Resenha da obra Medeia, de Eurípides

Desde Édipo Rei, eu já estava com vontade de ler mais tragédias gregas, logo, para dar continuidade nesta empreitada, eu escolhi a peça Medeia, de Eurípides.

Adquiri esta edição da Editora Zahar, que conta com a tradução feita diretamente do grego por Mario da Gama Kury (tida como a tradução mais acessível em termos de linguagem e interpretação textual) e apresentação da Professora de língua e literatura grega da Universidade de São Paulo, Adriane da Silva Duarte.

Saliento que há um vídeo no Youtube sobre este livro com comentários da Professora Adriane, o qual eu recomendo dar uma olhadinha!

SOBRE O AUTOR E SOBRE A OBRA

Pouco se sabe sobre Eurípides, tendo em vista que, os dados que nós temos hoje são baseados em informações emprestadas da obra do autor em tela. Diante de tal situação, supõe-se que o tragediógrafo tenha nascido em Salamina, no mesmo dia em que os gregos bateram os persas na batalha naval de 480 a.C.

Há indícios que o autor compunha as suas peças no fundo de uma caverna e que o mesmo não obteve sucesso com seus escritos em vida como teve com eles após a sua morte, supostamente ocorrida em 406 a.C.

Contudo, apesar de pouco sabermos sobre sua vida, a sua obra foi a mais preservada da história da Antiguidade, servindo como referência sobre os poetas posteriores, tantos os cômicos quantos os trágicos.

As peças preservadas contam com a forte presença de figuras femininas, como é o caso de Antípoda de Alceste e Medeia, objeto da resenha de hoje, como também é através de seus escritos que o autor denunciava a condição da mulher na sociedade grega.

Produzida em 431 a.C., a peça sobre vingança da estrangeira contra o marido que a abandona para desposar a filha do rei, tem a honra e o ciúme como o motor dos acontecimentos, como você poderá acompanhar a seguir.

SOBRE OS TERMOS TEATRAIS

Mais uma vez, antes de falar do enredo da peça, deixo aqui alguns apontamentos sobre certos termos teatrais presentes na tragédia:

Prólogo: no antigo teatro grego, a primeira parte da tragédia, em forma de diálogo entre personagens ou monólogo, na qual se fazia a exposição do tema da tragédia.

Párodo: no teatro grego, momento que corresponde à entrada do coro. Cada uma das passagens laterais junto ao palco, num teatro grego.

Estásimo: na antiga tragédia grega, cada uma das odes cantadas pelo coro, entre dois episódios.

Êxodo: O episódio que finaliza a tragédia, no antigo teatro grego.

Corifeu: nas antigas tragédias e comédias do teatro grego, era o chefe do coro, aquele que enunciava partes isoladas do texto e que podia dialogar com os atores.

Coro: é um grupo homogéneo, não-individualizado de artistas das peças de teatro da Grécia clássica, que comentam com uma voz coletiva a ação dramática que está a decorrer.

CONTEXTUALIZAÇÃO DA TRAGÉDIA

Nossa protagonista possui uma família muito peculiar, tendo em vista que a mesma é filha do Rei de Cólquida, neta do Deus-Sol, Helios e sobrinha da feiticeira Circe, personagem da Odisseia de Homero.

Devido ao seu conhecimento de feitiçaria, ela utiliza de seus dons para ajudar Jasão e os Argonautas na busca do velocino de ouro, o qual era mantido sobre a proteção de um dragão. Todavia, tal ajuda teve um preço muito alto, pois Medeia (já perdidamente apaixonada por Jasão), matou o seu próprio irmão para garantir a fuga de seu amado.

Logo, em virtude destes acontecimentos, Medeia e sua família (Jasão e seus dois filhos), encontram-se sem pátria, rumando assim, para a cidade de Corinto. Contudo, o que Medeia não esperava, era que o seu marido a trocasse por outra, sendo está a filha do Rei Creonte, da cidade grega de Corinto. E é deste ponto que a tragédia se inicia.

SOBRE O ENREDO

Ao ser ver abandonada por Jasão e virar motivo de piada em Corinto, Medeia toma a decisão de punir seu marido, sendo tal resolução apoiada pelo coro de mulheres coríntias. Ressalto que, o discurso com o qual Medeia consegue o apoio e simpatia do coro é totalmente convincente e feminista, como podemos ver a seguir (1º Episódio, Cena 1 – 255/285):

“Das criaturas todas que têm vida e pensam, somos nós, as mulheres, as mais sofredoras. De início, temos de comprar por alto preço o esposo e dar, assim, um dono a nosso corpo – mal ainda mais doloroso que o primeiro. Mas o maior dilema é se ele será mau ou bom, pois é vergonha para nós, mulheres, deixar o esposo (não podemos rejeitá-lo). Depois, entrando em novas leis e novo hábitos, temos de adivinhar para poder saber, sem termos aprendido em casa, como havemos de conviver com aquele que partilhará o nosso leito. Se somos bem sucedidas em nosso intento e ele aceita a convivência sem carregar o novo jugo a contragosto, então nossa existência causa até inveja; se não, será melhor morrer. Quando um marido se cansa da vida do lar, ele se afasta para esquecer o tédio de seu coração e busca amigos ou alguém de sua idade; nós, todavia, é numa criatura só que temos que fixar os olhos. Inda dizem que a casa é nossa vida, livre de perigos, enquanto eles guerreiam. Tola afirmação! Melhor seria estar três vezes em combates, com escudo e tudo, que parir uma só vez! Mas uma só linguagem não é adequada a vós e a mim.

Nota-se que, em um primeiro momento, Medeia nos é apresentada como uma mulher digna de piedade e seu ex-marido como um ser egoísta e traidor da família. Contudo, seus serviçais, sendo estes, a Ama e o Preceptor das crianças temem pela prole, dado o ânimo selvagem da mãe.

O Rei Creonte chega a morada de Medeia para lhe informar que, tanto ela, como seus filhos devem sair de Corinto e partir para o exílio imediatamente. Tal atitude de Creonte encontra respaldo no receio que o mesmo tem de que Medeia possa vir a atentar contra a vida de sua filha (noiva de Jasão) e dele mesmo.

Mas Medeia, além de feiticeira, se mostra muito persuasiva, já que através de uma amabilidade fingida implora ao Rei para que ela e seus filhos possam ficar em Corinto. Creonte não altera o seu posicionamento e Medeia lhe pede ao menos mais um dia na cidade antes de partir, o lhe é concedido.

Conseguido o prazo, a nossa protagonista articula a sua vingança, cujo modus operandi será a morte de seus inimigos por meio de venenos.

Antes de partir para o exílio, Jasão procura Medeia com o único e exclusivo objetivo de repreendê-la por seu gênio, responsabilizando-a pelo próprio exílio. Além disso, o digníssimo ainda teve a cara de pau de eximir-se de culpa, argumentando que tudo que fizera visava ao bem de seus filhos e dela.

Diante da hipocrisia do ex-marido, Medeia o chama de egoísta e ingrato, pois foi ao lado dela e por ela que o mesmo conquistou o que possui hoje, às custas de laços familiares e de um lar. Mesmo assim, Jasão insiste em alegar que a ex-mulher é ciumenta, e Medeia o chama de ambicioso. A lavação de roupa suja termina com a total impossibilidade de reconciliação do ex-casal.

Medeia, mesmo tramando a sua vingança, ainda teme por seu futuro, pois não sabe para onde ir em seu exílio, até que se depara com o Rei Egeu, o qual estava de passagem por Corinto. O nobre vinha da cidade de Delfos, onde fora saber de Apolo como fazer para ter filhos, pois, apesar de casado, ainda não os tivera.

Logo, nossa protagonista que não perde nenhuma oportunidade, vê nesse encontro a garantia de acolhida após a execução de sua vingança. Assim, promete a Egeu que, caso a receba em Atenas em seu exílio, garantirá sua descendência por meio do conhecimento que detém das drogas. O Rei aceita o acordo proposto por Medeia e segue a sua viagem.

Com o exílio garantido, Medeia coloca em prática seu plano de vingança, cujo início consiste em enganar Jasão, fingindo arrependimento por tudo o que foi dito e submissão as vontades do ex-marido.

Além disso, nossa protagonista suplicará para que Jasão interceda pelos filhos junto à princesa, sua noiva. Para isso, Medeia fará de seus filhos, portadores de presentes para a nova mulher do pai, todavia, tais presentes estão envenenados e ao serem usados custarão a vida de sua adversária e provocará a fúria de Creonte, o qual dirigirá todo o seu ódio aos filhos de Medeia.

Aqui, o coro de mulheres coríntias desaprova os planos da heroína e pede para que desista do infanticídio contra seus filhos, mas Medeia segue implacável no seu plano.

O preceptor retorna do palácio de Creonte com as crianças e informa à nossa protagonista que a princesa aceitou os presentes e concordou com a permanência dos filhos de Jasão em Corinto.

Neste momento, Medeia fica atordoada e hesitante quanto à decisão a tomar: deve ela poupar a vida dos filhos e fugir com eles de Corinto ou matá-los para punir Jasão e evitar a chacota dos inimigos?

Mas, a sede por limpar a sua honra e continuar com a sua vingança fala mais alto e Medeia decide matar os seus próprios filhos, para que a sua prole não venha a perecer pelas mãos de outros.

Neste meio tempo, um mensageiro traz a notícia da morte de Creonte e sua filha e aconselha Medeia a fugir o mais rápido possível (faço a ressalva que a morte dos dois é horrível e que a nossa protagonista não estava para brincadeira com o veneno produzido especialmente para a ocasião).

Contudo, mesmo diante da morte da noiva e do sogro de Jasão, Medeia segue com seu plano de vingança contra o ex-marido. Ouvem-se os gritos de socorro das crianças no interior da casa e Medeia mata seus filhos.

Jasão chega à morada de Medeia para tentar salvar os filhos da vingança dos parentes de Creonte e descobre que ex-mulher já os matou. Ao tentar forçar a porta para ver os corpos dos filhos, encontra Medeia no carro alado que seu avô, o Deus-Sol, enviara para sua fuga.

Jasão fica pistola e chama a ex-mulher de bárbara por tamanha monstruosidade, o que a mesma revida alegando que tal ato só ocorreu devido ao desrespeito com que ele a tratara.

De posse dos cadáveres dos filhos, Medeia se comporta como deusa, determinando o funeral da prole, seu autoexílio e o destino de Jasão. Assim, sua vitória sobre os adversários está completa.

ADAPTAÇÃO DA TRAGÉDIA NO CAMPO DAS ARTES

Pudemos verificar que Medeia é uma das personagens mais interessantes da mitologia grega. logo, devido a este interesse, a história desta protagonista já serviu de base a peça teatral composta por Chico Buarque de Holanda e Paulo Pontes, intitulada “Gota d’Água”.

Ademais, o mito também já foi tema de outras obras artísticas, como as peças de Corneille e Jean Anouilh, a ópera de Luigi Cherubini, bem como o filme Medeia, de Pier Paolo Pasolini estrelado por Maria Callas como protagonista.

Um beijo e até o próximo post!

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