FUVEST: Resumo da obra Nove noites

Capa do livro publicado pelo Companhia das Letras

Após um período de ausência devido a cursos, bloqueios criativos e férias, aqui está o resumo de mais uma obra da Fuvest!!

CONTEXTO HISTÓRICO E CULTURAL

Aqui eu ressalto atenção para perguntas interdisciplinares:

A morte do antropólogo foi durante o Estado Novo:A situação dos estrangeiros no Brasil do Estado Novo era delicada. A impressão era que estavam sob vigilância permanente. ”

A morte do antropólogo foi às vésperas da segunda guerra mundial: “Buel Quain se matou na noite de 02 de agosto de 1939 – no mesmo dia em que Albert Einsten enviou ao presidente Roosevelt a carta histórica em que alertava sobre a possibilidade da bomba atômica, três semanas antes da assinatura do pacto de não agressão entre Hitler e Stalin, o sinal verde para o início da Segunda Guerra e, para muitos, uma das maiores desilusões políticas do século XX.”

O livro foi escrito em 2001, mesmo ano do atentado de 11 de setembro nos EUA

ESTILO NARRATIVO

A obra conta com dois narradores, sendo eles Manoel Perna (o engenheiro, que na verdade era barbeiro e confidente do antropólogo) e o narrador-jornalista (o próprio autor).

Já no primeiro capítulo do livro ainda não sabemos o nome deste narrador (desconfiei do engenheiro, mas esperei os demais capítulos para ter certeza), mas já temos uma noção que a sua narrativa é referente a uma carta-testamento, sendo esta a única não entregue para as autoridades, podendo ser entregue a alguém que um dia poderá vir buscar informações sobre o seu amigo Buell Quain.

Ressalto que os capítulos narrados pelo Manoel Perna se iniciam com “Isto é para quando você vier”. O que corrobora com a ideia de que seu relato é direcionado para o leitor. Ademais, tais capítulos estão sempre em itálico e possuem uma escrita mais rebuscada e até mesmo poética.

Os capítulos escritos pelo narrador-jornalista, possuem letra padrão e nos contam, inicialmente, de onde ele tomou conhecimento da história do antropólogo (por um acaso em um artigo de jornal em 2001, no qual citava a morte de Buell Quain).

Desta curiosidade (até mesmo uma obsessão), o narrador-jornalista, procura a autora do artigo acima mencionado, para obter mais informações sobre o antropólogo. De onde desencadeia todo o processo metalinguístico ou meta-ficção.

Processo metalinguístico: processo de criação para a escrita do romance. Como jornalista, o autor teve uma vasta pesquisa de campo para a coleta dos dados necessários (viagens para Carolina e Nova York, acesso a quatro cartas escritas pelo antropólogo antes do suicídio – Ruth Benedict, Heloísa Alberto Torres, Ângelo Sampaio e Manoel Perna, bem como outras correspondências escritas pelo antropólogo durante sua vida no Brasil).

Ainda com relação a esta narrativa, nos capítulos 11 e 19, nós conhecemos mais sobre a história do próprio autor (da infância – 1970 até a fase adulta – até 2001), como se através desta digressão, o narrador também se tornasse personagem do livro.

Ademais, o livro possui fotos (do próprio Buell Quain, da equipe de antropólogos e do autor aos seis anos de idade com um indígena no Xingu).

Por fim, o livro nos mostra a ideia da memória, isto é, devido ao lapso temporal de 62 anos é difícil saber o que de fato é verdade ou mentira, deixando muitas dúvidas ao leitor.

ENREDO

No prólogo, nós já sabemos que o protagonista da história, chamado Buell Halvor Quain (Cãmtwyon para os índios) se suicidou, aos 27 anos de idade, no dia 02 de agosto de 1939.

Antes de praticar o ato deixou sete cartas com instruções para após a sua morte, sendo uma delas endereçada ao narrador Manoel Perna, engenheiro que conviveu com o antropólogo por nove noites (daí o nome da obra), em Carolina (na fronteira com o Maranhão com o que na época ainda fazia parte de Goiás e hoje pertence ao Estado de Tocantins).

Além da carta acima citada, as demais correspondências foram endereçadas para sua orientadora, Ruth Benedict da Universidade de Columbia; a Heloísa Alberto Torres, diretora do Museu Nacional localizado no Rio de Janeiro; ao capitão Ângelo Sampaio, delegado de polícia da cidade; ao seu pai, Eric P. Quain; ao seu cunhado, Charles C. Kaiser (marido de sua irmã, Marion) e ao reverendo Thomas Young, missionário americano.

Conforme a narrativa vai seguindo, nós tomamos conhecimento da vida profissional e pessoal do antropólogo, bem como suas atitudes no final da vida, tendo em vista que com base nos relatos e até mesmo pelas cartas por ele deixadas antes do suicídio e outras, nós estávamos diante de um homem jovem, atormentado e com medo.

Aqui, eu ressalto uma passagem do capítulo 5, na qual um dos antropólogos que trabalhou com Buell Quain no Brasil cita o que o próprio antropólogo disse a ele: “Castro Faria, eu não tenho mais nada a fazer no mundo. Já vi tudo. ”

O foco principal da narrativa é a tentativa de acharmos alguma informação sobre o motivo do suicídio, mas devido ao lapso temporal do cometimento do ato (02/08/1939) a publicação da história (2001), se torna difícil encontrar uma resposta definitiva.

Saliento que, ao lermos a descrição do antropólogo, entendemos que ele já era atormentado e agia de forma ambígua antes de sua chegada ao Brasil para a pesquisa de campo com os índios (inicialmente com os índios Karajá, mas mudou de planos ao chegar no Rio de Janeiro, pretendendo estudar os índios Trumai, que era uma tribo em extinção)

Relatos de pessoas que conviveram com ele, inclusive o narrador Manoel e os índios, informaram que ele ficava transtornado quando recebia cartas de seus familiares, devido ao processo de divórcio de seus pais, uma suposta traição de sua mulher (apesar de não ser casado) com o seu cunhado.

Há também relatos, da sua professora da Universidade de Columbia e da diretora do Museu Nacional que o seu transtorno era ligado a uma doença contagiosa, inclusive, nas cartas remitidas a elas, o antropólogo solicitava que as mesmas fossem desinfetadas.

Logo, no decorrer da narrativa, você como leitor, se questiona sobre a forma em que o antropólogo morreu (será que foi suicídio mesmo?), bem como se havia mais alguma carta escrita e nunca entregue as autoridades da época.

No capítulo 14, nós descobrimos quem é o sujeito da frase “isto é para quando você vier”, com base no trecho abaixo:

“Contou de uma tarde em que, voltando de uma caminhada solitária na praia, onde abandonara os colegas, deparou com a casa excepcionalmente vazia e um homem sentado na cozinha. E que, antes de poder se apresentar, o estranho, saindo da sombra, sacou uma máquina fotográfica e registrou para sempre o espanto e o desconforto do antropólogo recém-chegado de um passeio na praia, surpreendido pelo desconhecido.

E embora depois tenha se tornado amigos, por muito tempo o estranho não conseguiria tirar outra foto dele. Até irromper um dia em seu apartamento, sem avisar, decidido a fotografá-lo de qualquer jeito, depois de ter sabido que ele estava de partida para o Brasil. Queria uma lembrança do amigo antes de embarcar para a selva da América do Sul. Eu só sei que esse estranho era você. ”

Aqui, a narrativa nos dá a entender que o Buell Quain tinha algum envolvimento afetivo com alguém, uma mulher ou com o próprio fotógrafo. Todavia, não há nada concreto ou uma resposta exata sobre o assunto.

No final do livro, especificamente no capítulo 18 narrado pelo Manoel, nós temos o desfecho do que seria a oitava carta deixada pelo antropólogo (ficção), bem como a certeza que não há uma resposta certa com relação ao motivo de seu suicídio:

“O que lhe conto é uma combinação do que ele me contou e do que imaginei. Assim também, deixo-o imaginar o que nunca poderei lhe contar ou escrever. ”

Saliento, que conforme a narrativa do autor flui, nós acompanhamos alguns momentos de sua vida, como o relato de que seus pais também eram divorciados e quando era criança ele foi com seu pai para o Xingu e conheceu uma das tribos estudadas pelo antropólogo, os krahô.

Ademais, acompanhamos a sua saga na escrita deste livro, de onde surgiu a ideia para a escrita (foi de uma citação da morte do antropólogo em um artigo de jornal) até a sua viagem aos EUA em busca do filho do fotógrafo que tirou as fotos de perfil de Quain.

POSSÍVEIS QUESTÕES PARA O VESTIBULAR

A maioria das questões que eu vi sobre a obra cobraram o estilo narrativo e o nome da obra, conforme algumas respostas abaixo:

O autor Bernardo Carvalho constrói uma obra diferente e complexa, em que mistura realidade e ficção, apresentando um enigma em torno de um suicídio cujas causas serão investigadas. Porém, a verdade permanecerá ambígua.

São vários mistérios que se interligam, e adensam a narrativa, em que o leitor partilha a claustrofobia e evasão de identidade das personagens.

O título “Nove Noites” foi devido ao fato de que o personagem principal (o americano Quain – baseado em história real), antes de se suicidar, partilhou com um amigo nove noites de conversas e revelações.

MINHA EXPERIÊNCIA DE LEITURA

Não conhecia a obra e nem o autor, mas me surpreendi positivamente com a escrita, com o enredo e até mesmo com o processo criativo para a confecção da história, tendo em vista que sua origem foi através de um artigo que mencionava o suicídio do antropólogo em 1939.

Acredito que o fato de eu já estar no embalo de algumas séries investigativas como Manhunter: Unnabomber; Bandidos da TV e Gênio Diabólico, todas da disponíveis na Netflix, contribuíram para eu apreciar a leitura deste livro e querer saber o que o autor descobriu durante sua pesquisa de campo.

Por fim, deixo também a recomendação de um vídeo no YouTube, do Professor Marcelo Nunes, na qual ele explica o enredo da obra capitulo a capitulo de forma muito esclarecedora e didática.

E aí, já leu Nove Noites ou outra obra do autor Bernardo Carvalho?

Deixa nos comentários o que achou!!

Um grande beijo e até o próximo post!!!

Sessão pipoca: Novembro de 2020

Mais um mês concluído e não poderiam faltar séries e filmes, não é mesmo?!?! Confesso que novembro, as séries reinaram para mim, como eu te mostro a seguir (lembrando que todos os filmes e séries deste mês estão disponíveis na Netflix):

O Gambito da rainha

Sinopse: O Gambito da Rainha conta a história de Beth Harmon, uma menina órfã que se revela um prodígio do xadrez. Mas agora, aos 22 anos, ela precisa enfrentar seu vício para conseguir se tornar a maior jogadora do mundo. E quanto mais Beth aprimora suas habilidades no tabuleiro, mais a ideia de uma fuga lhe parece tentadora.

É uma minissérie muito bem feita, com ótimas atuações, ambientações e um roteiro impecável. Deu até vontade de aprender a jogar xadrez!! Recomendo muito!!

Nota: 5/5

The Alienist – The angel of darkness

Sinopse: Thriller psicológico dinâmico e atmosférico sobre um trio de especialistas formado pelo psiquiatra Laszlo Kreizler, o repórter jornalístico John Moore e o comissário de polícia Theodore Roosevelt, responsável por desenvolver as primeiras técnicas de psicologia e investigação para encontrar um assombroso serial killer na Era de Ouro de Nova York.

Achei o enredo da segunda temporada mais fluído e dinâmico que a anterior. As atuações continuam excelentes, principalmente do ator Daniel Bruhl como o alienista. Recomendo fortemente a série, devido as atuações e ambientação.

Nota: 4/5

The Crown – 4ª temporada

Sinopse: Filha do rei George VI, Elizabeth II sempre soube que não teria uma vida comum. Após a morte do seu pai em 1952, ela dá seus primeiros passos em direção ao trono inglês, a começar pelas audiências semanais com os primeiro-ministros. Ela assume a coroa com apenas 25 anos de idade, mas com grandes compromissos vêm grandes responsabilidades.

Eu acompanho a série desde o seu lançamento e eu achei esta a temporada com maior número de polêmicas envolvendo a família real, principalmente com relação ao casamento do Príncipe Charles e Lady Diana.

Não foi a temporada que eu mais gostei, mas as atuações e ambientações foram impecáveis como sempre, razão pela qual, eu recomendo a sessão pipoca!

Nota: 4/5

Rede de ódio

Sinopse: Um jovem passa a fazer sucesso incitando o ódio em campanhas nas redes sociais, atacando desde influenciadores virtuais a políticos renomados. O que ele não contava é que toda essa crueldade no mundo virtual cobraria seu preço no mundo real, complicando sua vida.

Um dos melhores filmes, para mim de 2020. É um filme real, cruel e mostram até onde o ser humano por ir em sua busca pela realização de seus objetivos, mesmo os mais obscuros. Recomendo muito, mais muito a sessão pipoca.

Nota: 5/5

Entrevista com o vampiro

Sinopse: São Francisco, anos 1990. Um jornalista entrevista um jovem que afirma ser vampiro, narrando suas experiências dos últimos 200 anos. Em flash-back, conhecemos Louis de Pointe du Lac, um homem que perdeu a mulher, morta durante o parto, e a vontade de viver. Com a ajuda de uma criatura da noite, Lestat de Lioncourt, ele se torna um vampiro e precisa aprender uma nova forma de vida.

É um filme ok como entretenimento e legal de ver os galãs dos anos 90 no auge!!

Nota: 2/5

The Jurassic World – Reino ameaçado

Sinopse: Três anos após o fechamento do Jurassic Park, um vulcão prestes a entrar em erupção põe em risco a vida na ilha Nublar. No local não há mais qualquer presença humana, com os dinossauros vivendo livremente. Diante da situação, é preciso tomar uma decisão: deve-se retornar à ilha para salvar os animais ou abandoná-los para uma nova extinção? Decidida a resgatá-los, Claire convoca Owen a retornar à ilha com ela.

Filme mais do mesmo, como os demais filmes da franquia. Caso você goste de dinossauros e querer se entreter, ok!!

Nota: 2/5

Resenha de O Senhor dos anéis – As duas torres

Capa do livro publicado pela Editora Harper Collins

Continuando a leitura do décimo livro da lista do Projeto Reeducação do Imaginário –  O Senhor dos anéis. No post de hoje, eu tratarei especificamente da segunda parte do livro, intitulada As duas torres.

Deixo mais uma vez a observação que este post será diferente dos demais já feitos para o projeto, pois tratarei de cada livro individualmente e farei um post em separado para falar sobre o autor e a obra, bem como a indicação da mesma ao Reeducação do Imaginário.

Por fim, deixo o convite para todos da leitura dos posts de O Hobbit e da primeira parte de O Senhor dos Anéis, A sociedade do anel.

MINHA EXPERIÊNCIA DE LEITURA DE AS DUAS TORRES

ATENÇÃO: ALERTA DE SPOILERS

A segunda parte do livro contou os feitos de toda a Comitiva após o rompimento da Sociedade do Anel, sendo esta  parte composta pelo Livro III e IV.

Iniciamos com a narrativa do arrependimento e morte de Boromir e de seu funeral em um barco entregue às Cataratas de Rauros. Faço aqui uma observação que o início da segunda parte de As duas torres é o final do filme A sociedade do anel.

Vimos também a captura de Meriadoc e Peregrin por soldados órquicos asquerosos, que os levaram rumo a Isengard, atravessando as planícies orientais de Rohan. E tivemos também a tomada de decisão de Aragorn em continuar a jornada com Legolas e Gimli ou procurar Merry e Pippin.

Achei muito legal de acompanhar a amizade de Legolas e Gimli se formando e sendo fortalecida durante a jornada de ambos.

Então surgiram os Cavaleiros de Rohan, uma tropa de ginetes liderados pelo Marechal Éomer cercou os Orques na beira da Floresta de Fangorn e os destruiu. 

Contudo, os hobbits escaparam para a mata e ali encontraram Barbárvore, o Ent, mestre secreto de Fangorn. Em sua companhia, eles testemunharam o despertar da ira do Povo das Árvores e sua marcha contra Isengard.

Enquanto isso, Aragorn e seus companheiros encontraram Éomer, que retornava da batalha. Ali, enquanto procuravam em vão pelos hobbits, reencontraram Gandalf, retornado da morte, agora como Cavaleiro Branco, porém ainda velado de cinzento.

Foi muito bacana e emocionante, assim como no filme, o retorno de Gandalf sempre que seus companheiros mais precisam de força e esperança para continuarem a sua jornada.

Com ele atravessaram Rohan até os paços do Rei Théodon da Marca, onde Gandalf curou o monarca e o resgatou dos feitiços de Língua de Cobra, seu maligno conselheiro de duas caras e aliado secreto de Saruman.

Eles cavalgaram com o rei e sua tropa contra as forças de Isengard e tomaram parte na desesperada vitória do Forte da Trombeta. Gandalf levou-os então a Isengard, e encontraram a grande fortaleza arruinada pelo Povo das Árvores, e Saruman e Língua de Cobra encurralados na torre de Orthanc.

Na negociação diante da porta, Saruman recusou-se a se arrepender, e Gandalf o depôs e quebrou seu cajado, deixando-o entregue à vigilância dos Ents. De uma alta janela, Língua de Cobra lançou uma pedra em Gandalf, mas ela não o atingiu e foi apanhada por Pippin. Ela revelou ser uma das quatro palantir sobreviventes, as pedras videntes de Númenor.

À noite, mais tarde, Peregrin não deteve ao fascínio a Pedra, razão pela qual a roubou, olhou dentro dela e lhe foi revelado a Sauron. 

O livro III terminou com a chegada de um Nazgûl sobre as planícies de Rohan, um espectro do anel cavalgando uma montaria alada, presságio de guerra iminente. Gandalf entregou a palantir a Aragorn e, levando Peregrin, partiu para Minas Tirith.

O livro IV, diferentemente do livro III, voltou-se a Frodo e Samwise, agora perdidos nas áridas colinas de Emyn Muil e como foram alcançados por Sméagol/Gollum. Aqui, veremos como Gollum é uma personagem importante do decorrer da jornada dos dois hobbits, bem como suas atitudes são ambíguas, nas quais você sente pena e repulsa.

Achei Frodo muito mais maduro neste livro, pois o hobbit domou Gollum e quase venceu sua malícia, de modo que a criatura os conduziu através dos Pântanos Mortos e das terras arruinadas até Morannon, o Portão Negro da Terra de Mordor, ao Norte.

Devido a impossibilidade de entrar pelo portão, Frodo aceita a utilização de uma entrada secreta que conhecia, qual seja, as muralhas ocidentais de Mordor, nas Montanhas de Sombra. 

Durante a jornada para lá foram apanhados por um grupo de batedores dos Homens de Gondor liderados por Faramir, irmão de Boromir. Faramir descobriu a natureza da demanda, mas resistiu à tentação à qual Boromir sucumbira e os mandou adiante para a última etapa de sua jornada, a Cirith Ungol, o Passo da Aranha, porém,  alertou-os de que era um lugar de perigo mortal e sobre seu companheiro de viagem, Gollum. 

No momento em que chegaram à encruzilhada e tomaram a trilha para a horrível cidade de Minas Morgul, uma grande escuridão emergiu de Mordor, cobrindo todas a terras. Então Sauron enviou seu primeiro exército, liderado pelo sombrio Rei dos espectros do anel, momento em que a Guerra do Anel teve seu início.

Gollum guiou os hobbits a um caminho secreto que evitava Minas Morgul, e na treva chegaram por fim a Cirith Ungol. Ali Gollum recaiu no mal e tentou traí-los, entregando-os à monstruosa guardiã do passo, Laracna. O golpe mortal de Laracna foi frustrado pelo heroísmo de Samwise, que repeliu seu ataque e a feriu.

A segunda parte termina com Frodo ferroado por Laracna, fazendo com que pensemos que o mesmo morreu, bem como com as escolhas de Samwise imaginando se a jornada deverá acabar em desastre ou se terá de abandonar o seu mestre. Por fim ele toma o Anel e tenta realizar sozinho a demanda desesperançada. 

Contudo, quando Sam está prestes a atravessar para a terra de Mordor, orques sobem de Minas Morgul e descem da torre de Cirith Ungol, que guarda o cume do passo. Oculto pelo anel, Samwise fica sabendo pela conversa dos orques que Frodo não está morto, e sim dopado. 

Persegue-os, mas é tarde demais, pois os orques levam o corpo de Frodo, descendo por um túnel que segue até o portão traseiro de sua torre. Samwise cai desfalecido diante dele, que se fecha com estrépito.

E este post termina por aqui, mas eu volto com a minha experiência de leitura de O retorno do rei.

Um beijo e até o próximo post!!

FUVEST: Resumo da obra Minha vida de menina

Capa do livro publicado pela Companhia das Letras

SOBRE A AUTORA

Helena Morley é um pseudônimo de Alice Dayrell Caldeira Brant, nascida em 28 de agosto de 1880, na cidade de Diamantina – Minas Gerais e seu falecimento foi aos noventa anos de idade em 1970, na cidade do Rio de Janeiro.

Os sobrenomes da autora vem de seus avós, assim Dayrell é seu sobrenome paterno, tendo em vista que seu avô era um médico inglês que estabeleceu morada, junto com sua família, em Diamantina para o exercício da profissão e de seu pai, no livro chamado Alexandre que trabalha no garimpo de diamantes e ouro na cidade.

O sobrenome Caldeira é materno, seu avô também era minerador e devido a atividade, conseguiu fazer sua fortuna. Já o sobrenome Brant adveio com o casamento com o seu primo Augusto Mario, no qual contraiu bodas aos vinte anos de idade.

Com o casamento, Alice foi morar no Rio de Janeiro, no qual sua vida simples foi alterada devido a ascensão social, pois seu marido era um político muito influente na época.

Aos sessenta anos de idade, a autora reencontrou os seus diários e mostrou as suas netas, a fim de apresentar as diferenças dos costumes da vida na sua época de menina para a vida, já atribulada, da época de suas netas.

Os diários fizeram tanto sucesso entre seus familiares e amigos, que Alice incentivada pelos demais, resolveu em 1942 publicar o livro Minha Vida de Menina. O livro caiu nas graças do público e críticos literários da época, devido a simplicidade de narrar fatos cotidianos da vida, dos costumes e tradições sem o uso de artifícios de invenção ou linguagem rebuscada.

SOBRE A OBRA 

(engloba contexto histórico/cultural, enredo e estilo narrativo)

Ao longo da adolescência, dos 12 anos aos 15 anos recém-completados, a autora escreveu um diário (incentivada por seu pai) sobre sua vida, de sua família, dos vizinhos e dos costumes presentes no século XIX. 

Nota-se, portanto, que o livro em tela apresenta a estrutura de um diário pessoal (não tem um enredo de começo, meio e fim), na qual descreve fatos ocorridos em Janeiro de 1893 a Dezembro de 1895, em Diamantina – MG.

Por ser um diário pessoal, nós teremos como “personagens” a própria autora e sua família composta por seus pais Alexandre e Carolina, seus irmãos Renato, Nhonhô e Luisinha, sua avó materna tão amada e querida Dona Teodora.

A família era muito simples e não vivia de luxo, pois no decorrer da narrativa você percebe que o pai de Helena nunca teve muita sorte no garimpo, razão pela qual a família passava por algumas dificuldades financeiras.

A condição era tão delicada, que não permitia que a família tivesse ajuda doméstica de empregados, na maior parte negros alforriados (já tinha sido promulgada a Lei Áurea em 13 de maio de 1888), como podemos ver no relato da menina da época. 

Logo, ela, seus irmãos e sua mãe eram responsáveis pelos afazeres de casa para sobreviver, enquanto o pai estava no garimpo e só retornava para casa aos finais de semana.

Sua avó materna é a matriarca da família, pois devido a sua situação financeira estável conseguia ajudar a todos os filhos e ainda dedicar total atenção a Helena, que era sua protegida.

A morte da avó, aos 84 anos,  em 1895 foi um dos momentos mais marcantes da narrativa, tanto é que Helena descreve que gostaria de não ter conhecido tanto a sua avó, pois só assim não sentiria tanta saudade e tristeza pela sua partida.

Além da rotina da família, a autora também descreve seu cotidiano na Escola Normal (seria o magistério ou pedagogia de hoje). Aqui fica o adendo que a profissão de professora era a única atividade possível de se obter algum rendimento para as mulheres da época.

Contudo, Helena não era muito de estudar, sempre passava de ano no sufoco e trocava os estudos pela possibilidade de se sentir livre e de aproveitar a vida ao máximo brincando.

Na época de férias escolares, a família vai para Boa Vista (região rural da cidade de Diamantina), local em que o pai de Helena trabalhava. Era uma forma da família ficar mais perto do pai também.

Além de Boa Vista, a história também se passa na chácara da avó materna de Helena, um lugar muito grande e com uma horta muito bem cuidada e variada em seu cultivo. O local é o ponto de encontro de todos os filhos e primos, logo, a alegria é garantida.

POSSÍVEIS QUESTÕES PARA O VESTIBULAR

Acredito que este livro poderá ser cobrado de forma intertextual ou até como comparação da vida no século XIX com o estilo de vida dos dias atuais, lógico sempre levando em conta o bom senso (é o que esperamos, no mínimo das bancas):

  • Questões como o racismo (o tratamento inferior aos negros em comparação com os brancos, mesmo após a aboliação da escravidão no país);
  • Questões sobre o papel da mulher na sociedade daquela época (principalmente com relação ao casamento e até da dependência financeira dos maridos) ou até mesmo da evolução do papel da mulher na sociedade,
  • A política também poderá ser cobrada como fonte de comparação com os dias atuais. Há até uma passagem no livro que fala sobre o voto de cabresto, podendo até ser cobrada de forma intertextual com a disciplina de História.

MINHA EXPERIÊNCIA DE LEITURA

Confesso que nunca tinha ouvido falar na autora e nem em sua obra, tanto na época da escola, bem como hoje até a realização do Projeto Fuvest aqui no blog. Mas, para a minha surpresa, eu posso afirmar que eu adorei o livro.

A leveza na narrativa torna a obra agradável de ser lida e apreciada. A felicidade descrita, mesmo com todos os trabalhos domésticos que precisam ser feitos para a sobrevivência e das adversidades não impediram de você, como leitor, se sentir feliz pela narradora, uma menina estonteante que conseguia aproveitar a sua vida ao máximo.

Indico muito a leitura deste livro para quem está a procura de leveza, alegria e vontade de ver a vida sendo vivida e apreciada de um forma simples e linda de se acompanhar.

Um beijo e até o próximo post!!!

FUVEST: Resumo da obra Sagarana

Capa do livro publicado pela Global Editora

SOBRE O AUTOR

João Guimarães Rosa nasceu em Cordisburgo – MG, em 1908. Dono de uma educação excepcional, sendo formado em Medicina e tendo trabalhado como Diplomata, além de ser um grande conhecedor da língua portuguesa e de outros idiomas. 

Sua paixão pelo aprendizado era tamanha que ele aprendeu o francês com a ajuda de um padre de sua cidade natal. Com a carreira de diplomata, Guimarães aprimorou o seu conhecimento em novas línguas, na qual ao falecer em 1967, o autor falava fluentemente oito línguas e compreendia mais dezesseis.

Essa gana por aprender novos idiomas se manifesta em sua obra através da criação de novas palavras, denominado neologismo.

Há um fato curioso sobre a vida do autor, pois o mesmo foi escolhido, por unanimidade, a integrar a Academia Brasileira de Letras em 1963. Todavia, Guimarães Rosa, como era muito místico e religioso, não tomou posse como um “imortal”, posto que teve uma premonição de que ao tomar posse, ele morreria. 

A protelação durou quatro anos, mas ao ser muito pressionado, o autor em 1967 tomou posse como imortal da Academia e três dias após o evento, ele morreu de enfarto fulminante.

Nota-se que este aspecto místico e repleto de neologismos permeia toda a sua produção literária, podendo ser vislumbrado em Sagarana.

CONTEXTO HISTÓRICO E CULTURAL

O autor faz parte da terceira fase do modernismo. Tal fase ainda traz temas discutidos anteriormente como questões existenciais e sociais, mas nesta fase há a potencialização destas questões através de um regionalismo universal e um olhar mais racional para o mundo em que vivemos.

Durante esta fase, o mundo passou pela Segunda Guerra Mundial, passará em seguida pelo Tribunal de Nuremberg, pela Revolução Cubana e, no Brasil, estamos no final da Era Vargas.

A terceira fase do modernismo é conhecida como a Geração de 45, esta é dividida pela poesia tradicional (neoparnasiano), representada pelo engenheiro da palavra João Cabral de Melo Neto, em sua obra-prima Morte e vida Severina e pela prosa experimental, no ponto de vista estético e da construção, como é o caso de Guimarães Rosa e Clarice Lispector. 

Esta prosa terá características como o intimismo e traços psicológicos, através do fluxo de consciência das personagens, com base nos seus medos e angústias. Além do neologismo (invenção linguística) mais ligada a obra de Guimarães Rosa.

SOBRE A OBRA E ESTILO NARRATIVO

A obra em tela foi publicada em 1946, na qual traz em seu bojo nove contos, narrados em primeira e terceira pessoa.

Insta salientar que, conforme dito anteriormente, a obra apresenta diversos neologismos, pois até o seu título possui tal característica, tendo em vista que saga (antiga língua escandinava): significa uma narrativa lendária, uma fábula e rana (advinda da língua tupi): representa aparência de; semelhante a. 

Logo, a palavra sagarana seria histórias em forma de lendas. Devido ao neologismo, o autor tem o seu próprio dicionário, denominado “O léxico de Guimarães Rosa”.

No que tange ao estilo narrativo, a obra possui:

  • regionalismo universal ou universalizante: é a narrativa ambientada em cenários e com personagens típicas do sertão mineiro (vaqueiros, jagunços, agricultores, latifundiários) de forma universal (o regionalismo é ultrapassado, ao tratar de temas que poderiam ocorrer em qualquer tipo de cenário (angústias, dualidade entre o bem e o mal, não somente no sertão) . 

Aqui faço um adendo aos vestibulandos que se faz importante a noção de dois espaços, Vidas Secas (outra obra do autor) e Sagarana. 

O sertão descrito na obra de Vidas Secas traz em seu bojo um regionalismo realista, tudo o que é narrado é específico daquele meio, o que acaba determinando o comportamento daquelas personagens (caráter mais científico).

Já em Sagarana, o regionalismo é universal, ou seja, aquele homem que está em Minas Gerais sente angústia, frustrações que ele poderia sentir em qualquer lugar, isto é, este meio não vai ser determinante para estes sentimentos como é em Vidas Secas.

  • experimentalismo linguístico: é a linguagem original, inventada (neologismos) ou recriada pela mistura de línguas ou formas regionais.
  • prosa poética: narrativas em prosa com ritmo, musicalidade (os contos possuem diversas cantigas no início de cada um, bem como decorrer de sua narrativa) e lirismo de poesia. 

ENREDO DE CADA CONTO

O burrinho pedrês 

Aqui, nós temos como personagens, o Sete de ouros (o próprio burrinho protagonista), Major Saulo, Francolim, Silvino e Badu. 

O conto tem como narrativa (em terceira pessoa) a história do burrinho velho, de propriedade do Major Saulo, já aposentado por todos e esperando a sua morte. Trata-se de uma metáfora da velhice.

Todavia, a sua aposentadoria é quebrada bem como a sua figura será lembrada para sempre (uma lenda), durante uma travessia de bois. Vários animais da fazenda do Major foram escolhidos para a tarefa, dentre eles o Sete-de-ouros que será montado por João Manico.

Durante o percurso, nós temos a figura de Raimundo, um contador de histórias que acaba animando o grupo de vaqueiros que participam da travessia. Esta jornada não foi nada fácil, pois houve chuva, tempestade e o aumento de volume do rio.

Ademais, a um outro conflito na narrativa entre dois vaqueiros Badu e Silvino. Eles tem uma rixa, pois Badu roubou a namorada de Silvino e o mesmo procura vingança, gerando uma atenção em cima dele pelos demais vaqueiros.

Se a ida foi difícil, a volta para a fazenda do Major foi pior, pois o rio estava com a sua correnteza muito forte, tornando a travessia perigosa. Os vaqueiros colocam Sete-de-ouros para ir na frente guiando os demais.

O burrinho com toda a sabedoria da idade, vai calculando os pontos mais seguros para a realização da travessia, carregando em seu lombo Badu desacordado devido a um bebedeira.

Francolim, um capataz do Major, segue atrás do burrinho e consegue junto com ele fazer a travessia. Mas os demais vaqueiros e animais são levados pelo rio e morrendo afogados.

Logo, o burrinho salva a vida de Badu e Francolim ao livrar os mesmos de um afogamento durante a travessia do rio.

A volta do marido pródigo

As personagens são Lalino Salãthiel, Maria Rita, Ramiro e Major Anacleto.

O conto nos apresenta a história humorística (narrativa em terceira pessoa) de Lalino Salãthiel, um malandro esperto, que trabalha na construção de uma rodovia que pretende ligar Belo Horizonte a São Paulo. 

O caboclo mineiro não é muito de trabalho, pois sempre chega atrasado, mais conversa do que trabalha, mas com este seu jeito sempre dá o seu jeitinho de garantir o seu emprego.

Ao pedir dinheiro emprestado a Ramiro (um espanhol que trabalha com Lalino na construção e sempre foi interessado em Maria Rita), o mesmo o empresta, desde que Maria Rita fique e Lalino nunca mais volte. 

Lalino concorda e  vende a esposa Maria Rita (uma mulher muito bonita e de causar inveja) a Ramiro para viajar ao Rio de Janeiro, a fim de se divertir com as “mulheres de revista”. 

Ao acabar com o dinheiro adquirido, o mesmo retorna a sua cidadezinha e começa a trabalhar de cabo eleitoral para o Major Anacleto. Ao se destacar nesta nova profissão, sempre com muita sagacidade e malandragem, Lalino faz de Major Anacleto vencedor na disputa política e este, como forma de agradecimento pelos serviços prestados, recupera a esposa Maria Rita para o seu colaborador e ainda expulsa os espanhóis da região.

Sarapalha

As personagens são primo Argemiro, primo Ribeiro e Luisa.

Conta a história dramática (narrativa em terceira pessoa) de Sarapalha, uma cidadezinha fantasma abandonada pelos moradores devido a um surto de malária. Aqui faço um adendo para questões de intertextualidade com biologia, devido a doença da malária.

Neste local, ainda vivem dois primos, Argemiro e Ribeiro, ambos contraíram malária, e lá ficam esperando a hora da morte com a assistência de uma velha negra e de um cachorro perdigueiro.

No decorrer de uma conversa entre os primos, nós ficamos sabendo que o Ribeiro era casado com Luísa, mas esta o abandonou por outro homem muitos anos atrás.  Com o decorrer da história, nós vemos que o primo Argemiro, ao qual Ribeiro é muito grato pelo mesmo ter ficado lá e ser sua companhia, não ficou só por isso. 

Na verdade, a sua permanência em Sarapalha é a mesma que de Primo Ribeiro, qual seja o sucídio lento e a espera do retorno de Luísa, que também era seu grande amor platônico.

Aqui nós podemos verificar que a natureza é integrada ao sofrimento das personagens, refletindo a sua tristeza, abandono e delírios. E que tais personagens, na verdade, por não terem mais nenhuma expectativa na vida, ficaram em Sarapalha para morrer (suicídio lento).

Duelo

As personagens são Turíbio Todo, Cassiano Gomes, Dona Silivana, Timpim Vinte Um.

Conta a história de vingança, estratégia e destino (narrativa em terceira pessoa), na qual Turíbio Todo, ao voltar de uma pescaria flagra sua esposa, Dona Silivana, o traindo com Cassiano Gomes. Devido a esta traição, Turíbio decide se vingar de Cassiano, todavia, o mesmo é covarde e seu rival é um militar que anda sempre armado.

Logo, a estratégia de Turíbio é fingir que não sabe de nada sobre a traição, reunir todas a suas armas e ficar de tocaia na casa de Cassiano Gomes a espera do ataque. Lá, Turíbio atira em um homem de costas, que ele pensa ser Cassiano, mas ao ver quem era ele atirou erroneamente no irmão de seu oponente.

Aqui, começa uma nova vingança, agora de Cassiano, o que dá origem ao nome do conto. Passado se meses neste clima de esconde-esconde e gato e rato. Cassiano, descobre que tem pouco tempo de vida, devido ao um problema cardíaco e resolve contratar um matador de aluguel para dar fim em Turíbio Todo.

Todavia, devido ao ataque cardíaco na cidadezinha de Mosquito, Cassiano fica acamado e não consegue encontrar o matador de aluguel a  altura. Mas, durante a sua estadia nesta cidade, ele conhece Timpim Vinte Um, um homem simples e pobre que pede ajuda a Cassiano, por causa de seu filho doente. Cassiano, ao simpatizar com Timpim ajuda o seu menino e se torna compadre do mesmo. 

Devido ao seu estado de saúde delicado, Cassiano vem a falecer, mas antes entrega todas as suas economias a Timpim para cuidar de seu filho. No decorrer destes acontecimentos, Turíbio Todo recebe uma carta de Dona Silivana informando que pode voltar para a cidade que seu maior oponente morreu.

Durante sua trajetória para a sua cidade natal, Turíbio encontra Timpim Vinte Um que vem em sua direção, há uma conversa entre os dois e já num lugar ermo da estrada, Timpim pergunta ao outro homem se ele é Turíbio Todo. Ao ter a resposta positiva a sua pergunta, ele mata Turíbio Todo devido a sua dívida de gratidão para com Cassiano Gomes.

A hora e a vez de Augusto Matraga 

O melhor conto do livro, na minha humilde opinião, tendo já sido cobrado individualmente, devido a sua importância. As personagens são Augusto Esteves, Dionóra, Mãe Quitéria, Pai Serapião, Joãozinho Bem-Bem.

Traz a história de redenção, de pecado e perdão, da dualidade entre o bem e o mal (narrativa em terceira pessoa), na qual nos apresentará Augusto Esteves (de Matraga não tinha nada) um valentão aparentemente de posses (mas em decadência devido a vida desregrada que leva), violento que não respeita sua esposa Dionória, sua filha, seus empregados, inclusive seus capangas, e nem ninguém. 

Sua vida vai do céu ao inferno e que tenta alcançar o paraíso novamente durante sua jornada de remissão de pecados. O início de sua derrocada se dá com a fuga de sua esposa e filha com outro homem que as trata bem e com respeito. 

Em seguida vem o abandono de seus empregados, especialmente de seus capangas, pois devido a decadência financeira, Augusto não honrava com os seus compromissos, razão pela qual, seus empregados estavam insatisfeitos e debandaram para o lado de seus oponente político na cidade, Major Consilva.

Diante de tais fatos, Augusto Esteves promete vingança a esposa e seus capangas. Logo, antes de se vingar da esposa, ele vai a fazenda do Major Consilva para tirar satisfação com ele e reaver os seus capangas. Todavia, Augusto não contava com a surra enorme que seus capangas deram nele como vingança por todo seu desprezo. 

O mesmo também foi marcado com ferro quente (igual marca de boi) e depois ele é levado a uma ribanceira para ser morto. Durante um momento de lucidez, Augusto tenta fugir e acaba caindo da ribanceira. Ao final do local da queda, moram um casal de idosos, Mãe Quitéria e Pai Serapião, que ao ver o corpo moribundo do homem começam a cuidar dele.

Com a recuperação, Augusto Esteves pede a ida de um padre até o casebre para se confessar de seus pecados. O padre, ao ouvir todo o relato fala para Augusto sobre a segunda chance que Deus está dando a ele e a possibilidade de fazer tudo diferente:

“Reze e trabalhe, fazendo de conta que a vida é um dia de capina com sol quente, que às vezes custa muito a passar, mas sempre passa…Cada um tem sua hora e a sua vez: você há de ter a sua.”

Após esta confissão Augusto Esteves promete a si mesmo de que irá para o céu, que a sua hora e sua vez há de chegar, nem que seja a porrete. Ele e o casal de idosos vão para outra região fazer a vida e Augusto se afasta de toda aquela vida mundana e passa a promover todo o tipo de bondade para com os outros para elevar a sua alma.

Durante este caminho de redenção, Augusto Esteves sofre ao saber da morte do seu único e fiel capanga que tentou vingar a sua morte e acabou sendo morto, que sua filha caiu na vida por causa de um caixeiro viajante. Todavia, a provação maior acontece ao passar ali na região um outro valentão e seu bando, chamado Joãozinho Bem-Bem.

Todos no vilarejo fogem do homem, menos Augusto que o convida para ficar em sua casa durante sua estada na cidade. Joãozinho se simpatiza com Augusto e vê que por trás de toda aquela bondade há também um homem valente e conhecedor de armas. 

Ao ir embora, Joãozinho Bem-Bem oferece seus serviços a Augusto, bem como o convida a fazer parte do bando dele. Augusto chega a titubear, mas continua firme no propósito de salvar a sua alma.

Passado um breve período Augusto sente que sua hora e sua vez está chegando e deixa a cidadezinha para cair no mundo esperando um sinal. Durante esta trajetória, ele chega a um povoado que está aflito por causa de Joãozinho Bem-Bem e seu bando, devido a morte de um de seus capangas por um morador deste lugar.

Como vingança a vida de seu empregado, Joãozinho resolve matar a família do assassino, já que o mesmo conseguiu fugir. Augusto Esteves é recebido por Joãozinho e convidado a ficar junto de seu bando e mais uma vez é convidado a fazer parte do time.

Augusto passa novamente pela tentação de mudar o seu rumo, mas seus pensamentos são interrompidos quando o pai, um senhor idoso, do assassino do capanga pede piedade pela vida de seus filhos jurados de morte. 

Ao não lograr êxito em sua clemência a Joãozinho Bem-Bem, o pai da família pede intercessão divina para que mande alguém para os ajudar. E neste momento, Augusto Esteves entende que sua hora e sua vez chegaram.

Augusto pede firmemente a Joãozinho que não mate a família do homem, caso contrário terá que passar por cima de seu cadáver. Joãozinho fica muito bravo com Augusto, bem como fica em alerta devido a ameaça.

E aqui, começa a luta, inicialmente com um tiroteio e a morte do bando e após uma luta de facas entre Joãozinho Bem-Bem e Augusto Esteves. Esta passagem do livro é muito impactante, pois ambos sabem que irão morrer, mas há um respeito entre eles, já que são no fundo iguais.

No fim, Joãozinho Bem-Bem vem a falecer, bem como Augusto Esteves, que morre aliviado, pois conseguiu alcançar a redenção tão almejada, tornando-se Augusto Matraga (que vem possivelmente de matraca, instrumento utilizado com muita rapidez por Augusto para atrair e matar os capangas do bando de Joãozinho Bem-Bem).

São Marcos

Conto narrado pela personagem José, logo a narrativa é em primeira pessoa, uma pessoa descrente e dono de um pensamento mais racional, científico que mora em Calango-Frito, uma cidadezinha mística e repleta de feiticeiros, dentre eles João Mangalô.

Apesar de toda a sua descrença, José conhece todas as ervas medicinais e rezas fortes, entre elas a oração de São Marcos. Durante o seu passeio pela floresta da cidade, José passa em frente da casa de João Mangalô, devido  sua falta de fé em feitiçaria, José debocha, tira sarro e provoca João Mangalô (“Ô Mangalô: negro na festa, pau na testa…”). Ao dizer isso, José acaba sendo vítima de um feitiço que o deixa completamente cego.

Como a visão não volta, José vai ficando cada vez mais desesperado, momento em que começa a recitar em voz alta a oração poderosa de São Marcos. José consegue correr pela floresta e chegar a casa de João Mangalô retornando assim a sua visão e iniciando a sua crença e reza forte (o poder das palavras) e feitiçaria.

Corpo Fechado

Narrado em primeira pessoa pelo médico da cidade, sendo esta uma das personagens do conto, bem como Manuel Fulô, Targino e Toniquinho das Pedras.

A história se passa em uma cidadezinha comandada pelos valentões do local, dentre eles o Targino. Já o nosso protagonista Manuel Fulô tem dois grandes amores em sua vida, uma mula chamada Beija-Flor e a noiva chamada Das Dor.

Durante a conversa com o médico, Manuel Fulô conta que tem uma mágoa com o feiticeiro da região, chamado Toniquinho das Pedras. O mesmo tem uma sela mexicana que Manuel é doido para comprar a sua mula Beija-Flor, mas que Toniquinho não a vende de jeito nenhum, tendo em vista que ele quer comprar a mula de Manuel para poder usar a sua sela.

No decorrer da cena, entra no bar o valentão da cidade Targino, no qual comunica a Manuel Fulô e a todos os presentes que pretende se aproveitar por um dia de Das Dor  e que se Manuel não se meter no assunto, ele (Targino) não fará nada contra ele.

Manuel Fulô não pode contar com a ajuda de ninguém, afinal quem vai se meter com o valentão da cidade não é mesmo?!?! Logo, no dia marcado, aparece Toniquinho das Pedras, que chama Manuel Fulô para uma conversa em particular. 

Ao terminar o assunto, Manuel entrega a Toniquinho a sua mula como parte de um acordo feito entre o dois, qual seja, a mula por um feitiço capaz de fechar o corpo de Manuel contra Targino.

Manuel chama Targino para o desafio, na qual aquele está munido somente de uma faquinha e este de um revólver carregado. Dado início ao duelo, Manuel escapa de todos os tiros proferidos, esfaqueia e mata Targino, se tornando o novo valentão da cidade.

Conversa de bois

Conto também narrado em primeira pessoa, mas tal narrador (Manuel Timborna) não participa diretamente da narrativa. Aqui, o narrador em conversa com outra pessoa defende que os animais conseguem se comunicar e conta a história de uma tragédia envolvendo oito bois que moviam um carro de bois.

A história se passa no trajeto que está sendo feito do sítio do Agenor Soronho, dono do carro de bois até a cidade. Este carro de bois está levando para o destino final rapadura para vender, e o corpo do pai do menino Tiãozinho para ser enterrado.

No decorrer do caminho, os bois veem que o menino está “babando água pelos olhos” de tão triste. Logo, os bois começam a conversar sobre a situação do menino que está desolado pela morte do pai, bem como revoltado com o patrão Agenor Soronho que tinha um caso amoroso com a mãe de Tiãozinho, enquanto o marido desta estava muito doente.

Os bois também não gostam de seu dono, razão pela qual, eles começam a traçar um plano de vingança contra Agenor. Ao perceber que o seu dono está adormecido no banco em cima do carro, os bois pensam que se eles derem um solavanco o Agenor poderá vir a cair na frente do carro e eles (bois) o atropelarem.

O conto termina com o carro de bois levando dois cadáveres e a imagem de que tudo o que aconteceu com Agenor Soronho não passou de um acidente. Aqui nós vemos uma espécie de fusão dos desejos do menino, devido a humilhação sofrida em vida pelo pai e dos bois devido a maus-tratos praticados pelo seu dono em busca da vingança. 

Minha gente

A narração deste conto também é em primeira pessoa, mas não sabemos o nome deste narrador. Na verdade, só tomamos conhecimento de que o mesmo é um jovem que passou anos longe do local da narrativa (uma fazenda no interior de Minas Gerais) que, ao retornar para este lugar para visitar o seu Tio Emílio e sua prima, seu primeiro amor na infância, chamada Maria Irma.

Ao chegar na fazenda do Tio e reencontrar a prima, o narrador tenta reviver este amor de infância, mas Maria Irma não corresponde a este sentimento. Na verdade, ela se esquiva do primo narrador e a todo o momento comenta com ele de uma amiga muito bonita chamada Armanda.

No decorrer da história ocorrem outras narrativas secundárias que exaltam as paisagens e tradições mineiras, mas o desfecho da história principal é o encontro entre o primo e Armanda, na qual ele se apaixona à primeira vista e vem a se casar com ela. Ao mesmo tempo, Maria Irma também se casa, mas com o ex-noivo da amiga, o moço Ramiro de Gouveia.

POSSÍVEIS QUESTÕES PARA O VESTIBULAR

As questões não cobrarão em si o enredo de cada conto, mas a ligação deles dentro da obra, razão pela qual se faz necessária a leitura do livro.

Saliento ainda que o neologismo, a narrativa dos contos se passar no sertão mineiro e a inovação ao contar as histórias (prosa experimental) também foram objeto de várias questões.

MINHA EXPERIÊNCIA DE LEITURA

Confesso que não foi um livro muito fácil de ser lido e compreendido de imediato. Inclusive, este foi o resumo e análise mais densa que eu fiz no decorrer do Projeto Fuvest, devido a extensão da obra (são nove contos) diferentes e interligados, nos quais você poderá apreciar a genialidade do autor.

Há contos que eu gostei mais do que outros, mas o meu favorito é A hora e a vez de Augusto Matraga, que eu indico fortemente a leitura pelo menos desta história.

E já fica como meta, na minha lista infindável de leituras, O grande sertão Veredas, tido como a obra prima do autor.

Já leu Sagarana? 

Conhece alguém que está para prestar vestibular ou se preparando para este exame? Indica o conteúdo aqui no blog!!!

Um beijo e até o último post do Projeto Fuvest para este ano!!

FUVEST: Resumo da obra O cortiço

O Cortiço | Editora Melhoramentos
Capa da edição publicada pela Editora Melhoramentos

SOBRE O AUTOR

Aluísio Tancredo Gonçalves de Azevedo nasceu em São Luís – Maranhão no ano de 1857, filho de portugueses sem posses, mas muito interessados em promover a cultura no Estado. Logo, a educação dada pela mãe ao autor, o incentivou a escrita, bem como a leitura.

Desde de jovem, Aluísio Azevedo já produzia seus escritos e corria atrás da publicação dos mesmos, a fim de mostrar aos leitores as mazelas do Brasil de sua época. Ao estabelecer morada no Rio de Janeiro em 1876, o autor conseguiu viver de seus escritos e da literatura.

O autor inaugura o movimento naturalista no Brasil com a publicação de “O Mulato” em 1881, tido como o primeiro romance naturalista e em 1890, o Aluísio publicou a sua obra mais conhecida, O Cortiço.

Em 1895 ingressou na diplomacia, momento em que praticamente cessa sua atividade literária. Em 1910, foi nomeado cônsul de primeira classe, no qual Buenos Aires foi seu último posto. 

Faleceu aos 56 anos e seis anos após a sua morte, a urna funerária de Aluísio Azevedo chegou a São Luís, onde o escritor foi sepultado.

CONTEXTO HISTÓRICO E CULTURAL

Para entender o romance escrito por Aluísio Azevedo é preciso não perder de vista a proposta estética do naturalismo.

Para esta escola literária, a estética não pode existir sem a fisiologia, pois segundo os naturalistas, a literatura precisa repetir, expor o que a fisiologia faz na medicina, qual seja explicar a lei que rege a vida dos organismos (desde a biologia do corpo humano até os sentimentos).

Logo, o naturalismo é uma tentativa de mostrar que os seres humanos como dependentes da fisiologia, dos caracteres hereditários, dos meios sociais, bem como da natureza, pendendo para o lado científico e levando em conta somente aspectos patológicos da vida do ser humano.

O naturalismo é uma literatura que procura mostrar como o homem é capaz de reagir ao meio de acordo com a natureza.

Diferentemente do realismo, esta escola está mais voltada para questões fisiológicas e orgânicas do homem.

SOBRE A OBRA E O ESTILO NARRATIVO

A obra é narrada em terceira pessoa (narrador onisciente e onipresente) e se passa no Rio de Janeiro, especificamente, no bairro de Botafogo.

Como o naturalismo é um movimento voltado mais para a razão e cientificismo, isto é, faz uma análise do homem e suas patologias, o narrador vê e nos mostra a degradação e promiscuidade, sendo tais características inevitáveis de todas as classes sociais. 

Ademais, as narrativas deste movimento privilegiam os ambientes coletivos, como os cortiços, pensões, hospedarias. É nesse ambiente que o autor faz a análise de suas personagens.

No que tange a sexualidade no naturalismo, a mulher é vista como dominante, no sentido fisiológico, em relação ao homem, como é o caso das personagens Rita Baiana e o português recém-chegado ao Brasil, Jerônimo. Nota-se, que desde de aquela época, há a visão da sensualidade do povo brasileiro pelo olhar do estrangeiro.

ENREDO

Ao pensar no enredo da obra, é importante o leitor visualizar que de um lado há os moradores do sobrado e do outro, os moradores do cortiço. Vale lembrar que há momentos em que teremos conflitos entres os moradores do sobrado e moradores do cortiço, principalmente com as personagens João Romão e Miranda.

João Romão era um português que trabalhou dos 13 as 25 anos em uma mercearia no bairro de Botafogo. Aos 25 anos, seu patrão (um velho português), decide voltar para Portugal e ele como forma de receber suas dívidas trabalhistas, passa a ser o novo proprietário desta mercearia. A personagem é ambicioso e no início da leitura seu maior sonho é ser rico. Logo, para isso ele irá economizar, inclusive dormindo no próprio balcão do seu estabelecimento.

Conforme a narrativa vai avançando, você percebe que João Romão é um comerciante sem escrúpulos que quer enriquecer a qualquer custo, principalmente através da exploração do proletariado, seja por Bertoleza, bem como através dos moradores do próprio cortiço.

Na frente desta mercearia, nós temos uma quitandeira chamada Bertoleza, uma escrava de aluguel, ou seja, todo mês ela manda o valor específico para o seu patrão, a fim de pagar o aluguel de sua liberdade. Logo, tudo o que ela faz é para conquistar  a tão sonhada carta de alforria (o Brasil ainda era um país escravocrata nesta época). 

É uma mulher que trabalha muito e no início do livro narra que ela era amigada (casada) com alguém, que não sabemos o nome, mas este vem a falecer logo no início da narrativa (capítulo II) puxando uma carroça muito pesada e “morrendo estrompado como uma besta”, esta é a primeira cena de zoomorfização.

Para muitos críticos literários, o cortiço é a grande personagem da narrativa, tendo em vista que este passa por um processo de personificação. O cortiço nasce com a compra de um grande terreno feita por João Romão ao lado da mercearia. 

Com a morte do marido de Bertoleza e esta ficando amigada de João Romão, ela o ajuda a roubar os materiais de construção das obras ao redor do terreno para construir as primeiras casinhas do cortiço, tendo em vista que o mesmo a ajudou a conseguir a sua carta de alforria, todavia, mal sabia ela que tal documento era falso e que todo o seu dinheiro ficou com João Romão.

Ao lado deste cortiço, nós temos o sobrado de Miranda, um comerciante português casado com Estela e pai de Zulmira. Eles moravam no centro do Rio de Janeiro e decidem se mudar para o bairro de Botafogo. Oficialmente, a mudança se deu pois o clima do bairro iria fazer bem a Zulmira, mas a verdade era que Miranda queria afastar sua esposa de seus amantes.

Nota-se que, o sobrado do Miranda representa a burguesia e o cortiço representa o proletariado. É através do cortiço que João Romão ascende economicamente.

Sobre a zoomorfização, um dos momentos mais evidentes é no Capítulo XIII em que nós temos o despertar do cortiço:

“Daí a pouco, em volta das bicas era um zum-zum crescente; uma aglomeração tumultuosa de machos e fêmeas. Uns, após outros, lavavam a cara, incomodamente, debaixo do fio de água que escorria da altura de cinco palmos. O chão inundava-se. As mulheres precisavam já prender as saias entre as coxas para não as molhar; via-se-lhes a tostada nudez dos braços e do pescoço, que elas despiam, suspendendo o cabelo todo para o alto do casco; os homens, esses não se preocupavam em não molhar o pelo, ao contrário metiam a cabeça bem debaixo da água e esfregavam com força as ventas e as barbas, fossando e fungando contra as palmas da mão. As portas das latrinas não descansavam, era um abrir e fechar de cada instante, ainda amarrando as calças ou as saias; as crianças não se davam ao trabalho de lá ir, despachavam-se ali mesmo, no capinzal dos fundos, por detrás da estalagem ou no recanto das hortas.

Dentre as personagens de destaque na obra, nós temos o português Jerônimo e sua esposa, Piedade. Jerônimo é contratado por João Romão para trabalhar na pedreira no fundo do cortiço, como cavouqueiro (aquele que quebra a pedra). 

Logo na sequência, chega ao cortiço uma figura emblemática da narrativa, Rita Baiana, uma mulata bonita, sensual e envolvente que acaba fazendo com que Jerônimo fique louco por ela.

Devido a esta paixão, Jerônimo muda seu comportamento radicalmente, como por exemplo, antes ele tomava café, agora toma pinga; antes era trabalhador, agora ele é preguiçoso; antes era econômico, agora ele já gasta sem regras. Segundo o narrador, Jerônimo abrasileirou-se, o meio em que vive (cortiço) vai determinar o novo comportamento desta personagem.

Cumpre salientar que Rita Baiana tem um amante chamado Firmo, quando este percebe que Jerônimo e ela estão envolvidos, em uma roda de samba, Firmo acaba ferindo Jerônimo com uma navalha. Ao se recuperar do ferimento, Jerônimo volta com dois desejos: matar Firmo e se casar com Rita Baiana. Os dois desejos são alcançados e Jerônimo abandona Piedade para ficar com Rita.

Outra personagem que vale ressaltar é Pombinha, tida como a flor, a virgem, a menina mais pura do cortiço. Pombinha tem até um noivo, mas só poderá firmar o matrimônio pois ainda não apareceu a sua menarca. Pombinha também muda seu comportamento no decorrer da narrativa se envolvendo com a personagem Leoni e até fundando um prostíbulo no final do romance.

Ainda no que tange a João Romão, como informado, inicialmente o sonho do mesmo era ser rico e ao conseguir tal riqueza, o seu próximo desejo é conseguir o status social, casando-se com Zulmira, a filha do Miranda. 

A personagem Piedade, esposa de Jerônimo, após o abandono do marido, conhece a degradação social ao cair no alcoolismo e sendo expulsa do cortiço. Na sequência, temos Bertoleza, como João Romão quer se casar com Zulmira, ele precisa se livrar de sua amante, logo, o seu plano é reencontrar os antigos donos de Bertoleza e devolvê-la já que sua carta de alforria era falsa. 

Ao final da narrativa, Bertoleza que estava de cócoras limpando um peixe e ao perceber que o filho de seu antigo dono vem acompanhado da polícia não pensa duas vezes, com a mesma faca que ela limpa o peixe, ela a crava em seu ventre de um lado a outro. Nota-se que Bertoleza preferiu a morte do que voltar a ser escrava.

Vemos que não há amor entre as personagens do romance, somente aquela paixão desenfreada, que nasce quase sempre, de um desejo animalesco ou carnal. E, estes sentimentos sempre marcados pela doença, pelo desvio e pela degradação são sempre mais fortes que a capacidade do homem ser racional.

POSSÍVEIS QUESTÕES PARA O VESTIBULAR

As questões cobradas nos vestibulares sobre esta obra tiveram seu maior enfoque no naturalismo, ao cobrar do estudante a análise do viés naturalista através de trechos da obra.

Não vi questões voltadas para o enredo em si. Logo, caso não tenha dado tempo para ler este livro, direcione seus estudos para as características do naturalismo.

MINHA EXPERIÊNCIA DE LEITURA

Apesar da escrita fluída do autor, não foi o livro que eu mais gostei até o momento, pois eu gosto de acreditar que o ser humano é muito mais que a sua fisiologia. Mas, eu entendo a importância da obra, bem como do autor, principalmente ao movimento naturalista no Brasil.

Já leu esta obra? Se positivo, compartilha comigo nos comentários o que você achou??

Um beijo e até o próximo post!!!

Sessão Pipoca – Outubro de 2020

Vale sessão pipoca especial Halloween aqui no blog, afinal não foram só leituras sinistras que tivemos por aqui.

Ao contrário do mês passado que eu quase não assisti nada, este mês eu me empenhei para curtir o mês do horror!! 

Informo que, os dois primeiros filmes desta lista não são sobre fantasmas, rituais ou casas assombradas, mas dependendo da perspectiva que você observa, pode se ver o horror do homem sobre o homem ou de como a vida algumas vezes nos leva para caminhos sombrios e sem esperança.

Das Boot

Sinopse: O filme se passa em 1942 e  conta a história da frota de submarinos alemã que está fortemente engajada na chamada “Batalha do Atlântico” para perseguir e destruir a navegação britânica. Com melhores escoltas da classe dos contratorpedeiros, entretanto, os submarinos alemães começaram a sofrer pesadas perdas. “Das Boot” é a história da tripulação de um desses U-boat, com o filme examinando como esses submarinistas mantiveram seu profissionalismo como soldados e tentaram cumprir missões impossíveis, ao mesmo tempo em que tentavam entender e obedecer à ideologia do governo sob que eles serviram.

Este filme está disponível pelo serviço de streaming da Netflix e o que eu posso dizer é que filme incrível! Ele é longo, triste em vários momentos, com esperança em vários momentos também, mas narrado de uma forma tão fiel, tão real e cruel também que indico fortemente a sessão pipoca.

Nota: 5/5

Midsommar – O mal não espera a noite

Sinopse: Após vivenciar uma tragédia pessoal, Dani vai com o namorado Christian e um grupo de amigos até a Suécia para participar de um festival local de verão. Mas, ao invés das férias tranquilas com a qual todos sonhavam, o grupo vai se deparar com rituais bizarros de uma adoração pagã.

Este filme, disponível no Amazon Prime, foi o mais bizarro e incômodo que eu assisti até hoje, na qual a mensagem que ficou para mim no final foi nunca vá a um festival local na Suécia, pois é cilada Bino.  Não gostei do filme, sinceramente.

Nota: 0/5

Quem quer ser um milionário

Sinopse: Jamal K. Malik é um jovem que trabalha servindo chá em uma empresa de telemarketing. Sua infância foi difícil, tendo que fugir da miséria e violência para conseguir chegar ao emprego atual. Um dia ele se inscreve no popular programa de TV “Quem Quer Ser um Milionário?”. Inicialmente desacreditado, ele encontra em fatos de sua vida as respostas das perguntas feitas.

Outro filme incrível, disponível na Netflix, com um roteiro original, atuações maravilhosos que conforme a história vai sendo narrada vai te enchendo de esperança juntamente com o protagonista pela conquista do prêmio. A forma como ele sabe as respostas é cruel e triste, mas algumas vezes, a vida nos leva a caminhos que não são sempre bonitos, mas isso faz das pessoas os que elas são.

Nota: 5/5

A noiva cadáver

Sinopse: A Noiva-Cadáver se passa em um vilarejo europeu do século XIX, onde vive Victor Van Dorst , um jovem que está prestes a se casar com Victoria Everglot. Porém, acidentalmente, Victor se casa com a Noiva-Cadáver, que o leva para conhecer a Terra dos Mortos. Desejando desfazer o ocorrido para poder enfim se casar com Victoria, aos poucos Victor percebe que a Terra dos Mortos é bem mais animada do que o meio vitoriano em que nasceu e cresceu.

Lógico que para o mês do Halloween não podia faltar filme do Tim Burton né?!? Este é o filme mais fofo da lista do mês de Outubro e, apesar de sombrio, ele consegue te deixar com o coração quentinho. Recomendo muito a sessão pipoca!!

Nota: 4/5

A lenda do cavaleiro sem cabeça

Sinopse: Em 1799, uma série de crimes envolvendo inocentes acontece no pequeno vilarejo de Sleepy Hollow. Para investigar o caso é chamado o detetive nova-iorquino Ichabod Crane (Johnny Depp), um excêntrico e determinado oficial de polícia com um jeito avant-garde de solucionar crimes. Os métodos investigativos de Ichabod serão postos à prova neste caso, que envolve um ser sobrenatural que pode ser o causador de todos os crimes.

Eu já tinha assistido a este filme (disponível na Netflix e na Amazon Prime), pouco depois de seu lançamento e, eu lembro que eu tive muito medo na época (eu era mais medrosa do que eu sou hoje). Logo, ao assistir novamente por conta da minha leitura do conto que inspirou o filme, com direito a post no blog este mês, eu vi que era só uma história fantástica, dirigida por ninguém menos que Tim Burton, com uma narrativa bem diferente que a do conto que a inspirou (muito melhor a narrativa do filme, aliás) e que não me deu medo nenhum (ainda bem)!!

Nota: 3/5

Sweeney Todd

Sinopse: Benjamin Barker passou 15 anos afastado de Londres, após ser obrigado a deixar sua esposa e sua filha. Ele retorna à cidade ávido por vingança, agora usando a alcunha de Sweeney Todd. Logo ele decide ir à sua antiga barbearia, agora transformada em uma loja de fachada para vender as tortas feitas pela Sra. Lovett . Com o apoio dela Todd volta a trabalhar como barbeiro, numa sala acima da loja. Porém o grande objetivo de Todd é se vingar do juiz Turpin, que o enviou para a Austrália sob falsas acusações para que pudesse roubar sua mulher Lucy  e sua filha.

Outro filme dirigido por Tim Burton ( disponível no Globo Play), na qual eu assisti novamente por conta da leitura do livro que inspirou o filme e também com direito a post no blog este mês. A história do filme é diferente da narrada no livro, mas eu gostei de ambas, logo, a indicação vale tanto para o filme como para o livro. 

Nota: 4/5

Rebecca – A mulher inesquecível

Sinopse: Uma jovem de origem humilde se casa com um rico nobre e se muda para sua intimidadora mansão na costa da Inglaterra. Chegando lá, ela passa a viver às sombras da falecida Rebecca, a misteriosa esposa anterior de seu marido, descobrindo, aos poucos, misteriosos segredos sobre seu passado.

Achei o filme Ok como fonte de entretenimento, mas ao mesmo tempo, achei a história muito fraca e nada demais.

Nota: 2/5

SÉRIES

A maldição da mansão Bly

Sinopse: Em A Maldição da Mansão Bly, a jovem Dani Clayton (Victoria Pedretti) é contratada por Henry Wingrave (Henry Thomas) para trabalhar numa enorme e antiga mansão, cuidando de seus dois sobrinhos órfãos. Mas tudo se complica quando os irmãos Flora (Amelie Bea Smith) e Miles (Benjamin Evan Ainsworth) começam a apresentar um comportamento estranho. A história se passa na Inglaterra de 1987 e é inspirada no conto “A Volta do Parafuso” de Henry James.

Série produzida (muito bem produzida, aliás) pela Netflix  que contará os segredos por trás da Mansão Bly e de seus antigos e atuais proprietários, bem como de seus funcionários. É uma série que me deu alguns sustos, mas a história e interpretação foi tão boa, mas tão boa que até quem é medroso fica curioso em assistir a esta série.

Nota: 4/5

A maldição da residência Hill

Sinopse: Shirley (Elizabeth Reaser/Lulu Wilson), Theo (Kate Siegel/Mckenna Grace), Nell (Victoria Pedretti/Violet McGraw), Luke (Oliver Jackson-Cohen/Julian Hilliard) e Steven (Michiel Huisman/Paxton Singleton) são cinco irmãos que cresceram na mansão Hill, a casa mal-assombrada mais famosa dos Estados Unidos. Agora adultos, eles retornam ao antigo lar e são forçados a confrontar os fantasmas do passado, após o suicídio da irmã mais nova.

Lógico, que após assistir a segunda temporada da série antológica A Maldição, produzida pela Netflix, eu fiquei com vontade e muito curiosa para assistir e ler o livro que a inspirou, sendo este A maldição da casa na colina de Shirley Jackson.

O enredo dessa temporada foi muito bem trabalhado, explorado e interpretado, me deu mais sustos que a segunda temporada e eu achei a história muito mais densa que A maldição da mansão Bly. Todavia, por serem histórias diferentes em cada temporada, eu indico muito a sessão pipoca de ambas!!

Nota: 5/5

Peaky Blinders

Sinopse: Em Peaky Blinders, Thomas Shelby (Cillian Murphy) e seus irmãos retornam a Birmingham depois de servir no exército britânico durante a Primeira Guerra Mundial. Shelby e os Peaky Blinders, a gangue na qual ele é líder, controlam a cidade de Birmingham. Mas, como as ambições de Shelby se estendem para além de Birmingham, ele planeja construir o império de negócios que criou e impedir qualquer um que atrapalhar.

Voltei a assistir a série (tinha parado no segundo episódio da terceira temporada) e acho que agora a história está mostrando Thomas Shelby não mais como um bandido bonzinho, mas como o bandido ambicioso que coleciona inimigos até dentro da sua família.

Sobre a produção da série, ela é impecável e conta com excelentes atuações, principalmente do Cillian Murphy como protagonista.

Nota: 5/5

E vocês? Fizeram por aí também sessão pipoca temática??? Conta aqui nos comentários!!

Um beijo e até o próximo post!!

Resenha de Sweeney Todd – O barbeiro demoníaco da Rua Fleet

Mais um post com as leituras de Halloween aqui no blog, sobre um livro também publicado pela Editora Wish, no qual ao apoiar o projeto de financiamento no Cartase do livro A lenda do cavaleiro sem cabeça e outros contos, eu adquiri também a novela gótica Sweeney Todd. 

A edição em capa dura, páginas amareladas, diagramação super confortável,  ilustrada e lindo de ver, ler e de se ter na estante, conta com o prefácio da edição inglesa de 1850 e outro prefácio da Editora Wish escrito pela preparadora de texto Valquíria Vlad e tradução de Carolina Caires Coelho.

O livro foi originalmente publicado em 1846, em plena Londres Vitoriana, em formato de publicações periódicas, semelhantes aos folhetins, denominadas penny bloods (comercializadas entre as décadas de 1830 e 1840), na qual cada capítulo era vendido a um centavo de libra (penny) e tinham como enredo histórias de horror passadas em grandes centros urbanos, cheias de crime e sangue (blood).

Inicialmente, o consumidor deste tipo de folhetim eram adultos, mas com o passar dos anos o tipo de consumidor foi mudando e tais histórias foram sendo lidas por adolescentes. 

Em razão desta mudança, foi exigido dos escritores e editores uma adaptação do conteúdo com um tom mais aventureiro, bandidos sedutores, entre outros estilos de personagens. Logo, o produto desta adaptação foi denominado penny dreadful, comercializadas entre as décadas de 1860 e 1870.

Sobre a origem da história do Sweeney Todd, foi publicada originalmente sob o título O colar de pérolas, sendo a origem da lenda do barbeiro baseada em escritos franceses, nos quais narravam crimes cometidos por um barbeiro e uma patissière em Paris.

Com relação ao autor desta novela, o escrito tem sua autoria atribuída a Thomas Prest e James Rymer. No entanto, até hoje não se sabe qual dos dois é o verdadeiro autor, tendo em vista que na época não havia a preocupação por parte dos escritores em assinar seus textos e ambos trabalhavam para o The People’s Periodical and Family Library, periódico pelo qual Sweeney Todd foi lançado, gerando a incerteza de sua autoria.

O sucesso desta novela no século XIX foi enorme e se perpetuou após está época, o que originou adaptações para os palcos da Broadway na peça Sweeney Todd, o barbeiro demoníaco da Rua Fleet e em 2007 ganhou uma adaptação para o cinema, dirigida por Tim Burton e protagonizada por Jonny Deep, como o barbeiro e Helena Bonham Carter, como a Sra. Lovett (a patissière).

Sobre a história, diferentemente da contada no filme, é narrada em terceira pessoa, na qual nós temos o barbeiro Sweeney Todd, proprietário da Barbearia localizada na Rua Fleet, descrito como uma pessoa bem sinistra e dono de uma risada de dar medo em qualquer um.

Na verdade, quem entra em sua barbearia sozinho, nunca sai de lá e nunca é mais visto por seus parentes e conhecidos. Até o final do livro, você não sabe como tais clientes desaparecem.

Nosso barbeiro demoníaco conta com um ajudante, cujo nome é Tobias, um menino de doze anos que sofre o livro inteiro nas mãos de Sweeney Todd e cansado deste tratamento cruel resolve investigar o seu patrão, sofrendo como consequência pela sua curiosidade e importunação a ida para o manicômio do Sr. Fogg, localizado em Peckham Rye.

Concorrendo ao prêmio de pessoa mais esquisita e sinistra, nós temos a Sra. Lovett, a dona da casa de tortas mais conhecida de Londres, cujo ingrediente de tais tortas é pra lá de especial e a origem de tal ingrediente e por quem ele é fornecido, a gente só descobre ao final do livro.

Em paralelo, nós também temos a história de Johanna Oakley, filha única do oculista da cidade, que está sofrendo pela ausência de seu grande amor e noivo Mark Ingestrie, que embarcou para as Índias, a fim de conseguir um bom dinheiro para poderem se casar. Como Mark não retornou na data limite dada a Johanna, a nossa jovem corajosa estava inconsolável. 

Porém, o destino de todas as personagens acima citadas está para mudar,  com a entrada do Sr. Thornhill, amigo de Mark, na barbearia do Sr. Sweeney Todd para fazer a barba. Thornhill está com um colar de pérolas destinado a Johanna, todavia, a sua saída do estabelecimento, bem como o colar de pérolas nunca foi vista e nem narrada, até o final da história.

O mistério do livro irá sondar o desaparecimento de Thornhill e demais clientes da barbearia, como eles somem do estabelecimento sem serem vistos e, se mortos, para onde vão os corpos das vítimas?

Foi um livro muito gostoso de ler (pode até parecer mórbido, mas de fato foi bacana ler este livro), razão pela qual indico a leitura, não dá medo (dica para quem é medroso, assim como eu), com uma escrita fluída e um desfecho pra lá de macabro.

Um beijo e até o último post do mês de Halloween aqui no Magia das Palavras!!!

Resenha de A lenda do cavaleiro sem cabeça e outros contos

Para comemorar um ano do blog, nada melhor do que darmos continuidade com as leituras de Halloween não é mesmo?!?!

Logo, o post de hoje será sobre um projeto que eu apoiei do Cartase este ano e que tomou forma de uma maneira linda e impecável nas mãos da Editora Wish.

O livro reúne quatro contos escritos pelo autor, biografista, ensaísta e historiador norte-americano Washington Irwing, dentre eles o seu conto mais famoso lançado em 1820, A lenda do cavaleiro sem cabeça, no qual este ano completa duzentos anos de sua publicação.

A edição em capa dura, corte colorido, fitilho, páginas amareladas, diagramação excelente, super ilustrado e lindo de ver conta com o prefácio escrito por Oscar Nestarez, escritor e pesquisador da literatura de horror e introdução de Jim Anotsu, escritor, roteirista e tradutor.

ATENÇÃO: CONTÊM MUITOS SPOILERS

A lenda do cavaleiro sem cabeça (1820)

Em inglês o título do conto se chama The Legend of Sleep Hollow, um vilarejo que descende dos colonos holandeses originais e um lugar que permanece sob o poder de alguma espécie de encantamento, cujos moradores estão propensos a todo tipo de crenças maravilhosas, sujeitos a transes, miragens, repleto de histórias locais, lugares assombrados e superstições obscuras.

Todavia, este lugar enigmático conta com um espírito que o assombra, sendo este de um soldado hessiano, cuja cabeça foi levada por uma bala de canhão em alguma batalha anônima durante a Guerra da Independência.

Alguns historiadores da região limitam-se em dizer que o corpo do soldado está enterrado no cemitério da Igreja local, no qual o espectro cavalga até o local da batalha em busca da sua cabeça perdida.

Neste peculiar vilarejo vivia Ichabod Crane, um jovem de trinta anos, alto, extremamente delgado, de ombros estreitos e braços e pernas compridos, que tinha como objetivo instruir as crianças da região, sendo denominado como mestre-escola. 

Nossa personagem também era um grande admirador de histórias fantásticas, tendo em vista que nenhuma delas era vulgar ou monstruosa demais para ele, muito menos a lenda do cavaleiro sem cabeça. 

Todavia, independente das histórias de fantasmas, espíritos e bruxas, não há nada que o causasse maior perplexidade que uma mulher, e neste caso ela tem nome e endereço conhecidos, Katrina Van Tassel, filha única de um importante fazendeiro holandês, de dezoito anos e dona de uma beleza estonteante.

Ichabod estava decidido a conquistar a afeição de Katrina, mas contava com um rival, sendo este o rapaz robusto e de grande conhecimento e competência em equitação Abraham Brom Van Brunt, o herói da região, cuja alcunha era Brom Bones.

Logo, é de se imaginar que nosso mestre-escola tornou-se objeto de caprichosa perseguição de Brom Bones e seus amigos. Tais atos compreendiam a invasão de sua escola à noite virando o local de cabeça para baixo até a ridicularização de Ichabod na presença de sua pretendida.

Esta situação durou por um tempo, até a sorte de nosso mocinho mudar com um convite para uma festa na residência dos Van Tassel. Ichabod fez o seu melhor, desde sua vestimenta até o empréstimo do cavalo, chamado Gunpowder, do fazendeiro Hans Van Ripper para ir até o seu destino.

Durante a festa, Ichadod comeu, dançou, sendo sua parceira de dança a dona de seu coração que sorria com graça em resposta a todos os seus olhares apaixonados. Enquanto isso, Brom Bones estava em um canto sozinho do local morrendo de ciúmes da cena.

Ao final da dança, nosso querido mestre-sala foi atraído para um grupo de sábios, na qual conversavam sobre tempos antigos, histórias de guerra e, claro, histórias de fantasmas e de seu espectro favorito, o cavaleiro sem cabeça.

Conforme a festa se dissipava, nosso Ichabod ficou para trás, a fim de conversar em particular com sua pretendida, já que estava totalmente convencido que estava no caminho certo para o sucesso. Todavia, algo que, o próprio narrador não sabe, aconteceu de errado, pois o mestre-sala se retirou apressadamente bem abatido e cabisbaixo.

Foi precisamente na hora das bruxas que Ichabod fez a sua viagem de retorno para casa. A hora era tão infeliz quanto ele, já que todas as histórias de fantasmas e espíritos que ele ouvira à tarde agora se faziam mais presentes em sua memória, tendo em vista que ele se aproximava de uma parte da estrada em que muitas das cenas das histórias se haviam dado.

Nesse exato momento, um barulho ao lado da ponte chegou aos ouvidos do nosso mestre, no meio do bosque ele viu uma sombra imponente. Ichabod reuniu toda a coragem que restava e perguntou quem era. Como não obteve resposta tentou continuar firmemente seu trajeto.

Todavia, nosso professor teve companhia durante sua viagem. Era a companhia de uma figura que não tinha cabeça, mas seu horror cresceu ainda mais ao ver que a cabeça que deveria repousar sobre os ombros, era levada diante dele na maçaneta da cela.

Ichabod tentou fugir, mas o cavaleiro sem cabeça o perseguia até que o mesmo arremessou a sua cabeça em nosso professor, que não conseguiu se desvencilhar do objeto, e a cabeça encontrou o seu Crânio numa colisão horrível.

No dia seguinte ao episódio, Gunpowder foi encontrado sem sela e com as rédeas debaixo das patas junto ao portão de Hans Van Ripper, contudo, não havia sinal de Ichabod. O fazendeiro começou a ficar preocupado com a ausência do professor.

Começaram-se as buscas, na qual encontraram a sela pisoteada de terra perto da Igreja e na margem do regato, o chapéu do mestre-escola e ao lado uma abóbora despedaçada. Infelizmente, como Ichabod era solteiro e não deixou dívidas, as pessoas logo pararam de pensar nele. A escola foi para outro lugar do vilarejo e um novo pedagogo foi contratado para o exercício da função.

Muito tempo de depois dos acontecimentos anteriormente narrados, um fazendeiro de Nova York informou que Ichabod Crane estava vivo e que havia abandonado o vilarejo em parte por medo do espírito, medo de Hans Van Ripper pela sela e em outro pelo coração partido por Katrina Van Tessel.

Contudo, as velhas senhoras do campo afirmam que Ichabod foi arrebatado por meios sobrenaturais. E aí? Qual final você prefere hein?!?!?

Rip Van Winkle (1819)

Esta história se passa em um vilarejo, localizado ao pé das montanhas Kaatskill. Era um povoado de grande antiguidade, fundado por alguns colonos holandeses, no qual vivia um sujeito simples e bondoso chama Rip Van Winkle.

Nosso protagonista era um bom vizinho também, contudo era totalmente dominado pela esposa rabugenta. Todavia, o único defeito de Rip era sua aversão a todo tipo de trabalho lucrativo. 

Na verdade, nosso bom homem estava pronto para cuidar de todas as tarefas dos outros, menos das suas, como o cumprimento do dever familiar e a manutenção de sua fazenda, denominado o pedaço de terra mais mal cuidado da vizinhança.

Seus filhos eram mal cuidados e sua esposa ficava sempre muito nervosa com Rip devido ao seu temperamento um tanto quanto contemplativo da vida. Seu único aliado era seu cachorro Wolf seu companheiro de fuga do trabalho na fazenda e da fúria de sua mulher.

Rip sempre levava consigo uma arma e seu fiel companheiro para floresta e lá caminhavam. Logo, em um desses passeios, eles subiram uma dos pontos mais altos das montanhas e por lá ficou contemplando a paisagem. Como já estava ficando tarde, Rip começou a se preparar para o seu retorno, mas foi interrompido por uma voz que o chamava.

Rip percebeu uma figura estranha escalando as rochas  e ao se aproximar ficou surpreso com a aparência do estranho, que era um sujeito baixo, seu traje era à moda holandesa antiga e trazia no ombro um sólido barril cheio de bebida.

Nosso protagonista se ofereceu para ajudar o desconhecido e juntos escalaram um barranco estreito na montanha. Chegaram a uma depressão, que lembrava um pequeno anfiteatro e era habitada por um grupo de personagens de aparência peculiar.

O conteúdo do barril foi servido ao estranho grupo e Rip decidiu provar da bebida oferecida. Logo, um gole levou a outro e quando viu ele já havia caído em um sono profundo.

Ao acordar, Rip não viu mais o homem que ajudou, nem os integrantes do grupo pitoresco e muito menos a depressão em que ficou. Ao ver sua espingarda se deparou com uma arma velha e enferrujada e o seu cachorro havia desaparecido. Ao se levantar percebeu que seu corpo não era mais o mesmo, suas articulações eram rijas e desprovidas da agilidade que estava habituado.

Com certa dificuldade, ele desceu as montanhas e retornou ao vilarejo. Mas se deparou com pessoas que não conhecia, as roupas destas eram diferentes das que estava acostumado, o próprio vilarejo estava mudado, era maior e mais populoso. 

Ao encontrar o caminho para casa, se deparou com uma construção decadente e abandonada. Rip retornou ao vilarejo para encontrar alguém que conhecia, mas ao questionar o paradeiro de seus amigos soube que vários se mudaram com suas famílias ou faleceram, vendo-se então sozinho no mundo.

A se ver em total desespero perguntou aos curiosos que o cercavam se conheciam Rip Van Winkle, no qual apontaram para um rapaz encostado a uma árvore preguiçoso e tão esfarrapado quanto ele.

Em meio a este cenário conflituoso, uma jovem com seu filho no colo foi indagada pelo nosso bom senhor, pois a mesma despertou uma torrente de lembranças em Rip.

O velho perguntou a ela o nome de seu pai e na mesma hora a jovem respondeu que era Rip Van Winkle, mas que havia vinte anos que saiu de casa com seu cachorro e sua espingarda e nunca mais voltou. Logo, em seguida, Rip perguntou sobre a mãe da jovem e ela respondeu que havia falecido pouco tempo depois em um ataque de fúria contra um mascate da Nova Inglaterra.

Após a conclusão do relato e do alívio ao saber do falecimento da esposa dominadora, Rip se apresentou a jovem como seu pai e relatou tudo o que lhe aconteceu no fatídico dia em que saiu de casa e não retornou.

Alguns sempre fingiam duvidar da veracidade da história, alegando que Rip havia perdido o juízo. Todavia, os antigos moradores acreditavam totalmente no relato. Ademais, a quem disesse ser esse o sonho comum de todo marido dominado pela mulher querer tomar um gole da bebida tranquilizante de Rip Van Winkle.

O noivo espectral e a cozinha da estalagem (1819)

Foi exatamente na cozinha de uma estalagem holandesa, que o narrador tomou conhecimento da história do noivo espectral. O pano de fundo desta história fica localizado no alto de uma das montanhas Odenwald da Alta Alemanha em que ficava localizado o castelo do Barão Von Landshort.

O nobre tinha uma única filha, dona de uma beleza sem igual em toda a Alemanha e educada sob a supervisão de duas tias solteiras que dominavam todos os ramos do conhecimento necessários para a educação de uma dama.

Ao atingir a idade de dezoito anos, ocorreu uma negociação entre o Barão  e um velho nobre da Baviera para unir a dignidade de suas casas por meio do casamento dos seus filhos.

Os filhos não se conheciam, logo, foi providenciada uma grande reunião familiar para a celebração do casamento do jovem casal.

O jovem Conde Von Altenburg seguia seu rumo ao castelo do Barão e, encontrou no meio do percurso, com Herman Von Starkenfaust, um jovem companheiro de armas que havia servido com ele no Exército. Desse reencontro, os jovens contaram todas as suas aventuras passadas, bem como a notícia das núpcias do Conde.

 Aos chegarem as montanhas Odenwald, os jovens foram abordados por ladrões, no qual o conde veio a receber um ferimento mortal. Com seu último alento, o Conde pediu ao amigo que fosse imediatamente ao castelo do Barão Landshort e explicasse o motivo do descumprimento de seu compromisso com a filha do nobre.

Enquanto isso, no castelo, o jantar havia sido adiado de hora em hora devido ao não comparecimento do noivo até chegar ao ponto da refeição não ser mais postergada. Todos estavam a mesa para comer quando uma corneta vinda de fora do portão anunciou a chegada de um estranho.

Achando ser o futuro genro, o barão correu até o encontro do jovem. Herman, o fiel amigo do verdadeiro genro, tentou explicar o ocorrido, mas o nobre não quis ouvir devido ao seu êxtase e logo foram para a parte interna do castelo.

Herman, ao conhecer a noiva ficou enfeitiçado por ela, como amor à primeira vista. Contudo, em meio a toda festa, o semblante do hóspede desconhecido ganhava um aspecto cada vez mais triste e melancólico. Logo, a tristeza insondável do suposto noivo gelou com a alegria de todos os convidados.

O jovem subitamente se levantou para ir embora e, ao ser questionado pelo Barão sobre sua saída repentina o mesmo lhe respondeu que seu compromisso não era com a noiva e sim com os vermes, pois estava morto, o que o impedia de cumprir com o seu compromisso.

Ao retornar ao castelo e contar a todos o ocorrido, Barão ficou consternado e se trancou em seus aposentos. Quanto à noiva, a sua situação era inenarrável, tendo em vista que a jovem perdeu seu noivo antes de poder abraçá-lo.

Ao dirigir-se a um quarto com vista para um pequeno jardim, a jovem ficou absorta em seus pensamentos ao olhar para a lua. Porém, sua atenção foi direcionada a uma música suave vinda do jardim e no meio dele havia uma figura alta e então ela viu o Noivo Espectral.

Após uma semana do ocorrido, a jovem sumiu do castelo. Logo, uma das suas tias começou a gritar que fora o noivo espectral que havia raptado a sua sobrinha. Iniciou-se a busca pelo jovem e o consolo ao velho barão que havia perdido sua única filha.

Ao sair em busca de sua filha com os demais, o Barão foi comunicado de que uma dama foi vista se aproximando dos portões do castelo acompanhada de um homem a cavalo. Ao se deparar com os visitantes, o Barão foi surpreendido com o retorno de sua filha.

Neste momento, o mistério foi esclarecido, pois o jovem, que não era nenhum espectro, foi apresentado como Sir Herman Von Starkenfaust, no qual narrou sua aventura com o jovem conde e sua incapacidade de contar a verdade sobre o ocorrido, sendo o assunto encerrado com grande alegria, pois o genro do Barão não era um fantasma.

O diabo em Tom Walker (1824)

Este conto começa com a narrativa da história de um pirata chamado Kidd que enterrou, debaixo de uma das árvores de uma profunda enseada em Massachussetts, seu tesouro e que o Diabo além de presidir a ocultação do dinheiro também exercia a guarda do tesouro, principalmente dos adquiridos por meios ilícitos. Na verdade, a riqueza permaneceu enterrada, pois Kidd foi preso e levado à forca.

Por volta do ano de 1727, havia um sujeito avarento e mesquinho chamado Tom Walker, na qual era casado com alguém tão miserável quanto ele, a ponto de conspirarem um contra o outro. A casa do casal parecia abandonada e tinha uma péssima reputação na vizinhança assim como os donos dela. 

Em um determinado dia, Tom Walker resolveu pegar um atalho pelo pântano para voltar a sua casa. Conforme o percurso ia avançando, Tom se deu conta que a rota não foi a melhor escolha feita e resolveu parar para descansar em um antigo forte que havia no meio do caminho.

O local tinha várias lendas, mas como Tom não tinha medo disso continuou a desbravar o local até que seu cajado encontrou um crânio rachado com um machado indígena cravado bem fundo. Neste momento, Tom ouviu a voz de alguém  mandando ele não mexer naquele crânio.

Ao se deparar com o estranho, Tom viu que o mesmo tinha cabelos pretos e espessos que saltavam da cabeça em todas as direções e levava um machado no ombro. O sujeito tinha um grande par de olhos vermelhos e indagou o intruso sobre o motivo pelo qual Tom estava em seu terreno.

Tom achou aquele sujeito petulante e disse que o local pertencia ao Diácono Peabody. O estranho sujeito rebateu o argumento dizendo que aquele terreno pertencia a ele muito antes que alguém da raça de Tom ocupasse aquelas terras.

Nosso protagonista, ainda desconfiando do sujeito perguntou o seu nome e o mesmo informou que tinha vários, dentre eles Caçador, Mineiro negro, Lenhador negro e o Velho Scratch ou Diabo. Disse que era a quem os peles-vermelhas consagravam e para quem de vez em quando assava um homem por meio de um sacrifício.

E assim se deu o início de uma longa conversa e ao final com uma proposta feita pelo sujeito a Tom, dizendo que a fortuna do pirata Kidd estava enterrada em seu terreno e lhe era oferecida desde que aceitasse certas condições, das quais o narrador não tinha conhecimento.

Ao voltar para casa, Tom estava pensando na proposta feita pelo Velho Scratch e contou para a mulher sobre o encontro acima relatado. A mulher, tão avarenta e destemida como Tom foi atrás do sujeito para ver se conseguia alguma coisa também. Todavia, diferente de Tom, a esposa não caiu nas graças do sujeito e não fez nenhum acordo com ela. 

Não contente com a negativa, a esposa voltou no dia seguinte ao terreno do mineiro negro lhe oferecendo tudo o que ela tinha de valor, como bule e talheres em prata. Mas, após tal episódio, a mulher de Tom nunca mais retornou para casa.

Tom se consolou com a perda de suas posses bem como de sua mulher. Na verdade até sentiu gratidão pelo Lenhador pela gentileza feita pelo sumiço da esposa. Logo, diante da situação, ele procurou novamente o velho Scratch e com ele fez o acordo.

O acordo consistia na abertura de um escritório de empréstimos em Boston, no qual o dinheiro seria emprestado a dois por cento ao mês através da extorsão de títulos de propriedades, execução de hipotecas e até a falência dos comerciantes que recorriam a tal prática. Nota-se, portanto, que Tom se tornou o usurário do dinheiro do Diabo.

Sua fama de agiota logo se espalhou e Tom foi ficando cada vez mais rico, mais avarento e mais ambicioso pelo dinheiro. Mas, conforme envelhecia, mais ficava preocupado com o acordo feito com o mineiro negro e mais disposto a enganá-lo para se livrar de sua obrigação. Logo, nosso protagonista começou a frequentar fervorosamente a igreja.

Mesmo com toda a sua “fé”, Tom ainda tinha medo da cobrança da dívida pelo Diabo, logo sempre levava consigo uma pequena Bíblia e deixava em cima da mesa outra cópia do livro sagrado.

Até que um dia, ao encerrar a hipoteca de um especulador de terras que implorava por mais prazo e dizia que o velho Tom havia ficado mais rico a suas custas, o nosso protagonista irritado proferiu a seguinte frase: Que o diabo me carregue se eu tiver ganhado um tostão.

Consequentemente ao fato acima relatado, ouviram-se três batidas na porta do escritório e lá estava o Diabo informando a Tom que a sua hora havia chegado.

Nunca um pecador foi tão pego de surpresa, já que Tom não estava em posse de seu amuleto de proteção, a Bíblia. O velho Scratch pegou Tom e o carregou no lombo de cavalo e partiu sem nunca mais ser visto.

Tom nunca voltou para encerrar a hipoteca mencionada, logo, curadores foram nomeados para cuidar dos bens de Tom, mas ao encontrarem os títulos das propriedades, as mesmas estavam reduzidas a cinzas, razão pela qual não havia nenhum bem para administrar, sendo este o fim de Tom Walker e sua riqueza ilícita.

Agradeço a todos que me acompanharam e ainda acompanham o blog e me incentivam cada vez mais a compartilhar as minhas experiências literárias por aqui!!!

Até semana que vem com mais posts de Halloween aqui no blog!!

Resenha de O médico e o monstro – O estranho caso do Dr. Jekyll e o Sr. Hyde

Capa do livro publicado pela Editora Darkside

E com este clássico da literatura universal, nós abrimos a temporada para a leitura temática de Halloween aqui no Magia das Palavras!!!

O médico e o monstro é o vigésimo livro da lista do Projeto Reeducação do Imaginário e o primeiro contato que eu tenho com o autor escocês Robert Louis Stevenson.

SOBRE O AUTOR

Imagem do autor disponível na Edição da Darkside

Robert Louis Stevenson nasceu em 1850 na cidade de Edimburgo na Escócia. Para muitos críticos literários, seus escritos são considerados infanto-juvenis, mas em nenhum momento tal característica foi capaz de desabonar as suas obras e das mesmas serem elogiadas por vários escritores, bem como de serem adaptadas para cinemas e teatros

Devido a saúde debilitada, em 1887 o autor saiu em busca de um clima mais ameno para viver com a sua esposa Fanny Osbourne e passa a estabelecer morada nas Ilhas Samoanas, sendo este cenário o pano de fundo de alguns contos, como por exemplo A praia de Falesá, O demônio da garrafa e A ilha das vozes (todos presentes na edição da Darkside).

O autor permaneceu nas Ilhas até o final de sua vida em 1894, sendo conhecido por lá como tusitala, o contador de histórias.

SOBRE A EDIÇÃO

Mais uma vez a Editora Darkside arrasando na edição de seus livros! Este livro foi lançado em 2019 e faz parte do selo Medo Clássico, no qual apresenta ao leitor seis contos escritos pelo autor, dentre eles um de seus contos mais famosos – O médico e o monstro.

Ademais, a edição possui introdução, tradução e notas escritas por Paulo Raviere, as ilustrações mais lindas que já vi feitas por Alcimar Frazão, bem como uma galeria de fotos do autor no decorrer de sua vida, principalmente durante sua estadia nas Ilhas Samoanas.

SOBRE A OBRA

Ilustração contida no livro publicado pela Editora Darkside

ATENÇÃO: ALERTA DE SPOILER

A história é narrada pelo Dr. Utterson, advogado e amigo de longa data do médico Dr. Henry Jekyll na Londres do século XIX.

Utterson era o advogado responsável pelo testamento do Dr. Jekyll, no qual dispunha que no caso de sua morte ou “desaparecimento ou ausência inexplicável por qualquer período excedente a três meses de calendário”, todos os seus bens passariam a ser do Sr. Edward Hyde.

Utterson não ficava à vontade com o documento feito pelo amigo, pois nunca ouviu falar do benfeitor do testamento. Logo, diante dessa situação, Utterson foi até a porta da casa de Sr. Hyde e ficou à espreita esperando o seu aparecimento.

O Sr. Hyde era “um homem pequeno, se vestia de modo bastante ordinário e sua aparência afrontava com intensidade o observador”, de acordo com a visão do advogado.

Duas semanas após o encontro entre o Dr. Utterson e o Sr. Hyde, o Dr. Jekyll entra em cena através de um jantar oferecido aos seus amigos, dentre eles o advogado. Nesta ocasião, Utterson indagou Jekyll sobre o testamento e sobre seu encontro com Hyde. Jekyll não gostou das novidades e informou à Utterson que não haveria qualquer alteração no testamento e garantiu que ele poderia se livrar de Hyde quando quisesse.

Após esta cena, a história dá um salto temporal de um ano com a narrativa de um crime de ferocidade singular, qual seja a morte do cavalheiro Sr. Crew pelo Sr. Hyde.

Após o crime, Hyde fugiu e o Dr. Jekyll se isolou em seu laboratório. Todos os seus empregados ficaram preocupados com a atitude do médico e procuraram o Dr. Utterson para interceder no caso. O advogado junto ao mordomo da residência do médico forçaram a entrada no laboratório com um machado:

Bem no meio estava um corpo de homem gravemente contorcido e em convulsão. Eles se aproximaram na ponta dos pés, o viraram de costas e se depararam com o rosto de Edward Hyde. Vestia roupas grandes demais, roupas do tamanho do médico; as linhas do rosto ainda se moviam como que em sinal de vida, mas a vida se fora; e pelo frasco esmagado na mão e aquele forte odor de amêndoas que estava no ar, Utterson sabia que olhava para o corpo de alguém que dera fim a própria vida.

Chegamos tarde demais, disse ele com severidade, tanto para salvar como para punir. Hyde se foi por conta própria. E agora nos resta somente encontrar o corpo de seu patrão.

Todavia, os questionamentos não paravam por aí, tendo em vista que se Hyde estava morto, onde estaria o Dr. Jekyll??

Mais um vez, o mordomo e o advogado, saem a procura pela residência e, ao chegarem ao gabinete do médico, havia um grande envelope endereçado ao Sr. Utterson com a seguinte mensagem:

Meu caro Utterson, quando esta chegar às suas mãos, terei desaparecido, sob quais circunstâncias, não tenho condições de prever; porém meu instinto e todas as circunstâncias de minha situação inominável me dizem que o fim é certo e haverá de ser em breve. Vá então, e primeiro leia a narrativa que Lanyon me avisou que levaria às suas mãos; e caso tenha interesse em saber mais, volte à confissão de seu infeliz e desmerecedor amigo, Henry Jekyll.

Lanyon, outro amigo de longa data do médico, foi o primeiro a testemunhar a transformação do Sr. Hyde no Dr. Jekyll, após o apelo feito pelo médico para entregar alguns frascos em um determinado endereço, a fim de realizar a transformação. Após tal acontecimento, Lanyon rompeu sua relação com o amigo, pois não concordava com tal descoberta científica, bem como rechaçou de imediato o comportamento do médico.

Ao final do conto, nós temos um relato completo do experimento e transformação narrado pelo próprio Dr. Jekyll, no qual o Dr. Utterson pôde concluir sobre o desaparecimento e/ou fim de seu amigo.

SOBRE A MINHA EXPERIÊNCIA DE LEITURA E A INDICAÇÃO DA OBRA AO PROJETO REEDUCAÇÃO DO IMAGINÁRIO

O conto trata, de uma forma muito verdadeira através de uma história fantástica, a essência da natureza dual do homem, da capacidade de nos dividirmos entre o bem e o mal e a duplicidade da vida.

Pelo relato do Dr. Jekyll, ao final da narrativa, nos é mostrado que há uma linha tênue que dividirá sempre a moral e o intelectual e nos é revelado que o homem não é na verdade um, e sim dois, como se fossemos gêmeos opostos que brigassem pelo espaço de atuação incansavelmente.

Há um trecho no livro que a personagem descreve a sensação de impunidade, bem como o cometimento de um crime pelo mero prazer em atuar de forma ilícita:

Os homens antes contratavam bandidos para levar a cabo os crimes, enquanto sua própria pessoa e reputação ficavam protegidos no abrigo. Fui o primeiro a fazer isso por prazer, fui o primeiro assim capaz de passar diante dos olhos do público com enorme carga de respeitabilidade, e num instante, como estudante, arrancar os adereços e saltar de cabeça no mar da liberdade. Apenas para mim, em minha manta impenetrável, a segurança era completa.

No relato há culpa do Dr. Jekyll pelas atitudes monstruosas do Sr. Hyde, bem como há culpa e arrependimento de sua própria conivência com tais atos que o levaram a sua penitência e consequentemente ao seu fim.

Já leu este livro ou pelo menos o conto de O médico e o monstro? Compartilha sua experiência aqui comigo nos comentários!!

Um beijo e até o próximo post!!

%d blogueiros gostam disto: