Resenha e análise da obra Demian, de Hermann Hesse

Capa do livro publicado pela Editora Record

Décimo nono livro do Projeto Reeducação do Imaginário que eu leio, e o primeiro que foca de forma mais densa em questões filosóficas, religiosas e a busca do ser humano, independente da fase em que se encontra da vida, pelo autoconhecimento.

SOBRE O AUTOR

Hermann Hesse nasceu em 02 de julho de 1877 na cidade de Wurtemberg, localizada no sudoeste da Alemanha. O autor descende de uma família suábia e de cunho estritamente religioso, tendo em vista seu pai ser um grande historiador religioso e sua mãe filha de um missionário. 

Diante de sua criação, a vida do autor era destinada à carreira eclesiástica, sendo educado em quatro seminários. Já jovem, trabalhou como aprendiz de relojoeiro e, mais tarde, auxiliar de livraria. Desde os 13 anos, o autor já escrevia poesia e o contato com o mundo livreiro lhe proporcionou a possibilidade de publicar em 1899 seu primeiro livro, denominado Cantos Românticos.

Em 1911 realizou a sua primeira viagem à Índia, local de nascimento de sua mãe, à procura do autoconhecimento. Em 1923, adotou a cidadania suíça e lá viveu até o seu falecimento em 1962, aos 85 anos de idade. 

Também foi na Suíça, que o autor veio a escrever O jogo das contas de vidro, livro este considerado por muitos como sua obra prima. Em 1946, o autor recebeu o Nobel de Literatura pelo conjunto de sua obra. 

SOBRE A OBRA

Escrito em 1919, ou seja, logo após a Primeira Guerra Mundial, Demian é considerado o livro que deu um grande destaque ao autor e seus escritos, bem como considerado um dos grandes livros representantes da juventude alemã daquela época.

Sobre a repercussão de Demian, trago um trecho do livro A História da Literatura Ocidental de Otto Maria Carpeaux – volume IV, página 2460:

“O Hesse de Demian é, no fundo, o mesmo adolescente de 1900; apenas, a religiosidade recalcada é agora fervor místico que se refere a Dostoievski. O romantismo converteu-se em anarquismo político de acentos humanitários, a revolta do adolescente perpétuo em profecia apocalíptica de tabula rasa: para que assuma o poder político e espiritual a nova juventude do mundo. A mocidade expressionista recebeu Demian com a mais profunda gratidão, como mensagem de saúde espiritual depois da doença da guerra.”

Demian pode ser vista como uma obra com enfoque psicanalítico da doutrina de Freud, o qual Herman Hesse era um grande estudioso, bem como, a sua abordagem se volta para a figura do protagonista Emil Sinclair em busca de uma visão mais ampla do mundo, através do rompimento com o passado e as tradições ligadas a ele, bem como com a desvinculação da zona de conforto para a busca da própria razão de ser e de existir.

O livro nos apresenta a existência de dois mundos, o denominado mundo luminoso e ideal, no qual o nosso protagonista está inserido desde a infância, até o inevitável aparecimento do denominado mundo sombrio e real, no qual ele passará a adentrar, a fim de encontrar as respostas que tanto anseia sobre si mesmo.

Há um trecho no posfácio escrito pelo tradutor Ivo Barroso que descreve muito bem sobre o que a obra se trata:

E ainda mais que uma história ou romance de educação é o relato de um processo de ‘deseducação’, ou preferindo-se, de ‘reeducação’, de laborioso apagar das pegadas que o puritanismo educacional deixa impressas na alma adolescente: a timidez, a humildade, o alheamento – e que conduzem, mais tarde, inapelavelmente à solidão e à inadaptabilidade, à surda revolta e ao amargo constrangimento.

SOBRE O ENREDO

O livro, narrado em primeira pessoa pelo nosso protagonista já adulto chamado Emil Sinclair, contará a sua história desde a infância até o início da vida adulta, com seu alistamento para a Guerra (me lembrei na hora de Hans Castorp em A Montanha Mágica, que ao final do romance também vai para Guerra).  

Quando criança, Emil foi criado, por seus pais e irmãs, em um ambiente seguro e longe das vicissitudes da vida. Até que se vê em um mundo bem diferente daquele até então conhecido.

Tudo começa a mudar devido a uma mentira para levar vantagem sobre um ato não cometido. Tal mentira é contada por nosso protagonista em um grupo de amigos que retornava da escola para suas casas. Todavia, o que Emil não tinha noção, era que essa mentira poderia o levar a arcar com consequências muito sérias. 

No ápice da tortura psicológica sofrida em razão de sua conduta (aqui, eu confesso que já estava sofrendo com a angústia que este menino estava sentindo), Emil conhece a figura enigmática de Max Demian. Um menino mais velho que nosso narrador, mas apesar da idade, o mesmo possuía uma sabedoria e maturidade muito difícil de encontrar em uma criança qualquer (em alguns casos até mesmo em adultos).

Demian resolve o dilema vivido pelo nosso protagonista (não sabemos como), e a partir daí, nós conseguimos enxergar em Demian um mentor e até mesmo a figura de um protetor para Emil, não só neste episódio, mas em vários momentos de sua vida, principalmente, nos que mais Emil precisa de ajuda para enxergar determinada situação por uma perspectiva diferente. 

Nota-se, portanto, que é profunda a conexão existente entre Emil e Demian, independentemente da distância que os dois terão em vários momentos da vida. Pois quando eles se encontram é como se não houvesse lapso temporal que os tivesse separado ou até mesmo que diminuísse tal conexão. Logo, Demian é a figura que vai ajudar Emil na formação de seu caráter.

Até mesmo durante este distanciamento entre Demian e Emil, nosso protagonista encontra em outra personagem chamada Pistórius (músico/organista na Igreja local), a figura de um mentor, isto é, a pessoa necessária para ajudar Emil em sua jornada e na sua busca por si mesmo através da religião.

Aproveito o ensejo e saliento que, nesta obra, nós encontramos a discussão de questões religiosas bem interessantes, envolvendo o misticismo e o cristianismo, como é o caso do Deus Abraxas, caracterizado como a figura de um pássaro se libertando do ovo.

Tal divindade nos mostra a dualidade existente no mundo, na qual o bem e o mal caminham juntos e até dentro de nós mesmos (tema este abordado de forma diferente em O médico e o monstro, de Stevenson).

Ademais, há a personagem de Eva, mãe de Demian, inicialmente idealizada por Sinclair em desenhos e visões, depois vista pessoalmente.

Obviamente, pararei por aqui para que você, caro leitor, tenha sua própria experiência literária com esta obra surpreendente.

SOBRE MINHA EXPERIÊNCIA DE LEITURA E A INDICAÇÃO AO PROJETO

Inicialmente, não julgue este livro pelo número de páginas nele contido, pois apesar de curto, ele é de um complexidade gritante e totalmente capaz de te tirar da sua zona de conforto.

Ressalto aqui um trecho muito bem elucidado pelo tradutor Ivo Barroso, no qual, é feito o cotejo da vida do autor e o enredo da obra: 

“De posse desses elementos, fácil nos é perceber quanto às figuras de Sinclair, Demian e Pistórius encerram do próprio Hesse, não passando de sínteses ou projeções de suas vivências. Sinclair, mais do que todos, é o êmulo real do autor: a mesma infância, o mesmo ambiente parental, a mesma inadaptabilidade ao mundo cotidiano. Demian será talvez o Hesse ideal, o que gostaria de ter sido, decisivo, homem do destino, marcado pelo sinal de Caim. Também Pistórius é um heterônimo de Hesse, organista na vida real, filho de teólogo, guia de outrem mas incapaz de encontrar o próprio caminho. Tudo indica, ainda, ter servido para o vigoroso retrato de Eva a significativa figura da própria mãe do poeta.”

Acredito que a indicação deste livro ao Projeto Reeducação do Imaginário seja apoiada na reflexão que a obra nos leva a enxergar sobre esse mundo louco em que vivemos e as incontáveis tarefas diárias que temos, as quais nos impedem de olhar para dentro de nós e nos questionar sobre as nossas atitudes e sobre o rumo da nossa própria vida. 

Por fim, indico um vídeo no Youtube do Café Literário sobre Demian através da análise literária e psicanalítica da obra.

Um beijo e até o próximo post!

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