Resenha e análise de Romeu e Julieta, de William Shakespeare

Em comemoração ao dia dos namorados, nada melhor do que falarmos sobre o casal de amantes mais conhecido da literatura, Romeu e Julieta!!

SOBRE A TRAGÉDIA E TEXTOS DE APOIO

Informo que a minha leitura da peça foi feita através da edição da Nova Fronteira de Grandes obras de Shakespeare (Box I), com organização de Liana de Camargo Leão e tradução de Barbara Heliodora.

Como textos de apoio e complementares a leitura, foram utilizados os livros Shakespeare – The Invention of the human, do crítico literário Harold Bloom (somente em inglês) e o lançamento da Editora Âyiné, Aulas sobre Shakespeare, baseado nas anotações de Alan Ansen sobre as aulas de W.H. Auden lecionadas nos anos de 1946 e 1947  na New School for Social Research de Nova York.

Provavelmente escrita entre os anos de 1595 e 1596 (segundo a ordem cronológica contida no livro de Harold Bloom) e com sua primeira edição publicada em 1597, Romeu e Julieta é considerada a tragédia mais popular de Shakespeare, tendo em vista o seu lirismo dramático (única tragédia lírica escrita pelo Bardo) e seu final trágico, no qual os jovens amantes são responsáveis por sua própria catástrofe.

SOBRE O ENREDO

A peça se passa em Verona, onde residem duas famílias, Montéquio e Capuleto, cuja convivência até então sempre foi de rivalidade e hostilidade. O lugar já não aguenta mais as brigas das duas famílias, tanto o é que o Príncipe Éscalus (de Verona) é obrigado a intervir e punir com pena de morte as famílias, caso mais intercorrências sangrentas ocorrerem.

Diante deste panorama, nas seguintes cenas, nós conheceremos mais sobre os integrantes das famílias, bem como saberemos que o jovem Páris, nobre e parente do príncipe de Verona, está muito interessado em se casar com Julieta, integrante da família Capuleto. Todavia, seu pai acha a menina ainda muito nova (Ato I – Cena II: “não completou sequer catorze anos”) e gostaria de esperar mais dois anos antes de ver a sua filha casada. 

O patriarca da família Capuleto incentiva Páris a tentar conquistar sua filha Julieta aos poucos, logo, para isso, o convida a festa que será realizada na casa da família. Enquanto isso, a Sra. Capuleto e a Ama de Julieta incentivam a jovem a ver Páris com outros olhos, já que o mesmo quer desposá-la. 

Durante esta cena, nós vemos a ingenuidade de Julieta sobre sentimentos e matrimônio  ( Ato I – Cena III: “É honra com que nunca ousei sonhar” e “Sim, se ao olhar sentir-me apaixonada. Porém mais longe eu nunca hei de ir, que o voo que a senhora consentir.”)

Já na família Montéquio, nós acompanhamos a fossa de Romeu por sua paixonite da vez, uma menina chamada Rosalina que, (Ato I – Cena I: “jurou viver casta e pura”). O primo de Romeu, Benvólio, vendo seu amigo e parente triste diante do amor não correspondido incentiva o rapaz a partir para outra, já que meninas em Verona não faltam.

Contudo, o destino e a escolha operam em conjunção nesta peça, os jovens se deparam com um criado, da casa Capuleto, o qual foi encarregado em convidar a todos de Verona para a festa que ocorrerá na casa de seu patrão. Todavia, o empregado não sabe ler e pediu ajuda para os jovens, a fim de executar a sua tarefa. Romeu ajuda o criado e ao ler a lista de convidados se depara com o nome de Rosalina nela e encontra aí sua esperança de ver a menina.

É chegada a hora da festa, na qual todos usam máscaras, Romeu se depara com a jovem Julieta e neste momento esquece de Rosalina e se apaixona rapidamente e perdidamente pela jovem Capuleto (Ato I – Cena V: “Ela é que ensina as tochas a brilhar, e no rosto da noite tem um ar de joia rara em rosto de carvão. É riqueza demais pro mundo vão. Como entre corvos pomba alva e bela entre as amigas fica essa donzela. Depois da dança, encontro o seu lugar, pra co’a mão dela  a minha abençoar. Já amei antes? Não, tenho certeza; Pois nunca havia eu visto tal beleza.”)

Durante a festa, Romeu e Julieta se beijam e descobrem que cada um pertence às famílias Montéquio e Capuleto (Ato I – Cena V: “Então ela é Capuleto? Entreguei minha vida ao inimigo. e “ Nasce o amor desse ódio que arde? Vi sem saber, ao saber era tarde. Louco parto de amor houve comigo, tenho agora de amar meu inimigo.”)

No ato II, cenas I e II, nos deparamos com a famosíssima cena da varanda, na qual os amantes declaram seus sentimentos um ao outro e resolvem se casar “Três palavras, Romeu, e boa noite. Se acaso o seu amor tem forma honrada e pensa em se casar, mande amanhã dizer, por quem buscá-lo no meu nome, onde e a que horas tem lugar o rito, e a seus pés porei tudo o que é meu, pra segui-lo, no mundo, meu senhor.”

No dia seguinte, Romeu procura Frei Lourenço e pede ao pároco para que realize seu casamento com Julieta nesta mesma data. Ao ouvir a história de amor dos jovens amantes, o Frei vê nesta união uma forma de apaziguar a rivalidade existente entre as famílias Montéquio e Capuleto (Ato II – Cena III: “ Porque sabia bem que amor tão tolo pouca vida tem. Mas vamos lá. Meu rapaz indeciso; Há razão para ajudar, sendo preciso. A união que acaba de propor pode fazer do ódio puro amor.”).

No ato III, nós acompanhamos o início do fim desta história de amor, pois Teobaldo, primo de Julieta, desafia Romeu para um duelo, contudo, o jovem amante considera Teobaldo como um novo membro de sua família e se recusa a lutar com ele. 

Vendo que Romeu não comprou a briga com Teobaldo, Mercúrio (parente do príncipe de Verona e amigo de Romeu) aceita o duelo em nome do amigo e vem a morrer pela espada do inimigo (Ato III – Cena I: “Esse fidalgo, parente do príncipe, meu amigo, levou golpe fatal por mim – a minha honra foi ferida pelo insulto de Teobaldo, meu primo, há uma hora apenas. Ah, Julieta, sua beleza me efeminou, amolecendo o aço do valor.”).

Com a morte de Mercúrio, Romeu tem seu duelo com Teobaldo que vem a ser morto durante o combate. O jovem amante é levado ao Príncipe Éscalus e o mesmo é banido de Verona (Ato III – Cena I: “E por tal crime desde já’stá banido desta terra. Eu fui tocado pelo acontecido, por vossas brigas correu sangue meu. Mas hei de dar-vos penas tão severas que havereis de cobrar a minha perda. Serei surdo a pedidos e desculpas; Não há perdão pra pranto com toda pressa, pois se for encontrado será morto. Levai o corpo. Haveis de me acatar; Perdão pra morte é o mesmo que matar.”).

Ao saber do ocorrido, Julieta se desespera com o banimento de Romeu e a morte de seu primo Teobaldo. A Ama para acalmar a jovem procura por Romeu, que está em um lugar protegido por Frei Lourenço. Ao conversar com o rapaz, a Ama informa que o mesmo deve procurar a amada e reconfortá-la antes de cumprir sua pena em Mântua.

O patriarca da família Capuleto, equivocadamente, vê na dor de Julieta o motivo para que o casamento entre ela e o jovem Páris seja celebrado na próxima quinta – feira. Todavia, enquanto o arranjo desta união é pactuado, a união da jovem Julieta com Romeu é consumada.

 No dia seguinte, após a partida de Romeu, a Sra. Capuleto informa a Julieta que a mesma se casará em breve com Páris. Julieta rejeita a ideia do matrimônio arranjado e seus pais a ameaçam de renegá-la como filha. A Ama tenta convencer Julieta de se casar com Páris, já que Romeu foi banido de Verona, mas a jovem fica ofendida com tal conselho e resolve procurar o Frei Lourenço para ajudá-la a se livrar deste casamento.

Julieta e o Frei planejam que a menina aceitará o casamento com Páris e à noite, antes do casamento, a mesma tomará um remédio capaz de simular a sua morte (Ato IV – Cena III: “Romeu, Romeu, é por você que eu bebo.”). Ao mesmo tempo, o pároco encaminhará uma carta, através de Frei João, para Romeu, a fim de que se encontre com ele e juntos se dirijam ao mausoléu dos Capuletos e despertem Julieta de seu sono, para por fim, seguirem juntos a Mântua.

Todavia, o destino novamente age contra o casal de apaixonados. A carta escrita pelo Frei Lourenço não chega ao destinatário, pois Frei João não consegue chegar a Mântua por causa da peste. Ao mesmo tempo, Romeu já sabe que sua amada foi sepultada, logo, o jovem procura um boticário e lhe pede um veneno para dar fim a sua vida ao lado do corpo de Julieta.

Ao chegar à tumba da jovem, Romeu se depara com Páris e os dois brigam culminando com a morte do jovem fidalgo. Em seguida, Romeu bebe o veneno e morre (Ato V – Cena II: “Ao meu amor! (bebe) Honesto boticário, rápida é a droga. E assim, com um beijo, eu morro.”).

Julieta acorda e é informada pelo Frei Lourenço que Páris e Romeu morreram aos seus pés. A jovem se suicida com um punhal (Ato V – Cena II: “Ah, lâmina feliz! Enferruja em meu peito, para que eu morra!”).

As famílias Capuleto e Montéquio, bem como o Príncipe de Verona se encontram na tumba de Julieta e se deparam com os três jovens mortos. Logo, Frei Lourenço conta aos presentes a história de amor dos jovens até o seu trágico desfecho. 

Com a morte de Romeu e Julieta, as famílias fazem as pazes e a peça se encerra com a fala do Príncipe Éscalus: “Mais triste história nunca aconteceu que esta, de Julieta e seu Romeu.”

ANEDOTAS DOS TEXTOS DE APOIO UTILIZADOS

Harold Bloom aduz que Romeu e Julieta é incomparável, tanto na obra de Shakespeare quanto na literatura universal. A peça é uma visão intransigente do amor mútuo que perece por seu próprio idealismo e intensidade.

Ademais, a popularidade desta tragédia é mais que justificada, tendo em vista que tudo estava contra o casal: suas famílias, seus confidentes – a Ama e o Frei Lourenço, a indiferença da natureza, os caprichos do tempo e o movimento contrário dos cosmos ao triunfo do amor. 

E é sobre a ideia de amor romântico que o livro Aulas sobre Shakespeare que o Professor W.H. Auden aborda (páginas 121 e 122): 

Na tradição literária, o amor sempre encontra obstáculos. (…) O propósito do obstáculo é claro: intensificar o desejo impedindo sua realização. Agora, o obstáculo exigido pelos amantes idealmente tem de ser insuperável. Isto é, sua união só pode ser possível por meio de suas mortes. É esse o segredo, o mistério religioso, do Amor Romântico, o mistério que é representado pelo suicídio de Romeu e Julieta.

Sobre os caprichos do tempo, conforme citado por Bloom, pode-se vislumbrar que a rapidez frenética com que os acontecimentos se desenvolvem, sendo esta de seis dias no máximo, traduzem a ideia de que Romeu e Julieta, apesar de mal se conhecerem, lutam contra o relógio para fazer com que seu amor dure para sempre. Contudo, a vontade do amor duradouro só se tornou possível com a morte do casal de amantes.

REPRESENTAÇÃO DA TRAGÉDIA NO CAMPO DAS ARTES

Cumpre ainda salientar que, a ideia do amor romântico e desencontrado dos jovens é tão fascinante que a tragédia em tela já foi adaptada para: 

Cinema: foram mais de 100 produções, sendo a primeira datada de 1908, dirigida pelo italiano Mario Caserini e as versões mais famosas de 1968, com Olivia Hussey e Leonard Whiting como protagonistas e de 1996 com Leonardo DiCaprio e Claire Danes. 

Faço aqui também a citação do musical da Broadway, West Side Story que também teve como inspiração a peça de Romeu e Julieta.

Música: Contamos com ao menos 27 composições sobre Romeu e Julieta, dentre elas de Tchaikovsky e Berlioz,  bem como a minha favorita de Gounod, composta em 1867.

Pintura: A mais famosa pintura da cena da varanda retratada por Frank Dicksee em 1884 e  O último beijo de Romeu em Julieta retratada por Francesco Hayez em 1823 foram as que eu mais gostei ao pesquisar sobre o tema. 

Literatura: A peça também serviu de inspiração para outras obras da literatura, como é o caso de Amor de perdição, do autor português Camilo Castelo Branco e Nicholas Nickleby do autor britânico e querido aqui no blog, Charles Dickens.

Por fim, deixo aqui a citação feita por Barbara Heliodora à introdução sobre a peça: Romeu e Julieta não é nem a melhor nem a mais consagrada das obras de Shakespeare, porém poucos contestarão que seja – e merecidamente – a mais amada.

Um beijo e até o próximo post!!

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