Resenha da obra O deserto dos tártaros

Capa do livro lançado pela Editora Nova Fronteira

Tida como a obra prima do autor italiano Dino Buzzati, a novela foi publicada em 1940 e no decorrer da leitura vieram à mente, dois outros livros já resenhados aqui no blog, quais sejam A montanha mágica de Thomas Mann e A morte de Ivan Ilitch de Tolstói.

A lembrança das obras acima, veio de um tema principal que interliga tais obras, o tempo, a solidão e a morte.

No deserto dos tártaros, nós conhecemos a história de Giovanni Drogo, um militar de vinte anos, convocado para assumir o posto de tenente no Forte Bastiani. Inicialmente, nosso protagonista vê tal oportunidade como a chance de sua vida, tendo em vista que até então dedicou seus anos aos estudos e a academia militar.

Ao chegar em seu destino, Giovanni, não via a hora de pedir transferência para outra guarnição, tendo em vista que ele era jovem e ficando no local ele não iria ter o que idealizava, qual seja, status, dinheiro e belas mulheres. 

Ao falar com o Major Matti, solicitando a transferência, soube que sua estadia teria que ser no mínimo de quatro meses, pois deveria aguardar até o próximo exame médico. Ao chegar tal oportunidade, Giovanni desiste de ir embora e permanece no local na espera dos inimigos (os tártaros) que podem chegar a qualquer momento pelo deserto à frente do Forte.

Devido a permanência no Forte, Giovanni adquiriu com o tempo os hábitos do local e assim sua vida foi seguindo e o nosso protagonista mostra uma certa ilusão com o tempo, ele se enxerga naquele momento com todo o tempo do mundo devido a sua jovialidade.

Aqui eu deixo um dos trechos mais bonitos do livro sobre a ilusão acerca da passagem do tempo:

“Mas a uma certa altura, quase instintivamente, vira-se para trás e vê-se que uma porta foi trancada às nossas costas, fechando o caminho de volta. Então sente-se que alguma coisa mudou, o sol não parece mais imóvel, desloca-se rápido, infelizmente, não dá tempo de olhá-lo, pois já se precipita nos confins do horizonte, percebe-se que as nuvens não estão mais estagnadas nos golfos azuis do céu, fogem, amontoando-se umas sobre as outras, tamanha é sua afoiteza; compreende-se que o tempo passa e que a estrada, um dia, deverá inevitavelmente acabar.

Todavia, a história dá um salto de dois anos, e nada mudou na vida de Giovanni Drogo. No decorrer deste período, só houve um momento em que acharam que os tártaros estavam chegando. 

Todos do Forte, inclusive Giovanni esperavam este momento, o momento de conhecer a glória, de lutar como um herói na guerra contra os tártaros. Contudo, não houve glória, não houve guerra, somente a indiferença com a vida de dois soldados do local.

A narrativa dá mais um salto temporal, agora Giovanni já está há quatro anos no Forte e devido a uma licença, ele retorna para a cidade. No capítulo que narra este retorno, nós vemos que os amigos de Giovanni já estão casados, com seus empregos, sua mãe já está mais velha e Maria, seu amor platônico, está mudada. 

Na verdade, nosso protagonista mudou, no sentido de que não consegue expressar o que sente por Maria e se vê deslocado na cidade, como se fosse um estrangeiro, o que contribui para o seu retorno ao Forte.

Giovanni tenta a sua transferência para a cidade e sofre uma desilusão com relação ao seu serviço. Ao falar com o General, nosso protagonista descobre que houve uma mudança no regulamento do Exército, no qual previa o corte para a metade do quadro de militares do Forte, como houveram muitos pedidos de transferência, principalmente, de seus superiores, o pedido de Drogo foi preterido e o mesmo deveria retornar ao seu posto.

Mesmo o tempo passando, Giovanni ainda tinha esperança de lutar contra o inimigo, tendo em vista que estavam construindo uma estrada no meio do deserto. A construção de tal obra demorou quinze anos, aqui, Giovanni já era capitão e continuava à espera do inimigo e da glória.

No transcorrer do lapso temporal, Drogo refletia sobre a solidão, de não ter constituído uma família, não ter filhos, não ter mais os amigos da cidade e até mesmo no Exército, como foi o caso no Tenente Coronel Ortiz e do Tenente Angustina, restando somente o Forte e a espera pelos tártaros. 

Nessa espera, Giovanni já está com cinquenta e quatro anos, já é major e continua esperando o seu momento de glória na Corporação. Todavia, com a idade, nosso protagonista, desenvolve uma doença hepática que o deixava debilitado e fraco. E foi neste momento, que os inimigos apareceram pela estrada que demorou quinze anos para ser construída e estavam em direção ao Forte.

Giovanni ficou desesperado, pois justo quando os inimigos apareceram ele estava doente e não tinha forças para combater, para ser o herói que ele tanto almejava e esperava ser. E como não tinha serventia para o Exército um oficial neste estado, nosso protagonista foi obrigado a abandonar o Forte e se tratar na cidade.

E essa passagem do livro é uma das mais tristes, pela indiferença dos colegas do Forte, pela perda da chance tão esperada de ser um herói, da solidão e da falta de alguém que realmente o amasse.

É uma obra linda (e ao mesmo tempo triste), atemporal e que nos faz olhar para nós mesmos de uma forma tão tocante, que poucas histórias conseguem. Indico muito a leitura deste livro e dos que eu citei acima!!

Um beijo e até o próximo post!!

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