Resenha de A morte de Ivan Ilitch

Capa do livro publicado pela Editora Antofágica

Nono livro da lista do Projeto Reeducação do Imaginário. A morte de Ivan Ilitch de Liev Tolstói é leitura obrigatória para quem quer adentrar no universo da literatura russa.

SOBRE O AUTOR

Liev Nikoláievitch Tolstói nasceu no dia 09 de setembro de 1828 em Iásnaia Poliana, propriedade rural da família, filho de uma família nobre, a criação do autor e seus irmãos, após a morte de sua mãe, ficou a cargo de tias paternas e preceptores.

Foi para a Universidade Imperial de Kazan, onde estudou letras orientais e direito, mas desistiu de ambos os cursos em 1847. Ao herdar a propriedade rural em sua cidade natal, o autor dividia seu tempo entre o local e as mesas de jogo em São Petersburgo, onde dizem as más línguas, ele nã tinha tanta sorte.

Tolstói se alistou no exército e combateu durante a Guerra da Crimeia, na cidade de Sevastópol, tendo dado baixa em sua carreira como tenente em 1856.

Em 1852, o autor se casou com Sófia Andrêievna Bers, com quem passou o resto de sua vida. Sua esposa teve um papel fundamental na criação das obras mais conhecidas do autor, sendo elas Guerra e Paz e Ana Karênina, bem como atuou na edição e revisão dos manuscritos do marido. Juntos tiveram treze filhos, sendo que somente oito chegaram a fase adulta.

Apesar do sucesso de crítica e o bom convívio familiar, em 1870, Tolstói apresentou uma crise aguda de depressão, o que o fez perder o sentido nas coisas que produzia. Ao reavaliar sua vida, Tolstói retomou as atividades de sua escola, aliás, Tolstói teve um papel fundamental na educação dos mujiques da região de Iásnaia Poliana, com influência na educação da Rússia.

Tornou-se vegetariano, estudou teologia e seitas cismáticas, bem como passou a questionar frequentemente os dogmas da Igreja Ortodoxa, sendo excomungado no início do século XX. Sua influência era tamanha que o escritor passou a ter discípulos de sua doutrina, chamada toltoísmo.

Contudo, a relação com a família ficou desgastada, principalmente com sua esposa, que não compartilhava das mesmas ideias que seu marido, no que tange a abdicação dos direitos autorais sobre sua obra. Tolstói faleceu em 20 de novembro de 1910 de pneumonia.

Deixo aqui a dica de um vídeo do Youtube sobre a vida do autor feito pela Paloma, do Livros da Paloma, bem como a leitura do texto de apoio desta edição escrita detalhadamente pelo historiador e doutor em literatura russa, Lucas Simone.

SOBRE A EDIÇÃO

A edição pela qual eu fiz a leitura da obra foi a publicada em 2020 pela Editora Antofágica. Trabalho primoroso, em capa dura, com textos de apoio espetaculares de Yuri Al’Hanati, Julián Fuks, Lucas Simone e Maria Julia Kovács, bem como ilustrado por Luciano Feijão que conseguiu captar de forma única a essência desta novela:

SOBRE A OBRA

ATENÇÃO: O TÓPICO A SEGUIR CONTÊM MUITOS SPOILERS

Novela publicada em 1886, na qual a narrativa se inicia com a recepção da notícia da morte, aos quarenta e cinco anos, do magistrado Ivan Ilitch em seu local de trabalho (Câmara de Justiça). De imediato já notamos que seus colegas de profissão não se importaram ou ficaram chateados com sua morte, mas se questionaram sobre quem ocuparia seu cargo no Tribunal: 

“Além das reflexões de cada um a respeito das transferências e possíveis mudanças de destino que aquela morte poderia acarretar, o próprio fato da morte de um conhecido próximo despertou em todos que ficaram sabendo dela, como sempre, uma sensação de alegria por ter morrido o outro, e não eles.”

Com relação a seu funeral, também era cristalino a indiferença das pessoas ali reunidas a respeito de sua morte, principalmente, a posição de sua esposa Praskóvia Fiódorovna em relação ao fato:

“E ela voltou a falar e revelou aquilo que claramente era seu principal assunto com ele (o colega do nosso protagonista no Tribunal presente no velório, Piotr Ivánovitch); que consistia na questão de como poderia obter indenização do governo em caso de morte do marido.

A partir do capítulo II, nós conhecemos o passado, desde a infância de Ivan Ilitch. Sabemos que seu pai era também funcionário público, que tinha mais dois irmãos, o mais velho seguiu os passos do pai e o mais novo era um fracassado que trabalhava nas ferrovias. Toda a família desprezava o irmão mais novo de Ivan.

Nosso protagonista era visto por todos da família, como um gênio e de uma honestidade incorruptível, já que estava no meio termo entre os dois irmãos. Estudou na escola de jurisprudência e se formou com distinção:

“Na escola de jurisprudência, ele já era o que viria a ser depois, ao longo de toda a vida: uma pessoa capaz, alegre, bondosa e sociável, mas que cumpria rigorosamente aquilo que considerava seu dever; e considerava seu dever tudo aquilo que assim consideravam as pessoas que ocupavam os mais altos postos.”

Após cinco anos de trabalho, foi oferecido a Ivan Ilitch um posto de juiz de instrução, no qual o nosso protagonista aceitou de bom grado e sobre esta nova posição há uma passagem no livro muito interessante da visão de mundo de Ivan:

“Mas agora, como juiz de instrução, Ivan Ilitch sentia que todos, sem exceção, até as pessoas mais importantes e cheias de si, estavam em sua mão, e que lhe bastava apenas escrever as devidas palavras no papel timbrado para que alguém importante e cheio de si fosse trazido até ele na condição de réu ou testemunha, e, se ele não quisesse prendê-la, a pessoa deveria permanecer diante dele e responder suas perguntas. ”

O poder fez com que Ivan visse de fato a vida de outro modo, tanto é que em seu novo círculo de amizade, composto por nobres ricos do Poder Judiciário, adotou um tom de insatisfação com o governo, de liberalismo moderado e civismo cortês, ou seja, Ivan passou a viver da forma que ele achava que a sociedade ditava.

Após dois anos como juiz de instrução, Ivan conheceu sua futura esposa, Praskóvia Fiódorovna, que advinha de uma família nobre, de fortuna e as pessoas de seu círculo social aprovavam a união. Logo, nosso protagonista fez aquilo que seria considerado correto pelas pessoas de alto nível, casou-se.

Com a gravidez da esposa, a vida conjugal do casal sofreu uma reviravolta, pois Praskóvia exigia que Ivan cuidasse dela e passou a ofendê-lo toda vez que este descumpria suas exigências. Diante de tal situação, mesmo após o nascimento da criança, Ivan Ilitch se agarrou ao trabalho como sua tábua de salvação, já que seu ofício era a única coisa que se impunha a sua esposa.

Logo, com relação a vida conjugal e familiar, Ivan Ilitch só exigia as conveniências que ela podia lhe proporcionar – o almoço caseiro, a dona de casa, a cama – e, sobretudo, aquela decência nas aparências, que era definida pela opinião pública.

Com o passar dos anos, cada vez mais Ivan concentrou seus esforços, bem como sua vida em seu serviço e cada vez mais deixou sua família de lado:

“No mundo do serviço, concentrava-se, todo o interesse de sua vida. E esse interesse o absorvia. A consciência de seu poder, a possibilidade de arruinar qualquer pessoa que ele quisesse arruinar, a importância, até na aparência, de sua entrada no tribunal e de seus encontros com os subordinados, seu sucesso perante os superiores e os subordinados, e, sobretudo, a maestria que ele podia sentir – tudo isso o alegrava e juntamente com as conversas com os colegas, os almoços e o uíste (jogo de cartas), preenchia sua vida. ”

A vida do nosso protagonista dá um salto de dezessete anos, e durante este período, Ivan agiu da mesma forma, ficando menos com a família e dando mais valor ao seu serviço, ao poder advindo de sua atividade, bem como os ditames sociais.

Mas, Ivan não estava satisfeito somente com isto, ele queria ganhar mais, ter um melhor cargo no Judiciário. Ao conseguir o almejado cargo, cujo salário seria de cinco mil, Ivan ficou extasiado e começou a traçar planos para a nova morada da família. 

Dentre estes planos, estavam como objetivo investir seu tempo e dinheiro na decoração da nova casa. Para ele, seu novo habitat deveria ser primoroso e de primeira linha, mas na realidade, era somente mais do mesmo do que se encontra em todas as casas de pessoas que não eram propriamente ricas, mas que queriam aparentar ser.

Em um destes investimentos, qual seja, nas cortinas da sala, Ivan ao explicar ao tapeceiro como queria que fosse o drapejamento, subiu em uma escada, mas o mesmo tropeçou e caiu, batendo o flanco no puxador de um caixilho. O machucado doeu no momento, mas logo a dor foi embora e sua satisfação com a aparência de sua casa prevaleceu.

Conforme a vida de Ivan Ilitch caminhava, ele passou a se queixar de um gosto estranho na boca e um incômodo no lado esquerdo da barriga. A partir do momento em que estas sensações aumentaram, Ivan começou a ficar mal-humorado, com ele mesmo e com a sua própria família e no meio de todos estes sentimentos de irritação e raiva sua esposa exigiu que Ivan fosse ao médico, a fim de verificar o que de fato era esta dor que ele sentia.

Ao comparecer ao médico, tudo que restou ao Ivan foi uma indecisão de diagnóstico, tendo em vista que ora eram os rins soltos ou uma doença cecal, na qual ambas não comprometiam com a sua vida. Ivan sentia, que aquele diagnóstico não estava certo, pois ele sabia o que ele estava sentindo. Ao começar a tomar os remédios, nosso protagonista viu que sua dor não diminuía, mas mesmo assim se obrigava a pensar que estava se sentindo melhor.

Mesmo diante da dor de Ivan, sua família não o compreendia, ficavam até desgostosos com suas exigências e aborrecimentos, bem como o culpavam alegando que sua aflição estava ligada ao fato de não conseguir cumprir estritamente as prescrições médicas. E assim Ivan tinha que viver, à beira da morte, sozinho e sem ninguém que o compreendesse e tivesse pena dele.

Conforme a dor não passava, aliás, só aumentava Ivan começou a entrar em desespero, pois percebia que estava morrendo, mas não conseguia entender ou não aceitava aquele destino.

Contudo, a doença era cruel com o nosso protagonista, que dormia cada vez menos e se tornava mais depende de ópio e morfina para a dor, bem como da ajuda do mujique doméstico Guerássim.

Aqui eu faço a ressalva sobre Guerássim, acredito que a empatia de Ivan pelo mujique advém da compaixão que o mesmo o tratava na hora de ajudá-lo a comer, a realizar sua higiene ou em cada pedido feito por ele. 

Quando Ivan ficava sozinho no cômodo, ele chorava igual criança, pelo desamparo, pela solidão, pela crueldade e indiferença das pessoas, pela crueldade de Deus e pela ausência Dele.

Em um desses momentos, Ivan achou estar ouvindo uma voz que respondia a todos os seus questionamentos sobre a vida, sobre a morte e, aqui eu cito, um dos trechos mais bonitos e verdadeiros sobre a vida do nosso protagonista, o que comprova a genialidade e a sensibilidade de Tolstói:

“O casamento… tão por acaso, e a decepção, e o cheiro da boca da esposa, e a sensualidade, o fingimento! E aquele serviço morto, e as preocupações com o dinheiro, e assim por um ano, dois, dez, vinte… e sempre a mesma coisa. E, quanto mais tempo se passava, mais morto tudo era. Como se eu caminhasse montanha abaixo, de maneira constante, imaginando que caminhava montanha acima. Foi bem assim. Na opinião da sociedade, eu ia montanha acima, e na mesmíssima medida a vida se afastava de mim… E então pronto, pode morrer! ”

Vemos, através deste trecho, que somente na doença, Ivan revisitou as alegrias de seu passado e se questionou se durante toda a sua vida ele a viveu de forma “errada”. Conforme, a doença foi evoluindo, o medo da morte passou a não ser mais um temor, mas um conformismo e uma forma de redenção. E então, Ivan aspirou o ar e no meio do suspiro, esticou-se e morreu.

No texto de apoio escrito por Maria Julia Kovács, professora do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, destaca que a doença que acometeu Ivan provavelmente tratava-se de um câncer.

SOBRE MINHA EXPERIÊNCIA DE LEITURA E INDICAÇÃO PARA O PROJETO REEDUCAÇÃO DO IMAGINÁRIO

Meu primeiro contato com o autor e já me tornei fã e quero ler tudo o que este homem escreveu!

É uma narrativa impactante, cruel e verdadeira, tudo ao mesmo tempo, que te leva a refletir sobre a sua própria vida, a fazer as mesmas perguntas que Ivan Ilitch fez ao final de seu ciclo e a se indagar se assim como ele, nós também estamos vivendo a vida de forma “errada”.

Aqui o “errado” é no sentido do valor que nós damos a determinadas coisas, como o dinheiro, o trabalho, o pouco ou nenhum tempo gasto com a família, a incompreensão e a indiferença.

Quantas vez nós não agimos de determinada forma para agradar a outrem ou conforme os padrões sociais? Quantas vezes não somos indiferentes com o problema do outro? Quantas vezes nós adiamos a nossa própria felicidade?

E assim, se passam anos da nossa vida, que quando olhamos para trás ou até no espelho, enxergamos de fato, que este tempo não irá voltar. 

Talvez este seja o sentido de viver a vida de forma “correta”, nos importarmos menos com que os outros pensam, nos importamos mais e convivermos mais, dentro da possibilidade de cada um, com quem amamos, amar, sem ter medo de viver, sem ter medo do depois, ou seja, sem ter medo de ser feliz.

Recomendo muito, mas muito a leitura deste livro e espero que assim que você concluir a leitura venha compartilhar comigo, aqui nos comentários ou no Instagram (@magia.das.palavras), o que você achou!!!

Um grande beijo e até o próximo post!!

Um comentário em “Resenha de A morte de Ivan Ilitch

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