FUVEST: Resumo da obra Mayombe

Capa do livro publicado pela Editora Leya

Primeiro livro analisado para o projeto de Literatura da FUVEST é o livro Mayombe, do escritor angolano Pepetela. Este romance foi marcante para o vestibular da USP por ter sido o primeiro escrito por um autor africano a fazer parte das leituras obrigatórias.

SOBRE O AUTOR

Pepetela é o pseudônimo de Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos, escritor de ascendência portuguesa nascido em Angola. Durante o processo de independência, Pepetela lutou junto ao MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola), tornando-se militante em 1963.

Sua obra é permeada pelo aspecto político, retratando criticamente os diversos aspectos da sociedade angolana e a luta contra a dominação colonial portuguesa. Dado o conteúdo potencialmente controverso dos seus romances, acabou por publicar Mayombe, escrito entre 1970 e 71, somente em 1980, quando autorizado pelo então presidente Agostinho Neto.

O QUE É MAYOMBE?

Mayombe é o nome de uma região montanhosa ocupada por florestas densas que inclui partes de Angola (província da Cabinda), República Democrática do Congo e Gabão. A região, de baixa latitude, tem clima quente e úmido. O livro de Pepetela retrata a guerrilha do MPLA na região.

O QUE FOI O MPLA?

O MPLA é um partido político angolano que governa o país desde a independência em 1975. Sua origem remota à década de 50, resultante da união de diversos grupos anti-coloniais. O livro retrata a raiz marxista-leninista do movimento.

CONTEXTO HISTÓRICO E CULTURAL

O livro se passa no período da Guerra de Independência de Angola, conflito armado entre as forças de independência angolanas (entre as quais o MPLA) e as Forças Armadas portuguesas, em especial o Exército.

O conflito se estendeu de 1961 a 74, sendo marcado por um embate não convencional entre o Exército regular português e guerrilhas angolanas, adaptadas ao terreno e clima, além de apoiadas pela população local.

Com o desenvolver da guerra houve um desgaste muito grande no apoio da população portuguesa ao conflito, dada a quantidade de mortos e amputados em um conflito cujo benefício era duvidoso.

ESTILO NARRATIVO

O narrador onisciente em terceira pessoa é dominante durante o livro. Contudo, há intervenções nesse estilo marcadas pela frase “Eu, O Narrador, Sou Fulano” (sendo Fulano o nome da personagem que descreve aquele trecho específico). As personagens que fazem parte do núcleo da guerrilha são identificadas por codinomes (Comandante Sem Medo, Comissário, Das Operações, Teoria, Lutamos, Milagre, Mundo Novo etc). No núcleo da cidade, destacam-se André (coordenador do movimento na cidade) e Ondina, noiva do Comissário (que é o único guerrilheiro a ser identificado pelo nome, João, mais à frente da história).

Esta polifonia é bastante útil para mostrar como a narrativa de um mesmo fato pode ter interpretações absolutamente distintas a depender do participante. Pepetela usa deste artifício para mostrar que, apesar de supostamente unidos por uma causa comum, há divergências históricas entre os integrantes do MPLA decorrentes de eventos anteriores ao narrado.

De certa forma, pode-se dizer que os nomes de guerra representam estereótipos existentes no grupo de guerrilheiros. Ao identificá-los por codinomes, Pepetela coloca as personagens como membros de um grupo diverso, uma forma de representar a diversidade de visões de mundo e de origens étnicas no MPLA, assim como os conflitos decorrentes disso

ENREDO

A história ocorre em torno das ações de um grupo de guerrilheiros na região do Mayombe. Os capítulos:

“A missão”

Introduz as personagens e os propósitos do grupo. A missão foi atacar uma posição de extração de madeira para provocar uma reação do Exército português e, assim, realizar uma emboscada. Há uma primeira expressão da visão política das personagens e da importância que a guerrilha atribui ao apoio popular.

“Base”

Neste capítulo há uma descrição do ambiente do Mayombe e como a base guerrilheira está inserida neste local. Temos um confronto de visões de mundo entre Mundo Novo, idealista e Sem Medo, que não acredita haver ação humana sem interesse que a sustente. Um conflito tribal entre os guerrilheiros acaba sendo deflagrado, dissipado por Das Operações.

O Comissário vai à cidade de Dolisie para obter suprimentos. Somos apresentados aos integrantes do movimento na cidade: Ondina (noiva do Comissário) e André (chefe do movimento na cidade). O Comissário enfrenta a frustração de voltar sem suprimentos e de ter problemas intimidade com a sua noiva.

“Ondina”

A fome se instala na Base. Das Operações vai a Dolisie para obter suprimentos, sendo bem sucedido. Ao retornar, passa a notícia de que Ondina fora flagrada em relações íntimas com André. A situação enfurece o Comissário, que decide partir para a cidade.

Sem Medo e o Comissário conversam sobre relacionamentos e o Comandante conta das suas dificuldades também. O Comissário conta que a sua noiva escreveu uma carta terminando o relacionamento e pede para que Sem Medo converse com ela, sendo recusado. André é preso e o Comandante é temporariamente instaurado como coordenador do movimento na cidade. O movimento descobre que os portugueses instalaram um acampamento em Pau Caído, tornando iminente a descoberta da Base.

“A surucucu”

Sem Medo conversa com Ondina e acabam por dormir juntos. O Comandante recebe a notícia de que a Base fora atacada. Como resposta, reúne voluntários na cidade para retomá-la.

Ao chegar, descobre que tratou-se de um engano. Teoria, um dos guerrilheiros, assustou-se com uma surucucu e disparou para defender-se. Um outro guerrilheiro achou tratar-se de um ataque e foi correndo para pedir ajuda na cidade.

“A amoreira”

Sem Medo decide atacar a base portuguesa. Na operação, um guerrilheiro morre e o Comandante acaba gravemente ferido tentando salvar o Comissário. Neste desfecho, dois integrantes de tribos distintas (Lutamos e Sem Medo) acabam por falecer na defesa de um terceiro (Comissário), passando uma ideia de comunhão na luta.

Epílogo

O comissário é transferido para outra região e reflete sobre a perda do amigo.

POSSÍVEIS QUESTÕES PARA O VESTIBULAR

Mayombe possibilita ao examinador explorar algumas questões interessantes, em especial por se tratar de um livro que trata de temas alheios à experiência de boa parte dos estudantes brasileiros.

Meu palpite para o vestibular varia de acordo com o tipo de questão. As objetivas tendem a ter comparações mais diretas ou usar o livro simplesmente como contexto. As discursivas, por sua vez, normalmente buscam medir a capacidade do estudante de relacionar temas diversos, em comparações que não são muito triviais.

Eu acredito que a leitura dos livros é bastante recomendada para aumentar as chances de aprovação. Caso a questão aborde temas genéricos, é possível sobreviver apenas com um bom resumo. Caso contrário, é muito difícil usar a criatividade na hora da prova para tentar relacionar características específicas de um livro ou personagem sem ler. Como não sabemos o perfil de avaliação da prova, só nos resta estar tão bem preparado quanto possível.

Alguns temas que podem ser abordados:

– Paralelos entre o conflito colonial português em Angola e outros conflitos de guerrilha, como os EUA no Vietnã: O examinador poderia convidar o vestibulando a analisar as causas de cada um dos conflitos e no que eles se assemelham ou divergem.

– Geografia: como o ambiente do Mayombe pode ter paralelo no ambiente amazônico. Em uma perspectiva social, a exploração madeireira tratada no livro Mayombe pode ser relacionada com o desmatamento amazônico.

– Preconceito/tribalismo: trata-se de um tema bastante presente no livro Mayombe. Uma redação ou questão discursiva mais audaciosa poderia tentar explorar paralelos entre a percepção de preconceito na realidade brasileira e a narrada no livro.

– Relações de gênero: o livro aborda também o papel da mulher no contexto da guerra de independência e como determinados papéis são exercidos socialmente. Uma relação entre violência de gênero e papel da mulher correlacionando com a realidade atual poderia ser feita.

– Estilo narrativo: Pepetela usa da expressão “Eu, O Narrador, sou Fulano” para introduzir trechos sob a perspectiva de um dos personagens específicos do texto. Esse estilo de escrita é alternado com uma espécie de narrador impessoal logo a seguir, sem marcação específica. Uma questão que peça ao estudante expor os motivos desse tipo de narração (narrar a história sob diferentes perspectivas, aproximar o leitor do drama humano individual, convidar o leitor a ver uma certa continuidade entre a ação pessoal o desenrolar da história etc) é bastante possível.

– Dicotomia “arte pela arte”/”arte como expressão política”: Esta é uma linha de contraste bastante explorada em questões de literatura. Saber que determinados livros (entre os quais Mayombe) são obras com teor político é essencial.

– Linguística: embora bastante próximo do nosso português, o idioma falado em Angola tem algumas diferenças que podem ser exploradas pelo examinador. Uma questão que obrigue o examinando a buscar o significado de palavras não usuais pelo contexto não me surpreenderia.

– Comparação com outros livros da lista: Outra possibilidade é exigir a comparação entre personagens ou estilos narrativos de livros diferentes. Neste tipo de questão podem ser tratados desde o estilo narrativo até características mais específicas de cada personagem.

IMPRESSÃO GERAL DO LIVRO

Para minha surpresa, achei o livro bastante interessante. Como acontece com qualquer obra de teor político, há uma necessidade de se avaliar criticamente as escolhas narrativas do autor, desde a construção dos diálogos até os rumos escolhidos para as diversas personagens.

Ainda assim, Pepetela teve uma sensibilidade de tratar determinados temas polêmicos que me surpreendeu. A visão que ele apresenta da guerrilha não é propriamente idealizada e alguns diálogos podem causar bastante desconforto a depender do viés político do leitor.

Eu classificaria como um livro corajoso. Tão corajoso, que não me surpreende que ele tenha suspendido a sua publicação até ter certeza de que seria aprovado no ambiente político daquele país. Em que possa haver críticas acerca do tom político da obra, de uma maneira geral, parece-me uma narrativa bastante consistente e um retrato bastante fiel do drama humano em uma situação de conflito. Em termos de entretenimento, acredito que está bem acima da maior parte dos livros indicados para vestibular.

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Um grande beijo e até o próximo post!

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