FUVEST: Resumo da obra Claro Enigma

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Capa do livro publicado pela Editora Companhia das Letras em 2012

SOBRE O AUTOR

Carlos Drummond de Andrade nasceu em 31 de outubro de 1902, na cidade de Itabira, no Estado de Minas Gerais.

Drummond formou-se em Farmácia, mas ele nunca exerceu a profissão. Já nesta época, o autor produzia seus textos e suas poesias. 

Logo, ao ir para o Rio de Janeiro, para trabalhar como funcionário público, ele amadurece essa produção literária e se torna um dos poetas mais influentes do modernismo brasileiro do século XX. 

CONTEXTO HISTÓRICO E CULTURAL

Aqui estamos diante da segunda fase do modernismo (1930/1945). Até este momento, o mundo passou pela Grande Depressão de 1929 e ao final desta fase, nós tivemos o início da segunda guerra mundial.

Este contexto de depressão e desilusão que o mundo estava vivendo será retratado na poesia produzida nesta fase do modernismo, tendo em vista que o poeta desta fase é um homem de seu tempo e é  por ele influenciado.

A segunda fase do modernismo também é conhecida como a fase do amadurecimento, isto é, se na primeira fase nós tínhamos que mostrar que o modernismo veio para ficar e o motivo pela qual ele apareceu, na segunda fase isso não é mais necessário.

Aqui, nós teremos uma preocupação sociopolítica, há um questionamento do homem sobre o sentido do mesmo estar no mundo e no seu tempo. Há um aprofundamento das conquistas da geração de 1922 e a linguagem passa por uma renovação.

Carlos Drummond de Andrade é tido como um dos grandes representantes da poesia da segunda fase do modernismo. O autor passou por várias fases importantes:

Fase Gauche (década de 1930): nós temos uma linguagem marcada pela ironia e humor, além de uma forte influência do gauchismo, palavra de origem francesa que significa lado esquerdo. Aqui é representada pelo indivíduo que não consegue adequar-se às convenções ditadas pela sociedade, logo, ele é visto como um ser torto.

Fase Social (1940-1945): Neste momento há um interesse pelos problemas e pela vida social. Aqui o contexto histórico diz muito e se reflete na poesia do autor. Lembrando que aqui, a sociedade já passou pela primeira guerra mundial, a depressão de 1929 e está vivendo a segunda grande guerra.

Fase do “não” (1950-1960): O poeta voltou seus escritos para temas como a filosofia, a metafísica, sendo estas características encontradas em sua poesia filosófica, na qual questiona o seu papel como poeta, seu papel no mundo. É o estar no mundo. Foi nesta fase que a obra Claro Enigma foi publicada (1951).

Durante esta fase, o mundo vivia a Guerra Fria, que teve início em 1947 (com o fim da segunda guerra mundial) e só veio a terminar em 1991 (com o fim da União Soviética). Ademais, foi também um período marcado pelas consequências da bomba atômica, atirada em Hiroshima no dia 6 de agosto de 1945.

Fase da memória (1970-1980): É a fase final da poesia de Drummond, na qual o autor irá contemplar aspectos memorialistas, através de temas como a família, a morte e a finitude da vida.

SOBRE A OBRA E O ESTILO NARRATIVO ADOTADO

Claro Enigma é um livro marcado por um certo desencanto, isto é, o autor dava sinais da exaustão do seu engajamento político e anos de militância, através de seus versos que caminham para uma dissolução de uma ideologia que Drummond carregava consigo.

Por esta obra, o poeta propõe um olhar em seu interior através de assuntos como a sua origem, a força do amor e o poder da memória.

Nessa publicação, Drummond volta a investir em formatos clássicos, como é o caso de alguns sonetos  e outras composições que obedecem a rima e a métrica.

Sobre a epígrafe do livro, a mesma foi escrita pelo filósofo francês Paul Valéry: Les événements m’ennuient. (em tradução literal  – Os acontecimentos me entediam), é utilizada como forma de nos dizer que tal obra foi composta com sentimentos de desencanto, melancolia e mostra como o poeta é incapaz de intervir no mundo (sua pequenez).

ESTRUTURA DA OBRA

A obra Claro Enigma é composta de quarenta e um poemas, divididos em seis partes:

1ª divisão – Entre lobo e cão: de um lado o lobo que é a representação do mal, da raiva; e o cão que representa a bondade, a passividade. Tais poemas, nesta divisão, tratam de questões existenciais, principalmente a dualidade entre o bem e o mal.

2ª divisão – Notícias amorosas: Aqui o poeta fala do amor, mas não com o olhar romântico ou sentimentalismo excessivo. Na verdade, o autor olha o amor de uma forma muito mais racionalizada e muitas vezes até pessimista. 

3ª divisão – O menino e os homens: É o momento em que o poeta na condição de menino vai homenagear grandes nomes da poesia brasileira como Mário de Andrade, Manoel Bandeira e Mário Quintana. É uma louvação aos seus poetas preferidos.

4ª divisão – Selo de Minas: Aqui o autor lembra, através de sua poesia, da sua terra natal (Itagiba), de seus familiares, bem como hábitos e costumes de sua vida. Estas lembranças não nos são contadas com um tom nostálgico ou até mesmo saudosista, mas são ditas de forma racionalizada.

5ª divisão – Lábios cerrados: aqui nós temos seis poemas com a temática do silêncio. O autor narra sobre pessoas importantes do seu passado e até mesmo de familiares que já se foram. Aqui a morte e a finitude da vida se fazem presentes como temas.

6ª divisão – A máquina do mundo: é composta por dois poemas, sendo um deles o que dá título a esta divisão. Este poema foi extremamente importante, pois foi considerado pelos críticos literários o melhor poema produzido no século XX. A máquina do mundo mantém um diálogo com a obra Os Lusíadas, especificamente com o canto X, em que Camões fala desta máquina do mundo, que traz todas as informações resumidas em um só lugar. 

Aqui a figura do eu-lírico é um caminheiro que encontra na estrada esta máquina do mundo. O interessante é que ele não recebe todas as respostas, logo, ele continua a caminhar.

Como é uma obra que trabalha com questões existenciais é bom lembrar que a marca da questão existencial é a dúvida, perguntas das quais não temos respostas. Nota-se, portanto, que ao final da obra nós não temos nenhuma conclusão, acredito que advém daí o nome dela “claro enigma”.

POSSÍVEIS QUESTÕES PARA O VESTIBULAR

Ao analisar as questões de diversos vestibulares, eu pude verificar que a cobrança se baseia na interpretação através das fases, das divisões da obra e características da escrita do autor, através  da análise dos poemas fornecidos pela Banca.

Vi questões que cobravam o conhecimento da forma estrutural do poema, sendo esta o soneto (dá uma olhadinha no resumo da obra poemas escolhidos), bem como questões que cobravam a interpretação dos sentimentos do poeta em sua composição. 

Indico a leitura da obra e que você saiba bem o contexto histórico e cultural, as fases das composições do poeta, bem como sobre cada divisão da obra Claro Enigma. 

Ademais, dê uma atenção especial para o poema A máquina do mundo, pois ele é bem cobrado nas questões. Veja as características e a sua representatividade num todo.

IMPRESSÃO GERAL DO LIVRO

Como eu disse no post sobre Poemas escolhidos de Gregório de Matos, eu não tenho muito costume de ler poesia, mas especificamente deste livro eu gostei bastante e acredito que a obra é um bom início neste gênero literário.

De fato, é cristalino o pessimismo e a desilusão com o mundo, que se faz presente até hoje, apesar de não serem as mesmas questões sociopolíticas que o autor passou, mas são outras também capazes de nos mostrar a nossa pequenez.

Recomendo a todos a leitura desta obra muito fluída, bem escrita, que dá para ler em um fim de semana e é capaz de te fazer refletir sobre cada pensamento e visão de mundo do poeta.

Já leu esta obra? Se positivo, compartilha aqui comigo sua experiência!!!

Um beijo e até o próximo post!!

Sessão Pipoca – Setembro de 2020

Mais um vale sessão pipoca por aqui e, confesso que o mês de Setembro não foi tão produtivo como o mês passado, mas dos filmes que eu vi, aliás todos disponíveis na Netflix, eu gostei bastante e indico muito!!

El Camino: A breaking bad movie

Sinopse: Após fugir do cativeiro, onde foi mantido quando sequestrado, dramaticamente, Jesse Pinkman (Aaron Paul) inicia uma jornada em busca da própria liberdade, mas antes precisa se reconciliar com o passado para, só então, ter seu futuro garantido.

Com a conclusão da série no final de agosto para mim, eu não pensei duas vezes em iniciar este mês com o filme El Camino. Apesar de sentir falta do Walter White, já que ele era a essência da série, eu gostei muito do filme, pois acho que o Jesse merecia um final digno também.

Aaron Paul arrasando mais uma vez com a sua personagem mais icônica e Vince Guilligan mostrando mais uma vez a sua genialidade na produção deste filme.

NOTA: 4/5

O diabo de cada dia

Sinopse: Ambientada entre a Segunda Guerra Mundial e a Guerra do Vietnã, O Diabo de Cada Dia acompanha diversos personagens num canto esquecido de Ohio, os quais a vida acabam se conectando. Willard Russell (Bill Skarsgård) é um atormentado veterano, sobrevivente de uma carnificina, que não consegue salvar sua bela esposa de uma morte agonizante por conta de um câncer, mesmo com toda a oração e devoção de sua parte. Enquanto isso, Carl (Jason Clarke) e Sandy Henderson (Riley Keough), um casal de assassinos em série, percorrem as rodovias americanas em busca de modelos adequadas para fotografar e exterminar. E no meio disso tudo está Arvin Russell (Tom Holland), filho órfão de Willard e Charlotte (Haley Bennett), que cresceu para ser um homem bom mas começa a demonstrar comportamentos violentos quando passa a desconfiar que o líder religioso da cidade, Preston Teagardin (Robert Pattinson), é uma farsa.

É um filme com um elenco muito forte e dedicado, principalmente com relação ao sotaque já que o filme se passa num lugarzinho no interior dos EUA. Atuações excelentes, dando destaque para o Tom Holland e do Robert Pattinson.

Informo que é um filme violento, com muito tiro, porrada e por pouco teria bomba também, mas que representa o fanatismo religioso e a violência de uma forma muito cristalina e cruel.

NOTA: 4,5/5

O destino de uma nação (Darkest Hour)

Sinopse: O Destino de uma Nação acompanha Winston Churchill (Gary Oldman) que está prestes a encarar um de seus maiores desafios: tomar posse do cargo de Primeiro Mnistro da Grã-Bretanha. Paralelamente, ele começa a costurar um tratado de paz com a Alemanha nazista que pode significar o fim de anos de conflito.

Aqui o destaque vai para a brilhante atuação de Gary Oldman, cuja interpretação foi tão boa, mas tão boa que ele ganhou todos os prêmios de cinema, entre eles o Oscar de melhor ator, por este filme.

Destaco também o cuidado com a produção, desde a ambientação até algumas formas de filmagem, bem como a cena com o discurso mais famoso de Churchill, que são lindas de se assistir. Este filme, com certeza vale uma sessão pipoca!!

NOTA: 5/5

Já viu algum destes filmes? Quer me indicar algum filme que você gostou muito?

Deixa nos comentários a sua opinião!!

Um beijo e até o próximo post!!!

Resenha de O Senhor dos anéis – A sociedade do anel

Capa do livro publicado pela Editora Harper Collins em 2020

Décimo livro da lista do Projeto Reeducação do Imaginário, do brilhante autor sul-africano J. R.R. Tolkien. 

Deixo a observação que este post será diferente dos demais, pois tratarei de cada livro individualmente e farei um post em separado para falar sobre o autor e a obra, bem como a indicação da mesma ao projeto.

Ademais, insta salientar que é interessante e até de suma importância, a leitura de “O Hobbit” para a compreensão do ambiente em que se passa a narrativa, o conhecimento de algumas personagens que aparecem tanto neste romance como também em O senhor dos anéis, bem como  a forma que Bilbo Bolseiro adquire o anel, objeto deste livro.

SOBRE A EDIÇÃO

A edição pela qual eu fiz a minha leitura foi lançada em 2020 pela Editora Harper Collins. Aqui ressalto o trabalho excelente de edição, desde a capa, contracapa, fonte, diagramação, prefácio, bem como a transcrição dos poemas originais em inglês e notas sobre as runas e ilustrações feitas pelo próprio autor.

O livro, na verdade é único, todavia, o mesmo foi divido em três partes, composta de seis livros.

MINHA EXPERIÊNCIA DE LEITURA DE “A SOCIEDADE DO ANEL

A primeira parte da história, inicia-se com os seguintes dizeres:

Três Anéis para os élficos reis sob o céu, sete para os anões em recinto rochoso, nove para os homens, que a morte escolheu, um para o Senhor Sombrio no espaldar tenebroso na Terra de Mordor aonde a Sombra desceu.

Um anel que a todos rege, um anel para achá-los, um anel que a todos traz para na escuridão atá-los, na Terra de Mordor aonde a Sombra desceu.

O livro se passa muito anos após a história de O Hobbit, com os preparativos para o aniversário de 111 anos de Bilbo Bolseiro e de 33 anos de Frodo, que termina com o sumiço do velho hobbit durante a festa. 

Ressalto aqui que, Bilbo não sumiu, mas decidiu se aposentar, tendo em vista que o mesmo viveu por anos sob a influência do ”um  anel” e já estava se sentindo afetado pelo objeto. Com a saída de cena de Bilbo, nós conhecemos seu herdeiro, Frodo, um jovem Hobbit que com o sumiço de seu parente herda todos os seus bens, inclusive o “um anel”.

No capítulo “A sombra do passado”, no momento em que Gandalf, o Cinzento,  se dá conta de que aquele anel em posse de Frodo, aqui já com 50 anos, era de fato o “um anel”, isto é, o anel regente de todos os anéis do poder, o mago intercede para que o Frodo nunca o use, pois apenas o desejar pelo anel, já é capaz de corromper o coração de alguém.

Ao saber sobre a história do anel, principalmente como este foi conquistado por Gollum, Frodo se revolta e questiona Gandalf o motivo pelo qual Bilbo não matou a criatura traiçoeira quando teve oportunidade.

Aqui cito uma das passagens mais bonitas do livro e que representa como esta história pode ser vista como uma metáfora da vida:

O que vou fazer? Que pena que Bilbo não apunhalou essa vil criatura quando teve a chance!

Pena? Foi a pena que deteve sua mão. A pena e a compaixão: de não golpear sem necessidade. E ele foi recompensado, Frodo. Tenha certeza de que ele teve tão poucos danos devidos ao mal, e escapou por fim, porque começou sua posse do Anel desse modo. Com pena…

Seja como for, agora ele é tão mau quanto um Orque e apenas um inimigo. Ele merece a morte.

Merece! Imagino que merece. Muitos que vivem merecem a morte. E alguns que morrem merecem a vida. Você pode dá-la a eles? Então não seja ávido demais por conferir a morte em julgamento. Pois nem, mesmo os muito sábios conseguem ver todos os fins.

Ainda no livro I, nós iremos acompanhar a fuga de Frodo e seus companheiros (Sam, Merry e Pippin) do Condado, perseguidos pelo terror dos  Nove Cavaleiros Negros de Mordor, até que por fim, com o auxílio do engimático e podereso Tom Bombadil, bem como de Aragorn, também conhecido como o Caminheiro e Passolargo, conseguem chegar à casa do elfo Elrond, em Valfenda.

O livro II já começa em Valfenda, local em que ocorreu o grande Conselho de Elrond, em que podemos rever Bilbo e Gandalf e termos uma visão mais geral do problema a ser enfrentado com o “um anel”. 

Após discutirem, o Conselho decide pela destruição do “um anel”, bem como foi designado que Frodo seria o portador do objeto. Os Companheiros do Anel, denominada “A sociedade do anel” foram então escolhidos para auxiliar Frodo em sua tarefa, qual seja, chegar a Montanha de Fogo em Mordor, a terra do próprio inimigo, o único lugar em que o Anel poderia ser destruído.

Nessa sociedade estavam Aragorn e Boromir, filho do Senhor de Gondor, representando os Homens; Legolas, filho do Rei-élfico de Trevamata, pelos Elfos; Gimli, filho de Glóin, da Montanha Solitária, pelos Anões; Frodo com seu serviçal Samwise e seus dois jovens parentes Meriadoc e Peregrin, pelos Hobbits; e Gandalf, o Cinzento.

E aqui é que de fato a aventura começa, os companheiros do anel viajam em segredo para longe de Valfenda, até que, frustrados em sua tentativa de atravessar no inverno o alto passo de Caradhras, foram levados por Gandalf através do portão oculto e entraram nas vastas Minas de Moria, buscando um caminho por baixo das montanhas. Nesta parte da história, meu coração quase parou quando Gandalf, em batalha com um terrível monstro do mundo inferior (Balrog), caiu em um escuro abismo e nos passa a impressão de que o mesmo se foi. 

Com a suposta morte de Gandalf, Aragorn, agora já conhecido pelo leitor como herdeiro oculto dos antigos Reis do Oeste, leva a Comitiva avante desde o Portão leste de Moria até a terra Élfica de Lórien. 

Este lugar místico conta com a presença da elfa extremamente poderosa e portadora de um dos anéis, Galadriel que ao se despedir da comitiva do anel diz a seguinte frase: que te seja uma luz nos lugares escuros, quando todas as outras luzes se apagam. Esta frase me tocou muito, pois a mensagem de que “sejamos sempre luz” é cristalina, poética e possivelmente aplicável a nossa vida.

Ao sair de Lórien, a comitiva já tinha se dado conta que se fazia necessária a decisão de qual rumo deveriam tomar: ir ao leste para Mordor ou prosseguir com Boromir em auxílio de Minas Tirith, principal cidade de Gondor, na guerra vindoura ou dividir-se, o que desencadearia com a desfazimento da sociedade do anel.

Quando ficou evidente que Frodo estava resolvido a continuar a sua viagem à terra do inimigo, Boromir tenta se apossar do Anel à força, devido ao seu desejo pelo poder que o objeto possui. 

Ademais, no decorrer da jornada da comitiva, os mesmos estavam sendo vigiados por espiões e pela criatura Gollum, antigo possuidor do “um Anel” e que ainda ansiava por ele.

Por fim, a primeira parte termina com o desfazimento da sociedade, na qual Frodo e Samwise seguem para Mordor e os demais sofrendo um ataque de orques, a serviço  do Senhor Sombrio e do mago traidor Saruman de Isengard.

E este post termina por aqui e eu volto com a minha experiência de leitura de As duas torres em breve!

Um beijo e até o próximo post!!

Resenha de A montanha mágica

Capa do livro publicado em 2016 pela Editora Companhia das Letras

Sexto livro do Projeto Reeducação do Imaginário, e o primeiro livro que eu leio do autor alemão e ganhador do Prêmio Nobel de Literatura, Thomas Mann.

SOBRE O AUTOR E A OBRA

Thomas Mann, foto contida na Edição da Companhia das Letras

Thomas Mann foi um escritor alemão, considerado um dos maiores escritores do século XX. 

O autor nasceu em Lübeck, Alemanha, no dia 6 de junho de 1875. Era filho do rico comerciante Johann Heinrich Mann e da brasileira Júlia da Silva Bruhns.

Em 1892, com a morte do pai, que deixou uma ótima herança, a família se mudou para Munique, centro das artes e da literatura, local onde Thomas completou sua formação.

Em 1893, o autor foi para a Itália, onde morava seu irmão o escritor Heinrich Mann, permanecendo no país até 1898. Nessa época iniciou seu trabalho no manuscrito do romance “Buddenbrooks”, pelo qual ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 1929.

Durante a Primeira Guerra Mundial, Thomas Mann ficou ao lado daqueles que defendiam o nacionalismo alemão, mas o militarismo cruel que se instalou no país abalou profundamente seus ideais e convicções.

Opositor do nazismo, depois da ascensão de Hitler ao poder, Thomas Mann deixa a Alemanha em 1933 e se exila em Küsnacht, na Suíça, onde permaneceu até 1938, quando se mudou para os Estados Unidos. 

Thomas Mann faleceu em Kilchberg, próximo a Zurique, na Suíça, no dia 12 de agosto de 1955.

A obra “A montanha mágica” foi publicada em 1924, na qual retrata a concepção do autor sobre os ideais democráticos de uma Europa esfacelada pela Primeira Guerra Mundial.

SOBRE A EDIÇÃO

A edição pela qual eu fiz a minha leitura foi a publicada pela Editora Companhia das letras em 2016 e conta com a tradução do brilhante Hebert Caro e posfácio de Paulo Astor Soethe.

O livro conta com uma introdução, denominada “Propósito” mais sete capítulos divididos e vários subtítulos, totalizando 829 páginas de narrativa, mais o posfácio que vale muito a leitura.

MINHA EXPERIÊNCIA DE LEITURA E INDICAÇÃO INDICAÇÃO DESTE LIVRO PARA O PROJETO REEDUCAÇÃO DO IMAGINÁRIO

ATENÇÃO: ALERTA DE SPOILER

Com a conclusão da obra, eu posso garantir que este livro tornou-se um dos favoritos da vida e que no futuro eu pretendo fazer a releitura deste clássico.

O livro, a apesar de enorme (a minha edição contém 848 páginas), também é enorme em ensinamentos e reflexões sobre o tempo e sobre a morte.

A narrativa nos contará a história de um jovem de 23 anos, chamado Hans Castorp, recém-formado em Engenharia Naval em Hamburgo, sua cidade natal. Órfão, foi criado por seu tio, o cônsul Tienappel e dono de uma ótima herança deixada por seus pais.

Antes de assumir sua vaga na firma Tunder & Wilms (estaleiro, fábrica de máquinas e caldeiras), Castorp realiza uma viagem, de três semanas, para Davos-Platz, especificamente ao Sanatório Internacional para Tuberculosos Berghof, onde seu primo Joaquim Ziemssen se encontra.

Saliento aqui que Hamburgo é uma cidade portuária alemã, na qual nos mostra o tempo do comércio, da produção, do dinheiro. Esta visão de tempo é muito importante para a compreensão do romance e para o estabelecimento de um paralelo entre a Montanha e a Planície.

Ao chegar no Sanatório, Hans Castorp se diz saudável e em um primeiro momento acha o local enfadonho, pois a rotina de tratamento para a tuberculose se baseia em alimentação e repouso em um ambiente seco e com ar rarefeito. 

Aqui, saliento o diálogo de apresentação de Hans Castorp ao Diretor-Médico do sanatório, o Dr. Behrens, no qual ele diz ao nosso protagonista que até hoje nunca conheceu alguém saudável na vida e que a medida de tempo não é feita em segundos, minutos ou semanas, mas sim em meses e anos.

Nestas três primeiras semanas, nós conheceremos várias personagens peculiares e caricatas como o italiano iluminista Setembrinni, os russos aristocráticos e ordinários, a sociedade do meio-pulmão e a futura dona do coração do nosso herói, a russa Clawdia Chauchat.

Acredito que devido a esta paixão, ao meu ver totalmente não correspondida, Hans Castorp encontra-se também com tuberculose, pois ele precisa de algum motivo plausível para os seus parentes na planície, a fim de ficar mais tempo na Montanha.

Como era rico, não precisava trabalhar e poderia viver muito bem dos juros de sua herança, a fim de arcar com a sua nova morada.

E assim, meus caros leitores, o tempo na Montanha fica suspenso, a luta pela sobrevivência fica suspensa e é o que faz a Montanha ser tida como mágica e distante da vida na planície.

A vida na Montanha impedia de ver o que acontecia lá embaixo, qual seja a iminência da primeira guerra mundial. Nota-se que este livro foi escrito quando já havia acabado o evento bélico citado.

Ademais, a narrativa não possui nenhuma ação, tendo em vista que a mesma sempre irá se basear na rotina, já descrita acima, da vida no Sanatório, mas este microcosmo conta com personagens e diálogos que te levam a refletir sobre as questões da época e de sua visão de mundo, como é o caso do Setembrinni e do Naphta, um judeu convertido ao cristianismo e da ordem dos jesuítas.

Através destas duas personagens, nós teremos os diálogos mais conflituosos sobre filosofia e sobre a vida. Do holandês Mynheer Peeperkorn aprendemos sobre dinheiro e poder; nós temos também o próprio Dr. Behrens, que em todo o romance eu achei esta personagem um louco e questionei em vários momentos sua postura como médico; e a alienação dos demais pacientes com o mundo exterior.

Na medida em que a leitura flui, você percebe que a Montanha, descrita inicialmente como uma paraíso, nas verdade é um inferno, pois é um local em que poucos saem com vida e que na realidade representa um local a espera da morte.

Saliento os subtítulos mais bonitos do livro para mim denominados “Neve”, na qual nosso protagonista reflete sobre a sua vida na planície e na montanha, bem como “Como um soldado, como um valente”, referente ao Joaquim Ziemssen valem muito a pena serem lidos caso você esteja na dúvida da leitura desta obra.

Ao final do romance tomamos o conhecimento de que Hans Castorp chegou ao sanatório em 1907 e ficou lá por sete anos, descendo a planície para lutar na primeira guerra mundial, na qual não sabemos se o mesmo sobreviveu ou não.

Acredito que pelo tom de despedida do autor ao narrar este retorno ao “mundo real”, nosso herói não tenha sobrevivido, mas tenha acordado para a realidade ao seu redor.

Sobre a indicação do livro ao Projeto Reeducação do Imaginário, A Montanha Mágica apresenta ao leitor questões que transcendem a história em si, ou seja, faz o leitor perceber a relação cotidiana entre a vida e a morte, entre reflexão e atividade não refletida, criando assim nossa própria subjetividade.

Vejo a obra como uma redefinição do tempo de uma sociedade em crise e incapaz de se ver a beira de uma catástrofe, como foi a Primeira Guerra Mundial. 

É um livro que te faz pensar filosoficamente no sentido das coisas e da vida no decorrer do tempo, razão pela qual indico imensamente a leitura desta grande obra.

Já leu este livro ou algum livro do Thomas Mann??

Deixa aqui nos comentários a sua opinião!!

Um beijo e até o próximo post!!

FUVEST: Resumo da obra A Relíquia

Capa do livro publicado pela Edições Best Bolso em 2016

SOBRE O AUTOR

José Maria Eça de Queirós nasceu em 25 de novembro de 1845 em Póvoa de Varzim – Portugal. Em 1855 saiu da casa dos avós paternos e iniciou os seus estudos regulares em um colégio interno no Porto. 

Em Coimbra, o autor nunca foi um aluno brilhante, pelo contrário, queixava-se do pequeno alcance intelectual dos professores, bem como a forma obtusa de conduzir o ensino e avaliação.

Entre 1866, ano de sua formatura na Universidade de Coimbra, e 1871 Eça tenta estabelecer-se como advogado em Lisboa, todavia, sem sucesso. Após este episódio, começa a dirigir um jornal em Évora, de onde retornou a Lisboa em meados de 1867. 

Em 1870, o autor participou ativamente da elaboração do programa e na realização das Conferência Democráticas, onde decidiu ingressar na diplomacia. Antes de assumir o seu primeiro cargo de cônsul na Inglaterra (1874-1888), viveu seis meses na província, em Leiria, como administrador do Conselho.

Em 1872, Eça já era um escritor conhecido, pois além de vários folhetins, que foram reunidos postumamente com o título de Prosas Bárbaras (1903), tinha escrito duas obras em parceria com Ramalho Ortigão, intituladas As Farpas (1871) e O Mistério da Estrada de Sintra (1870).

Em 1876, é publicado o primeiro romance queirosiano, sendo este O Crime do Padre Amaro. Ademais, a vida do autor foi dedicada a sua obra e aos seus amigos. Em 1886, aos 41 anos, casou-se com Emília de Castro, de família nobre portuguesa, com quem teve quatro filhos.

Eça de Queirós faleceu em 1900, deixando revistas as provas da Correspondência de Fradique Mendes e de A Ilustre Casa de Ramires. Posteriormente, foram publicados vários textos do autor, entre os quais A Capital! (1925) e O Egito (1926).

SOBRE A OBRA

A obra  A Relíquia foi publicada no ano de 1887, durante a segunda fase do realismo, caracterizado pelo olhar pessimista e análise da sociedade, principalmente da burguesia lisboeta da época.

Logo, este olhar do autor sempre terá um cunho crítico, irônico e ácido com suas personagens e narrativa.

A obra conta com duas personagens principais, Teodorico Raposo e Dona Maria do Patrocínio, mais conhecida como Titi. Estes estarão sempre em contato (são tia e sobrinho), em conflito (um bon vivant e uma religiosa fervorosa) com Teodorico tentando construir uma imagem de santo para a tia. Nota-se, portanto, que o autor ao narrar a história utiliza-se de perfis psicológicos para com suas personagens e através deles faz a sua crítica ao cientificismo e ao conservadorismo provinciano.

CONTEXTO HISTÓRICO E CULTURAL

O realismo em geral sempre põe em xeque os ideais românticos. ou seja, o movimento em vigência sempre se contraria ao movimento que passou.

Aqui também temos a segunda fase da revolução industrial (capitalismo e industrialização) e do pensamento científico, como é o caso do positivismo e do evolucionismo de Darwin (darwinismo). Acerca do tema, dá uma olhadinha no resumo da obra Quincas Borba!

ESTILO NARRATIVO

A obra é narrada em primeira pessoa, sendo este Teodorico Raposo, cuja alcunha é Raposão. Toda a narrativa, predominantemente, ocorre em Portugal e Jerusalém. Por fim, o tempo desta narrativa é o psicológico.

A narrativa leva em conta as característica da própria escola literária, como o objetivismo e cientificismo (a razão em detrimento da emoção), o materialismo e pessimismo (é muito difícil uma obra literária deste período ter um final feliz, o que impõe a negação ao romantismo), as reações a monarquia e ao clero, sendo esta última muito acentuada na obra e a preocupação com o tempo vivido, o tempo presente.

A narrativa é dividida em uma introdução mais cinco capítulo. Ademais, no decorrer da narrativa nós podemos vislumbrar a utilização da intertextualidade, isto é, a citação de outras obras, como é o caso da Bíblia.

ENREDO

Na introdução, nós temos o anúncio da composição de um livro de memórias da vida do protagonista. Teodorico informa que em 1875, após uma desilusão amorosa, foi enviado de Campo de Santana (Portugal) para Jerusalém pela tia Dona Patrocínio das Neves (Titi).

As memórias do protagonista não tratarão de pontos turísticos, mas de lembranças sinceras do que ele viveu. Para saber sobre a descrição dos lugares de Jerusalém, o protagonista indica a leitura do “Jerusalém passeada e comentada”, do autor alemão Topsius.

O primeiro capítulo, narrará a história de Teodorico Raposo ainda criança, isto é, desde que seus pais se conheceram. Contará também sobre seus avós e sua tia, Dona Patrocínio. Sobre a morte de sua mãe, após o seu nascimento (em uma sexta-feira santa) e a morte de seu pai, aos 7 anos de idade.

Como ficou órfão, Teodorico irá para Lisboa ficar com a Titi, que é muito severa e religiosa:

Não fiz o sinal da cruz. Mas entreabri a cortina; e o oratório da Titi deslumbrou-me, prodigiosamente. Era todo revestido de seda roxa, com painéis enternecedores em caixilhos floridos, contando os trabalhos do Senhor; as rendas da toalha do altar roçavam o chão tapetado; os santos de marfim e de madeira, com auréolas lustrosas, viviam num bosque de violetas e de camélias vermelhas. A luz das velas de cera fazia brilhar duas salvas nobres de prata, encostadas à parede, em repouso, como broquéis de santidade; e erguido na sua cruz de pau preto, sob um dossel, Nosso Senhor Jesus Cristo era todo de ouro, e reluzia.

Aos nove anos, Teodorico foi enviado ao Colégio Interno dos Isidoros em Santa Isabel. No local conheceu Crispim, que se tornaria o seu cunhado. Já nesta idade, Teodorico entendia que sempre havia de agradar Titi, pois a mesma era muito rica e ele seu único herdeiro (“E tudo pertença à Titi. Que rica que era a Titi! Era necessário ser bom, agradar sempre A Titi!”)

Um pouco mais velho, Teodorico foi terminar os seus estudos em Coimbra, na casa do Doutor Roxo, reconhecido no estudo de teologia. Nosso protagonista odiou Doutor Roxo, todavia, após a morte do mesmo, Teodorico mudou-se para hospedagem de Pimentas, onde conheceu a liberdade e as fortes delícias da vida:

Nunca mais rosnei a delambida oração a São Luís Gonzaga, nem dobrei o meu joelho viril diante de imagem benta que usasse auréola na nuca; embebedei-me com alarido nas Camelas; afirmei a minha robustez, esmurrando sanguinolentamente um marcador do Trony; fartei a carme com saborosos amores no Terreiro da Erva; vadiei ao luar, ganindo fados; usava moca; e como a barba me vinha, basta e negra, aceitei com orgulho a alcunha de Raposão.

Nesta época, nosso protagonista conheceu Adélia e apaixonou-se. Todavia, a amada tinha um caso com outro e Teodorico ficou devastado com a traição.

Tornou-se bacharel em Direito e descobriu o seu rival na herança de Titi: “E além disso o seu rival não é outro, Teodorico, senão Nosso Senhor Jesus Cristo!”

Para que a herança ficasse com ele, Teodorico passou a ir em todas as missas, pregar quadros de santos, até desconhecidos por Titi em seu quarto, ou seja, travou uma batalha contra Jesus Cristo.

Ao encontrar com Rinchão, em uma roda de amigos, Teodorico ficou com vontade de ir a Paris, para gozar da vida da mesma forma que o amigo, bem como para esquecer Adélia. Todavia, para Titi, Paris é um lugar asqueroso e pecaminoso.

Logo, Titi mandou Teodorico a Jerusalém, a terra sagrada de Nosso Senhor Jesus Cristo. Teodorico não gostou em nada do destino, consultou um judeu conhecido seu e achou que seu lugar de destino era só mar e deserto.

Contudo, Teodorico repensou em sua viagem, pois para chegar a Jerusalém, tinha de atravessar regiões bem festivas e repleta de mulheres, como era o caso de Andaluzia, Nápoles, Grécia. Com tal pensamento em mente, um clarão sulcou-me a alma.

 Já de viagem marcada, Titi pediu a Teodorico um presente, uma relíquia vinda de Jerusalém, sendo este trecho que dá nome ao conto:

– Aqui está! – declarou a Titi. – Se entendes que mereço alguma cousa, pelo que tenho feito por ti, desde que morreu tua mãe, já educando-te, já vestindo-te, já dando-te égua para passeares, já cuidando da tua alma, então traze-me desses santos lugares uma santa relíquia, uma relíquia milagrosa que eu guarde, com que me fique sempre apegando nas minhas aflições e que cure as minhas doenças.

Nos segundo, terceiro e quarto capítulos, Teodorico nos contará a sua chegada à Alexandria em um domingo, dia de São Jerônimo, acompanhado de seu colega Topsius, Doutor alemão pela Universidade de Bonn e sócio do Instituto Imperial de Escavações Históricas.

Durante sua estadia, conheceu Miss Mary e se apaixonou. Ao chegar a véspera da viagem para Jerusalém. Teodorico estava triste por deixar a nova amada, então esta lhe deu sua camisola para se lembrar dela durante a viagem.

Ao chegar em Jerusalém, Teodorico, pode viver o passado, ao ver Cristo ser crucificado e ressuscitado, bem como encontrou a relíquia que daria à Titi:

E que me encontrava certamente diante de uma árvore ilustre! Fora um galho igual (o nono talvez) que, arranjado outrora em forma de coroa por um centurião romano da guarnição de Jerusalém, ornara sarcasticamente, no dia do suplício, a cabeça de um carpinteiro de Galiléia, condenado…

Sim, condenado por andar, entre quietas aldeias e nos santos pátios do templo, dizendo-se filho de Davi e dizendo-se filho de Deus, a pregar contra a velha religião, contra as velhas instituições, contra a velha ordem, contra as velhas formas! E eis que esse galho, por ter tocado os cabelos incultos do rebelde, torna-se divino, sobe aos altares, e do alto enfeitado dos andores faz prostrar no lajedo, à sua passagem, as multidões enternecidas…

Ao retornar para Portugal, Teodorico resolveu se livrar do presente de Miss Mary, a fim de não haver pistas que o “incriminasse”, logo, entregou a uma moradora de rua a camisola dada para que esta pudesse vendê-la.

No último capítulo, nós veremos a derrocada de Teodorico, ao ler que o embrulho dado a moradora de rua era na verdade a coroa de espinhos e o embrulho dado a Titi era a camisola de Miss Mary.

Ao ver tal presente pecaminoso, Titi expulsou Teodorico de casa e este teve que sair imediatamente e sem nenhum dinheiro.

Devido a situação em que se encontrava, Teodorico teve que aprender a se virar e usar seu intelecto de bacharel. Aliás, foi devido a esta máquina de pensar que vislumbrou a real natureza das medalhas, dos bentinhos, das águas, das lascas, das pedrinhas, das palhas que trouxe de Jerusalém, que até então considerava um lixo eclesiástico, como verdadeiras relíquias, capazes de lhe gerarem rendimentos: Dava-se um caco de barro – e recebia-se uma rodela de ouro!…

Contudo, no decorrer de seu novo estilo de vida, Teodorico perdeu sua tia Titi. Ao saber de sua morte, nosso protagonista foi até o cartório do Justino, a fim de saber do testamento da tia:

O prédio do Campo de Santana e quarenta contos de inscrições, para o Senhor dos Passos da Graça. As ações da Companhia do Gás, as melhores pratas, a casa de Linda-a-Pastora para o Casimiro, que já se não mexia, moribundo. Padre Pinheiro recebia um prédio na Rua do Arsenal. A deliciosa quinta do Mosteiro, com o seu pitoresco portão de entrada, onde se viam ainda as armas dos condes de Lindoso, as inscrições de Crédito Público, a mobília do Campo de Santana, o Cristo de ouro – para o Padre Negrão. Três contos de réis e o relógio, para o Margaride. A Vicência tivera as roupas de cama. Eu – o óculo!

Ao ver que sua herança foi um óculo, Teodorico ficou louco de raiva e resolveu insultar o cadáver da Titi chamando contra ela todas as cóleras da natureza. 

Durante seu acesso de raiva e revolta, o nosso protagonista caiu de joelhos e bateu a testa no assoalho do quarto. Neste momento, ele ouviu uma voz repousada e suave:

Quando tu ias ao alto da graça beijar no pé uma imagem – era para contar servilmente à Titi a piedade com que deras beijo; porque jamais houve oração nos teus lábios, humildade no teu olhar – que não fosse para que a Titi ficasse agradada no seu fervor de beata. O Deus a que te prostravas era dinheiro de G. Godinho; e o céu para que teus braços trementes se erguiam – o testamento da Titi… Para lograres nele o lugar melhor, fingiste-te devoto, sendo incrédulo; casto, sendo devasso; caridoso, sendo mesquinho; e simulaste a ternura de filho, tendo só a rapacidade de herdeiro… Tu foste ilimitadamente o hipócrita! Tinhas duas existências: uma ostentada diante dos olhos da Titi, toda de rosários, de jejuns, de novenas; e longe da Titi, sorrateiramente, outra, toda de gula, cheia da Adélia e da Benta… Mentiste sempre; e só eras verdadeiro para o céu, verdadeiro para o mundo, quando rogavas a Jesus e à Virgem que rebentassem depressa a Titi.

Depois resumiste esse laborioso dolo de uma vida inteira num embrulho – onde acomodaras um galho, tão falso como o teu coração; e com ele contavas empolgar definitivamente as pratas e prédios de D. Patrocínio! Mas noutro embrulho parecido trazias pela Palestina, com rendas e laços, a irrecusável evidência do teu fingimento…Ora, justiceiramente aconteceu que o embrulho que ofertaste à Titi e que a Titi abriu – foi aquele que lhe revelava a tua perversidade! E isto provaste, Teodorico, a inutilidade da hipocrisia!

A leitura do trecho acima nos mostra, de forma cristalina, a crítica ao estilo de vida da burguesia lisboesta, onde vemos que Teodorico vivia duas vidas, uma verdadeira e de malícia e outra fingida com a demonstração de sua falsa santidade.

Após o breve bate-papo com Deus, Teodorico reencontrou seu amigo de escola, o Crispim. Agora homem, Crispim era dono da fábrica de fiação Teles Crispim & Cia e com o reencontro, aproveitou a oportunidade para chamar Teodorico para trabalhar com ele. 

Com o passar do tempo, Crispim teve a ideia de apresentar sua irmã, Dona Jesuína (tinha trinta e dois anos e era zarolha), para Teodorico e estes logo se casaram e tiveram filhos. Por fim, ao escrever o livro de memórias, nosso protagonista refletiu sobre o episódio da misteriosa troca dos embrulhos:

Quando em vez de uma coroa de martírio aparecera, sobre o altar da Titi, uma camisa de pecado – eu deveria ter gritado, com segurança: “Eis aí a relíquia! Quis fazer a surpresa… Não é a coroa de espinhos. E melhor! E a camisa de Santa Maria Madalena!… Deu-ma ela no deserto...”

POSSÍVEIS QUESTÕES PARA O VESTIBULAR

Ao analisar como a obra foi cobrada nos vestibulares, pude verificar que se faz necessária a leitura do livro, posto que a maior parte das questões são baseadas no enredo e na características das personagens.

Cumpre ainda salientar a importância de se ter em mente as principais características da escola literária, bem como da escrita do autor, pois nada impede que exista tal cobrança também.

IMPRESSÃO GERAL DO LIVRO

Fazia muito tempo que não lia algum livro do escritor e, assim como Machado de Assis, eu sou suspeita para falar sobre Eça de Queirós e seu senso crítico e irônico.

Do autor eu li somente o Primo Basílio e O Crime do Padre Amaro, logo, com A Relíquia, eu pude conhecer o humor de Eça, pois em vários momentos da narrativa eu me pegava dando risada com perspicácia maliciosa de Teodorico e a fé cega e conservadora de Titi.

É um livro curto e muito prazeroso de se ler, razão pela qual recomendo fortemente a leitura, independente de você ser vestibulando ou não.

Já leu este livro? Se positivo me conta o que achou?

Um beijo e até o próximo post!!

Sessão Pipoca – Agosto de 2020

Como eu gosto de uma boa história, independente de ser narrada através de livros, filmes ou série, eu resolvi compartilhar por aqui o que eu ando assistindo nos serviços de Streaming disponíveis na minha casa, obviamente!

Espero que gostem das minhas escolhas e comentários totalmente parciais sobre a minha experiência!

Sinopse: Marion Crane (Janet Leigh) é uma secretária que rouba 40 mil dólares da imobiliária onde trabalha para se casar e começar uma nova vida. Durante a fuga a carro, ela enfrenta uma forte tempestade, erra o caminho e chega em um velho hotel. O estabelecimento é administrado por um sujeito atencioso chamado Norman Bates (Anthony Perkins), que nutre um forte respeito e temor por sua mãe. Marion decide passar a noite no local, sem saber o perigo que a cerca.

Comecei o mês muito bem, obrigada! Um clássico do cinema, com uma história envolvente e personagens muito bem explorados, com destaque a Norman Bates, interpretado brilhantemente pelo ator Antony Perkins, bem como pela clássica cena do chuveiro interpretada pelo Janet Leigh (esta cena é o ponta pé inicial da trama central…só digo isso)!!

O filme está disponível na Netflix e super recomendo a sessão pipoca para este filmaço!!

NOTA: 5/5

Sinopse: Sophie é uma jovem de 18 anos que trabalha na chapelaria de seu pai. Em uma de suas raras idas à cidade ela conhece Hauru, um mágico bastante sedutor, mas de caráter duvidoso. Ao confundir a relação existente entre eles, uma feiticeira lança sobre Sophie uma maldição que faz com que ela tenha 90 anos. Desesperada, Sophie foge e termina por encontrar o Castelo Animado de Hauru. Escondendo sua identidade, ela consegue ser contratada para realizar serviços domésticos no local, se envolvendo com os demais moradores do castelo.

Ainda no início do mês assisti a esta animação japonesa confusa, em alguns momentos, mas encantadora num todo, tendo em vista que você acompanha a evolução interior e exterior, ou seja, você vê um mágico poderoso, mas que por dentro tem medo, uma velha, mas que é uma garotinha e um castelo seguro e acolhedor, enquanto há uma guerra lá fora.

O filme está disponível na Netflix e por mais que possa parecer um filme muito doido, eu recomendo a sessão pipoca!!

NOTA: 4/5

Sinopse: Em No Coração do Mar, o navio baleeiro Essex parte em busca de óleo de baleia no inverno de 1820. O navio é liderado pelo nada experiente capitão George Pollard (Benjamin Walker), que tem Owen Chase (Chris Hemsworth) como seu primeiro oficial. Owen sonha em ser capitão e tem o objetivo de superar a meta traçada por seu empregador. Eles navegam por meses em busca de baleias, mas quando encontram se deparam com uma grande ameaça, uma gigantesca baleia branca que irá lutar por sua sobrevivência e acabará atacando o navio e sua tripulação. A grande tragédia marítima da vida real inspiraria Moby Dick, de Herman Melville.

Para quem quiser saber mais sobre o romance Moby Dick, aqui no blog há uma resenha deste livro, considerado um clássico da literatura universal. Sobre o filme, eu gostei bastante da história narrada, mas confesso que foi um pouco cansativo em alguns momentos, pois a narrativa não era tão fluída, mesmo sendo uma aventura marítima.

Apesar de tudo, acredito que vale a pena uma sessão pipoca (o filme está disponível na Netflix) e indico bastante a leitura do livro Moby Dick, este sim é lindo e poético!!

NOTA: 3,5/5

Sinopse: Andy (Charlize Theron) e seus companheiros formam um grupo de soldados que possuem a inestimável virtude da vida eterna. Eles vivem através dos anos oferecendo seus serviços como mercenários para aqueles que podem pagar, se passando como seres humanos comuns dentre os demais. No entanto, tudo muda com a descoberta de que existe uma outra imortal que atua como fuzileira naval.

Com este filme, eu iniciei a minha segunda quinzena de Agosto e, para uma filme de ação e entretenimento, acredito que ele cumpre a sua função. Acredito em uma continuação e assistiria somente para me entreter, pois não é aquela narrativa que te faça refletir sobre a vida, mas funciona bem para desestressar!

O filme é uma produção da Netflix e vale a sessão pipoca em casa!

NOTA: 3/5

Sinopse: Bilbo Bolseiro (Martin Freeman) vive uma vida pacata no condado, como a maioria dos hobbits. Um dia, aparece em sua porta o mago Gandalf, o cinzento (Ian McKellen), que lhe promete uma aventura como nunca antes vista. Na companhia de vários anões, Bilbo e Gandalf iniciam sua jornada inesperada pela Terra Média. Eles têm por objetivo libertar o reino de Erebor, conquistado há tempos pelo dragão Smaug e que antes pertencia aos anões. No meio do caminho encontram elfos, trolls e, é claro, a criatura Gollum (Andy Serkis) e seu precioso anel.

Vi este filme pelo Globo Play e confesso que não gostei tanto do filme assim?!?! Acho que eu estava com muita expectativa do livro, inclusive, tem resenha no blog sobre O Hobbit, mas parece que faltou algo na história, o que não ocorre com a trilogia dos filmes do Senhor dos Anéis.

Vou dar uma chance para as continuações (ainda não entendi como conseguiram fazer três filmes para o livro…mas tudo bem) e ver se a minha opinião muda e se vale a sessão pipoca!

NOTA: 2,5/5

Sinopse: Laura Biel é uma diretora de vendas que tem sua vida virada do avesso quando, em uma viagem a Sicília, Massimo Torricelli, um membro da família da máfia siciliana, a sequestra lhe dando 365 dias para se apaixonar por ele.

Trata-se de um filme polonês, original da Netflix, que fez um burburinho quando estreou na plataforma. Confesso que não gostei nada do filme, pois é sem enredo, sem grandes atuações e totalmente sem sentido nenhum até para uma continuação.

Não vale uma sessão pipoca, mas caso queira dar uma oportunidade a ele vai na fé!!

NOTA: 0/5

Sinopse: Walter White (Bryan Cranston) é um professor de química na casa dos 50 anos que trabalha em uma escola secundária no Novo México. Para atender às necessidades de Skyler (Anna Gunn), sua esposa grávida, e Walt Junior (RJ Mitte), seu filho deficiente físico, ele tem que trabalhar duplamente. Sua vida fica ainda mais complicada quando descobre que está sofrendo de um câncer de pulmão incurável. Para aumentar rapidamente a quantidade de dinheiro que deixaria para sua família após sua morte, Walter usa seu conhecimento de química para fazer e vender metanfetamina, uma droga sintética. Ele conta com a ajuda do ex-aluno e pequeno traficante Jesse (Aaron Paul) e enfrenta vários desafios, incluindo o fato de seu concunhado ser um importante nome dentro da Agência Anti-Drogas da região.

Este mês, nós concluímos a série mais bem construída e produzida até o momento para mim!!

É uma série que mostrou não precisar de computação gráfica, cenários estupendos para contar uma história, e convenhamos, que história foi essa?!?!

Não quero contar muito da série além do que está descrito na sinopse acima, mas peço somente que, faça um favor a si mesmo e veja está série sensacional!!

NOTA: 5/5

Já assistiu algum destes filmes ou a série indicados??

Deixa aqui nos comentários o que você achou!!

PS: Também aceito sugestões de filmes e séries!!

Um beijo e até o próximo post!!

FUVEST: Resumo da obra Poemas escolhidos de Gregório de Matos

Mais um livro lido para o Projeto Fuvest e cobrado nos vestibulares de 2020, 2021 e 2022.

SOBRE O AUTOR

Gregório de Matos e Guerra, nasceu em 20 de dezembro de 1633 ou 1636, foi o terceiro filho de um fidalgo, estabelecido no recôncavo baiano.

Formou-se em direito em Coimbra. Em Lisboa foi juiz, mas retornou ao Brasil em 1681, a convite do arcebispo da Bahia, para exercer os cargos de vigário-geral e tesoureiro-mor.

Gregório foi desligado de suas funções por ordem do arcebispo Frei João da Madre de Deus por insubordinação e sua crítica ferrenha através de seus escritos, ocasião em que criou muitas inimizades em seu meio, fazendo-o receber a alcunha de Boca do Inferno.

Em 1694 foi deportado a Angola, podendo retornar ao Brasil sob as seguintes condições: desde que não à Bahia, mas a Pernambuco, e cessando a crítica satírica (o que não era muito fácil para ele, pois viveu, até a sua morte supostamente em 1696, sempre a ponto de ser punido).

CONTEXTO HISTÓRICO E CULTURAL

O Barroco no Brasil ocorreu em 1601 a 1768, período este conhecido como Contrarreforma e da criação da Companhia de Jesus. Foi através deste movimento que tentou-se impedir a reforma protestante (criada por Martinho Lutero) e a manutenção ou até mesmo a imposição da fé católica.

Tal escola literária, conta com uma literatura genuinamente brasileira, tendo em vista que o Quinhentismo era uma literatura de informação (crônicas de viagem) e de catequese produzida por estrangeiros.

Durante o período da produção da obra de Gregório de Matos, nós estávamos diante de um reino português em decadência, devido ao fracasso do comércio oriental, a insustentabilidade da economia portuguesa com o tráfico de escravos da África e nativos indígenas, e a intensificação das restrições comerciais do Brasil, sugando assim tudo o que podia da colônia, impedindo o seu próprio desenvolvimento.

O açúcar, principal fonte de produção brasileira na época, enfrentava uma forte concorrência com as colônias espanholas e inglesas na América Central.

A essas transformações socioeconômicas correspondiam mudanças no quadro político, caracterizando as formas de domínio e controle da metrópole sobre a colônia: as Câmaras, representativas do poder local, iam sendo debilitadas à medida que se fortalecia o poder dos governadores e demais funcionários reais representantes do poder metropolitano.

A poesia de Gregório de Matos satirizará estas tensões políticas e econômicas de sua época. Lembrando que nesta época, Salvador era a capital do Brasil e juntamente com Recife eram os maiores polos comerciais de cana de açúcar.

Gregório enraíza na cidade da Bahia a figuração tradicional do desconcerto do mundo, que lhe parece invertido.

Para entender os poemas de Gregório de Matos, temos que ter em mente suas influências (Luís de Camões e Francesco Petrarca), bem como as características desta escola literária, quais sejam:

CARACTERÍSTICADESCRIÇÃO
PersonificaçãoDar características humanas a seres que não são humanos, como é o caso da cidade da Bahia, por exemplo.
MetáforaJogo de comparação sem um elemento comparativo.
Antítese e paradoxoSão figuras de linguagem de oposição, através  de palavras e de ideias
AnadiploseUtilização da última palavra de um verso começando o verso seguinte. Como se fosse uma espiral.
Relação dicotômicaCorpo x alma, sagrado x profano, céu x inferno
Rebuscamento e hipérboleOrnamentação excessiva de linguagem
Renascentismo x Ética CristãAntropocentrismo x Teocentrismo
Cultismo/GongorismoJogo de palavras (sinônimos, antônimos, homônimos, trocadilhos, figuras de linguagem, hipérbatos)
Conceptismo/QuevedismoJogo de ideias (comparações e argumentação engenhosa)
Temática religiosaSentimento de culpa e arrependimento
Emprego de medidas poéticasVersos decassílabos (dedique um tempo do estudo para o aprendizado da contagem das sílabas poéticas).

SOBRE A EDIÇÃO

Esta edição, publicada pela Companhia das Letras em 2011, é voltada aos vestibulandos. Foi utilizada a comparação com as edições de Afrânio Peixoto e James Amado, recorrendo, quando fosse o caso, a algumas antologias que contêm lições ou notas de Sérgio Buarque de Holanda e de Segismundo Spina e da edição da Academia.

ESTILO NARRATIVO

Já se definiu a sátira como “a luta cômica de duas sociedades, uma normal e outra absurda”, ou seja, o poeta com sua escrita galante, parece tão absurdo diante da realidade da Bahia quanto a realidade da Bahia é absurda aos olhos do mesmo.

A lírica-amorosa de Gregório de Matos, por sua vez, traz como temática os choques entre ascetismo (filosofia religiosa) e sensualismo, espírito e matéria, fazendo os contrários passarem por uma série de transformações e aproximações que os faz inseparáveis.

Nesse trabalho de confronto e fusão dos opostos, Gregório mostra-se hábil na espécie de ocultar a realidade dos contrários. Segundo Gérard Genette (crítico literário francês), a poesia barroca tende a transformar toda diferença em oposição, toda oposição em simetria, e a simetria em identidade. Nos limites desse trajeto, o diferente torna-se idêntico, o outro torna-se o mesmo.

Na poesia religiosa, por sua vez, a dualidade matéria x espírito projeta-se na dualidade culpa x perdão. Três espaços se encontram aqui: o da religião (o confessionário), o da lei (o julgamento) e o da poesia (o soneto). A poesia aparece como a única coisa salva o poeta, perante si mesmo, perante os outros e perante Deus.

POESIA DE CIRCUNSTÂNCIA

SATÍRICA E ENCOMIÁSTICA

A maioria dos poemas escritos eram críticas irônicas a cidade da Bahia, no qual se verifica que uma de suas mazelas é a falta de verdade de honra e de vergonha devido aos negócios praticados na época, derivado da ambição e usura de seus governantes e funcionários.

Entende-se os negócios da época o comércio escravo e o açúcar.

Entende-se por funcionários do governo: meirinhos, guardas e sargentos.

Entende-se por governantes: a Justiça (bastarda, vendida e injusta), o Clero (simonia, inveja e roubalheira), Câmara (não pode acudir, não quer o poder e não vence o Governo).

Além da crítica ao Governo, há um contraste da cidade da Bahia, no qual Gregório traça um paralelo do recôncavo que um dia ele conheceu como a terra abundante e de açúcar excelente a terra que hoje comercializa o seu melhor produto no estrangeiro, por produtos inúteis a sua população.

Ademais, o próprio autor critica a condescendência do povo baiano com a corrupção praticada e o desprezo aos mesmos com a exaltação do povo estrangeiro.

A sátira de Gregório, em alguns casos, tinha um destinatário certo e sabido, como é o caso do poema intitulado “Ao Padre Lourenço Ribeiro, homem pardo que foi vigário da Freguesia do Passé”. Neste escrito, nós encontramos uma resposta ao Padre Lourenço, que desdenhou através de trovas a pessoa do autor.

POESIA AMOROSA

LÍRICA

É uma poesia amorosa literalmente. São sonetos que abordarão temas como amores não vividos, amores desprezados e até platônicos. Nestes poemas, encontramos o contraste de ideias e palavras, mas não de forma irônica, como visto na poesia satírica e erótica.

ERÓTICO-IRÔNICA

São poemas de conteúdo sensual e com a utilização de expressões de baixo calão, no qual vemos o emprego do erotismo através de um jogo de palavras e de muita ironia. Como exemplo, eu cito o poema A uma freira, que satirizando a delgada fisionomia do poeta lhe chamou “Pica-Flor”, página 275.

POESIA RELIGIOSA OU SACRA

É a poesia, na qual vemos a existência da fé, da culpa e do arrependimento.  Foi nesta espécie que eu li um dos sonetos mais bonitos de livro, denominado “A Jesus Cristo Nosso Senhor”, página 313.

POSSÍVEIS QUESTÕES PARA O VESTIBULAR

Ao analisar as questões de diversos vestibulares, eu pude verificar que a cobrança se fundava nas características da escola literária através da análise do poema fornecido pela Banca.

Cumpre também destacar a cobrança da forma estrutural ou até técnica do poema, sendo esta o soneto. Lembrando que este é dividido em catorze linhas, sendo estas divididas em quatro estrofes compostas de dois quartetos e dois tercetos.

Nas duas primeiras estrofes é apresentado ao leitor uma tese, já no primeiro terceto será apresentado o desenvolvimento e no segundo terceto a resolução da tese/problema.

Ademais, este soneto apresenta características peculiares como é o caso de versos decassílabos, ou seja, cada linha tem dez sílabas poéticas (a sílaba poética não conta a última sílaba do verso).

Salienta-se também outra característica do poema que são as rimas interpoladas nos quartetos (A/B/B/A), as rimas intercaladas nos tercetos (C/D/E/C/D/E), bem como a contagem das sílabas poéticas (versos decassílabos).

Por fim, caso você não queira ler ou não tenha tempo para ler esta obra, fica a dica de estudo das características do barroco, bem como seu contexto histórico e cultural.

IMPRESSÃO GERAL DO LIVRO

Até o momento, este foi o maior desafio literário que eu tive este ano, pois:

  1. Faz tempo que eu concluí o ensino médio (ano de 2005);
  2. Não lembrava mais nada do período do Barroco Brasileiro, somente do Aleijadinho (bem pouco, por sinal);
  3. Não estou acostumada a ler poesia.

E como foi a leitura deste livro então?

Não foi nada fácil, a linguagem rebuscada, as palavras que não são mais utilizadas e até não tinham mais sinônimos, contribuíram para a leitura ser lenta e maçante em alguns momentos, tendo em vista que em alguns poemas eu tinha que fazer a releitura por não ter entendido nada.

As poesias que eu mais gostei foram as satíricas, pois eu adoro uma ironia e um humor negro. No que tange ao sarcasmo, alguns escritos tinham o nome da pessoa interessada, razão pela qual o autor fazia jus ao seu apelido de Boca do Inferno e também fez com que ele fosse expulso da Bahia e para lá não pudesse mais voltar.

Também gostei bastante da poesia religiosa, porque era cristalino o arrependimento do poeta em seu escrito (eu-lírico).

Por fim, recomendo a leitura deste, desde que você já tenha em mente as características do barroco e caso você queira sair da sua zona de conforto lendo um clássico da literatura nacional em forma de poesia.

Já leio este livro? Está se preparando para o vestibular?

Compartilha aqui comigo sua experiência de leitura!!

Um beijo e até o próximo post!!

O que estamos fazendo em defesa dos livros, da retomada das livrarias e do alcance da leitura?

O post de hoje abordará sobre o Projeto de Reforma Tributária idealizada pelo Ministério da Economia referente a tributação dos livros, bem como a movimentação nas redes sociais em defesa dos mesmos e retomada das livrarias diante do nosso “novo normal”.

Para quem não sabe, o Ministério da Economia, através da reforma tributária, pretende retornar com a tributação dos livros, devido a uma brecha na lei que admitiria tal retomada na cobrança. Vejamos:

O Código Tributário Nacional em seu artigo 9º, inciso IV, alínea “d”, prevê a imunidade tributária do papel destinado exclusivamente à impressão de jornais, periódicos e livros.

Já a Constituição Federal de 1988, em seu artigo 150, inciso VI, alínea “d”, limita o poder da União, Estados, Distrito Federal e Municípios, de instituir impostos sobre os livros, jornais, periódicos e papel destinado à sua impressão.

Com o advento da Lei nº 10.865/2004, o mercado editorial foi desonerado da tributação do PIS e Cofins sobre o produto produzido.

Nota-se, portanto, que as normas acima citadas pretendem garantir a liberdade de comunicação e de pensamento, bem como a proteção e preservação dos veículos informativos, a fim de disseminar a cultura e a própria educação do povo brasileiro.

Todavia, com o projeto de reforma tributária, os tributos PIS e Cofins, seriam substituídos pela Contribuição Social sobre Operações com Bens e Serviços (CBS), que tornaria os livros sujeitos à tributação, sob alíquota de 12%.

Ademais, a contribuição (CBS), incidiria também sobre os livros eletrônicos e dispositivos de leitura digital, posto que, após uma decisão do Supremo Tribunal Federal em 2017 (Súmula Vinculante 132), esses produtos tiveram isenção equiparada à de livros impressos, conforme o entendimento da Corte “o livro é o conteúdo, não o formato”.

Diante deste cenário, a Associação Brasileira de Editores de Livros Escolares (Abrelivros), a Câmara Brasileira do Livro (CBL), o Sindicato Nacional dos Editores de Livros (Snel) e outras entidades do representativas do livro no Brasil, assinaram um Manifesto do Livro, no qual consideram como urgentes e necessárias as seguintes ponderações (texto na íntegra):

1. A Constituição Democrática de 1946 consagrou no país o regime de isenção de impostos para o papel utilizado na impressão de livros, jornais e revistas. Inspirada na luta de intelectuais, editores e escritores, a emenda constitucional foi apresentada pelo autor brasileiro de maior prestígio internacional à época, Jorge Amado.

Por um lado, a isenção visava tornar o papel acessível às mais diferentes vozes no debate das questões nacionais, garantindo o suporte material para a livre manifestação de opiniões; por outro, barateava o produto final, permitindo que o livro e a imprensa pudessem chegar às camadas mais amplas da população, em um país onde o analfabetismo era, infelizmente, a regra e não a exceção.

A mudança constitucional possibilitou a criação e o desenvolvimento das bibliotecas públicas no país, beneficiando as pessoas de menor poder aquisitivo e permitindo que o mercado editorial passasse a ter condições de publicar obras de alto valor intelectual e pedagógico, muitas delas sem apelo comercial, a custos compatíveis com o poder aquisitivo do leitor médio. Não há dúvidas de que a popularização do livro teve, e ainda tem, papel fundamental no aumento da educação do brasileiro. 

2. De tal forma se enraizou no espírito da sociedade brasileira o apego à importância da leitura como fonte de educação e crescimento intelectual, de formação de cidadãs e cidadãos, de difusão da cultura e da informação qualificada, que a reforma de 1967 não só preservou o “espírito imunitário” da Constituição, como o ampliou, estendendo a isenção ao próprio objeto: o livro.

A Constituição Cidadã de 1988 não poderia fazer diferente e consolidou a reiterada jurisprudência que isenta o livro, ferramenta básica de conhecimento, educação e cidadania, de impostos. A atual Carta Magna diz, em seu artigo 150, que é vedada à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios criarem impostos de qualquer natureza sobre o livro e a imprensa escrita. 

3. No entanto, dada a complexidade da legislação tributária brasileira, foram criadas ao longo dos anos contribuições sociais, como PIS e COFINS, incidindo sobre a receita das empresas. Uma vez que os livros não são imunes das contribuições, a Lei nº 10.865 de 30 de abril de 2004 reduziu a zero a alíquota do PIS e da COFINS nas vendas de livros, em reconhecimento da importância deste bem para a sociedade.

Isso permitiu uma redução imediata do preço dos livros nos anos seguintes: entre 2006 e 2011, o valor médio diminuiu 33%, com um crescimento de 90 milhões de exemplares vendidos. Os fatos demonstram claramente a correlação entre crescimento econômico, melhoria da escolaridade e aumento da acessibilidade do livro no país.

A imunidade tributária está presente em vários países do mundo. Um relatório da International Publishers Association (IPA) de 2018 argumenta que o livro não é uma commodity como qualquer outra: é um ativo estratégico para a economia criativa, que facilita a mobilidade social assim como o crescimento pessoal e traz a médio prazo benefícios sociais, culturais e econômicos para a sociedade. Qualquer aumento no custo, por menor que seja, afeta o consumo e, em consequência, os investimentos em novos títulos. A imunidade é uma forma de encorajar a leitura e promover os benefícios de uma educação de longo prazo.

Recentemente, em abril do corrente ano, o Supremo Tribunal Federal (STF), em decisão unânime, reconheceu por meio da Proposta de Súmula Vinculante 132, que o direito à isenção tributária do livro se estendia também aos leitores eletrônicos. Enfim, está na tradição da formulação das leis brasileiras e na história das decisões jurídicas, bem fundamentadas e analisadas em vários períodos diferentes da nossa história, que o livro é disseminador de conhecimento em lato senso, e que deve contribuir para o combate à desigualdade de formação da população brasileira. 

4. O escritor e editor Monteiro Lobato cunhou a famosa frase “um país se faz com homens e livros”; anos depois, o editor José Olympio acrescentou: “…e ideias”. Ai do país que se torna um deserto de homens, livros e ideias. Queimado em praça pública sempre que a intolerância triunfa, o livro resistiu aos séculos e atravessou as crises tendo a sua significação para a humanidade renovada e fortalecida.

Aliás, existe alguma prova mais eloquente da importância do livro para as vidas humanas do que as estantes cheias de obras, tal como vemos na televisão e nas telas dos computadores e celulares, nesse momento de isolamento social? Os livros estão ali, às costas das pessoas como as asas de um anjo, significando proteção, sabedoria, compartilhamento de ideias e imaginário, reafirmando nossa fé na humanidade. O amor ao livro renasceu na pandemia.

É fácil calcular o quanto o governo poderá arrecadar com a nova CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços), proposta em regime de urgência ao Congresso. Muito mais difícil é avaliar o que uma Nação perde ao taxar o bem comum da formação intelectual de suas cidadãs e cidadãos. Em perspectiva histórica, o dinheiro arrecadado à cultura, aos livros e à formação científica significa, de fato, um desinvestimento no crescimento futuro do país – que não se dará sem o crescimento intelectual amplo e igualitário de sua população. 

5. As instituições ligadas ao livro estão plenamente conscientes da necessidade da reforma e simplificação tributárias no Brasil. Mas não será com a elevação do preço dos livros – inevitável diante da tributação inexistente até hoje – que se resolverá a questão. Menos livros em circulação significa mais elitismo no conhecimento e mais desigualdade de oportunidades no país das desigualdades conhecidas, mas pouco combatidas.

O Brasil foi o último país a acabar com a escravidão e um dos últimos a permitir a impressão e a circulação de livros e da imprensa, duas marcas negativas na nossa História que até hoje não conseguimos superar. Poucos se dão conta que o mercado nacional de livros tem menos de 200 anos. Enquanto em Paris, no Século das Luzes, lia-se Diderot e Voltaire, enquanto na Alemanha se lia Goethe, na Espanha o Dom Quixote tornava-se leitura popular, em Londres, ilustrava-se com os trabalhos de David Hume, nos Estados Unidos podia-se formar o conceito de uma grande Nação nos escritos de homens públicos da estatura de Thomas Jefferson e Benjamin Franklin, no Brasil, Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, um autodidata, articulava sua conjuração carregando um exemplar surrado e contrabandeado do “Compêndio das leis constitutivas das colônias inglesas confederadas sob a denominação de Estados Unidos da América” – em francês.

Ainda não se descobriu nada mais barato, ágil e eficiente do que a palavra impressa – em papel ou telas digitais – para se divulgar as ideias, para se contar a história da humanidade, para multiplicar as vozes da diversidade, para denunciar as injustiças, para se prever as mudanças futuras e para ser o complemento ideal da liberdade de expressão.

Com base neste Manifesto em face do projeto de reforma tributária, a campanha em defesa do livro, através da hashtag #defendaolivro está mobilizando editoras, escritores e leitores nas redes sociais.

Tal incentivo e comoção vem na tentativa de evitar um novo obstáculo ao mercado editorial, que vem enfrentando uma das piores crises de sua história (encolheu 20% entre 2006 e  2019, de acordo com a pesquisa realizada pela Câmara Brasileira do Livro e pelo Sindicato Nacional dos Editores de Livros), agravada pelos processos de recuperação judicial da Cultura e da Saraiva, bem como pelos efeitos das portas fechadas como medida para evitar a disseminação do Covid-19.

Insta salientar que, além da movimentação nas redes sociais, foi lançada a campanha de financiamento coletivo para o Projeto Retomada das Livrarias, idealizado pelo livreiro e editor Alexandre Martins Fontes e pela Câmara Brasileira do Livro.

A campanha tinha como meta, de até o dia 31 de julho de 2020, levantar o valor de R$ 500 mil, a fim de serem distribuídos entre pequenas e médias livrarias espalhadas pelo Brasil, com metade de suas atividades dependentes da venda de livros e adimplentes até o dia 15 de março, quando as lojas precisaram fechar as portas para conter a disseminação do Covid-19.  

Candidataram-se ao projeto, 213 livrarias, sendo a seleção destes comércios foi realizada por uma comissão formada pelas editoras Companhia das Letras, Melhoramentos, Record e WMF Martins Fontes, bem como pelas distribuidoras Catavento, Disal, Inovação, Loyola e pela rede Livraria Leitura. Abaixo, as livrarias selecionadas por pelo projeto:

  1. Arte & Ciência (Fortaleza)
  2. Banca Tatuí (SP)
  3. Benfica (Fortaleza)
  4. Blooks Livraria (Rio de Janeiro)
  5. Book Stop (SP)
  6. Boutique do Livro (Divinópolis)
  7. Café na Cama (SP)
  8. Casa Cultural (Campinas)
  9. Casa de Livros (SP)
  10. Castro Alves (Araruama)
  11. Chain (Curitiba)
  12. Cirkula (Porto Alegre)
  13. Clube Cultural (Teresópolis)
  14. Companhia Ilimitada (SP)
  15. Cooperativa Cultural (Natal)
  16. Copa Books (Rio de Janeiro)
  17. Favorita (Três Rios)
  18. Flamingo (Juiz de Fora)
  19. Fortlivros (Fortaleza)
  20. Intelecto (Pouso Alegre)
  21. Isasul (Porto Alegre)
  22. Janela Livraria (Rio de Janeiro)
  23. Larpsi (Salvador)
  24. Leonardo Da Vinci (Rio de Janeiro)
  25. Litterarius Livraria Café (Assis)
  26. Livraria da Ladeira (Guaratinguetá)
  27. Livraria da Tarde (SP)
  28. Livraria das Faculdades Chapecó (Chapecó)
  29. Livraria Delta (Passo Fundo)
  30. Livraria do Espaço (SP)
  31. Livraria Francesa (SP)
  32. Livraria Nobel (Araxá)
  33. Livraria Nobel (Brooklin/SP)
  34. Livraria Nobel (Campina Grande)
  35. Livraria Nobel (Shopping Largo 13/SP)
  36. Livraria Pontes (Campinas)
  37. Livroteca Story Time (Brasília)
  38. Livruz (Poços de Caldas)
  39. Malasartes (Rio de Janeiro)
  40. Mandarina (São Paulo)
  41. Panapaná Livraria Infantil (SP)
  42. Politécnica Guanabara (João Pessoa)
  43. Prazer de Ler (Paço do Lumiar)
  44. Prince Books (SP)
  45. Sertão Livraria e Café (Jacobina)
  46. Simples Livraria (SP)
  47. Simusinos (Novo Hamburgo)
  48. Solar do Leitor (Belém)
  49. Timbre Livraria (Rio de Janeiro)
  50. Toque de Letras (Itatiba)
  51. Ugra (SP)
  52. Via Sapiens (Porto Alegre)
  53. Vírgula (SP)

Por fim, esta que vos escreve, é favor do movimento em defesa do livro, pois o retorno a tributação representa um retrocesso não só legislativo como também social.

É necessário reavaliar o projeto da reforma tributária, no que tange a este tópico, pormenorizadamente, com intuito de diminuir a carência na difusão de cultura e conhecimento por meio do livro.

Frisa-se também que, o próprio governo é responsável pela aquisição de 49% da produção de livros didáticos, logo, a majoração no valor das obras adquiridas pelo poder público geraria um gasto maior dos recursos provenientes do contribuinte ou poderia significar uma aquisição menor de livros, dificultando o acesso à educação para a parcela mais carente da população.

Espero e quero acreditar que nossos legisladores e a nossa sociedade sejam favoráveis ao livro e entendam que ele é um instrumento, assim como a educação, capazes de mudar o mundo.

Um beijo e até o próximo post!

Livros encalhados na estante #2: resenha de O Hobbit

Um dos livros mais lindos da minha estante com uma marcador maravilhoso para combinar!!

Continuando a minha saga na leitura dos livros encalhados na estante, através do método book jar, no qual o livro sorteado do mês de Julho foi O Hobbit de J.R.R. Tolkien.

Antes de prosseguir o meu relato, me segue lá no Instagram também: @magia.das.palavras!!!!

Primeiro livro que leio do autor e já me tornei fã. É um livro infanto-juvenil, tendo em vista que o autor o escreveu para seus filhos, que conta com uma história envolvente, com uma narrativa onisciente (o narrador sabe o que acontecerá antes das personagens), repleta de músicas, criaturas, aventuras e até trevas como pano de fundo para O Senhor dos Anéis.

Ademais, quero salientar a minha admiração pelo trabalho desenvolvido na edição publicada pela Harper Collins, pois o livro é lindo, bem traduzido e revisado. Na verdade, esta edição é um verdadeiro manifesto de amor a obra do Tolkien (fotos: capa, contracapa, folha de guarda, lembrando que todos os desenhos foram feitos pelo autor e um marcador lindo que eu comprei no Instagram da @mrsofbooks)

E o que falar sobre este autor??

Tolkien era um gênio, uma pessoa bem além de seu tempo e que foi capaz de criar através de uma simples frase, em uma toca no chão havia um hobbit, um universo mágico e através dele ressaltar a importância da amizade, da dignidade e da resiliência, bem como nos mostrar que até em um mundo fantástico, nós encontramos cobiça, ganância e maldade.

E sobre o que é a história, Ale? Iremos acompanhar as aventuras do hobbit Bilbo Bolseiro até a Montanha Solitária, habitada pelo dragão Smaug e seu tesouro.

Lógico, que Bilbo não estará sozinho nesta aventura. Ele terá como companhia, anões e um mago chamado Gandalf, que desaparece em alguns momentos da jornada, mas reaparece nos mais difíceis, a fim de ajudar os seus amigos.

E como o Bilbo foi parar nesta aventura? Eu achei esta parte fantástica, pois Bilbo é um hobbit que adora o conforto de sua toca, seu caximbo, desjejuns bem saborosos, e claro, a previsibilidade (característica muito forte da parte paterna de sua família).

Até que um dia, recebe a visita do mago Gandalf, com o seu espetacular “bom dia”, no qual chamará Bilbo para uma aventura. Nosso querido hobbit resiste ao convite, todavia sua negativa tornou-se frustrada ao aparecer em sua porta vários anões que ocuparão a sua toca tão acolhedora e sua despensa tão farta.

Por ser subestimado pelos anões, e acredito que até por si mesmo, Bilbo embarcará nesta aventura, a fim de mostrar que é capaz de ser o gatuno que eles tanto precisam nesta jornada.

A jornada até o destino final é longa e cheia de percalços, com gobelins, wargs, elfos da floresta, águias e até uma criatura bem peculiar denominada Gollum e seu anel tão precioso.

Com o decorrer da aventura, Bilbo vai se mostrando audaz e perspicaz ao lidar com os obstáculos e vemos o seu lado aventureiro florescer (característica da parte materna da família).

Ao eliminar o suposto conflito principal, nós vemos que há um conflito muito maior que as personagens terão que enfrentar, sendo esta a cobiça pelo tesouro resgatado.

Este trecho do livro é muito interessante, pois o autor, quis mostrar que apesar do fascínio pelo ouro, nós temos no mesmo indivíduo a característica da honra e da dignidade, retratando assim, a verdadeira dualidade do homem e a nossa suscetibilidade a falhas.

Por fim, recomendo muito a leitura deste livro e estou super ansiosa para a leitura da trilogia do Senhor dos Anéis.

Já leu O Hobbit???

Conta para mim a sua experiência de leitura aqui nos comentários!!!!

Um beijo e até o próximo post!!!

FUVEST: Resumo da obra Angústia

Capa do livro publicado pela Editora Record em 2019

Terceiro livro analisado para o projeto de Literatura da FUVEST, Angústia é uma obra da escola literária do Modernismo, escola esta bem cobrada e explorada pela banca, assim como o realismo.

SOBRE O AUTOR

Graciliano Ramos de Oliveira nasceu em 27 de outubro de 1892 no Estado de Alagoas. Seus pais eram comerciantes e devido a situação financeira da família, pode ser dedicar aos estudos, principalmente pela língua portuguesa.

Devido ao seu interesse pela leitura e escrita,  o autor chegou a publicar seu primeiro conto aos onze anos de idade. Durante a sua adolescência,  produziu textos para periódicos brasileiros, fez parte do Exército, ajudou seus pais na loja da família e deu aulas de português.

Graciliano Ramos se envolveu com política e acabou se tornando o prefeito da cidade de Palmeira dos Índios, em 1927. Todavia, renunciou ao cargo dois anos após sua posse, tendo em vista que achava a política muito conturbada e burocrática.

Contudo, o escritor não deixou totalmente a política de lado, pois até a sua morte em 1953, ele atuou em diversos outros cargos públicos, principalmente ligados à educação.

Depois de passar onze meses encarcerado, Graciliano Ramos foi liberado em 1937.

Por fim, Graciliano Ramos morreu em Março de 1953, tendo sido casado duas vezes e pai de oito filhos.

SOBRE A OBRA

A obra foi publicada em 1936, durante o segundo tempo do modernismo (1930 – 1945). Para entendermos o contexto histórico e cultural, bem como o enredo da obra, nós precisamos saber que tal período, possui as seguintes características:

 – Prosa ficcional regionalista: é o uso da literatura como instrumento de denúncia social com grande engajamento político.

 – Traços do neorrealismo e neonaturalismo: é a capacidade descritiva de fato da realidade brasileira sem idealizações, sem romantização. 

A obra é um romance psicológico que trabalha com o fluxo de consciência através de uma narrativa não linear, causando dificuldade na compreensão da leitura.

O tempo da narrativa é dividido em:

Infância: composta por memórias da sua moradia e da sua família. Ressalto aqui, a cena em que seu pai acaba de falecer e Luís da Silva não chora pela morte dele, mas por não saber o que fazer da sua vida daqui para frente.

Vida adulta: composta por conflitos centrais ligados a obsessão, compulsão e econômica do nosso protagonista.

Tempo da narração em processo: na qual o protagonista decide escrever a história fazendo digressões ao passado.

Trata-se de um romance circular, isto é, para entender o final da história, se faz necessário voltar ao início da narrativa, a fim de entender o que de fato aconteceu.

CONTEXTO HISTÓRICO E CULTURAL

Na época em que Graciliano Ramos começou a escrever, o país sofria mudanças, nos campos artístico, político e econômico. O movimento literário conhecido como Modernismo se consolidava, reforçando a formação de uma identidade artística nacional.

O Modernismo foi fundado por grandes nomes da arte brasileira, como Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral, durante a Semana de Arte Moderna de 1922, realizada no Theatro Municipal de São Paulo (Marco Inicial do Modernismo).

Inicialmente, o movimento focou na ruptura da arte do Brasil com as influências do exterior, através da criação de uma identidade brasileira de forma quase patriótica e revolucionária. O primeiro tempo do Modernismo é de 1922 até 1930.

Quando Graciliano Ramos começou a publicar suas obras, os ideais do movimento do segundo tempo do modernismo, qual seja, de 1930 a 1945 destacam temas, como o regionalismo, a mistura de diversos tipos de arte e a construção de algo totalmente nacional. 

Neste período também, ocorreu a Revolução de 1930, na qual colocou o país sob o comando de Getúlio Vargas, responsável pelas reformas trabalhistas e econômicas para modernização do país. 

Contudo, em  novembro de 1937, através de um golpe de Estado, foi instituído o Estado Novo. Tal período é caracterizado pela centralização do poder através da figura de Getúlio Vargas, pelo anticomunismo e autoritarismo. A Terceira República Brasileira permaneceu até Janeiro de 1946. 

Diante deste novo contexto político e social, as obras e as amizades de Graciliano Ramos não eram bem vistas, tendo em vista que o partidarismo velado (comunismo) do autor é perceptível apenas para quem realmente presta atenção em seus escritos.

ESTILO NARRATIVO

A narrativa é em primeira pessoa, no qual será mostrado ao leitor a vida cheia de angústia que o nosso protagonista Luís da Silva vive. A angústia pode ser verificada no trecho abaixo citado:

Vivo agitado, cheio de tremores, uma tremura nas mãos que emagreceram. As mãos já não são minhas: são mãos de velho, fracas e inúteis. As escoriações das palmas cicatrizaram. 

Como podemos perceber, a obra Angústia, é uma narrativa lenta, pesada e fragmentada. Essa angústia também é gerada no leitor que acompanha a saga do protagonista.

Ademais, ao analisarmos esta obra, nós percebemos uma forte ligação com o realismo machadiano, razão pela qual nós temos traços do neorrealismo nas obras de Graciliano Ramos. Um exemplo desta semelhança é a obra Dom Casmurro, através do narrador angustiado em primeira pessoa fazendo seus relatos assim como Luís da Silva.

ENREDO

A vida de Luís da Silva não foi nada fácil. Apesar de vir de uma família de posses, ele perde a mãe muito cedo e foi criado pelo pai e por seus avós. Com o falecimento de destes, as dívidas e problemas da família recaem em Luís da Silva, um menino de catorze anos, que vê os credores da família levando tudo e se deparando em uma situação em que terá que buscar algum meio para sobreviver.

Logo, Luís da Silva será professor em uma escola próxima a sua região, mas chega um momento em que não dá mais para ficar naquele lugar, ocasião em que resolve sair do interior e morar em Maceió. Ao chegar na Capital, Luís da Silva acaba conseguindo um emprego no jornal ligado ao governo. 

Insta salientar, aos vestibulandos, que o nosso protagonista trabalhava como revisor de um jornal ligado a um órgão governamental. Logo, uma de suas funções era manipular partes dos textos escritos por jornalistas do local onde trabalhava, evitando fatos prejudiciais ao governo, lembrando que estamos em plena a Era Vargas.

Voltando ao enredo, Luis da Silva levava muito regrada em sua rotina, logo, o mesmo chegava do trabalho, conversava com a sua empregada Vitória, ia para o quintar ler um livro em sua rede.

Até que ele começa ver uma movimentação na casa ao lado, devido a mudança de uma nova família. E, nesta oportunidade, Luis da Silva conhece Marina.

Inicialmente, o diálogo entre os dois não era tão profundo, pois Marina era muito fútil e superficial. Todavia, ele acaba obcecado compulsivamente por ela.

A casa em que Luís vivia era conjugada, isto é, a parede da casa fazia divisão com a casa dele e a casa de Marina, logo, ele escutava o que acontecia lá, na verdade, nessa moradia todos eram muito próximos, como se o lugar fosse um microcosmo do mundo exterior. Nota-se que aqui, verificamos a característica do neonaturalismo, se assemelhando muito com a obra O Cortiço, de Aluísio de Azevedo 

Como Luís está empenhado em ter algo mais com Marina, ela a propõe em casamento. Diante deste novo contexto, Luis dá o dinheiro de suas economias para Marina. a fim de que a mesma providencie o enxoval, a alertando para comprar o que era realmente necessário. 

Contudo, Marina não o obedece e acaba gastando todo o dinheiro com coisas supérfluas, como camisas e meias de seda. Apesar da desobediência de Marina, Luís continua empenhado em se casar e aceita os gastos por ela cometidos.

A questão é que logo depois vem a grande decepção, pois Luís descobre que Marina está tendo um caso com Julião Tavares, colega de trabalho,e termina o noivado com ela.

Após um tempo, Luís descobre que Marina está grávida de Julião e que este a abandonou, pois, o mesmo já estava preparando o golpe para deflorar outra moça.

Revoltado e obcecado, nós temos em Luís da Silva a figura da justiça e da vingança. Logo, Luis pega uma corda e de tocaia acaba enforcando Julião e simulando o seu enforcamento, o amarrando em uma árvore.

Este é o momento de loucura de Luís da Silva, no qual ele tenta defender a honra da mulher em que um dia ele pensou em se casar. Segue-se então 30 dias de delírio e sofrimento, portanto a necessidade de se fazer o seu relato (esta cena é do início do livro…lembre-se é um romance circular).

POSSÍVEIS QUESTÕES PARA O VESTIBULAR

Ao pesquisar sobre como a obra poderia ser cobrada no vestibular, percebi que foram poucas as questões que cobraram o enredo da obra em si, tendo em vista, que a cobrança possui um foco multidisciplinar, ou seja, mesclando história, especialmente sobre a Era Vargas com a segunda fase do Modernismo.

Ademais, o foco das questões era com base na característica da transcendência, já que o Nordeste, serviu de pano de fundo para a maioria das criações do segundo tempo do Modernismo.

Os textos produzidos neste período denunciavam os traços de uma região em decomposição, acometida pela miséria, seca, descaso dos políticos, bem como pelo abandono dos que lá viviam, o que fez com que os retirantes se deslocassem para o eixo Sul-Sudeste do país.

IMPRESSÃO GERAL DO LIVRO

Confesso que a minha versão adolescente não teria gostado deste livro, pois como dito anteriormente, a narrativa é lenta, confusa, o que dificulta a compreensão da obra e contribui para afastar qualquer jovem da literatura nacional.

Mas hoje, eu posso afirmar que achei a obra muito bem escrita, com um protagonista denso e capaz de nos transmitir a angústia que ele sentia, não só com o crime cometido, mas principalmente, com a sua forma de viver. 

Aqui faço um adendo a minha experiência de leitura com uma obra muito parecida e do período do realismo, qual seja, Crime e Castigo de Dostoiévski, no qual o protagonista nos transmitia os seus sentimentos de forma tão verdadeira que conseguimos nos sentir cúmplices de seu crime e de suas mazelas.

Ao concluir a leitura e compará-la com a obra russa acima citada, ouso dizer que em alguns momentos eu achei a obra de Graciliano Ramos mais intensa na narrativa do que aquela, especialmente ao relatar a loucura e a obsessão de Luís da Silva com Marina e Julião Tavares.

Ademais, por ser uma narrativa em primeira pessoa, tinha momentos, principalmente, no auge dos sentimentos de Luís da Silva que era difícil estar na cabeça dele e saber os seus pensamentos mais sombrios e conturbados.

Por fim, apesar da densidade dos temas abordados e da forma não linear da narrativa, eu aconselho muito a leitura desta obra, independente de você ser ou não vestibulando. 

Já leu este livro? Se sim, compartilha comigo nos comentários o que você achou!!

Um beijo e até o próximo post!!

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