Moby Dick

Capa do livro

Quarto livro do Projeto Reeducação do Imaginário, e o primeiro livro que eu leio do autor norte-americano Herman Melville.

SOBRE O AUTOR E A OBRA

Herman Melville

Herman Melville nasceu em 1819 em Nova York, de uma família de classe média tradicionalista nos EUA. O pai do autor era importador de bens de consumo refinado da Europa e vivia em constantes viagens no Atlântico. 

Todavia, o país mudou bastante na década de 1830, logo, esse refinamento aristocrático desta primeira burguesia norte-americana dá lugar a uma sociedade de massa. Em razão desta mudança de cenário, os negócios da família Melville começaram a degringolar. 

Por causa das inúmeras dívidas, a família incluiu a letra “e” ao final do nome, na tentativa de não associar o nome “Melvill” ao um escândalo de proporções públicas e salvar a sua reputação.

Com o abandono da educação formal, devido às condições financeiras da família, Melville fez sua primeira viagem com a Marinha Mercante, como marinheiro aprendiz. E, em 1841, ele faz sua primeira grande viagem como baleeiro, tendo como itinerário a passagem pelo Cabo Horn (como ainda não existia o Canal do Panamá, a passagem pelo Cabo Horn era obrigatória pelos marinheiros que tinham como destino o oeste dos EUA, a China e Índia). 

Melville começa como escritor quase que biográfico, pois ele narra as suas próprias autor é escrita no período denominado antebellum (entre a guerra contra o México – 1846/1848 e início da guerra civil – 1861). E, devido ao avanço geopolítico, Melville faz a sua crítica.

Em Moby Dick (obra publicada em 1851), podemos ver este olhar crítico do autor, pois o livro trata do expansionismo norte-americano, das implicações deste expansionismo com a escravidão, da tensão social que a escravidão representa, tendo em vista que avançar rumo ao oeste também significa o avanço ou não da escravidão.

Logo, a grande divisão norte-americana do antebellum é entre os Estados que querem esta expansão e os que desejam o fim da escravidão. A tentativa de manter a União inteira tem um grande custo legal, o que para os norte-americanos era bastante sensível, pois o país se funda na emancipação legal do homem. 

Nota-se, portanto, que a obra discute como a emancipação do homem é idêntica a mais abjeta servidão humana, sendo tal servidão a história de Ahab (capitão do navio Pequod). 

Sobre o tema, segue a opinião do brilhante Otto Maria Carpeaux sobre Moby Dick: Os motivos sociais perderam-se, como em Swift, numa grande visão – dir-se-ia, visão de místico – da existência humana: de Typee, idílio entre antropófagos – até Moby Dick, epopeia dos esforços inúteis da humanidade contra as forças da Natureza talvez a primeira obra de literatura universal em que no centro dos acontecimentos não está colocado o homem, mas a realidade objetiva das forças extra-humanas do mar, do Destino como peso material. Contra esse inimigo só vale a atitude cervantina. Assim, em “Benito Cereno”, a atitude do capitão, parecendo louco, mas agindo assim porque age como prisioneiro de piratas, é um símbolo da escravização do homem pelo destino: expressão simbólica do dogma puritano da predestinação, e alusão ao “way of all flesh”. (História da literatura ocidental – Volume III, página 1897 – Editora: Senado Federal)

Moby Dick é um romance que dialoga com o estabelecimento da hegemonia de uma sociedade industrial, no sentido de ser algo que te limita, algo que te mutila e você quer fazer algo a respeito. Todavia, a tentativa de fazer algo contra este “monstro” é uma loucura. As pessoas podem até entender o seu sofrimento, mas é fútil. 

No caso de Ahab era mais fácil esquecer esta vingança à Moby Dick, esquecer que perdeu a perna e seguir a vida. Mas a recusa em aceitar que a fonte de todo este sofrimento pode sair impune é que faz de Ahab uma personagem fenomenal. 

Tal determinação, no sentido que “eu posso morrer, mas morrerei tentando” é que faz da obra de Melville ser lembrada até hoje.

SOBRE A EDIÇÃO

A edição pela qual eu fiz a minha leitura foi a publicada pela Editora 34 em 2019, baseada na edição publicada originalmente pela Cosac Naify em 2008. 

O livros conta com textos de apoio maravilhosos, bem como apêndices explicativos sobre baleias e partes do navio, tendo em vista que a maior parte do livro se passa no mar.

Ademais, a capa do livro conta com uma gravura da época vitoriana (1854) lindíssima de uma caça à baleia no Ártico.

Capa da primeira edição do livro

MINHA EXPERIÊNCIA DE LEITURA E INDICAÇÃO DESTE LIVRO PARA O PROJETO REEDUCAÇÃO DO IMAGINÁRIO

ATENÇÃO: ALERTA DE SPOILER

Estava bem ansiosa para a leitura deste livro, pois ao ver o vídeo do Juiz Márcio Umberto Bragaglia foi comentado que durante a entrevista realizada no presídio, uma das detentas informou que se identificou muito com a narrativa, tendo em vista que a sua história era muito parecida com a do Capitão Ahab.

Durante o seu relato, ela informou que a mensagem deixada por este livro era que a vida nos dava sinais para agirmos ou não de uma determinada forma. Ou seja, mesmo com todos falando de Moby Dick, nada impediu de Ahab caçá-la e buscar sua vingança.

Já com a detenta, ela relatou que no dia em que foi presa, a vida lhe deu vários sinais de que tal ato (tráfico de drogas) era errado e que alguma coisa não estava certa, mas mesmo assim continuou com plano e, ao final, foi presa em flagrante com a droga.

Foi exatamente esta mesma sensação que eu tive ao ler a obra, qual seja, a vida é feita de escolhas, no caso de Ahab, ele determinou para si que o seu destino estava ligado a Moby Dick, pois a baleia amputou a sua perna durante sua caça.

Em determinados momentos Ahab conseguia enxergar que a vida ia muito além da caça de baleias e do mar, mas ao mesmo tempo, escolhia enxergar somente a busca pela vingança à um animal irracional, que agiu por instinto de defesa:

Um velho idiota, isso que Ahab tem sido! Por que essa porfia da caça? Por que o braço cansado e esgotados no remo, no ferro e na lança? Quanto mais rico ou melhor está Ahab agora? Olha. Ah, Starbuck! Não é penoso que, com este fardo pesado que carrego, uma pobre perna me tenha sido arrancada? Aqui, põe esse velho cabelo de lado; ele me cega de ver minhas próprias lágrimas. mechas são grisalhas só crescem das cinzas! mas pareço muito velho, muito, muito velho, Starbuck? Sinto-me muito fraco, curvado, corcunda, como se fosse Adão cambaleando sob os séculos acumulados desde o Paraíso. Deus! Deus! Deus! – Parte meu coração! – Destroça o meu cérebro! – Escárnio! Escárnio! Escárnio amargo e mordaz dos cabelos grisalhos, já vivi o suficiente para tê-los; e, assim, parecer e sentir-me intoleravelmente velho? Mais perto! Vem mais perto de mim, Starbuck; deixa-me contemplar um olho humano; é melhor do que contemplar o mar ou o céu; melhor do que contemplar Deus. Em nome da terra verdejante; em nome da lareira acesa! Esse é o espelho mágico, homem; vejo a minha esposa e o meu filho em teu olho. Não, não; fica a bordo, a bordo! – não desças ao mar quando eu for; quando o estigmatizado Ahab der caça a Moby dick. Tal risco não deve ser teu. Não, não! Não pela casa longínqua que vejo em teu olho.

Achei esta parte do livro tão poética e atual, pois quem nunca teve um momento em sua vida que questionou uma outra forma de viver ou outra forma de agir e até mesmo de enxergar a si de outra maneira?

Ao final do livro, confesso que fiquei triste pela escolha que Ahab fez para si e para tripulação do Pequod. Acredito que todos os tripulantes e seu capitão eram merecedores de um destino melhor, assim que como todos nós somos merecedores uma vida melhor.

Por fim, com a conclusão da leitura, eu pude ver a importância da indicação deste livro ao Projeto Reeducação do Imaginário, pois ele nos mostra que toda escolha que fazemos nos trará consequências, boas ou ruins, independente da escolha teremos que arcar com os nossos atos e aprender com eles.

Já leu este livro? Se sim, compartilha aqui nos comentários o que você achou!

Um grande beijo e até o próximo post!!

Um comentário em “Moby Dick

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