Janet, a entortada

Ilustração do livro O médico e o monstro e outros experimentos

Conto escrito por Robert Louis Stevenson em 1881, presente na edição publicada em 2019 pela Editora Darkiside sob o título O Médico e o Monstro e outros experimentos.

O reverendo Murdoch Soulis era um velho, severo e solitário pastor da paróquia de Balweary, localizada à beira da água do rio Dule e ao lado do bosque Hanging Shaw.

O bosque era um lugar que após o pôr do sol era evitado pelos prudentes habitantes do vilarejo, exceto pelo Pastor Soulis que sempre caminhava por lá, proferindo em voz alta seus pensamentos e sermões não divulgados aos cristãos durante o culto.

Este aspecto comportamental do pastor despertava curiosidade nos moradores mais novos no vilarejo, bem como receio dos habitantes mais antigos, tendo em vista, que estes tinham conhecimento e lembranças do primeiro ano do sacerdócio do pastor na paróquia local. E é neste ponto que a nossa história de terror e mistério começa….

Há cinquenta anos atrás o vilarejo recebia o jovem pastor Murdoch, cheio de energia e empolgação. Com uma rotina repleta de orações, cultos e estudos bíblicos, o sacerdote precisava de ajuda para a arrumação do presbitério e para as tarefas domésticas.

A pessoa indicada foi uma senhora chamada Janet M’Clour. Todavia, nem todos do vilarejo concordaram com a indicação feita, tendo em vista os boatos que rolavam no local sobre a velha Janet, entre eles, a de ter parido um dragão, de não comungar e de seu envolvimento com as trevas.

O jovem pastor achou aquilo tudo tolice e que o mal não tinha lugar no vilarejo controlado pela fé do povo. Então, Janet foi contratada para trabalhar na Paróquia de Balweary. Contudo, algumas donas de casa do local começaram a azucrinar Janet, a acusando de bruxaria entre outras coisas.

No momento do conflito, o Pastor Murdoch chegou para separar a briga e defender Janet. Nesta ocasião, a velha renunciou, perante o pastor e as outras mulheres, o demônio (dizem que foi a contragosto e com muitas caretas).

Com o trabalho na casa paroquial, os habitantes do vilarejo notaram que Janet estava um tanto quanto diferente, pois a mulher começou a andar com o pescoço entortado, isto é, “a cabeça dela para um lado que nem corpo enforcado e um sorriso na cara que nem a de um cadáver enforcado.”

Todavia, com o passar do tempo, os moradores do local se acostumaram com este novo jeito de andar de Janet, mas relataram que, após a renúncia ao diabo, Janet nunca mais foi a mesma e que de sua boca não saia mais a palavra Deus.

Com a chegada do mesmo de Julho no vilarejo, o tempo parecia esquisito, isto é, sem nuvens, o gado não conseguia subir as montanhas, a crianças estavam sempre cansadas, o vento e o calor eram muito mais intensos que nos anos anteriores. 

Até mesmo o pastor Murdoch estava diferente, pois não conseguia comer e nem dormir direito. Seu lugar preferido não era mais a casa paroquial, mas sim o cemitério do vilarejo. Conforme passava mais tempo no local, o pastor começou a observar o aparecimento de corvos no cemitério.

O sacerdote saiu à procura do que estava chamando a atenção de tais animais, até se deparar com um homem estranho e sinistro (para dizer o mínimo), em cima de um túmulo.

O pastor tentou a aproximação do homem, mas quanto mais ele chegava perto mais a pessoa misteriosa se afastava até chegar próximo ao presbitério. Murdoch não gostou nada daquilo e correu o mais rápido que pôde até a casa paroquial, mas ao chegar não encontrou mais o suspeito.

Após o ocorrido, o religioso não conseguiu fazer mais nada, pois as palavras das orações lhe escapavam e os pensamentos também, exceto, a figura do homem sinistro. Ao ir até a janela de seu aposento, o pastor notou que a água do rio Dule estava grossa e que Janet estava lá lavando roupa.

Murdoch ficou observando-a e lembrou do que as pessoas do vilarejo lhe disseram sobre a sua ajudante. Os habitantes do local teimavam em dizer que a mulher já havia falecido há muito tempo e que ela nada mais era que um fantasma.

O pastor afastou os pensamentos e se culpou por estar julgando a pobre mulher desta forma. Em seguida, rezou por Janet, por ele e foi se deitar.

E assim, veio a noite de 17 de agosto de 1712, uma data sempre lembrada pelos habitantes do vilarejo. O clima estava mais quente que nos demais dias e de uma escuridão jamais vista. O sacerdote não conseguia dormir e voltou a pensar no homem misterioso e em Janet.

Neste momento, no quarto de Janet se escutou um barulho muito alto e depois um silêncio horripilante. Rapidamente, o pastor pegou uma vela e foi até o quarto de sua ajudante.

A porta estava destrancada e ao espiar dentro do aposento encontrou Janet “pendurada ao lado do antigo armário de carvalho; a cabeça para cima do ombro, os olhos arregalados, a língua saltando para fora da boca e os calcanhares trinta centímetros para cima do chão”.

Murdoch conseguiu reunir toda a sua fé e coragem para trancar o quarto de Janet e desceu as escadas da casa paroquial. O pastor não conseguia raciocinar completamente, após a cena horrível que presenciou, mas de repente, ele ouviu um barulho vindo do quarto da mulher.

Era um barulho de passos, principalmente no local em que se encontrava o corpo de Janet. O pastor não entendia como aquilo estava acontecendo, pois ele tinha acabado de trancar a porta e não havia mais ninguém na casa (ou ela achava que não havia).

O sacerdote saiu da casa paroquial e permaneceu lá fora com sua vela, mas o barulho de passos ficava cada vez mais alto e próximo. Nesta hora, Murdoch estava com medo e rezou suplicando a proteção de Deus.

O fogo da vela foi perdendo força e na porta do presbitério estava Janet. Ela estava caminhando devagar em direção ao bosque. O pastor começou a gritar para que a mulher fosse embora e neste exato momento, uma luz divina, vinda do céu “queimou” o corpo da velha mulher até o mesmo virar cinzas.

Em seguida, começou uma chuva torrencial no local e consequentemente gritos dos habitantes do povoado. Muitos acham que o tal homem misterioso habitava o corpo de Janet, bem como muitos alegaram que o viram andar pelo vilarejo até não ser mais encontrado.

Todavia, o homem que mais sofreu em Balweary foi o Pastor Murdoch que delirou por muito tempo após o ocorrido até se tornar o velho severo e solitário que é hoje.

Espero que tenham gostado e se assustado com o conto!!

🎃Um beijo e até o próximo post!!🎃

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