FUVEST: Resumo da obra Nove noites

Capa do livro publicado pelo Companhia das Letras

Após um período de ausência devido a cursos, bloqueios criativos e férias, aqui está o resumo de mais uma obra da Fuvest!!

CONTEXTO HISTÓRICO E CULTURAL

Aqui eu ressalto atenção para perguntas interdisciplinares:

A morte do antropólogo foi durante o Estado Novo:A situação dos estrangeiros no Brasil do Estado Novo era delicada. A impressão era que estavam sob vigilância permanente. ”

A morte do antropólogo foi às vésperas da segunda guerra mundial: “Buel Quain se matou na noite de 02 de agosto de 1939 – no mesmo dia em que Albert Einsten enviou ao presidente Roosevelt a carta histórica em que alertava sobre a possibilidade da bomba atômica, três semanas antes da assinatura do pacto de não agressão entre Hitler e Stalin, o sinal verde para o início da Segunda Guerra e, para muitos, uma das maiores desilusões políticas do século XX.”

O livro foi escrito em 2001, mesmo ano do atentado de 11 de setembro nos EUA

ESTILO NARRATIVO

A obra conta com dois narradores, sendo eles Manoel Perna (o engenheiro, que na verdade era barbeiro e confidente do antropólogo) e o narrador-jornalista (o próprio autor).

Já no primeiro capítulo do livro ainda não sabemos o nome deste narrador (desconfiei do engenheiro, mas esperei os demais capítulos para ter certeza), mas já temos uma noção que a sua narrativa é referente a uma carta-testamento, sendo esta a única não entregue para as autoridades, podendo ser entregue a alguém que um dia poderá vir buscar informações sobre o seu amigo Buell Quain.

Ressalto que os capítulos narrados pelo Manoel Perna se iniciam com “Isto é para quando você vier”. O que corrobora com a ideia de que seu relato é direcionado para o leitor. Ademais, tais capítulos estão sempre em itálico e possuem uma escrita mais rebuscada e até mesmo poética.

Os capítulos escritos pelo narrador-jornalista, possuem letra padrão e nos contam, inicialmente, de onde ele tomou conhecimento da história do antropólogo (por um acaso em um artigo de jornal em 2001, no qual citava a morte de Buell Quain).

Desta curiosidade (até mesmo uma obsessão), o narrador-jornalista, procura a autora do artigo acima mencionado, para obter mais informações sobre o antropólogo. De onde desencadeia todo o processo metalinguístico ou meta-ficção.

Processo metalinguístico: processo de criação para a escrita do romance. Como jornalista, o autor teve uma vasta pesquisa de campo para a coleta dos dados necessários (viagens para Carolina e Nova York, acesso a quatro cartas escritas pelo antropólogo antes do suicídio – Ruth Benedict, Heloísa Alberto Torres, Ângelo Sampaio e Manoel Perna, bem como outras correspondências escritas pelo antropólogo durante sua vida no Brasil).

Ainda com relação a esta narrativa, nos capítulos 11 e 19, nós conhecemos mais sobre a história do próprio autor (da infância – 1970 até a fase adulta – até 2001), como se através desta digressão, o narrador também se tornasse personagem do livro.

Ademais, o livro possui fotos (do próprio Buell Quain, da equipe de antropólogos e do autor aos seis anos de idade com um indígena no Xingu).

Por fim, o livro nos mostra a ideia da memória, isto é, devido ao lapso temporal de 62 anos é difícil saber o que de fato é verdade ou mentira, deixando muitas dúvidas ao leitor.

ENREDO

No prólogo, nós já sabemos que o protagonista da história, chamado Buell Halvor Quain (Cãmtwyon para os índios) se suicidou, aos 27 anos de idade, no dia 02 de agosto de 1939.

Antes de praticar o ato deixou sete cartas com instruções para após a sua morte, sendo uma delas endereçada ao narrador Manoel Perna, engenheiro que conviveu com o antropólogo por nove noites (daí o nome da obra), em Carolina (na fronteira com o Maranhão com o que na época ainda fazia parte de Goiás e hoje pertence ao Estado de Tocantins).

Além da carta acima citada, as demais correspondências foram endereçadas para sua orientadora, Ruth Benedict da Universidade de Columbia; a Heloísa Alberto Torres, diretora do Museu Nacional localizado no Rio de Janeiro; ao capitão Ângelo Sampaio, delegado de polícia da cidade; ao seu pai, Eric P. Quain; ao seu cunhado, Charles C. Kaiser (marido de sua irmã, Marion) e ao reverendo Thomas Young, missionário americano.

Conforme a narrativa vai seguindo, nós tomamos conhecimento da vida profissional e pessoal do antropólogo, bem como suas atitudes no final da vida, tendo em vista que com base nos relatos e até mesmo pelas cartas por ele deixadas antes do suicídio e outras, nós estávamos diante de um homem jovem, atormentado e com medo.

Aqui, eu ressalto uma passagem do capítulo 5, na qual um dos antropólogos que trabalhou com Buell Quain no Brasil cita o que o próprio antropólogo disse a ele: “Castro Faria, eu não tenho mais nada a fazer no mundo. Já vi tudo. ”

O foco principal da narrativa é a tentativa de acharmos alguma informação sobre o motivo do suicídio, mas devido ao lapso temporal do cometimento do ato (02/08/1939) a publicação da história (2001), se torna difícil encontrar uma resposta definitiva.

Saliento que, ao lermos a descrição do antropólogo, entendemos que ele já era atormentado e agia de forma ambígua antes de sua chegada ao Brasil para a pesquisa de campo com os índios (inicialmente com os índios Karajá, mas mudou de planos ao chegar no Rio de Janeiro, pretendendo estudar os índios Trumai, que era uma tribo em extinção)

Relatos de pessoas que conviveram com ele, inclusive o narrador Manoel e os índios, informaram que ele ficava transtornado quando recebia cartas de seus familiares, devido ao processo de divórcio de seus pais, uma suposta traição de sua mulher (apesar de não ser casado) com o seu cunhado.

Há também relatos, da sua professora da Universidade de Columbia e da diretora do Museu Nacional que o seu transtorno era ligado a uma doença contagiosa, inclusive, nas cartas remitidas a elas, o antropólogo solicitava que as mesmas fossem desinfetadas.

Logo, no decorrer da narrativa, você como leitor, se questiona sobre a forma em que o antropólogo morreu (será que foi suicídio mesmo?), bem como se havia mais alguma carta escrita e nunca entregue as autoridades da época.

No capítulo 14, nós descobrimos quem é o sujeito da frase “isto é para quando você vier”, com base no trecho abaixo:

“Contou de uma tarde em que, voltando de uma caminhada solitária na praia, onde abandonara os colegas, deparou com a casa excepcionalmente vazia e um homem sentado na cozinha. E que, antes de poder se apresentar, o estranho, saindo da sombra, sacou uma máquina fotográfica e registrou para sempre o espanto e o desconforto do antropólogo recém-chegado de um passeio na praia, surpreendido pelo desconhecido.

E embora depois tenha se tornado amigos, por muito tempo o estranho não conseguiria tirar outra foto dele. Até irromper um dia em seu apartamento, sem avisar, decidido a fotografá-lo de qualquer jeito, depois de ter sabido que ele estava de partida para o Brasil. Queria uma lembrança do amigo antes de embarcar para a selva da América do Sul. Eu só sei que esse estranho era você. ”

Aqui, a narrativa nos dá a entender que o Buell Quain tinha algum envolvimento afetivo com alguém, uma mulher ou com o próprio fotógrafo. Todavia, não há nada concreto ou uma resposta exata sobre o assunto.

No final do livro, especificamente no capítulo 18 narrado pelo Manoel, nós temos o desfecho do que seria a oitava carta deixada pelo antropólogo (ficção), bem como a certeza que não há uma resposta certa com relação ao motivo de seu suicídio:

“O que lhe conto é uma combinação do que ele me contou e do que imaginei. Assim também, deixo-o imaginar o que nunca poderei lhe contar ou escrever. ”

Saliento, que conforme a narrativa do autor flui, nós acompanhamos alguns momentos de sua vida, como o relato de que seus pais também eram divorciados e quando era criança ele foi com seu pai para o Xingu e conheceu uma das tribos estudadas pelo antropólogo, os krahô.

Ademais, acompanhamos a sua saga na escrita deste livro, de onde surgiu a ideia para a escrita (foi de uma citação da morte do antropólogo em um artigo de jornal) até a sua viagem aos EUA em busca do filho do fotógrafo que tirou as fotos de perfil de Quain.

POSSÍVEIS QUESTÕES PARA O VESTIBULAR

A maioria das questões que eu vi sobre a obra cobraram o estilo narrativo e o nome da obra, conforme algumas respostas abaixo:

O autor Bernardo Carvalho constrói uma obra diferente e complexa, em que mistura realidade e ficção, apresentando um enigma em torno de um suicídio cujas causas serão investigadas. Porém, a verdade permanecerá ambígua.

São vários mistérios que se interligam, e adensam a narrativa, em que o leitor partilha a claustrofobia e evasão de identidade das personagens.

O título “Nove Noites” foi devido ao fato de que o personagem principal (o americano Quain – baseado em história real), antes de se suicidar, partilhou com um amigo nove noites de conversas e revelações.

MINHA EXPERIÊNCIA DE LEITURA

Não conhecia a obra e nem o autor, mas me surpreendi positivamente com a escrita, com o enredo e até mesmo com o processo criativo para a confecção da história, tendo em vista que sua origem foi através de um artigo que mencionava o suicídio do antropólogo em 1939.

Acredito que o fato de eu já estar no embalo de algumas séries investigativas como Manhunter: Unnabomber; Bandidos da TV e Gênio Diabólico, todas da disponíveis na Netflix, contribuíram para eu apreciar a leitura deste livro e querer saber o que o autor descobriu durante sua pesquisa de campo.

Por fim, deixo também a recomendação de um vídeo no YouTube, do Professor Marcelo Nunes, na qual ele explica o enredo da obra capitulo a capitulo de forma muito esclarecedora e didática.

E aí, já leu Nove Noites ou outra obra do autor Bernardo Carvalho?

Deixa nos comentários o que achou!!

Um grande beijo e até o próximo post!!!

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