eles derem um solavanco o Agenor poderá vir a cair na frente do carro e eles (bois) o atropelarem.

O conto termina com o carro de bois levando dois cadáveres e a imagem de que tudo o que aconteceu com Agenor Soronho não passou de um acidente. Aqui nós vemos uma espécie de fusão dos desejos do menino, devido a humilhação sofrida em vida pelo pai e dos bois devido a maus-tratos praticados pelo seu dono em busca da vingança. 

Minha gente

A narração deste conto também é em primeira pessoa, mas não sabemos o nome deste narrador. Na verdade, só tomamos conhecimento de que o mesmo é um jovem que passou anos longe do local da narrativa (uma fazenda no interior de Minas Gerais) que, ao retornar para este lugar para visitar o seu Tio Emílio e sua prima, seu primeiro amor na infância, chamada Maria Irma.

Ao chegar na fazenda do Tio e reencontrar a prima, o narrador tenta reviver este amor de infância, mas Maria Irma não corresponde a este sentimento. Na verdade, ela se esquiva do primo narrador e a todo o momento comenta com ele de uma amiga muito bonita chamada Armanda.

No decorrer da história ocorrem outras narrativas secundárias que exaltam as paisagens e tradições mineiras, mas o desfecho da história principal é o encontro entre o primo e Armanda, na qual ele se apaixona à primeira vista e vem a se casar com ela. Ao mesmo tempo, Maria Irma também se casa, mas com o ex-noivo da amiga, o moço Ramiro de Gouveia.

POSSÍVEIS QUESTÕES PARA O VESTIBULAR

As questões não cobrarão em si o enredo de cada conto, mas a ligação deles dentro da obra, razão pela qual se faz necessária a leitura do livro.

Saliento ainda que o neologismo, a narrativa dos contos se passar no sertão mineiro e a inovação ao contar as histórias (prosa experimental) também foram objeto de várias questões.

MINHA EXPERIÊNCIA DE LEITURA

Confesso que não foi um livro muito fácil de ser lido e compreendido de imediato. Inclusive, este foi o resumo e análise mais densa que eu fiz no decorrer do Projeto Fuvest, devido a extensão da obra (são nove contos) diferentes e interligados, nos quais você poderá apreciar a genialidade do autor.

Há contos que eu gostei mais do que outros, mas o meu favorito é A hora e a vez de Augusto Matraga, que eu indico fortemente a leitura pelo menos desta história.

E já fica como meta, na minha lista infindável de leituras, O grande sertão Veredas, tido como a obra prima do autor.

Já leu Sagarana? 

Conhece alguém que está para prestar vestibular ou se preparando para este exame? Indica o conteúdo aqui no blog!!!

Um beijo e até o último post do Projeto Fuvest para este ano!!

%d blogueiros gostam disto: