FUVEST: Resumo e análise da obra Alguma Poesia, de Carlos Drummond de Andrade

Capa do livro publicado pela editora Companhia das Letras

Antes de começar a análise da obra, eu te convido a conhecer e apoiar o conteúdo criado para o blog, em especial para o Projeto Fuvest, através da minha campanha no APOIA.SE.

Segundo livro do autor lido para o Projeto Fuvest, logo, deixo o direcionamento do post da obra Claro Enigma, na qual eu abordei sobre o autor, contexto histórico e cultural, bem como estilo narrativo. Dá uma olhadinha primeiro lá e depois volta aqui!

SOBRE A OBRA

Alguma poesia foi o primeiro livro publicado por Carlos Drummond de Andrade em 1930. Nesta época, o Brasil vivia a revolução, na qual fez com que Getúlio Vargas subisse ao poder e deixava para trás os traços da tida “primeira república”.

Na seara literária, Manuel Bandeira lançava sua obra consagrada Libertinagem, Murilo Mendes publicava também seu livro Poemas e Rachel de Queiroz, nos apresentava a obra O Quinze.

Em 1930, Carlos Drummond contava com seus vinte e oito anos vividos, já não mais morava em sua cidade natal Itabira, sendo a capital Belo Horizonte sua morada.

Através de cartas trocadas entre Mario de Andrade e o autor, nós descobrimos que a ideia de “Alguma poesia” surgiu em 1924, todavia, a mesma só veio a ser publicada em 1930, isto é, na transição da primeira (1922 a 1930) para a segunda (1930 a 1945) fase do modernismo.

Nota-se que, apesar do autor de ter começado sua obra poética em 1920, o mesmo não é considerado um dos Heróis do Modernismo, como Oswald de Andrade e Mario de Andrade, sendo a este último dedicada a obra “Alguma Poesia”.

Carlos Drummond de Andrade é então, considerado um dos representantes da produção literária correspondente à segunda fase do modernismo (chamada Geração de 30), tendo em vista as características da sua escrita se assemelharem mais com esta fase.

Sobre o modernismo cumpre ter em mente que, a produção literária da época, era voltada para a busca do elemento nacional – o ethos – que representasse uma universalização da cultura brasileira.

A obra é formada por quarenta e nove poemas, o que nos mostra que o seu título “Alguma Poesia” pode ser visto como despretensioso ou até mesmo contraditório, pois ao lermos a coletânea, nós acompanhamos um lado mais denso, profundo, sensível e pessoal de Drummond.

Ressalto que tal enfoque pessoal não é tão vislumbrado nas demais obras do autor, tendo em vista que em outros poemas de sua maturidade nós identificamos mais questões políticas e sociais, como acontece em Claro Enigma, por exemplo.

Ademais, os poemas não possuem um padrão métrico costumeiro, como por exemplo no poema A rua diferente. Saliento o post aqui do blog e leitura obrigatória para Fuvest, Poemas escolhidos de Gregório de Matos, no qual eu abordo mais sobre o sistema métrico dos poemas.

Na verdade, em Alguma Poesia há uma reunião de vários estilos, desde poemas curtos/pílula como em cota zero; versos sem rima como pode ser visto no poema denominado Poesia.

Ademais, o autor em seus escritos não se utiliza de uma linguagem rebuscada, como a obra do nosso representante barroco acima citado, mas é presente o uso de uma linguagem coloquial, a abordagem de temas corriqueiros, espontâneos e com bom humor (poemas-piada), como por exemplo no poema cidadezinha qualquer.

Vislumbra-se ainda que, há alguns poemas na obra que são dedicados a amigos e contemporâneos do autor, como é o caso dos poemas Europa, França e Bahia, dedicado a Mario de Andrade e Jardim da Praça da Liberdade, dedicado a Gustavo Capanema, amigo de infância, de carreira política e de serviço público no Rio de Janeiro.

POSSÍVEIS QUESTÕES PARA O VESTIBULAR

Indico, como sempre, a leitura da obra, a fim de analisar os sentimentos do autor inseridos no poema.

Veja, nenhum vestibular irá cobrar que você decore o poema, mas sim que você entenda o contexto histórico e cultural, no qual ele foi escrito; se o poema possui características de intertextualidade (citação de outras obras dentro do poema), metalinguagem (linguagem que descreve sobre ela mesma).

Por fim, acho que quando se trata da cobrança de textos poéticos, vale a pena investir na resolução de questões. Aliás, essa é a minha dica para todas as matérias!!

SOBRE A MINHA EXPERIÊNCIA DE LEITURA

Sim…ainda continuo não sendo uma grande apreciadora de poesia e entre as duas obras exigidas na Fuvest, eu ainda fico com a obra Claro Enigma.

Todavia, minha preferência não afasta a apreciação da genialidade e leveza na escrita do autor, o que me faz entrar numa espiral na qual eu não sou uma grande fã de poesia, mas continuo lendo o gênero.

DICAS DE MAIS CONTEÚDO SOBRE A OBRA

Site: https://jornal.usp.br/cultura/em-alguma-poesia-sujeito-poetico-e-chave-para-observar-o-brasil/

Site: https://www.guiaestudo.com.br/alguma-poesia

Canal Leio, logo escrevo: https://www.youtube.com/watch?v=Xsf4ThxHQ6U

Um beijo e até o próximo post!!

FUVEST: Resumo e análise da obra Terra Sonâmbula, de Mia Couto

Capa do livro publicada pela Companhia das Letras

Nunca o nosso mundo teve ao seu dispor tanta comunicação. E nunca foi tão dramática a nossa solidão.

Nunca houve tanta estrada. E nunca nos visitamos tão pouco.

(Mia Couto) 

Antes de começar a análise da obra, eu te convido a conhecer e apoiar o conteúdo criado para o blog, em especial para o Projeto Fuvest, através da minha campanha no APOIA.SE.

SOBRE O AUTOR

Antonio Emílio Leite Couto, conhecido como Mia Couto (seu pseudônimo advém de sua paixão por gatos), nasceu no dia 05 de julho de 1955, na cidade da Beira, província de Sofala em Moçambique. 

Aos catorze anos de idade, teve alguns poemas publicados no jornal “Notícias da Beira” e após três anos, foi morar na capital de Moçambique, Lourenço Marques (atual Maputo). 

Formado em Biologia e trabalhado como jornalista, o mesmo laborou no jornal Tribuna até à destruição das suas instalações em Setembro de 1975, por colonos que se opunham à independência. Foi nomeado diretor da Agência de Informação de Moçambique (AIM) e formou ligações de correspondentes entre as províncias moçambicanas durante o tempo da guerra de libertação. Trabalhou também na revista Tempo até 1981 e continuou a carreira no jornal Notícias até 1985. 

Como escritor, o autor possui mais de trinta livros publicados, sendo seu romance Terra Sonâmbula, objeto deste conteúdo, considerado um dos dozes melhores livros africanos do Século XX.

Mia Couto recebeu inúmeros prêmios, entre eles o Camões em 2013 e o Neustadt International Prize em 2014 e é membro correspondente da Academia Brasileira de Letras.

SOBRE A OBRA E ESTILO NARRATIVO

Terra Sonâmbula é o primeiro romance de Mia Couto, sendo publicado pela primeira vez em 1992. Aclamado pela crítica, no mesmo ano da publicação, o autor recebeu o Prêmio Nacional de Ficção da Associação dos Escritores Moçambicanos.

Mia Couto faz de sua escrita uma espécie de poesia inovadora e consegue reescrever seu país de uma forma original. O autor também reinventa o português com combinações e formas de linguagem moçambicanos, usando as expressões e marcas linguísticas multiculturais presentes no imaginário de seu país, o que me lembrou muito o autor Guimarães Rosa.

A título de ilustração, cito algumas das palavras inventadas pelo autor: “sozinhidão”, “inutensílio”, “nuventanias”, entre outras. Tais invenções vocabulares não produzem apenas neologismos, mas um jogo de significados que convidam o leitor a perceber o caráter arte-fato da obra, apontando a língua como matéria. 

Insta salientar que o autor faz uso do insólito, como meio de representação do imaginário cultural popular. Através deste método, Mia Couto recria a língua portuguesa através dos mitos e histórias locais, visando a recuperação do sentido poético da vida que se esconde por trás dos anos de sofrimento em Moçambique. Logo, as produções literárias de Mia Couto transformam-se em escrita de resistência, ou seja, uma forma de sobrevivência em meio ao caos social instaurado no país.

Ademais, o autor traz em seus textos um conjunto de sentimentos através das tradições dilaceradas, a guerra, a fragmentação dos sonhos que revelam cenários de morte, tristeza, dor, sofrimento, miséria, fome, doença e o modo como os mortos governam e interferem no mundo.

CONTEXTO HISTÓRICO E CULTURAL

Devido aos problemas da guerra civil, o autor e outros escritores aderiram a uma poesia e prosa de tom engajado, como dito acima, de resistência. Dessa forma, os escritores iniciam um processo de reflexão sobre a nação e sua identidade, dialogando com a história pretérita e presente, buscando a recuperação dos valores tradicionais, assim como a relação dessa história com a modernidade.

Na obra, objeto deste resumo, o enredo circunscreve a nação moçambicana pós-independência (1964-1975 e guerra civil 1967-1992) e propõe uma crítica às identidades nacionais excludentes, bem como questiona as fronteiras culturais representadas entre o homem e a natureza; entre os vivos e os mortos; em um lugar sem fronteiras e sem limites. 

Assim, o autor passa a se preocupar mais com a estética literária e insere no contexto das narrativas, elementos que visam recuperar os sonhos que retratam a tradição e o passado moçambicano, imprimindo uma reflexão acerca da desintegração da paisagem e da identidade de Moçambique.

SOBRE O ENREDO

A obra apresenta dois planos narrativos dispostos em onze capítulos narrados em terceira e primeira pessoa, sendo estes respectivamente, Muidinga e Kindzu (através de seus cadernos). Ademais, nestes dois planos há a associação de tempos e lugares distintos.

No primeiro capítulo, nós conhecemos as seguintes personagens: Tuahir e Muidinga, um velho e uma criança, respectivamente, fugitivos do campo de deslocados e andarilhos por força da guerra que assolou o lar de ambos. 

Aqui, cito um trecho do livro, no qual nos é narrado o ambiente da estrada morta, título do primeiro capítulo e agora o lar das nossas personagens: 

Naquele lugar, a guerra tinha morto a estrada. Pelos caminhos só as hienas se arrastavam, focinhando entre cinzas e poeiras. A paisagem se mestiçara de tristezas nunca vistas, em cores que se pegavam à boca […]. E os viventes se acostumaram ao chão, em resignada aprendizagem da morte. A estrada que agora se abre a nossos olhos não se entrecruza com outra nenhuma. Está mais deitada que os séculos, suportando sozinha toda a distância

Durante a andança dos dois pela estrada morta, eles encontram um ônibus queimado, que servirá de guarida durante a noite. Perto do veículo, eles encontram um corpo baleado e com ele uma mala fechada e intacta. 

No interior da mala, há roupas, comida, papéis e cadernos. As capas destes cadernos servirão para acender uma fogueira à noite e seu conteúdo será uma história a ser contada pela nossa terceira personagem, Kindzu.

No primeiro caderno, Kindzu nos conta sobre a sua infância, a forma como seu pai Taímo, via pelos sonhos, o futuro através de mensagens dos antepassados, bem como o início da guerra em seu país:

O tempo passeava com mansas lentidões quando chegou a guerra. Meu pai dizia que era confusão vinda de fora, trazida por aqueles que tinham perdido seus privilégios. No princípio, só escutávamos as vagas novidades, acontecidas no longe. Depois, os tiroteios foram chegando mais perto e o sangue foi enchendo nossos medos. A guerra é uma cobra que usa os nossos próprios dentes para nos morder. Seu veneno circulava agora em todos os rios da nossa alma. De dia já não saíamos, de noite não sonhávamos. O sonho é o olho da vida. Nós estávamos cegos.

Além do cenário acima, Kindzu também nos conta como a guerra interferiu diretamente na relação de sua família e as visões de seu pai se intensificaram, a ponto de informar a todos que seu filho mais novo Junhito (o nome verdadeiro é Vinticinco de Junho, dia da Independência de Moçambique) iria morrer, sendo necessária à sua mudança para o galinheiro da família, a fim de enganar a morte.

Todavia, de nada adiantou a estratégia traçada pelo pai de Kindzu, pois seu irmão desapareceu, como? Não se sabe, mas tal acontecimento foi um divisor de águas para o restante da família, principalmente, no comportamento de Taímo que cada vez mais se afogava na bebida até vir a falecer.

Com o passar do tempo, os demais irmãos de Kindzu se foram só restando ele, para o desgosto de sua mãe, que vai perdendo a sanidade mental. Ademais, a guerra crescia e tirava dali a maior parte dos habitantes, sobrando as casas de cimento vazias com paredes, cheias de buracos de balas e invadidas pelos bandos.

Contudo, ainda restava um amigo a Kindzu, o dono de um empório local, o indiano Surendra Valá e sua esposa Assma. O casal era visto como forasteiro e não era bem-vindo devido a sua etnia. Contudo, ao ter sua loja queimada, o mesmo foi embora, deixando nosso narrador devastado:

Eu agora estava órfão da família e da amizade. Sem família o que somos? Menos que poeira de um grão. Sem família, sem amigos: o que me restava fazer? Única saída era sozinhar-me, por minha conta, antes que me empurrassem para esse fogo que, lá fora, consumia tudo.

Vendo-se sozinho em um lugar que não via mais como seu lar, Kindzu, resolveu ouvir as palavras do adivinho de sua cidade e partir com a sua canoa (que tem o nome de seu pai, Taímo) para o mar.

Durante sua viagem, Kindzu sonhava com seu pai. Em todos os sonhos, ele tentava conversar com ele sobre a vontade de se entregar aos guerreiros blindados e acabar com a guerra (naparama), mas mesmo em sonho, o pai de Kindzu o ignorava e o comparava aos mortos, pois estes andavam com ossos desencontrados, com alma de uma outra pessoa.

Chegamos em uma passagem do livro (triste demais, por sinal), em que descobrimos como Tauahir e Muidinga acabaram juntos.  O velho conta para a criança, que ele estava no campo de deslocados, vindo de sua aldeia distante. Em uma noite lhe pediram para ajudar a enterrar seis crianças recém-falecidas.  Tuahir ajudou a arrastar os corpos para um buraco, quando reparou que os dedos de uma das crianças se cravaram no chão, lutando pela vida e contra o abismo. 

Ao verem que os demais coveiros continuariam a enterrar as crianças estando elas vivas ou mortas, Tuahir informou a todos que aquele menino era seu sobrinho. Ao se deparar com aquela criança em um estado lastimável e sem forças, o mesmo lhe prometeu que não iria abandoná-lo.

Com o tempo, o menino se recuperou e ganhou forças novamente, logo, Tuahir resolveu chamá-lo de Muidinga, o mesmo nome que tinha sido dado a seu filho mais velho, que faleceu nas minas do Rand.

Quanto à viagem (muito doida, por sinal) de Kindzu, o mesmo chegou a Matimati, lugar no qual foi orientado, por Assane – secretário do Administrador, a não ficar devido a violência. No retorno ao mar, um anão (Tchóti) que veio do céu caiu em seu barco, com o propósito de ser conduzido até um navio encalhado, a fim de resgatar comida, roupas e o que achasse. 

Neste navio, Kindzu conheceu Farida, filha do Céu , que possuía uma irmã gêmea, da qual foi separada no nascimento, tendo em vista, que em sua terra, ter filhos gêmeos era considerado maldição. Abusada por um homem português (Romão Pinto) e deste ato de violência, ela teve um menino. 

Em nenhum momento Farida notou alguma vontade de lhe dar cuidados. Foi à igreja e entregou a criança como se fosse uma encomenda de ninguém, um lapso da vida. Ficou lá, na Missão, nunca mais ela o viu.

Houve um tempo que tentou regressar atrás, recuperar esse menino. A Irmã Lucia, religiosa que morava na Missão,  falou sobre seu filho, Gaspar, uma criança que nunca em sua face foi visto rabisco de sorriso. Apenas de noite, enquanto dormia, o menino gargalhava. Eram risos que faziam gelar quem quer que escutasse. 

Tentou um encontro com seu filho, mas o menino fugiu da Missão não tendo mais nenhuma notícia de seu paradeiro. Logo, por essa criança, ela só chorava lágrimas de leite. 

Desde então ela queria cumprir um sonho antigo: sair dali, viajar para uma terra que ficasse longe de todos os lugares. Quando soube que um navio naufragara, ela se juntou ao grupo de pescadores que se dirigia para o lugar do acidente. Os pescadores saquearam o navio e a deixaram sozinha no mesmo. 

Quanto mais tempo conviviam juntos, Kindzu entendia o que o unia a Farida, os dois estavam divididos entre dois mundos. Kindzu retorna para Matimati e deixa Farida no navio, lhe prometendo que encontrará o seu filho Gaspar. 

Em sua estadia em Matimati, Kindzu reencontra Sarendra e sua esposa e testemunha a ação da milícia armada, a fome e a miséria que assolam aquele lugar. Também conhece a outra irmã de Farida, Carolinda que é esposa do administrador de Matimati – Estevão Lopes.

Kindzu conversa com Dona Virgínia (mãe de criação de Farida e esposa de Romão Pinto) e Tia Euzinha (tia biológia de Farida e Carolinda), mas não consegue desvendar o paradeiro de Gaspar.

Enquanto isso, Tuahir e Muidinga continuam na estrada. Nela, eles foram mantidos reféns por Siqueleto, mas acabam sendo liberados pelo mesmo, que morre de uma forma muito estranha (jorra sangue por sua orelha até ele se desfazer). Além de Siqueleto, nossas personagens encontram pela estrada Nhamataca, o fazedor de rios. 

Aqui ressalto que tanto a morte de Siqueleto, quanto a transformação de Nhamataca em rio  são metafóricas, no sentido de que tais elementos fantásticos invadem a realidade de Tuahir e Muidinga. 

Contudo,  Tuahir fica muito doente e eles resolvem construir uma canoa, a fim de percorrer o pântano até chegar ao mar, pois Tuahir sentia que estava morrendo. Ao chegar no mar, Muidinga coloca Tuahir em outra canoa, chamada Taímo, a maré vem a subir e Tuahir é entregue ao mar. 

Sozinho, Muidinga retorna ao ônibus e, neste momento, as narrativas se entrelaçam, pois é Kindzu que está no chão baleado ao lado da mala, e em seus últimos momentos de vida, ele vê Muidinga indo em sua direção para pegar seus pertences, dentre eles seus cadernos e pensa que enfim ele (Kindzu) encontrou o Gaspar.

POSSÍVEIS QUESTÕES DE VESTIBULAR

Como pode ser visto no item anterior, a história se passa em Moçambique, no período pós-independência, no qual, o país enfrentou mais de dezesseis anos de guerra civil entre 1976 e 1992, com a assinatura do Acordo Geral de Paz.

A guerra matou cerca de um milhão de pessoas e outros cinco milhões de civis foram deslocados e sofreram amputações por minas terrestres.

Como dito anteriormente, o autor me lembrou Guimarães Rosa com o uso de neologismo e a forma de contar a história pelo olhar de uma criança, assim como em Campo Geral. Logo, fique de olho em questões comparativas entre estas duas obras.

Ademais, há também a comparação com a obra Nove Noites de Bernardo de Carvalho, devido a construção narrativa, mistura entre presente e passado, intercalando as cartas do antropólogo e a visão do autor.

As questões que eu pude analisar versavam, em sua grande maioria, sobre o enredo da obra, sendo assim recomendo a leitura do livro e o meu resumo, por óbvio…kkkkk.

MINHA EXPERIÊNCIA DE LEITURA

É o meu primeiro contato com o autor e posso dizer que me surpreendi com uma leitura triste, principalmente na descrição do cenário em que as personagens viviam e o poder que a guerra possui em dizimar a nossa terra e até mesmo os nossos sonhos.

A narrativa baseou-se nas crenças e tradições dos povos de Moçambique, com uma mistura do passado e presente, bem como pela presença constante do sobrenatural que caminha lado a lado com o mundo real. 

No decorrer da leitura, nós podemos acompanhar a crescente esperança do autor quanto ao futuro, escrito ainda quando o país saía de duas grandes guerras: a primeira pela libertação do país dos laços coloniais que o prendiam a Portugal e a segunda por um violento confronto civil.

Nota-se, portanto, a constante busca das personagens por identidades possíveis, pela reconstrução de suas histórias, com mais dignidade, pela preservação das tradições e compreensão dos mistérios da própria existência.

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Resenha do livro Adams Óbvio, de Robert R. Updegraff

Capa do livro publicado pela Faro Editorial

Adams Óbvio é um daqueles livros maravilhosamente simples e rápidos. Uma hora de leitura é mais do que suficiente para terminar mas as reflexões são profundas. Escrito por Robert Updegraff em 1916, trata-se de um conto sobre O. B. Adams, um publicitário que, apesar de não ter nenhuma característica especial, construiu uma carreira de sucesso buscando a simplicidade e objetividade.

O autor ilustra neste conto como o óbvio é o caminho mais rápido para o sucesso mas, ao mesmo tempo, escapa aos olhos da maioria das pessoas. Com vários exemplos vemos como é fácil construir raciocínios complexos, mas é nas soluções simples que há verdadeiro valor. O óbvio é simples, mas demanda grande esforço para ser encontrado.

Por fim, temos uma espécie de guia para testar se a solução que encontramos é realmente óbvia e como treinar a nossa capacidade de identificar o óbvio nos problemas que enfrentamos.

Cinco maneiras de testar o óbvio

– A solução óbvia é simples, depois que for descoberta
O óbvio parece oculto de todos até que seja revelado. Neste momento, todos ficam com a sensação de “como é que não pensei nisso antes?”

– O óbvio é compatível com a natureza humana
A natureza humana é simples e, assim, toda solução óbvia deve ser capaz de apelar à pessoa comum, sem necessidade de sofisticações ou rodeios

– O óbvio é simples de ser explicado e colocado no papel
Devemos ser capazes de expressar uma ideia em poucas palavras ou não estamos diante de algo óbvio

– O óbvio surpreende as pessoas
As boas ideias tem uma capacidade de iluminar e surpreender as pessoas pela sua originalidade

– O óbvio tem o seu momento
As ideias tem um momento. De nada adianta uma ideia brilhante que seja aplicada antes ou depois da janela de oportunidade

Cinco caminhos para reconhecer o óbvio

– Não ser contaminado pela maneira como as coisas sempre foram feitas
É tentador seguir as rotinas que existem e buscar algum aprimoramento, mas o óbvio exige um olhar original. Busque olhar para os problemas a partir do zero, como se fosse a primeira pessoa a enfrentar o desafio

– Inverter a lógica das coisas
Se algo é feito de determinada maneira por muito tempo, inverter as premissas pode abrir a mente para aquilo que é realmente necessário

– Buscar a opinião do público
Se a minha ideia é direcionada para um público específico, por que não perguntar a ele o que acha?

– Procurar o que passa despercebido
Há oportunidades de aperfeiçoamento por toda parte. O que ninguém mais viu?

– Identificar as necessidades específicas de cada caso
Quais são os desejos que não foram atendidos ainda? Como posso fazer para?

Eu tenho certeza que ao acompanhar a história de Adam você vai se lembrar de diversas situações na sua vida e no mundo em que o óbvio fez a diferença. Mais importante ainda, o que é óbvio e estamos deixando passar?

A leitura vale muito a pena!

FUVEST: Resumo e análise da obra Campo Geral, de Guimarães Rosa

Capa do Livro lançado pela Editora Global em 2019

Antes de começar a análise da obra, eu te convido a conhecer e apoiar o conteúdo criado para o blog, em especial para o Projeto Fuvest, através da minha campanha no APOIA.SE.

Mais um livro de Guimarães Rosa analisado para o nosso Projeto Fuvest. Por aqui já temos uma resenha do autor, na qual eu faço a remissão a esta no que tange as informações SOBRE O AUTOR, SOBRE O CONTEXTO HISTÓRICO E CULTURAL E ESTILO NARRATIVO.

SOBRE A OBRA E O ENREDO

Novela (composição de um único núcleo narrativo, isto é, os acontecimentos giram em torno de um grupo de personagens específicos, bem como o tamanho do texto varia de 40 a 60 páginas), publicada em 1956 através da coletânea chamada Corpo de Baile e republicada em 1964 no conjunto Manuelzão e Miguilim.

O enredo nos apresenta um menino de oito anos, chamado Miguilim, que mora com sua mãe (Nhá Nina), seu pai (Nhô Bernardo – Béro), irmãos (Maria Andrelina, Maria Francisca, Expedito José, Tomé de Jesus e o irmão mais velho Liovaldo que não morava mais com eles) e sua avó (Izidra, irmã da mãe de Nhá Nina), em um ponto bem remoto no Mutúm (sertão mineiro). 

Ninguém que vive neste lugar o acha bonito de se viver ou até mesmo de apreciar, especialmente a mãe de Miguilim. Nota-se que até então, nós não temos a visão de Miguilim sobre o local em que ele vive, mas sim a visão das demais personagens reproduzidas através da visão de mundo do menino.

Já no início da narrativa, nós percebemos que o menino se dá muito bem e trata com carinho sua mãe, mas a sua relação com o pai não é a mesma coisa, tanto o é, que sempre que o pai vê Miguilim com sua mãe, o mesmo considera o menino um mal-agradecido por não ter nenhum tipo de estima por ele.

O pai de Miguilim era um homem ciumento, possessivo e violento, principalmente com o menino e com a esposa, chegando até a impedir que seu irmão, Tio Terez vá visitar a sua família e que principalmente, fale com Nhá Nina. 

Aqui, já é possível para nós leitores, através do olhar de Miguilim e das atitudes de Nhô Bero e Vó Izidra, desconfiarmos que o Tio Terez e Nhá Nina têm/tiveram um caso amoroso, razão pela qual o Tio vai embora.

Ademais, quando nosso protagonista presenciava esta violência, seu irmão Expedito (Dito) que gostava muito dele e segundo Miguilim “Deus tinha dado a ele todo juízo”, o consolava e lhe dizia palavras de apoio e confiança, como se o Dito fosse um guia para Migulim ao mundo adulto, como se o ajudasse nessa transição da fase infantil para adulta.

Passado algum tempo, Miguilim estava voltando do local de trabalho de seu pai para a casa da família, quando ele se depara com Tio Terez, que lhe pede para que entregue uma carta escrita por ele aos cuidados de Nhá Nina.

Neste momento, nós presenciamos o conflito vivido por Miguilim, pois ao mesmo tempo que ele gosta do Tio, ele entende que a entrega da carta à sua mãe é errada, o que demonstra um processo de amadurecimento da personagem.

Há mais dois eventos, em que podemos vislumbrar este processo de amadurecimento de Miguilim.

O primeiro ocorre quando o seu irmão mais amado, Dito, corta o pé, adoece e vem a falecer. Essa para mim, foi uma das partes mais tristes do livro, pois a tristeza de Miguilim com a morte do irmão é tão intensa e real, que não há a possibilidade de você não ficar cabisbaixa também.

Após a morte do Dito, a relação entre Miguilim e seu pai se torna ainda pior: “Pai disse a Mãe que ele não prestava, que menino bom era o Dito, que Deus tinha levado para si, era muito melhor tivesse levado Miguilim em vez d’o Dito.”

Já o segundo evento ocorre com o seu irmão mais velho – Liovaldo, que não vive mais com a família, em uma visita começa a azucrinar Miguilim e o mesmo começa a revidar em seu irmão. O fato é que seu pai, Nhô Bero, achou totalmente equivocada a atitude do menino, pois o mesmo deveria ter respeitado a hierarquia familiar e o mesmo acaba sendo espancado por seu pai, bem como Nhô Bero quebra com todas as gaiolas de passarinho e os poucos brinquedos de Miguilim.

São com estes fatos que vemos o ápice do amadurecimento do Miguilim, pois ao invés do menino chorar com a surra e com os danos aos seus bens, ele começa a rir desvairadamente da situação na frente de seu pai. Apesar de no momento, todos acharem que o menino havia enlouquecido, acaba gerando uma certa admiração e respeito de seus familiares por Miguilim.

Após tais acontecimentos, Miguilim adoece (de quase morrer mesmo), e seu pai tem uma crise de consciência e de culpa, pois ele acabou de perder o Dito e estava perdendo o Miguilim também: “Nem Deus não pode achar isto justo direito, de adoecer meus filhinhos todos um depois do outro, parece que é a gente só quem tem de purgar padecer!?”

Nota-se que, ao mesmo tempo que Não Béro é violento, ele também se sente culpado por seus atos, o que nos mostra a complexidade da personagem e da obra.

Todavia, como desgraça muita é pouca, Nhô Bero acaba matando seu ajudante Luisaltino, acredito que por uma crise de ciúme deste rapaz com sua esposa (com a leitura da obra, dá a entender que eles teriam tido um caso). Com o acontecimento do crime, o pai de Miguilim perde a cabeça e acaba tirando a própria vida.

Miguilim se recupera, contudo, com a morte de seu pai, Tio Terez retorna e informa que irá morar com eles e trabalhar na lavoura de seu irmão. A Vó Izidra, vendo o retorno do Tio Terez, anuncia que irá embora, pois lá (no Mutum) não ficava mais.

Na cena final do livro, aparecem dois homens a cavalo, sendo que um deles está portando óculos de grau (Dr. José Lourenço , do Curvelo). O homem, pergunta a Miguilim se ele tem dificuldade para enxergar, pois o menino “aperta muito a vista”. Ao ver a dificuldade do nosso protagonista, o homem cede seus óculos para ele.

No momento em que Miguilim está na posse dos óculos, ele enxerga tudo (o menino “tem a vista curta” = miopia).

Logo, tudo o que ele via nitidamente era novo e diferente, inclusive e especialmente, a beleza do Mutum: “O Mutúm era bonito! Agora ele sabia”.

POSSÍVEIS QUESTÕES PARA O VESTIBULAR

Ao analisar como a obra em tela é cobrada nos vestibulares, eu pude verificar que a maior parte das questões envolviam o conhecimento do enredo, através de citações de trechos da novela, bem como sobre o estilo narrativo da obra, qual seja, o narrador figura–se como um adulto, a fim de contar efetivamente a história, mas visualiza os fatos como se pertencesse ao íntimo do universo infantil, diminuindo a distância entre as duas realidades. 

A narrativa é determinada pela sabedoria mítica e sertaneja, isto é, acompanha o crescimento do protagonista, não só no caráter físico, mas a evolução de seus pensamentos, de sua forma de pensar (novela de formação).

Nota-se, portanto, que as narrativas com este tema, sempre trazem a visão de mundo da criança com o desenvolvimento de emoções como amor, amizade, religiosidade e até mesmo violência, através das relações afetivas e familiares.

MINHA EXPERIÊNCIA DE LEITURA

Mais um livro de Guimarães Rosa difícil de ser lido e compreendido de imediato, mas independentemente dos obstáculos literários, é possível apreciar a genialidade do autor.

E já fica como meta, na minha lista infindável de leituras, O grande sertão Veredas, tido como a obra prima do autor.

Conhece alguém que está para prestar vestibular ou se preparando para este exame? Indica o conteúdo aqui do blog!!!

Um beijo e até o próximo post !!

Resenha do livro O Eleito, de Thomas Mann

Capa do livro publicado pela Companhia das Letras

CONSIDERAÇÕES INICIAIS

Como dito no post anterior, a minha leitura de Édipo Rei de Sófocles foi inspirada em outro livro, sendo este O Eleito de Thomas Mann.

Ao contrário de A montanha mágica, que nos apresenta uma narrativa mais densa e profunda em razão do seu tema principal, em O Eleito, nós encontramos uma leitura leve, fluída e muito bem construída.

Inclusive, indico esta novela para você que quer começar a ter contato com a obra de Thomas Mann, bem como com a literatura alemã.

Adianto, que nesta história, narrada por um monge possuído pelo espírito da narrativa, nós nos deparamos com aventura, ação, reinos distantes, cavaleiros, donzelas em perigo, pecados, segredos escondidos e revelados e milagres sendo operados… (fique tranquilo caro leitor, a história tem tudo isso, mas é bem equilibrada e o resultado da obra é surpreendente). Caso tenha ficado curioso, segue um pouco do enredo. 

SOBRE O ENREDO

A novela é narrada pelo monge beneditino Clemens, que abdicou de seu nome de origem, Morhold, por ser muito “selvagem e pagão”. Pois muito bem, segundo Clemens, ele é somente um instrumento pelo qual “o espírito da narrativa”, nos contará esta história.

Tudo se inicia com o Duque de Flandres e Artois, que preside o feudo do alto castelo de Belrapeire, onde nascem seus filhos gêmeos Víliguis e Sibilla.

Com  a morte da mãe durante o parto, as crianças são criadas pelo pai e Duque Grimaldo. Mas, a criação é, digamos, peculiar, pois os irmãos são educados como se não existisse ninguém à altura deles, a não ser eles mesmos. Logo, devido a esta educação, é que se dá início ao imbróglio.

Na noite da morte do pai, os irmãos cometem o incesto, já que somente os dois eram perfeitos um para o outro. Deste ato, Sibilla fica grávida e ambos, ficam desesperados e pedem ajuda a um conselheiro do reino, o Sr. Choraferro, no qual se é determinado que Sibilla dará a luz a criança sob sua proteção e Víliguis sairá em peregrinação ao Santo Sepulcro para a purgação dos pecados, morrendo no meio do caminho.

Quando a criança nasce, o mesmo é posto em um barrilzinho e jogado ao mar à própria sorte. Além do bebê, havia dentro do barril dinheiro escondido dentro de pães, tecidos nobres que envolviam a criança e uma placa de marfim ornada em ouro e pedras preciosas, onde a mãe registrou sua história e origem nobre.

O barrilzinho é resgatado por dois pescadores na ilha de São Dunstan, onde fica o mosteiro Agonia Dei e a vila de pescadores, local onde a criança será criada e batizada pelo Abade Gregorius, da Ordem Cistercience, que lhe dá o seu nome.

A criança Gregorius se torna um jovem muito educado, inteligente, bondoso e muito bonito. Todavia, o mesmo descobre sua verdadeira origem da pior forma, isto é, sua mãe de criação, ao vê-lo numa briga com o seu filho biológico revela que Gregorius não é seu filho. 

O menino se sente perdido e enganado, logo, seu padrinho, o Abade, revela sua verdadeira história e lhe entrega a tábua de marfim. E aqui, nós temos o ponto inicial do enredo como novela de cavalaria, pois ao descobrir sua verdadeira origem, Gregorius decide se tornar um cavaleiro andante.

O jovem parte em busca de seu destino e acaba chegando em Bruges, capital do feudo de Flandres e Artois, local em que a duquesa Sibilla reside. 

Ao chegar no local, Gregorius toma conhecimento do assédio sofrido pela duquesa que repudia a mão de um pretendente e este, devido a rejeição da mesma dá início a intitulada Guerra do Amor.

Por ser um cavaleiro andante, Gregorius oferece seus serviços a Duquesa, a fim de defender a sua honra e seu reino. O nosso cavaleiro sai vitorioso da batalha, põe fim à Guerra e ainda se casa com Sibilla.

É deste trecho que temos como ponto comum a história de Édipo Rei e O Eleito e é também a partir deste momento que deixarei você meu caro leitor, com a pulga atrás da orelha para saber o que acontece a seguir e consequentemente, o desfecho dessa novela maravilhosa.

Indico muito a leitura deste livro, bem como fica a dica de um autor alemão que não nos decepciona com as suas obras!!

Já leu este livro ou outro do Thomas Mann??

Compartilha aqui nos comentários!!

Um beijo e até o próximo post!!

Resenha e análise da tragédia Édipo Rei, de Sófocles

Capa do livro publicado pela Editora Zahar

CONSIDERAÇÕES INICIAIS

Dei início a leitura desta tragédia grega, tendo em vista outro livro que eu quero muito ler e que em alguns aspectos lembra a narrativa de Édipo Rei.

Tem algum palpite da minha próxima leitura???

Compartilha aqui nos comentários!!!

SOBRE A EDIÇÃO

Pois muito bem, adquiri esta edição da Editora Zahar, que conta com a tradução feita diretamente do grego por Mario da Gama Kury (tida como a tradução mais acessível em termos de linguagem e interpretação textual) e apresentação da Professora de língua e literatura grega da Universidade de São Paulo, Adriane da Silva Duarte.

Saliento que há um vídeo no Youtube da Univesp sobre este livro com comentários da Professora Adriane, na qual eu recomendo dar uma olhadinha!

SOBRE OS TERMOS TEATRAIS

Antes de falar do enredo da peça, deixo aqui alguns apontamentos sobre certos termos teatrais presentes na tragédia:

Prólogo: a primeira parte da tragédia, em forma de diálogo entre personagens ou monólogo, na qual se faz a exposição do tema da tragédia.

Párodo: o momento que corresponde à entrada do coro. Cada uma das passagens laterais junto ao palco, num teatro grego.

Estásimo: cada uma das odes cantadas pelo coro, entre dois episódios.

Êxodo: o episódio que finaliza a tragédia.

Corifeu: tido como o chefe do coro, aquele que enunciava partes isoladas do texto e que podia dialogar com os atores.

Coro: é um grupo homogêneo, não-individualizado de artistas das peças de teatro da Grécia clássica, que comentam com uma voz coletiva a ação dramática que ocorrendo durante espetáculo.

SOBRE O AUTOR E A OBRA

Para quem não sabe, a peça foi escrita por Sófocles, considerado o segundo na tríade dos tragediógrafos gregos, juntamente com Ésquilo e Eurípides. Além disso, é um dos poetas mais citados na poética de Aristóteles.

Nascido em 496 a.C. em Colono, distrito de Atenas e morto em 406 a.C. Durante sua vida, Sófocles serviu sua cidade ocupando cargos de tesoureiro, chefe militar e conselheiro. Ademais, participou da vida religiosa do distrito, introduzindo o culto a Asclépio, filho de Apolo, o possuidor do dom da cura.

Com relação ao seu papel no teatro grego, Sófocles foi muito bem-sucedido e no que tange a Édipo, nós temos a chamada trilogia tebana, que compreende Édipo Rei, Antígona e Édipo em Colono.

Ainda sobre o autor, seguem abaixo, os comentários feitos por Otto Maria Carpeaux, no volume I do livro A história da literatura ocidental, página 203 a 204:

Sófocles representa a tentativa de mediar entre os extremos; e quando a mediação se revelou impossível, o grande poeta trágico cantou uma elegia suave e dolorosa, irresistível, que pareceu à posteridade síntese perfeita. Por isso, Sófocles foi sempre o poeta preferido dos partidários do equilíbrio puramente estético: dos classicistas.

É grandíssimo artista. Artista da palavra, dono de extraordinário lirismo musical, sobretudo nos coros. Mas foi também artista da cena, sábio calculador dos efeitos, mestre incomparável da arquitetura dramática, da exposição analítica do enredo. Entre o pathos coletivista de Ésquilo e o pathos individualista de Eurípides, a tragédia semipolítica, semi-sentimental de Édipo revela força superior de emoção; conflito coletivo e conflito individual estão ligados de maneira tão íntima que o efeito se torna independente de todas as circunstâncias exteriores, efeito permanente.

SOBRE O ENREDO

No que tange ao enredo da peça, nós temos a tragédia de Édipo condenado à morte quando ainda era um bebê devido a uma profecia, na qual aduzia que o mesmo mataria seu pai, o Rei Laio e desposaria sua própria mãe, a Rainha Jocasta.

Diante desta prenunciação do futuro, o Rei Laio convoca um pastor para se livrar de Édipo. A ideia era manter os pés da criança amarrados e deixá-lo pendurado em uma árvore para ser comido por animais.

Contudo, o pastor designado não consegue realizar a ordem dada e acaba doando a criança para outra pessoa. Esta pessoa é um serviçal do Rei de Corinto, que cria Édipo como filho.

Muitos anos após o ocorrido, Édipo toma ciência da profecia acima, razão pela qual, nosso protagonista abandona a cidade de Corinto em direção a Tebas.

Todavia, no meio do caminho, mais precisamente em uma encruzilhada, ele encontra com seu próprio pai, o Rei Laio e seus serviçais, e acaba os mantando (restando somente um que conseguiu escapar do massacre), cumprindo assim a primeira parte da profecia.

Seguindo sem rumo, chega às portas de Tebas, onde a Esfinge propõe-lhe a resolução de um enigma caso a resposta esteja errada, o mesmo deverá pagar com a sua vida.

Para a tristeza da Esfinge, Édipo responde corretamente o enigma, salvando a sua vida e a de todos da cidade. Como recompensa por sua coragem e astúcia, recebe de Creonte (seu tio e irmão de sua mãe), o título de rei e a mão de Jocasta, viúva de Laio, cumprindo assim, a profecia por completo.

Após um período de bonança, uma peste terrível assola a cidade tebana e é com esta cena que se inicia a peça de Édipo Rei. Após consulta ao oráculo de Delfos, Creonte diz ao Rei que, para livrar a cidade da peste avassaladora, é preciso encontrar e punir o assassino de Laio.

Édipo diz aos tebanos que o criminoso será encontrado, banido e amaldiçoado para sempre. O cego Tirésias, chamado para ajudar nas investigações, diz a Édipo que o assassino está mais perto do que ele imagina. Neste momento, o rei se lembra então da antiga profecia que o fez sair de Corinto e teme ter fracassado na tentativa de se opor ao seu próprio destino.

Mas como toda a tragédia, a de Édipo não acaba por aí, neste meio tempo, chega um mensageiro de Corinto informando a morte de Políbio, de quem Édipo não era filho legítimo, como dito anteriormente.

Quase ao mesmo tempo, aparece o homem que compunha a comitiva de Laio, o único que conseguiu escapar, no dia em que este foi morto. Trata-se do mesmo pastor que abandonou o bebê no monte Citerão. Aquela criança está agora diante dele e é o rei de Tebas e assassino do Reio Laio, seu próprio pai.

Com toda a revelação, a Rainha Jocasta comete o suicídio e Édipo renuncia ao trono e fura os próprios olhos diante da enormidade de sofrimentos por ele causados.

SOBRE A MINHA EXPERIÊNCIA DE LEITURA

Nota-se, que assim como discutido em Macbeth, acerca de profecias e livre arbítrio, acredito que podemos estender os temas também para a tragédia de Édipo.

Aqui, mesmo que as consequências dos atos não tenham sido motivadas por Édipo, fica a indagação inerente a possibilidade ou impossibilidade de mudar o seu próprio destino. Mesmo com o cumprimento da profecia, como será que Édipo encontrou a redenção, caso a tenha encontrado?

A resposta desta última pergunta encontra-se na continuação da história do nosso protagonista em Antígona (uma das filhas/irmã de Édipo…loucura não?!?) e finalizando em Édipo em Colono.

Já leu esta tragédia grega, bem como sua continuação?

Um beijo e até o próximo post!

O que faz de Macbeth, de William Shakespeare uma peça especial?

Box da Nova Fronteira e texto de apoio

Oitavo livro da lista do Projeto Reeducação do Imaginário e a segunda peça lida, para o projeto, de William Shakespeare.

Aqui não trarei o tópico “sobre o autor”, pois eu falei um pouco sobre ele na resenha de Otelo, cuja leitura eu recomendo bastante!!

SOBRE A EDIÇÃO

A edição pela qual eu fiz a leitura foi lançada em 2017 pela Editora Nova Fronteira, com a tradução feita por Barbara Heliodora, uma das maiores estudiosas da obra do dramaturgo aqui no Brasil.

Também utilizei como texto de apoio, o livro escrito por Harold Bloom em 1998 e publicado pela Editora Riverhead Books, intitulado em inglês como Shakespeare – The invention of the human.

Pelo que pude pesquisar, este livro já foi traduzido para o português, mas não há mais nenhuma reedição do mesmo, logo, caso você tenha o hábito de ler em inglês ou queira adquirir tal costume, está aí uma boa pedida de livro!

SOBRE A OBRA

A peça mais curta escrita pelo dramaturgo entre 1603 e 1607, tendo como sua principal fonte para a elaboração do enredo As Crônicas da Inglaterra, Escócia e Irlanda, Histórias das Ilhas britânicas da época de Shakespeare, bem como os escritos do filósofo escocês Hector Boece.

Foi uma das peças mais cobradas nas escolas norte-americanas, bem como uma das peças mais encenadas, tanto no teatro (inclusive no Brasil) quanto no cinema. Aqui eu recomendo a adaptação de 2015 protagonizada por Michael Fassbender e Marion Cottilard, disponível para locação no Google Play.

SOBRE O ENREDO

A história se passa na Escócia, na qual já no primeiro ato da peça, nós nos deparamos com três bruxas (the weird sisters), planejando quando elas se encontrarão com Macbeth. Já na cena seguinte, nós estamos diante do Rei Duncan da Escócia, recebendo a notícia de que seus generais Banquo e Macbeth derrotaram o exército aliado da Noruega e Irlanda, lideradas por Macdonwald.

Mudando novamente de cenário, a peça volta para Macbeth e Banquo e o encontro deles com as três bruxas, que lhe dizem em tom profético que Macbeth será proclamado Conde de Cowdor e sucessivamente Rei, bem como Banquo dará origem a uma linhagem de Reis, mas não será um rei.

Os dois generais ficam maravilhados e espantados com tal profecia e logo em seguida, um mensageiro do Rei Duncan dirige-se a Macbeth informando que devido a sua bravura na batalha contra os inimigos, ele recebeu o título de Conde de Cowdor, concretizando assim, uma parte da profecia. E, é neste momento, que se tem início a ambição de nosso protagonista pela Coroa da Escócia.

Devido a profecia e a ambição, Macbeth informa a sua esposa que o Rei Duncan ficará hospedado em sua residência. E, é nesta oportunidade, que Lady Macbeth elabora o plano para matar o Rei, a fim de que seu marido assuma o trono.

Inicialmente, Macbeth não quer cometer o crime (homicídio e regicídio), mas Lady Macbeth consegue persuadi-lo e nosso protagonista acaba matando Duncan com seu punhal. Macbeth fica tão transtornado com o que acabou de fazer que sua esposa tem que tirar-lhe o punhal das mãos e deixar a cena armada para a incriminação dos criados do Rei adormecidos pela bebedeira da noite anterior (houve uma celebração pela vitória na guerra e recepção do Rei).

Na manhã seguinte ao crime, chegam ao local o nobre escocês Lennox e o Conde de Fife, Macduff. Macbeth os encaminha aos aposentos de Duncan e todos se deparam com seu corpo ensanguentado e sem vida. 

Demonstrando uma fúria ensaiada, Macbeth mata os supostos assassinos do Rei, antes que estes possam provar sua inocência. Com a morte de Duncan, seus herdeiros Malcolm e Donalbain fogem, tornando-se suspeitos de encomendarem a morte do próprio pai e Macbeth assume o trono como o novo Rei da Escócia.

Todavia, a ambição de Macbeth, bem como o início de seu declínio, não parou na morte de Duncan, tendo em vista a existência da profecia dita a Banquo. Logo, para resolver tal celeuma, nosso protagonista organiza um banquete e descobre que Banquo e seu filho Fleance estão planejando fugir durante o evento.

Então, Macbeth chama dois capangas para matar Banquo e seu filho, mas apesar da morte deste, seu filho consegue escapar. E, é aqui que nós presenciamos a loucura de Macbeth, quando este, no meio do banquete, vê o fantasma de Banquo.

Nosso protagonista fica furioso com o espectro a sua frente, mas somente ele o vê, o que deixa todos ao seu redor atônitos com o comportamento de seu Rei. Diante de tal situação, Lady Macbeth manda todos os presentes embora e fica também ressabiada com as atitudes de seu esposo.

Macbeth encontra mais uma vez as três bruxas e estas lhe dizem as seguintes profecias:

1ª Aparição: Macbeth! Macbeth! Cuidado com Macduff! Cuidado com o Thane (Conde) de Fife. Já basta.

2ª Aparição: Sê ousado, sangrento e resoluto: Ri dos homens, pois ninguém parido por mulher fere Macbeth.

3ª Aparição: Com bravo orgulho de leão ignora quem chora, quem reclama, quem conspira: Macbeth jamais será vencido enquanto a floresta de Birnam não subir contra ele em Dunsinane.

Direcionado pelas profecias, Macbeth ordena a morte de Lady Macduff e seus filhos, tendo em vista a fuga de Macduff. Aqui faço a ressalva que a morte das crianças é uma das cenas mais tristes da peça, bem como no filme indicado anteriormente.

Devido a ambição e a loucura, Macbeth não percebe que sua esposa se sente também atormentada pelos crimes que os dois arquitetaram e executaram, desencadeando assim a sua morte, que apesar de não ser dita como aconteceu, nos leva a crer que foi suicídio.

E, nesta cena, nós temos o famoso diálogo consigo mesmo (solilóquio) de Macbeth sobre a morte de sua esposa:

“Ela devia só morrer mais tarde;

Haveria um momento para isso.

Amanhã, e amanhã, e ainda amanhã

Arrastam nesse passo o dia a dia

Até o fim do tempo pré-notado.

E todo ontem conduziu os tolos

À via em pó da morte. Apaga, vela!

A vida é só uma sombra: um mau ator

Que grita e se debate pelo palco,

Depois é esquecido; é uma história

Que conta o idiota, todo o som e fúria*

Sem querer dizer nada.”

*(o título da obra O som e a fúria de William Faulkner foi inspirado neste trecho do solilóquio de Macbeth).

Com a morte de sua esposa, Macbeth enfrentará sozinho a fúria e a vingança de Macduff pela morte de sua família, bem como Malcolm, filho de Duncan. Ambos estão retornando para a Escócia, a fim de libertar o reino da tirania e loucura de Macbeth.

O plano do exército, que está acampado em Birnam, é cortar e carregar todos os troncos de madeira que puderem para camuflar o número de soldados (uma das profecias das bruxas) dispostos na floresta até cercar todo o reino.

E por fim, a grande batalha entre Macbeth e Macduff. Nosso protagonista se sente seguro de sua vitória, pois segundo a profecia, ele não poder ser morto por nenhum homem que tenha nascido de uma mulher.

Contudo, Macbeth não contava com o plot tiwist que estava por vir, qual seja, que Macduff informa ao seu oponente que este foi “rasgado do útero de sua mãe antes do tempo” (nasceu por meio de uma cesariana), pois sua mãe morreu durante o parto, logo, ele nasceu do ventre de um cadáver.

Macbeth percebe tardiamente, que as três bruxas o enganaram e acaba sendo morto por Macduff, cumprindo assim, a última das profecias.

Com a morte de Macbeth, Malcolm é coroado Rei da Escócia. Quanto a Fleance, era conhecido pelo público contemporâneo de Shakespeare que o Rei James I da Inglaterra era, supostamente, um dos descendentes de Banquo.

SOBRE MINHA EXPERIÊNCIA DE LEITURA E INDICAÇÃO DA OBRA AO PROJETO REEDUCAÇÃO DO IMAGINÁRIO

Confesso que a minha peça favorita continua sendo Otelo, mas dá para entender a importância desta obra como um todo. Com a leitura do livro do Harold Bloom sobre Macbeth, pude verificar alguns elementos bem interessantes da narrativa:

  • CARÁTER IMAGINÁRIO DO PROTAGONISTA

Macbeth pode ser visto como um dos mais azarados protagonistas shakesperianos, precisamente porque ele é o mais imaginativo. Esta peça é considerada como uma tragédia da imaginação. Apesar de proclamar triunfalmente “o tempo é livre”, quando Macbeth é morto, as reverberações, das quais não conseguimos escapar quando nós deixamos o teatro ou fechamos o livro tem um pequeno “você tem que fazer tal coisa” com a nossa liberdade.

Enquanto outros vilões shakesperianos se deliciam com suas maldades, Macbeth sofre intensamente por saber que o que ele faz é mal, e ele continua fazendo cada vez pior. Logo, Macbeth nos assusta em parte por causa do aspecto da nossa própria imaginação que é assustadora, como se nos tornássemos assassinos, ladrões, usurpadores e sequestradores.

De todas as peças de Shakespeare, Macbeth é a “tragédia do sangue”, não por causa dos assassinatos, mas pelas implicações da imaginação sangrenta de Macbeth. O usurpador Macbeth muda na consistência fantasmagórica do sangue, tendo em vista que tal elemento é o constituinte principal de sua imaginação (sempre sua coerência imaginativa supera a sua confusão cognitiva).

  • A RELAÇÃO DE MACBETH E LADY MACBETH

A sublimidade de Macbeth e Lady Macbeth é opressora: eles são persuasivos e profundamente apaixonados um pelo outro. Sem dúvida, superando a ironia presente de Shakespeare, eles são o casal mais feliz de todo o seu trabalho.

A usurpação de Duncan transcende a política do reino. A natureza de Macbeth é vigorosamente violada por ele próprio, mas ele aprende que assim que ele começa a violação, ele se recusa a seguir Lady Macbeth através de sua loucura e suicídio.

Shakespeare não nos disse o motivo pelo qual Macbeth e sua esposa não possuírem filhos. Apenas comenta de uma criança enferma que morreu. Freud, aduz que a maldição sem filhos de Macbeth é uma das motivações do nosso protagonista para os assassinatos e a usurpação.

Apesar de Shakespeare ter deixado este assunto incerto, é um pouco difícil de imaginar Macbeth como pai, quando ele é, em um primeiro momento, profundamente dependente de Lady Macbeth. Conforme ela vai enlouquecendo, ela parece muito mais como uma mãe para Macbeth do que como sua esposa.

  • SOBRE A AMBIENTAÇÃO

Macbeth é muito mais uma peça noturna, como se a noite tivesse usurpado o dia, a Escócia é mais mitológica que a atual nação que o patrono de Shakespeare emergiu (Rei James I).

  • COMPARAÇÃO COM OUTRAS OBRAS DA LITERATURA CLÁSSICA

Harold Bloom compara o Capitão Ahab de Moby Dick com Macbeth, aduzindo que ambos são assassinos, mas Macbeth também é usurpador. Você pode conferir a resenha aqui do blog sobre o livro escrito por Herman Melville.

Também há a comparação dos culpados imaginários que nós compartilhamos em Macbeth com o dilema vivido em O médico e o monstro de Stevenson. Também temos resenha para esta obra aqui no blog.

Informo que em ambas as obras, eu vi a comparação como oportuna e bem pontuada pelo autor.

  • INDICAÇÃO NO PROJETO REEDUCAÇÃO DO IMAGINÁRIO

Apesar da violência presente em Macbeth, esta peça consegue ser mais íntima de nós leitores. Harold Bloom argumenta que nos identificamos com esta peça, porque nós também temos a sensação de que estamos violando a nossa própria natureza, como Macbeth faz.

O enredo da peça nos faz refletir sobre o próprio comportamento humano como a ganância, o egoísmo, a culpa, traição, trapaça e até mesmo a consciência sobre o certo e errado.

Também há outros questionamentos que podem ser facilmente levantados, quais sejam: nós temos a capacidade de mudar o nosso destino? De mudar o que já está traçado por uma profecia, como no caso de Macbeth? Haveria a possibilidade de Macbeth se tornar rei sem ter cometido o crime contra Duncan? Até onde vai o nosso livre-arbítrio?

Caso você tenha as repostas para as perguntas acima, compartilha aqui no comentário!!

Um beijo e até o próximo post!!

Resenha e análise de 1984, de George Orwell

Capa do livro publicado pelo Editora Antofágica em 2021

Aproveitei a promoção do E-book desta obra, lançada pela Editora Antofágica este ano na Amazon (pasmem… eu paguei R$ 0,25!!!), e confesso que foi o dinheiro mais bem investido em um livro e abaixo eu te mostro o porquê.

SOBRE O ENREDO

A história tem como pano de fundo um mundo dividido em Euroásia, Lestásia e Oceania, sendo nesta, localizada uma Londres totalitária, denominada no livro como Pista nº 1.

É através deste “universo” que nos é apresentado como protagonista Winston Smith, um funcionário público que trabalha no Ministério da Verdade, reeditando notícias do The Times e destruindo, através de um tubo pneumático, todas as evidências que apontam para o contrário do que será reeditado.

Deixo abaixo, algumas ilustrações feitas por Rafael Coutinho que nos mostram de forma fiel, o mundo em que vivia o nosso protagonista:

A forma que o autor descreve a rotina de Winston, tanto no trabalho quanto em casa, é cristalina e nos faz vislumbrar uma vida ligada no piloto automático ou até mesmo uma vida em que não se pode sair pela tangente em nenhum momento.

De início, Winston nos parece indiferente a tudo o que está ao seu redor, isto é, não demonstra nenhum sentimento de revolta contra o regime totalitário do Grande Irmão, contra a ideologia pregada pelo Partido, qual seja, a Ingsoc, contra as pessoas, principalmente durante os Minutos de Ódio (ataques ao traidor do regime Emmanuel Goldstein). 

Conforme a narrativa evolui, vemos que Winston não concorda com o regime imposto, mas não tem forças para lutar contra o sistema, logo, só lhe resta desabafar em seu diário o que ele realmente pensa e escondê-lo para não ser preso por seus pensamentos.

Todavia, este sentimento de ódio ao Grande Irmão virá à tona através das personagens O’Brien (membro do Partido Interno, no qual Winston vê uma certa cumplicidade de pensamentos contra o sistema) e de Julia, que se torna amante do nosso protagonista.

No que tange a relação com Julia, tal relacionamento não é permitido, tendo em vista que Winston é divorciado e relações sexuais são vistas como crime pelo Partido. 

Nota-se, portanto, que o regime e ideologia do Grande Irmão tem como objetivo controlar a vida das pessoas, através da Teletela, seus pensamentos, bem como controlar a forma como elas se comunicam.

Esse controle de comunicação é feito através da Novilíngua, um idioma capaz de exterminar qualquer expressão contrária aos ideais do Partido. Aqui, ressalto a palavra “duplipensar” que significa acreditar em duas ideias opostas e aceitar ambas, bem como o nome do Ministério, no qual Winston trabalha, o da Verdade: retificação de notícias através de mentiras impostas como verdades absolutas pelo Partido. 

SOBRE A OBRA E AUTOR

Ao pesquisar sobre a obra e sobre o autor, vi que o livro foi escrito em um momento conturbado da vida de George Orwell (seu nome de batismo era Eric Arthur Blair), o mesmo tinha acabado de se tornar viúvo, pai solteiro, sofria de tuberculose (falecendo da doença em janeiro de 1950), bem como vivenciava há um bom tempo a Guerra ao seu redor.

Logo, o romance 1984 pode ser visto como uma metáfora sobre o poder, já que para o autor, o objetivo de qualquer Guerra não é vencer o inimigo ou defender uma causa, mas sim, manter o poder nas mãos das mesmas pessoas que provocaram o evento bélico.

Com a Guerra, nós limitamos o acesso à educação, à cultura e a vida dos cidadãos. Daí, vem o lema do Partido e ideologia do Grande Irmão “guerra é paz, liberdade é escravidão, ignorância é força.

SOBRE A MINHA EXPERIÊNCIA DE LEITURA

Ademais, acredito que poucos autores conseguiram descrever de uma forma tão real a tortura sofrida por Winston e todos aqueles que foram “condenados” como opositores ao Regime do Grande Irmão. Aqui fica a ressalva da cena da tortura com os ratos que é de arrepiar só de lembrar.

A leitura deste livro é envolvente, fluída, incômoda e profética, sendo esta última característica dita no sentido comparativo com os dias de hoje, isto é, como a tecnologia pode tirar de você a sua privacidade ou até mesmo intervir na forma de pensar, um exemplo claro são as Fake News

Há também quem diga, e de certa forma eu também concordo, que a tecnologia serviu também para exibir a sua privacidade nas redes sociais e em outros meios de comunicação, utilizando esta forma como captação de público para a venda de uma imagem ou produto, como é o caso do Instagram, Facebook e até mesmo o programa Big Brother (o idealizador do programa John de Mol, jura de pé junto que não se inspirou na personagem do livro 1984 para dar nome ao reality show).

SOBRE AS ADAPTAÇÕES DA OBRA PARA O CINEMA

Saliento que há duas adaptações para o cinema inspiradas no livro, sendo a primeira lançada em 1956 (você encontra facilmente no Youtube para assistir), bem como uma lançada coincidentemente (ou não), em 1984:

Sinopse: 1984, Londres. O Reino Unido está sob o regime socialista, sendo controlado com mão de ferro pelo partido. Há em todo lugar telas de TV, que servem como os olhos do governo para saber o que os cidadãos fazem. No intuito de controlá-los são exibidas constantemente imagens através destas mesmas telas, relatando as batalhas enfrentadas pela Oceania em outros continentes. Winston Smith (John Hurt) vive sozinho e trabalha para um dos departamentos do governo, manipulando informações de forma que as notícias sejam positivas para a população. Até que, um dia, ele passa a se interessar por uma colega, Julia (Suzanna Hamilton), que o leva até os arredores da cidade. Eles passam a ter um relacionamento, algo proibido pelo partido, que deseja eliminar a libido na população.

Recomendo muito a leitura, e pergunto para quem já leu o livro, se também notou este tom profético de George Orwell.

Um beijo e até o próximo post!!

Resenha e análise da obra O deserto dos tártaros, de Dino Buzzati

Capa do livro lançado pela Editora Nova Fronteira

CONSIDERAÇÕES INICIAIS

Tida como a obra prima do autor italiano Dino Buzzati, a novela foi publicada em 1940 e no decorrer da leitura vieram à mente, dois outros livros já resenhados aqui no blog, quais sejam A montanha mágica de Thomas Mann e A morte de Ivan Ilitch de Tolstói.

A lembrança das obras acima, veio de um tema principal que interliga tais obras, o tempo, a solidão e a morte.

SOBRE O ENREDO

No deserto dos tártaros, nós conhecemos a história de Giovanni Drogo, um militar de vinte anos, convocado para assumir o posto de tenente no Forte Bastiani. Inicialmente, nosso protagonista vê tal oportunidade como a chance de sua vida, tendo em vista que até então dedicou seus anos aos estudos e a academia militar.

Ao chegar em seu destino, Giovanni, não via a hora de pedir transferência para outra guarnição, tendo em vista que ele era jovem e ficando no local ele não iria ter o que idealizava, qual seja, status, dinheiro e belas mulheres. 

Ao falar com o Major Matti, solicitando a transferência, soube que sua estadia teria que ser no mínimo de quatro meses, pois deveria aguardar até o próximo exame médico. Ao chegar tal oportunidade, Giovanni desiste de ir embora e permanece no local na espera dos inimigos (os tártaros) que podem chegar a qualquer momento pelo deserto à frente do Forte.

Devido a permanência no Forte, Giovanni adquiriu com o tempo os hábitos do local e assim sua vida foi seguindo e o nosso protagonista mostra uma certa ilusão com o tempo, ele se enxerga naquele momento com todo o tempo do mundo devido a sua jovialidade.

Aqui eu deixo um dos trechos mais bonitos do livro sobre a ilusão acerca da passagem do tempo:

“Mas a uma certa altura, quase instintivamente, vira-se para trás e vê-se que uma porta foi trancada às nossas costas, fechando o caminho de volta. Então sente-se que alguma coisa mudou, o sol não parece mais imóvel, desloca-se rápido, infelizmente, não dá tempo de olhá-lo, pois já se precipita nos confins do horizonte, percebe-se que as nuvens não estão mais estagnadas nos golfos azuis do céu, fogem, amontoando-se umas sobre as outras, tamanha é sua afoiteza; compreende-se que o tempo passa e que a estrada, um dia, deverá inevitavelmente acabar.

Todavia, a história dá um salto de dois anos, e nada mudou na vida de Giovanni Drogo. No decorrer deste período, só houve um momento em que acharam que os tártaros estavam chegando. 

Todos do Forte, inclusive Giovanni, esperavam este momento, qual seja, de conhecer a glória, de lutar como um herói na guerra contra os tártaros. Contudo, não houve glória, não houve guerra, somente a indiferença com a vida de dois soldados do local.

A narrativa dá mais um salto temporal, agora Giovanni já está há quatro anos no Forte e devido a uma licença, ele retorna para a cidade. No capítulo que narra este retorno, nós vemos que os amigos de Giovanni já estão casados, com seus empregos, sua mãe já está mais velha e Maria, seu amor platônico, está mudada. 

Na verdade, nosso protagonista mudou, no sentido de que não consegue expressar o que sente por Maria e se vê deslocado na cidade, como se fosse um estrangeiro, o que contribui para o seu retorno ao Forte.

Giovanni tenta a sua transferência para a cidade e sofre uma desilusão com relação ao seu serviço. Ao falar com o General, nosso protagonista descobre que houve uma mudança no regulamento do Exército, no qual previa o corte para a metade do quadro de militares do Forte, como houveram muitos pedidos de transferência, principalmente, de seus superiores, o pedido de Drogo foi preterido e o mesmo deveria retornar ao seu posto.

Mesmo o tempo passando, Giovanni ainda tinha esperança de lutar contra o inimigo, tendo em vista que estavam construindo uma estrada no meio do deserto. A construção de tal obra demorou quinze anos, aqui, Giovanni já era capitão e continuava à espera do inimigo e da glória.

No transcorrer do lapso temporal, Drogo refletia sobre a solidão, de não ter constituído uma família, não ter filhos, não ter mais os amigos da cidade e até mesmo no Exército, como foi o caso no Tenente Coronel Ortiz e do Tenente Angustina, restando somente o Forte e a espera pelos tártaros. 

Nessa espera, Giovanni já está com cinquenta e quatro anos, já é major e continua esperando o seu momento de glória na Corporação. Todavia, com a idade, nosso protagonista, desenvolve uma doença hepática que o deixa debilitado e fraco. E foi neste momento, que os inimigos apareceram pela estrada que demorou quinze anos para ser construída e estavam em direção ao Forte.

Giovanni ficou desesperado, pois justo quando os inimigos apareceram ele estava doente e não tinha forças para combater, para ser o herói que ele tanto almejava e esperava ser. E como não tinha serventia para o Exército um oficial neste estado, nosso protagonista foi obrigado a abandonar o Forte e se tratar na cidade.

E essa passagem do livro é uma das mais tristes, pela indiferença dos colegas do Forte, pela perda da chance tão esperada de ser um herói, da solidão e da falta de alguém que realmente o amasse.

SOBRE A MINHA EXPERIÊNCIA DE LEITURA

Essa obra é a mistura perfeita de A montanha mágica e A morte de Ivan Ilitch, pois a narrativa é tão linda e ao mesmo tempo triste, bem como é atemporal, o que nos faz olhar para nós mesmos de uma forma tão tocante, que poucas histórias conseguem. Indico muito a leitura deste livro e dos demais livros citados!!

Um beijo e até o próximo post!!

Resenha e análise da obra A morte de Ivan Ilitch, de Liev Tolstói

Capa do livro publicado pela Editora Antofágica

Nono livro da lista do Projeto Reeducação do Imaginário. A morte de Ivan Ilitch de Liev Tolstói é leitura obrigatória para quem quer adentrar no universo da literatura russa.

SOBRE O AUTOR

Liev Nikoláievitch Tolstói nasceu no dia 09 de setembro de 1828 em Iásnaia Poliana, filho de uma família nobre, a criação do autor e seus irmãos, após a morte de sua mãe, ficou a cargo de tias paternas e preceptores.

Foi para a Universidade Imperial de Kazan, onde estudou letras orientais e direito, mas desistiu de ambos os cursos em 1847. Ao herdar a propriedade rural em sua cidade natal, o autor dividia seu tempo entre o local e as mesas de jogo em São Petersburgo, onde dizem as más línguas, ele não tinha tanta sorte.

Tolstói se alistou no exército e combateu durante a Guerra da Crimeia, na cidade de Sevastópol, tendo dado baixa em sua carreira como tenente em 1856.

Em 1852, o autor se casou com Sófia Andrêievna Bers, com quem passou o resto de sua vida. Sua esposa teve um papel fundamental na criação das obras mais conhecidas do autor, sendo elas Guerra e Paz e Ana Kariênina, bem como atuou na edição e revisão dos manuscritos do marido. Juntos tiveram treze filhos, sendo que somente oito chegaram a fase adulta.

Apesar do sucesso de crítica e o bom convívio familiar, em 1870, Tolstói apresentou uma crise aguda de depressão, o que o fez perder o sentido nas coisas que produzia. Ao reavaliar sua vida, Tolstói retomou as atividades de sua escola, aliás, Tolstói teve um papel fundamental na educação dos mujiques da região de Iásnaia Poliana, com influência na educação da Rússia.

Tornou-se vegetariano, estudou teologia e seitas cismáticas, bem como passou a questionar frequentemente os dogmas da Igreja Ortodoxa, sendo excomungado no início do século XX. Sua influência era tamanha que o escritor passou a ter discípulos de sua doutrina, chamada toltoísmo.

Contudo, a relação com a família ficou desgastada, principalmente com sua esposa, que não compartilhava das mesmas ideias que seu marido, no que tange a abdicação dos direitos autorais sobre sua obra. Tolstói faleceu em 20 de novembro de 1910 de pneumonia.

Deixo aqui a dica de um vídeo do Youtube sobre a vida do autor feito pela Paloma, do Livros da Paloma, bem como a leitura do texto de apoio desta edição escrita detalhadamente pelo historiador e doutor em literatura russa, Lucas Simone.

SOBRE A EDIÇÃO

A edição pela qual eu fiz a leitura da obra foi a publicada em 2020 pela Editora Antofágica. Trabalho primoroso, em capa dura, com textos de apoio espetaculares de Yuri Al’Hanati, Julián Fuks, Lucas Simone e Maria Julia Kovács, bem como ilustrado por Luciano Feijão que conseguiu captar de forma única a essência desta novela:

SOBRE A OBRA E ENREDO

ATENÇÃO: O TÓPICO A SEGUIR CONTÊM MUITOS SPOILERS

Novela publicada em 1886, na qual a narrativa se inicia com a recepção da notícia da morte, aos quarenta e cinco anos, do magistrado Ivan Ilitch em seu local de trabalho (Câmara de Justiça). De imediato, já notamos que seus colegas de profissão não se importaram ou ficaram chateados com sua morte, mas se questionaram sobre quem ocuparia seu cargo no Tribunal: 

“Além das reflexões de cada um a respeito das transferências e possíveis mudanças de destino que aquela morte poderia acarretar, o próprio fato da morte de um conhecido próximo despertou em todos que ficaram sabendo dela, como sempre, uma sensação de alegria por ter morrido o outro, e não eles.”

Com relação a seu funeral, também era cristalino a indiferença das pessoas ali reunidas a respeito de sua morte, principalmente, a posição de sua esposa Praskóvia Fiódorovna em relação ao fato:

“E ela voltou a falar e revelou aquilo que claramente era seu principal assunto com ele (o colega do nosso protagonista no Tribunal presente no velório, Piotr Ivánovitch); que consistia na questão de como poderia obter indenização do governo em caso de morte do marido.

A partir do capítulo II, nós conhecemos o passado, desde a infância de Ivan Ilitch. Sabemos que seu pai era também funcionário público, que tinha mais dois irmãos, o mais velho seguiu os passos do pai e o mais novo era um fracassado que trabalhava nas ferrovias. Toda a família desprezava o irmão mais novo de Ivan.

Nosso protagonista era visto por todos da família, como um gênio e de uma honestidade incorruptível, já que estava no meio termo entre os dois irmãos. Estudou na escola de jurisprudência e se formou com distinção:

“Na escola de jurisprudência, ele já era o que viria a ser depois, ao longo de toda a vida: uma pessoa capaz, alegre, bondosa e sociável, mas que cumpria rigorosamente aquilo que considerava seu dever; e considerava seu dever tudo aquilo que assim consideravam as pessoas que ocupavam os mais altos postos.”

Após cinco anos de trabalho, foi oferecido a Ivan Ilitch um posto de juiz de instrução, no qual o nosso protagonista aceitou de bom grado e sobre esta nova posição há uma passagem no livro muito interessante da visão de mundo de Ivan:

“Mas agora, como juiz de instrução, Ivan Ilitch sentia que todos, sem exceção, até as pessoas mais importantes e cheias de si, estavam em sua mão, e que lhe bastava apenas escrever as devidas palavras no papel timbrado para que alguém importante e cheio de si fosse trazido até ele na condição de réu ou testemunha, e, se ele não quisesse prendê-la, a pessoa deveria permanecer diante dele e responder suas perguntas. ”

O poder fez com que Ivan visse de fato a vida de outro modo, tanto é que em seu novo círculo de amizade, composto por nobres ricos do Poder Judiciário, adotou um tom de insatisfação com o governo, de liberalismo moderado e civismo cortês, ou seja, Ivan passou a viver da forma que ele achava que a sociedade ditava.

Após dois anos como juiz de instrução, Ivan conheceu sua futura esposa, Praskóvia Fiódorovna, que advinha de uma família nobre, de fortuna e as pessoas de seu círculo social aprovavam a união. Logo, nosso protagonista fez aquilo que seria considerado correto pelas pessoas de alto nível, casou-se.

Com a gravidez da esposa, a vida conjugal do casal sofreu uma reviravolta, pois Praskóvia exigia que Ivan cuidasse dela e passou a ofendê-lo toda vez que este descumpria suas exigências. Diante de tal situação, mesmo após o nascimento da criança, Ivan Ilitch se agarrou ao trabalho como sua tábua de salvação, já que seu ofício era a única coisa que se impunha a sua esposa.

Logo, com relação a vida conjugal e familiar, Ivan Ilitch só exigia as conveniências que ela podia lhe proporcionar – o almoço caseiro, a dona de casa, a cama – e, sobretudo, aquela decência nas aparências, que era definida pela opinião pública.

Com o passar dos anos, cada vez mais Ivan concentrou seus esforços, bem como sua vida em seu serviço e cada vez mais deixou sua família de lado:

“No mundo do serviço, concentrava-se, todo o interesse de sua vida. E esse interesse o absorvia. A consciência de seu poder, a possibilidade de arruinar qualquer pessoa que ele quisesse arruinar, a importância, até na aparência, de sua entrada no tribunal e de seus encontros com os subordinados, seu sucesso perante os superiores e os subordinados, e, sobretudo, a maestria que ele podia sentir – tudo isso o alegrava e juntamente com as conversas com os colegas, os almoços e o uíste (jogo de cartas), preenchia sua vida. ”

A vida do nosso protagonista dá um salto de dezessete anos, e durante este período, Ivan agiu da mesma forma, ficando menos com a família e dando mais valor ao seu serviço, ao poder advindo de sua atividade, bem como os ditames sociais.

Mas, Ivan não estava satisfeito somente com isto, ele queria ganhar mais, ter um melhor cargo no Judiciário. Ao conseguir o almejado cargo, cujo salário seria de cinco mil, Ivan ficou extasiado e começou a traçar planos para a nova morada da família. 

Dentre estes planos, estavam como objetivo investir seu tempo e dinheiro na decoração da nova casa. Para ele, seu novo habitat deveria ser primoroso e de primeira linha, mas na realidade, era somente mais do mesmo do que se encontra em todas as casas de pessoas que não eram propriamente ricas, mas que queriam aparentar ser.

Em um destes investimentos, qual seja, nas cortinas da sala, Ivan ao explicar ao tapeceiro como queria que fosse o drapejamento, subiu em uma escada, mas o mesmo tropeçou e caiu, batendo o flanco no puxador de um caixilho. O machucado doeu no momento, mas logo a dor foi embora e sua satisfação com a aparência de sua casa prevaleceu.

Conforme a vida de Ivan Ilitch caminhava, ele passou a se queixar de um gosto estranho na boca e um incômodo no lado esquerdo da barriga. A partir do momento em que estas sensações aumentaram, Ivan começou a ficar mal-humorado, com ele mesmo e com a sua própria família e no meio de todos estes sentimentos de irritação e raiva, sua esposa exigiu que Ivan fosse ao médico, a fim de verificar o que de fato era esta dor que ele sentia.

Ao comparecer ao médico, tudo que restou ao Ivan foi uma indecisão de diagnóstico, tendo em vista que ora eram os rins soltos ou uma doença cecal, na qual ambas não comprometiam com a sua vida. Ivan sentia, que aquele diagnóstico não estava certo, pois ele sabia o que ele estava sentindo. Ao começar a tomar os remédios, nosso protagonista viu que sua dor não diminuía, mas mesmo assim se obrigava a pensar que estava se sentindo melhor.

Mesmo diante da dor de Ivan, sua família não o compreendia, ficavam até desgostosos com suas exigências e aborrecimentos, bem como o culpavam alegando que sua aflição estava ligada ao fato de não conseguir cumprir estritamente as prescrições médicas. E assim Ivan tinha que viver, à beira da morte, sozinho e sem ninguém que o compreendesse e tivesse pena dele.

Conforme a dor não passava, aliás, só aumentava Ivan começou a entrar em desespero, pois percebia que estava morrendo, mas não conseguia entender ou não aceitava aquele destino.

Contudo, a doença era cruel com o nosso protagonista, que dormia cada vez menos e se tornava mais depende de ópio e morfina para a dor, bem como da ajuda do mujique doméstico Guerássim.

Aqui eu faço a ressalva sobre Guerássim, acredito que a empatia de Ivan pelo mujique advém da compaixão que o mesmo o tratava na hora de ajudá-lo a comer, a realizar sua higiene ou em cada pedido feito por ele. 

Quando Ivan ficava sozinho no cômodo, ele chorava igual criança, pelo desamparo, pela solidão, pela crueldade e indiferença das pessoas, pela crueldade de Deus e pela ausência Dele.

Em um desses momentos, Ivan achou estar ouvindo uma voz que respondia a todos os seus questionamentos sobre a vida, sobre a morte e, aqui eu cito, um dos trechos mais bonitos e verdadeiros sobre a vida do nosso protagonista, o que comprova a genialidade e a sensibilidade de Tolstói:

“O casamento… tão por acaso, e a decepção, e o cheiro da boca da esposa, e a sensualidade, o fingimento! E aquele serviço morto, e as preocupações com o dinheiro, e assim por um ano, dois, dez, vinte… e sempre a mesma coisa. E, quanto mais tempo se passava, mais morto tudo era. Como se eu caminhasse montanha abaixo, de maneira constante, imaginando que caminhava montanha acima. Foi bem assim. Na opinião da sociedade, eu ia montanha acima, e na mesmíssima medida a vida se afastava de mim… E então pronto, pode morrer! ”

Vemos, através deste trecho, que somente na doença, Ivan revisitou as alegrias de seu passado e se questionou se durante toda a sua vida ele a viveu de forma “errada”. Conforme, a doença foi evoluindo, o medo da morte passou a não ser mais um temor, mas um conformismo e uma forma de redenção. E então, Ivan aspirou o ar e no meio do suspiro, esticou-se e morreu.

No texto de apoio escrito por Maria Julia Kovács, professora do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, destaca que a doença que acometeu Ivan provavelmente tratava-se de um câncer.

SOBRE MINHA EXPERIÊNCIA DE LEITURA E INDICAÇÃO PARA O PROJETO REEDUCAÇÃO DO IMAGINÁRIO

Meu primeiro contato com o autor e já me tornei fã e quero ler tudo o que este homem escreveu!

É uma narrativa impactante, cruel e verdadeira, tudo ao mesmo tempo, que te leva a refletir sobre a sua própria vida, a fazer as mesmas perguntas que Ivan Ilitch fez ao final de seu ciclo e a se indagar se assim como ele, nós também estamos vivendo a vida de forma “errada”.

Aqui o “errado” é no sentido do valor que nós damos a determinadas coisas, como o dinheiro, o trabalho, o pouco ou nenhum tempo gasto com a família, a incompreensão e a indiferença.

Quantas vez nós não agimos de determinada forma para agradar a outrem ou conforme os padrões sociais? Quantas vezes não somos indiferentes com o problema do outro? Quantas vezes nós adiamos a nossa própria felicidade?

E assim, se passam anos da nossa vida, que quando olhamos para trás ou até no espelho, enxergamos de fato, que este tempo não irá voltar. 

Talvez este seja o sentido de viver a vida de forma “correta”, nos importarmos menos com que os outros pensam, nos importamos mais e convivermos mais, dentro da possibilidade de cada um, com quem amamos, amar, sem ter medo de viver, sem ter medo do depois, ou seja, sem ter medo de ser feliz.

Recomendo muito, mas muito a leitura deste livro e espero que assim que você concluir a leitura venha compartilhar comigo, aqui nos comentários ou no Instagram (@magia.das.palavras), o que você achou!!!

Um grande beijo e até o próximo post!!

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