FUVEST: Resumo da obra A Relíquia

Capa do livro publicado pela Edições Best Bolso em 2016

SOBRE O AUTOR

José Maria Eça de Queirós nasceu em 25 de novembro de 1845 em Póvoa de Varzim – Portugal. Em 1855 saiu da casa dos avós paternos e iniciou os seus estudos regulares em um colégio interno no Porto. 

Em Coimbra, o autor nunca foi um aluno brilhante, pelo contrário, queixava-se do pequeno alcance intelectual dos professores, bem como a forma obtusa de conduzir o ensino e avaliação.

Entre 1866, ano de sua formatura na Universidade de Coimbra, e 1871 Eça tenta estabelecer-se como advogado em Lisboa, todavia, sem sucesso. Após este episódio, começa a dirigir um jornal em Évora, de onde retornou a Lisboa em meados de 1867. 

Em 1870, o autor participou ativamente da elaboração do programa e na realização das Conferência Democráticas, onde decidiu ingressar na diplomacia. Antes de assumir o seu primeiro cargo de cônsul na Inglaterra (1874-1888), viveu seis meses na província, em Leiria, como administrador do Conselho.

Em 1872, Eça já era um escritor conhecido, pois além de vários folhetins, que foram reunidos postumamente com o título de Prosas Bárbaras (1903), tinha escrito duas obras em parceria com Ramalho Ortigão, intituladas As Farpas (1871) e O Mistério da Estrada de Sintra (1870).

Em 1876, é publicado o primeiro romance queirosiano, sendo este O Crime do Padre Amaro. Ademais, a vida do autor foi dedicada a sua obra e aos seus amigos. Em 1886, aos 41 anos, casou-se com Emília de Castro, de família nobre portuguesa, com quem teve quatro filhos.

Eça de Queirós faleceu em 1900, deixando revistas as provas da Correspondência de Fradique Mendes e de A Ilustre Casa de Ramires. Posteriormente, foram publicados vários textos do autor, entre os quais A Capital! (1925) e O Egito (1926).

SOBRE A OBRA

A obra  A Relíquia foi publicada no ano de 1887, durante a segunda fase do realismo, caracterizado pelo olhar pessimista e análise da sociedade, principalmente da burguesia lisboeta da época.

Logo, este olhar do autor sempre terá um cunho crítico, irônico e ácido com suas personagens e narrativa.

A obra conta com duas personagens principais, Teodorico Raposo e Dona Maria do Patrocínio, mais conhecida como Titi. Estes estarão sempre em contato (são tia e sobrinho), em conflito (um bon vivant e uma religiosa fervorosa) com Teodorico tentando construir uma imagem de santo para a tia. Nota-se, portanto, que o autor ao narrar a história utiliza-se de perfis psicológicos para com suas personagens e através deles faz a sua crítica ao cientificismo e ao conservadorismo provinciano.

CONTEXTO HISTÓRICO E CULTURAL

O realismo em geral sempre põe em xeque os ideais românticos. ou seja, o movimento em vigência sempre se contraria ao movimento que passou.

Aqui também temos a segunda fase da revolução industrial (capitalismo e industrialização) e do pensamento científico, como é o caso do positivismo e do evolucionismo de Darwin (darwinismo). Acerca do tema, dá uma olhadinha no resumo da obra Quincas Borba!

ESTILO NARRATIVO

A obra é narrada em primeira pessoa, sendo este Teodorico Raposo, cuja alcunha é Raposão. Toda a narrativa, predominantemente, ocorre em Portugal e Jerusalém. Por fim, o tempo desta narrativa é o psicológico.

A narrativa leva em conta as característica da própria escola literária, como o objetivismo e cientificismo (a razão em detrimento da emoção), o materialismo e pessimismo (é muito difícil uma obra literária deste período ter um final feliz, o que impõe a negação ao romantismo), as reações a monarquia e ao clero, sendo esta última muito acentuada na obra e a preocupação com o tempo vivido, o tempo presente.

A narrativa é dividida em uma introdução mais cinco capítulo. Ademais, no decorrer da narrativa nós podemos vislumbrar a utilização da intertextualidade, isto é, a citação de outras obras, como é o caso da Bíblia.

ENREDO

Na introdução, nós temos o anúncio da composição de um livro de memórias da vida do protagonista. Teodorico informa que em 1875, após uma desilusão amorosa, foi enviado de Campo de Santana (Portugal) para Jerusalém pela tia Dona Patrocínio das Neves (Titi).

As memórias do protagonista não tratarão de pontos turísticos, mas de lembranças sinceras do que ele viveu. Para saber sobre a descrição dos lugares de Jerusalém, o protagonista indica a leitura do “Jerusalém passeada e comentada”, do autor alemão Topsius.

O primeiro capítulo, narrará a história de Teodorico Raposo ainda criança, isto é, desde que seus pais se conheceram. Contará também sobre seus avós e sua tia, Dona Patrocínio. Sobre a morte de sua mãe, após o seu nascimento (em uma sexta-feira santa) e a morte de seu pai, aos 7 anos de idade.

Como ficou órfão, Teodorico irá para Lisboa ficar com a Titi, que é muito severa e religiosa:

Não fiz o sinal da cruz. Mas entreabri a cortina; e o oratório da Titi deslumbrou-me, prodigiosamente. Era todo revestido de seda roxa, com painéis enternecedores em caixilhos floridos, contando os trabalhos do Senhor; as rendas da toalha do altar roçavam o chão tapetado; os santos de marfim e de madeira, com auréolas lustrosas, viviam num bosque de violetas e de camélias vermelhas. A luz das velas de cera fazia brilhar duas salvas nobres de prata, encostadas à parede, em repouso, como broquéis de santidade; e erguido na sua cruz de pau preto, sob um dossel, Nosso Senhor Jesus Cristo era todo de ouro, e reluzia.

Aos nove anos, Teodorico foi enviado ao Colégio Interno dos Isidoros em Santa Isabel. No local conheceu Crispim, que se tornaria o seu cunhado. Já nesta idade, Teodorico entendia que sempre havia de agradar Titi, pois a mesma era muito rica e ele seu único herdeiro (“E tudo pertença à Titi. Que rica que era a Titi! Era necessário ser bom, agradar sempre A Titi!”)

Um pouco mais velho, Teodorico foi terminar os seus estudos em Coimbra, na casa do Doutor Roxo, reconhecido no estudo de teologia. Nosso protagonista odiou Doutor Roxo, todavia, após a morte do mesmo, Teodorico mudou-se para hospedagem de Pimentas, onde conheceu a liberdade e as fortes delícias da vida:

Nunca mais rosnei a delambida oração a São Luís Gonzaga, nem dobrei o meu joelho viril diante de imagem benta que usasse auréola na nuca; embebedei-me com alarido nas Camelas; afirmei a minha robustez, esmurrando sanguinolentamente um marcador do Trony; fartei a carme com saborosos amores no Terreiro da Erva; vadiei ao luar, ganindo fados; usava moca; e como a barba me vinha, basta e negra, aceitei com orgulho a alcunha de Raposão.

Nesta época, nosso protagonista conheceu Adélia e apaixonou-se. Todavia, a amada tinha um caso com outro e Teodorico ficou devastado com a traição.

Tornou-se bacharel em Direito e descobriu o seu rival na herança de Titi: “E além disso o seu rival não é outro, Teodorico, senão Nosso Senhor Jesus Cristo!”

Para que a herança ficasse com ele, Teodorico passou a ir em todas as missas, pregar quadros de santos, até desconhecidos por Titi em seu quarto, ou seja, travou uma batalha contra Jesus Cristo.

Ao encontrar com Rinchão, em uma roda de amigos, Teodorico ficou com vontade de ir a Paris, para gozar da vida da mesma forma que o amigo, bem como para esquecer Adélia. Todavia, para Titi, Paris é um lugar asqueroso e pecaminoso.

Logo, Titi mandou Teodorico a Jerusalém, a terra sagrada de Nosso Senhor Jesus Cristo. Teodorico não gostou em nada do destino, consultou um judeu conhecido seu e achou que seu lugar de destino era só mar e deserto.

Contudo, Teodorico repensou em sua viagem, pois para chegar a Jerusalém, tinha de atravessar regiões bem festivas e repleta de mulheres, como era o caso de Andaluzia, Nápoles, Grécia. Com tal pensamento em mente, um clarão sulcou-me a alma.

 Já de viagem marcada, Titi pediu a Teodorico um presente, uma relíquia vinda de Jerusalém, sendo este trecho que dá nome ao conto:

– Aqui está! – declarou a Titi. – Se entendes que mereço alguma cousa, pelo que tenho feito por ti, desde que morreu tua mãe, já educando-te, já vestindo-te, já dando-te égua para passeares, já cuidando da tua alma, então traze-me desses santos lugares uma santa relíquia, uma relíquia milagrosa que eu guarde, com que me fique sempre apegando nas minhas aflições e que cure as minhas doenças.

Nos segundo, terceiro e quarto capítulos, Teodorico nos contará a sua chegada à Alexandria em um domingo, dia de São Jerônimo, acompanhado de seu colega Topsius, Doutor alemão pela Universidade de Bonn e sócio do Instituto Imperial de Escavações Históricas.

Durante sua estadia, conheceu Miss Mary e se apaixonou. Ao chegar a véspera da viagem para Jerusalém. Teodorico estava triste por deixar a nova amada, então esta lhe deu sua camisola para se lembrar dela durante a viagem.

Ao chegar em Jerusalém, Teodorico, pode viver o passado, ao ver Cristo ser crucificado e ressuscitado, bem como encontrou a relíquia que daria à Titi:

E que me encontrava certamente diante de uma árvore ilustre! Fora um galho igual (o nono talvez) que, arranjado outrora em forma de coroa por um centurião romano da guarnição de Jerusalém, ornara sarcasticamente, no dia do suplício, a cabeça de um carpinteiro de Galiléia, condenado…

Sim, condenado por andar, entre quietas aldeias e nos santos pátios do templo, dizendo-se filho de Davi e dizendo-se filho de Deus, a pregar contra a velha religião, contra as velhas instituições, contra a velha ordem, contra as velhas formas! E eis que esse galho, por ter tocado os cabelos incultos do rebelde, torna-se divino, sobe aos altares, e do alto enfeitado dos andores faz prostrar no lajedo, à sua passagem, as multidões enternecidas…

Ao retornar para Portugal, Teodorico resolveu se livrar do presente de Miss Mary, a fim de não haver pistas que o “incriminasse”, logo, entregou a uma moradora de rua a camisola dada para que esta pudesse vendê-la.

No último capítulo, nós veremos a derrocada de Teodorico, ao ler que o embrulho dado a moradora de rua era na verdade a coroa de espinhos e o embrulho dado a Titi era a camisola de Miss Mary.

Ao ver tal presente pecaminoso, Titi expulsou Teodorico de casa e este teve que sair imediatamente e sem nenhum dinheiro.

Devido a situação em que se encontrava, Teodorico teve que aprender a se virar e usar seu intelecto de bacharel. Aliás, foi devido a esta máquina de pensar que vislumbrou a real natureza das medalhas, dos bentinhos, das águas, das lascas, das pedrinhas, das palhas que trouxe de Jerusalém, que até então considerava um lixo eclesiástico, como verdadeiras relíquias, capazes de lhe gerarem rendimentos: Dava-se um caco de barro – e recebia-se uma rodela de ouro!…

Contudo, no decorrer de seu novo estilo de vida, Teodorico perdeu sua tia Titi. Ao saber de sua morte, nosso protagonista foi até o cartório do Justino, a fim de saber do testamento da tia:

O prédio do Campo de Santana e quarenta contos de inscrições, para o Senhor dos Passos da Graça. As ações da Companhia do Gás, as melhores pratas, a casa de Linda-a-Pastora para o Casimiro, que já se não mexia, moribundo. Padre Pinheiro recebia um prédio na Rua do Arsenal. A deliciosa quinta do Mosteiro, com o seu pitoresco portão de entrada, onde se viam ainda as armas dos condes de Lindoso, as inscrições de Crédito Público, a mobília do Campo de Santana, o Cristo de ouro – para o Padre Negrão. Três contos de réis e o relógio, para o Margaride. A Vicência tivera as roupas de cama. Eu – o óculo!

Ao ver que sua herança foi um óculo, Teodorico ficou louco de raiva e resolveu insultar o cadáver da Titi chamando contra ela todas as cóleras da natureza. 

Durante seu acesso de raiva e revolta, o nosso protagonista caiu de joelhos e bateu a testa no assoalho do quarto. Neste momento, ele ouviu uma voz repousada e suave:

Quando tu ias ao alto da graça beijar no pé uma imagem – era para contar servilmente à Titi a piedade com que deras beijo; porque jamais houve oração nos teus lábios, humildade no teu olhar – que não fosse para que a Titi ficasse agradada no seu fervor de beata. O Deus a que te prostravas era dinheiro de G. Godinho; e o céu para que teus braços trementes se erguiam – o testamento da Titi… Para lograres nele o lugar melhor, fingiste-te devoto, sendo incrédulo; casto, sendo devasso; caridoso, sendo mesquinho; e simulaste a ternura de filho, tendo só a rapacidade de herdeiro… Tu foste ilimitadamente o hipócrita! Tinhas duas existências: uma ostentada diante dos olhos da Titi, toda de rosários, de jejuns, de novenas; e longe da Titi, sorrateiramente, outra, toda de gula, cheia da Adélia e da Benta… Mentiste sempre; e só eras verdadeiro para o céu, verdadeiro para o mundo, quando rogavas a Jesus e à Virgem que rebentassem depressa a Titi.

Depois resumiste esse laborioso dolo de uma vida inteira num embrulho – onde acomodaras um galho, tão falso como o teu coração; e com ele contavas empolgar definitivamente as pratas e prédios de D. Patrocínio! Mas noutro embrulho parecido trazias pela Palestina, com rendas e laços, a irrecusável evidência do teu fingimento…Ora, justiceiramente aconteceu que o embrulho que ofertaste à Titi e que a Titi abriu – foi aquele que lhe revelava a tua perversidade! E isto provaste, Teodorico, a inutilidade da hipocrisia!

A leitura do trecho acima nos mostra, de forma cristalina, a crítica ao estilo de vida da burguesia lisboesta, onde vemos que Teodorico vivia duas vidas, uma verdadeira e de malícia e outra fingida com a demonstração de sua falsa santidade.

Após o breve bate-papo com Deus, Teodorico reencontrou seu amigo de escola, o Crispim. Agora homem, Crispim era dono da fábrica de fiação Teles Crispim & Cia e com o reencontro, aproveitou a oportunidade para chamar Teodorico para trabalhar com ele. 

Com o passar do tempo, Crispim teve a ideia de apresentar sua irmã, Dona Jesuína (tinha trinta e dois anos e era zarolha), para Teodorico e estes logo se casaram e tiveram filhos. Por fim, ao escrever o livro de memórias, nosso protagonista refletiu sobre o episódio da misteriosa troca dos embrulhos:

Quando em vez de uma coroa de martírio aparecera, sobre o altar da Titi, uma camisa de pecado – eu deveria ter gritado, com segurança: “Eis aí a relíquia! Quis fazer a surpresa… Não é a coroa de espinhos. E melhor! E a camisa de Santa Maria Madalena!… Deu-ma ela no deserto...”

POSSÍVEIS QUESTÕES PARA O VESTIBULAR

Ao analisar como a obra foi cobrada nos vestibulares, pude verificar que se faz necessária a leitura do livro, posto que a maior parte das questões são baseadas no enredo e na características das personagens.

Cumpre ainda salientar a importância de se ter em mente as principais características da escola literária, bem como da escrita do autor, pois nada impede que exista tal cobrança também.

IMPRESSÃO GERAL DO LIVRO

Fazia muito tempo que não lia algum livro do escritor e, assim como Machado de Assis, eu sou suspeita para falar sobre Eça de Queirós e seu senso crítico e irônico.

Do autor eu li somente o Primo Basílio e O Crime do Padre Amaro, logo, com A Relíquia, eu pude conhecer o humor de Eça, pois em vários momentos da narrativa eu me pegava dando risada com perspicácia maliciosa de Teodorico e a fé cega e conservadora de Titi.

É um livro curto e muito prazeroso de se ler, razão pela qual recomendo fortemente a leitura, independente de você ser vestibulando ou não.

Já leu este livro? Se positivo me conta o que achou?

Um beijo e até o próximo post!!

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